O Preço da Arrogância

O Preço da Arrogância

Leonor, consegues emprestar-me algumas coisas? pediu Mariana, num tom quase suplicante, mal cruzou a soleira do confortável apartamento da irmã.

O olhar dela deteve-se, sem querer, no corredor amplo decorado com móveis de design, nos espelhos com molduras elegantes, no pequeno banco arrumado junto à entrada tudo parecia retirado das páginas de uma revista de decoração. Sentiu aquele aperto já habitual de inveja a sua irmã tinha sempre tudo no sítio, tudo perfeito.

Leonor, que surgiu à porta da sala, lançou-lhe um olhar atento. O conjunto de loungewear em caxemira que usava, mesmo numa simples segunda-feira, transpirava aquele estilo casual e sofisticado que Mariana tentava imitar há anos sem sucesso.

Então? Que mistério é esse? perguntou Leonor, encostando-se ao portal da porta.

Mariana ajeitou a manga do casaco já não novo, mas ainda apresentável. Esforçava-se por não olhar para o quadro grande na parede, nem para a ordem impecável ou para o aroma intenso a café recém-feito que inundava o apartamento.

Não é assim tão importante murmurou ela, tentando juntar pensamento e coragem.

O silêncio e o olhar firme da irmã fizeram-na perceber que não conseguiria sair daquela sem falar. Respirou fundo, baixou os olhos e desatou:

No sábado é o encontro de antigos alunos. Tenho MESMO de ir! E tenho de estar irrepreensível percebes? Quero que todos achem que a minha vida é um conto de fadas!

E para quê, Mariana? perguntou Leonor, virando-se para dentro. Achas mesmo que vale a pena esforçar-te por pessoas com quem já nem falas? Já nem vives na mesma cidade, nem sequer no mesmo distrito!

Mariana passou a mão pelo cabelo, sentindo um desejo intenso de que aquela cozinha de bancada branca, com eletrodomésticos embutidos e candeeiros pendentes minimalistas, fosse dela. Como gostaria de começar os dias, não em correria e stress, mas num pequeno-almoço tranquilo, naquele ambiente bonito.

Não compreendes! escapou-lhe. Para mim é importante. Quero que vejam que consegui. Que ninguém pense que que falhei.

Caiu num silêncio desconfortável, notando a inveja crescer no olhar que pousava sobre a irmã. Leonor parecia não dar por isso ou talvez não ligasse.

Vais mesmo querer fingir ser alguém que não és? perguntou Leonor, sentando-se com calma à mesa. Achas que isso impressiona alguém?

Não é bem isso abanou a cabeça Mariana. Quero só que pensem que realizei todos os meus sonhos!

Muito bem, suspirou Leonor por fim. Vamos lá ver o que tenho que te possa servir. Mas promete: é a primeira e última vez que enganas assim as pessoas. É pouco honesto, para dizer o mínimo.

Não percebes!

E Mariana, incapaz de se conter, começou a desfiar a sua história

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Na escola, Mariana era a rainha da turma ninguém o negava. Sempre rodeada por rapazes, cada um ansioso por conquistar o direito de lhe segurar os livros ou ouvir um sorriso. Os professores, sem se darem conta, abrandavam o tom e sorriam quando ela franzia o sobrolho ou mostrava aquele seu olhar sonhador e vago, que tanto comovia os adultos. E os pais não lhe refutavam qualquer pedido bastava um suspiro ou levantar as sobrancelhas para que a concessão chegasse em minutos.

Tudo o que desejava, Mariana conseguia. Se havia uns ténis novos na loja, a mãe trazia-os no dia seguinte. Se entrava um rapaz giro na turma, passava a levá-la a casa numa semana. Era quase um jogo testar até onde podia ir, quantos desejos podia fazer cumprir, quantos limites ultrapassar.

Porque eu posso, repetia para si todos os dias. Essa frase tornou-se o seu lema, justificação fácil para tudo. Se uma amiga começava a namorar quem ela cobiçava, entrava sem hesitar na disputa quase sempre levando a melhor. Não era paixão: era a emoção de roubar o centro das atenções.

As amigas antigas foram-se afastando. Uma deixou de a convidar para sair, outra arranjou um círculo novo. Mariana não se importava muito à volta havia sempre quem desejasse a sua aprovação e lutasse por um lugar no grupo exclusivo. Achava natural: se não aguentavam as regras, é porque não mereciam estar ao seu lado.

No baile de finalistas sentiu-se mesmo no topo do mundo. O salão cheio de luzes e balões parecia seu, com colegas em roda, a captar-lhe cada olhar e palavra. Era o centro, o vértice da festa ali era o seu trono.

Embriagada por esse poder, Mariana exagerou. A conversa descambou para recordações do liceu e, de repente, ela lançou uma série de piadas venenosas às colegas. Relembrou pequenas desavenças, salientou defeitos alheios, criticou aparências. As palavras fluíram fáceis, incentivadas pelo prazer cruel de testar como reagiriam.

A minha vida vai ser mesmo fantástica! anunciou, erguendo a cabeça. Só me imagino com um marido rico, sempre ao meu dispor, numa vivenda de luxo com empregados Talvez com o meu próprio negócio. Não tenciono trabalhar um dia sequer! Tudo virá naturalmente: dinheiro, estatuto, viagens tudo será meu.

No olhar dela havia brilho e cinismo no sorriso. Descrevia aquele mundo reluzente tão vivamente que quase o acreditava possível.

Vocês, coitadas, não terão metade da minha sorte! virou-se para uma das raparigas, a recatada aluna de quadro de honra.

Esta encolheu-se, mas Mariana não parou:

Tu vais ser professora numa escola remota, no meio do nada. Ou, com sorte, vais trabalhar num supermercado. Vais casar com um tipo qualquer que chega a casa bêbado e te trata mal, tudo porque não cuidas de ti!

Prosseguiu, passando de colega em colega, distribuindo profecias negativas, sempre com uma farpa à mistura ora sobre a aparência, ora sobre a falta de ambição.

As outras baixavam os olhos, tentavam sorrir e disfarçar as feridas mas o ambiente ficou tenso.

Ela ria-se, encantada consigo, e os rapazes, cúmplices, riam sem convicção.

No fundo sentiu-se invencível. Achava-se capaz de decidir futuros, como se tivesse poder sobre todos.

Quando foi para a universidade, escolheu Lisboa não tanto pelo curso, mas porque achou que era lá que devia estar. O prestígio, as oportunidades, o ambiente dos jovens bem. Tinha um apartamento deixado pela avó, o que lhe dava vantagem sobre outras raparigas.

Nos primeiros tempos tudo parecia correr como esperado: escolheu a mobília a seu gosto, fez amigos, saía à noite e era o centro das atenções. Mariana saboreava olhares, colecionava elogios, certa de que encontraria rapidamente um namorado dentro do círculo certo.

Logo as aulas começaram a apertar. O curso era exigente, os professores duros, as colegas disciplinadas. Ali todos eram bonitos, inteligentes, dinâmicos e o brilho dela dissipava-se. As outras sabiam conciliar estudos com trabalho e já pensavam no futuro. Mariana vivia ainda no passado.

Perdeu o entusiasmo para estudar, começou a faltar, confiando que o charme bastava. Na primeira época de exames, chumbou quase a tudo. Os professores, que a princípio foram tolerantes, fecharam-lhe as portas. Pela primeira vez sentiu a confiança fugir-lhe.

Percebeu então a infância acabara. Ali ninguém lhe fazia favores. Para as outras, era uma rapariga qualquer. Adaptar-se teria exigido humildade e esforço mas Mariana escolheu outro caminho. Decidiu que tinha de encontrar rapidamente um marido que lhe garantisse o futuro luxuoso. Antes que acabe a beleza, murmurava para si.

Começou a sair com homens mais velhos, procurando sempre os mais abastados. Falava sobre casamento e estabilidade, dando a entender que ansiava por uma vida segura. Mas quanto mais pressionava, mais pareciam os outros defender-se o desespero dela notava-se.

Até que apareceu Afonso. Filho de médicos famosos de Cascais, herdeiro de uma pequena fortuna, educação internacional, emprego na empresa da família. Afonso era discreto, sem grande presença física, mas Mariana só via as vantagens: estabilidade, segurança, o estatuto por que suspirava.

Fez de tudo para se aproximar: passou a frequentar os mesmos lugares, soube cativá-lo com conversa, charme, roupas elegantes. Andaram a sair juntos, e parecia que ele estava genuinamente interessado.

O que Mariana não calculou foi o peso da opinião familiar. Quando Afonso mencionou a nova namorada em casa, a mãe reagiu imediatamente:

E quem é Mariana? De onde veio? O que fazem os pais dela?

Pessoas normais, do interior respondeu Afonso, hesitante.

Normais? E tu achas, filho, que com a nossa reputação e laços podes casar-te com quem não tem berço nem contactos?

Afonso tentou argumentar, mas a resposta foi fria:

Há muitas raparigas inteligentes por aí. Não arranjes problemas à família!

Mariana continuou a sonhar acordada com a vida de luxo, até que um dia ele a convidou para um café com ar pesado.

Os meus pais não querem que isto avance. Dizem que somos de mundos diferentes. E, sinceramente, não consigo ir contra eles. Desculpa.

Mariana ficou a olhar para a chávena, frustrada. A mágoa era grande mas o ressentimento ainda maior. Fiz tudo bem, porque é que nada resulta?

Pouco depois começaram os rumores entre os rapazes bem, espalhando que ela caçava milionários. O ambiente ficou hostil. Os olhares tornaram-se breves, as conversas, frias. O estigma, mais forte do que alguma vez imaginara.

Voltar à pequena vila de origem estava fora de questão seria admitir derrota. Os pais continuavam a acreditar que a filha triunfava, graças às suas histórias inventadas sobre uma carreira brilhante e um namorado perfeito. Só Leonor sabia a verdade dera por ela numas férias, ao vê-la sozinha e arrasada.

Volta para casa, Mariana. Fala com os pais. Não vale a pena mentires para sempre, aconselhou Leonor, séria.

Mariana endireitou-se, limpou as lágrimas e respondeu convicta:

Admitir que menti? Nunca! Vou vencer aconteça o que acontecer!

Passou meses em busca do tal homem, mas todos se afastavam perante as suas exigências e falta de humildade. O dinheiro da herança foi-se gastando pouco a pouco primeiro deixou os cafés, depois os restaurantes, depois o ginásio. Mas as contas não paravam de chegar.

Até que um dia, ao contar os euros que restavam, percebeu: já não pode esperar mais. Precisava de trabalhar. Procurou algo à altura do que achava merecer, mas sem diploma e sem experiência, ninguém a contratava. Acabou, sem escolha, por ficar nas caixas de um supermercado. No início, foi um choque: clientes a julgar, comentários baixinho sobre como estava arranjada demais para isto. Só lhe restava sorrir, bater os códigos dos produtos e dizer bom dia.

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Recebi ontem o convite para o encontro dos antigos colegas! terminou Mariana, num tom sombrio. Não posso faltar, Leonor! Se não, vão todos pensar que me correu tudo mal e que fugi!

Leonor pousou a colher com que mexia o chá e ganhou um olhar sério.

E não pensas que já há quem saiba o que andas a fazer? Talvez te queiram ridicularizar para vingarem o passado Tu na festa dos finalistas não te portaste nada bem.

Mariana corou, erguendo a cabeça.

Disparate! desvalorizou. Sei esconder-me bem. Ninguém me apanha. Basta ir bem vestida, sorrir, fingir que não há problemas e pronto!

Leonor abanou a cabeça suavemente, já sabendo que era inútil insistir.

Está bem Se decidires ir, pelo menos prepara-te para tudo. Se precisares de ajuda, avisa-me.

Mariana respirou de alívio, era só isso que queria ouvir.

Obrigada Vai ser bom ter uma opinião sincera. Quero parecer perfeita. Para ninguém sequer desconfiar que estou em baixo.

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Mariana saiu a correr do restaurante, as lágrimas borrando-lhe a maquilhagem. O frio da noite batia-lhe na pele, mas não sentia só queria fugir, afastar-se daquele espaço onde, há minutos, tentava parecer alguém que não era. Leonor tinha razão! Não devia ter vindo!

No início, tudo correu bem. Chegou ao salão e foi logo notada. Cada gesto estava ensaiado: andar elegante, sorriso no tempo certo, olhar para o relógio como quem veio mesmo só por ser um evento especial.

Juntou-se logo a um grupo de colegas mais afastados. Começou, com naturalidade, a pintar um retrato fabuloso: marido empresário em Angola, casa com piscina no Estoril, férias no Algarve e nas Caraíbas.

Tão ocupada ficou a fantasiar que não reparou nas trocas de olhares, nos sorrisos de troça. Sentiu-se a estrela da noite até ouvir uma voz de um antigo colega, num tom alto:

Sabem, vi a Mariana há pouco tempo Mas a vida dela não é bem aquilo que andou a contar hoje.

Fez-se silêncio. Todos viraram a cabeça.

Tenho fotos, aliás, disse uma colega, puxando do telemóvel. Bastou encontrá-la um destes dias.

E assim foi: num projetor improvisado, mostraram as imagens. Mariana, de farda do supermercado, a sorrir nervosamente atrás da caixa. Depois a carregar sacos, a escolher produtos em desconto. Por último, a entrar num velho prédio de bairro social.

Risadas, piadas sarcásticas: O marido empresário ainda trabalha contigo? e O palácio deve ser na Reboleira! encheram a sala.

Mariana ficou imóvel, corando até às orelhas não por trabalhar honestamente, mas por toda a ilusão desabar ali, em frente de todos, de forma tão cruel.

Antes que alguém perguntasse mais, saiu disparada, fugindo para a rua escura, as lágrimas a correr. Só queria sentar-se num banco, respirar e perceber como tinha chegado ali.

Nem reparou quando chocou com um homem a sair do minimercado.

Está tudo bem? perguntou-lhe ele, com voz calorosa e preocupada.

O olhar dele era tão genuíno, tão bom, que Mariana, de súbito, cedeu às lágrimas.

Não murmurou, quase inaudível. O meu noivo deixou-me antes do casamento

Mas, mesmo agora, não conseguia tirar uma lição sem perceber que a vida nunca recompensa a mentira nem a soberba, e que a verdadeira felicidade vem de sermos sinceros, humildes e de aceitarmos quem realmente somos.

Só quando encaramos a realidade com honestidade, é que começamos verdadeiramente a crescer.

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