A Última Dança

A Última Dança

Fiquei à porta do quarto e hesitei em entrar. Os meus ombros subiram, como sempre faziam hábito antigo, impossível de largar mesmo depois de trinta e quatro anos. Na ficha clínica lia-se: António Loureiro, oitenta e um anos, sequelas de AVC isquémico, paralisia dos membros inferiores.

Mais um apelido. Mais um utente em cadeira de rodas. Três anos de trabalho na Residência Sénior Costa do Pinhal e todas as segundas-feiras começavam igual novo quarto, novo processo, luvas calçadas, voz neutra. Aprendi a não me apegar. A primeira doente foi Rosalina Cardoso, setenta e dois anos, fractura do colo do fémur. Morreu de pneumonia passados três meses. Fiquei acordada duas noites de seguida. Depois percebi: se reagisse assim a cada vez, não aguentava um ano. E deixei de fixar rostos.

Mas este quarto tinha algo de diferente.

Na parede em frente à cama estava uma fotografia emoldurada em madeira escura. Um homem jovem, de fraque preto, braço estendido, torso rodado. Ao lado, uma mulher num vestido de saia volumosa, reclinada para trás parecia prestes a cair, mas a mão dele segurava-a firme. O soalho brilhava sob os seus pés.

Olhei para o homem na cadeira. Ele também olhava para mim. Não para as minhas mãos, nem para o crachá diretamente nos meus olhos.

Mariana Figueiredo? perguntou, voz grave, rouca, cada palavra marcada por uma pausa.

Sim. Sou a sua nova fisioterapeuta.

Nova, repetiu. Levantou ligeiramente a mão direita. Dedos longos, articulações grossas, desenharam um semicírculo no ar. Sente-se, Mariana. Disseram-me que é exigente. Gosto disso.

Pousei o saco no chão e sentei-me na cadeira junto à mesa de cabeceira. Em cima dela estava um objecto que só vira em filmes: caixa de madeira, placa de cobre, mostrador de números.

É um metrónomo? perguntei.

Wittner, de 1962, respondeu António Loureiro. Alemão. Foi oferta do meu professor, quando venci o primeiro torneio regional.

Não explicou de que torneio falava. Não era preciso a fotografia dizia tudo.

Abri a ficha clínica e iniciei o exame habitual. Membros superiores mobilidade mantida, amplitude reduzida. Mãos motricidade razoável. Pernas, nada. AVC há um ano tirou-lhe as pernas. Rápido e sem retorno.

Vamos trabalhar braços e ombros, disse. Três vezes por semana. Segunda, quarta e sexta.

E dançar? perguntou, como se falasse de beber um café.

Levantei os olhos do processo.

Como?

Não, abanou a cabeça. Ainda não. Primeiro mostre o que vale enquanto técnica. Depois conversamos.

Sorriu. Só com os lábios, sem dentes. Mas os olhos mudaram. Em três anos nunca vi um olhar assim num utente. Não era esperança. Não era súplica. Era cálculo.

Na saída, parei junto ao quadro de horários. Escrevi: Loureiro A. Seg, Qua, Sex, 10h00. Pela primeira vez em três anos, fixei um apelido à primeira tentativa.

***

Bastou-me uma semana para saber o bastante.

António Loureiro. Campeão nacional de danças de salão em 1970. Tinha vinte e cinco anos na fotografia. Competiu até 1995, até o joelho ceder. Depois deu aulas. Reformou-se. A mulher morreu. A filha emigrou para o Brasil. Ficou na residência.

Já lá vivia há dois anos. O primeiro ano ainda andava. No segundo, não mais.

A filha ligava uma vez por mês. Ele atendia, falava serenamente. Depois pousava o telefone e ficava a olhar a janela. Fiquei a saber estes detalhes pela D. Otília, a enfermeira mais antiga, ao pedir-lhe o livro de registos. Ela sabia tudo sobre cada utente: nome, história, manias. Trinta anos naquelas paredes.

O Loureiro não é como os outros, disse sem levantar os olhos. Não se queixa, não faz birra, não pede mimos. Mas não aceitou a sorte. Essa é a diferença. Uns aceitam. Ele, espera.

Não perguntei o que esperava.

Nas sessões era impecável nas tarefas. Nunca pediu para parar. Nunca se queixou. Sempre que lhe mexia nas mãos, os dedos mexiam-se sozinhos. Rítmicos, desenhando círculos e arcos como se lembrassem algo que o corpo esqueceu.

Numa quarta pus música no telemóvel. Só um fundo, enquanto preenchi a ficha. Soava um valsa. Strauss, pareceu-me.

António Loureiro ficou imóvel. A mão direita ergueu-se.

Não tremeu, não forçou. Levantou suavemente, como asa de gaivota. Dedos abertos, palma para a frente. E começou a conduzir a sua parceira invisível. Com as mãos. Sentado em cadeira de rodas, imóvel da cintura para baixo.

Deixei de escrever.

Era bonito. Bonito a sério. Não bonitinho para a idade ou comovente para um doente. Bonito. As mãos sabiam. Cinqüenta e seis anos a guiar mulheres no soalho, e continuavam ali, no quarto virado ao pinhal.

Findo o tema, baixou a mão. Olhou-me.

Nunca dançou, disse, afirmando.

Não, admiti. Nunca tive oportunidade.

Nunca teve oportunidade, repetiu devagar. Ou nunca lhe quiseram ensinar?

Calei-me. Ele não esperou resposta. Partilhou.

Tinha catorze anos quando a minha mãe me levou ao centro cultural. Não queria ir. Os rapazes jogavam à bola, eu ia para uma sala de espelhos e soalho. Fugi três vezes. À quarta, o professor disse: Vais ser grande, porque tens teimosia. Fiquei. Não foi pelos bailes. Foi por teimosia.

Fez uma pausa. Os dedos desenharam o pequeno arco que já lhes conhecia.

Depois apaixonei-me. Mas ao início foi só teimosia.

No valsa, tudo decide-se nos três primeiros segundos. A mão pousa no ombro da parceira logo ali está decidido se ele sabe ou não. Se sabe, o corpo relaxa. Se não, resiste. A Mariana passa a vida a resistir. Vejo pelos ombros.

Os meus ombros. Sempre elevados, inclinados à frente. Desde miúda. O pai bebia, a mãe foi-se embora quando eu tinha seis. Aprendi a esperar o golpe. Não físico só…o golpe. E os ombros reagiam sozinhos.

Sou fisioterapeuta, disse. Não parceira de dança.

Para já.

Na sessão seguinte, sexta, trabalhei os seus ombros: rotação, abdução, resistência. Seguiu em silêncio. Depois perguntou:

Mariana, vive sozinha?

A pergunta ficou sem resposta. Continuei o exercício. Percebeu.

Também eu. Mas lembro-me de quando era diferente. Isso ajuda. Você, talvez não tenha memória dessas coisas.

Parei. Olhei-o.

António, estamos aqui para fisioterapia.

Naturalmente. Para o ombro.

Ainda assim, pediu.

Direto. Sem rodeios.

Dance comigo, Mariana. Só uma vez. Eu conduzo com as mãos. As pernas são suas.

Pousei a toalha na cama.

António, isso é impossível.

Porquê?

Porque não sei dançar. Nunca tive. Nem grupos, nem aulas, nem bailes. Nunca calhou.

Acenou.

Sei disso. Por isso mesmo peço.

E mais, é contra as regras. Não devo levantar peso, expor-me, correr riscos.

Não me vai levantar. Eu fico sentado. Você ao lado. Dou-lhe a mão, indico-lhe onde pôr os pés. Três minutos.

Não, disse. Desculpe.

Não insistiu. Não ficou magoado. Olhou a fotografia na parede e disse:

Pense nisso. Eu espero.

***

Na segunda, vim mais cedo. Tinha tempo livre antes de António, fiquei na sala do pessoal, a beber chá no copo de plástico. D. Otília entrou para registar as análises.

Andava de maneira única. Pés virados para fora, passada larga trinta anos nos corredores assim o fazem. Não éramos amigas, mas respeitávamo-nos. Ela, porque eu nunca chegava atrasada. Eu, porque ela nunca deixava nada por dizer.

Estás com o Loureiro, não é? perguntou sem me olhar.

Sim. Desde março.

Já te pediu alguma coisa?

Baixei o copo.

Um baile.

Fechou o livro, olhou-me nos olhos.

Não lhe resta muito tempo, Mariana. Um mês, talvez dois. O coração cansa-se. O cardiologista veio na quinta.

Apertei o copo. O plástico estalou.

Sabe ele?

Sabia antes do médico. Sentem-no. Ele não pede um comprimido. Pede um baile. Percebes a diferença?

Percebia. E isso pesava mais.

Não sei dançar, D. Otília. Não vou conseguir. Vou desiludi-lo.

Sentou-se à minha frente. Pousou o livro.

Estou aqui há mais anos do que tens de vida, Mariana. Já ouvi de tudo. Uns querem o padre. Outros, que chamem a filha. Outros só uma janela aberta para cheirar o pinhal. O Loureiro pede um baile. Não pede para ele pede para ti. Para não esqueceres.

Não entendi, na altura.

Ele é bailarino. Ensinou mulheres sem jeito cinquenta anos. Só precisas de não atrapalhar.

Levou o livro e saiu. Fiquei a olhar a mão seca, ruborizada álcool, trabalho, vida.

António disse: Pense nisso. Eu espero.

Mas pouco restava para esperar.

À noite fui ao quarto dele. Fora de horas. Roupa normal calças de ganga, camisola, ténis. Sem luvas.

Sentado na janela, via o pinhal escuro. O metrónomo na mesa. A fotografia na parede.

António.

Voltou-se.

Quero tentar só preciso de tempo. Uma semana. E prometa que não ficará triste se eu não conseguir.

Fico triste, admitiu sereno. Mas calo. Está bem?

Estendeu a mão comprida, dedos longos esperando no ar. Não para apertar. Palma para cima. Como convite. Como compromisso.

Toquei-lhe com a ponta dos dedos. Um segundo bastou.

Não sorri. Mas os ombros desceram.

Está bem.

Aproximou-se da mesa. Pegou no metrónomo. Deu corda. A placa de cobre balançou.

Tac. Tac. Tac.

Um-dois-três. Um-dois-três. Conte comigo.

Contei. No centro do quarto, de ténis, sem música. Só números e o tique-taque.

Costas direitas, disse. Queixo erguido.

Endireitei-me. Queixo para cima.

Assim mesmo. Lembre-se: o valsa começa na coluna, não nos pés. Se as costas estão certas, os pés seguem.

Estendeu a mão direita. Palma aberta convite.

Ponha a sua mão esquerda sobre a minha. Suavemente. Não agarre, só encoste.

Assim fiz. A mão dele estava quente. Os dedos fecharam-se à volta do meu pulso. Senti o movimento da mão, conduzindo à direita.

Pé direito ao lado. Pequeno, meia passada.

Dei o passo.

O esquerdo encosta.

Encostei.

Pé esquerdo para trás.

Dei o passo. Desajeitada, demasiado longe.

Mais curto. O valsa não é marcha. É deslizar, não andar.

Recomeçámos. Tac. Tac. Tac. A mão guiava. Não puxava. Conduzia. Um pouco à direita passo direito. Um pouco atrás passo atrás. Um pouco em círculo giro.

Dei-me passos aos pés. Troquei-os. Contava e tropeçava.

Ele não se irritava.

Está a pensar com os pés, disse ao fim de dez minutos. Pare. Pense com a mão. A minha sabe para onde vamos. Confie nela.

Confiar.

Toda a vida, trinta e quatro anos de esforço para não precisar confiar em ninguém. Trabalho, T1 alugado na Amadora. Quarenta minutos de comboio. Sem fotos nas paredes, sem ímanes no frigorífico. Ninguém a quem confiar ou deixar-se guiar.

Mas a mão dele esperava. Quente. Dedicada. Com a memória de cinquenta e seis anos de salão.

Fechei os olhos. Deixei de contar.

Passo. Mais um. Giro. Os dedos apertaram de leve parar. Puxaram à esquerda girar. Não pensei. Não comandei pé direito, pé esquerdo. Só segui a mão.

Assim, disse. Assim mesmo.

Abri os olhos. Tínhamos dado a volta completa. Estava no mesmo lugar.

Chega por hoje, disse António. Largou a minha mão. Amanhã repetimos, e depois. Daqui a uma semana estará pronta.

Acenei. Um nó na garganta, temi que a voz falhasse.

Obrigada, murmurei.

Obrigado eu, corrigiu. Por me emprestar as pernas.

***

Ensaiávamos todas as tardes. Vinha depois do serviço, mudava-me no balneário, ia ao quarto dele. Esperava-me à janela. O metrónomo na mesa, já a marcar compasso.

Na terça, ensinava-me a contar trios.

O um é forte. Dois-três mais suaves. Ao um avança. Dois-três recolhe. Nunca ao contrário.

Na quarta voltas. Tropecei na terceira e quase caí junto à mesa. António riu-se primeira vez que o vi rir. Seco, rouco.

A mesa não é boa parceira, disse. Não conduz.

E explicou:

Girar no valsa não se faz com a cabeça. É o corpo. A cabeça fica, o corpo já vai. A cabeça segue depois. Como na vida. A decisão já foi tomada, mas só se percebe depois.

Na quinta, pôs música. No telemóvel descarreguei-lhe Strauss, O Danúbio Azul. Ele fechou os olhos, as mãos ergueram-se. A esquerda mais baixa, a direita aberta, como abraçando alguém de memória. Começou a conduzir. Eu, dois passos mais longe, só a olhar.

O rosto mudou-lhe. Alisou-se. Anos evaporaram. Não todos os oitenta e um só os de peso. Ele já não estava ali. Estava no salão. O jovem de fraque preto, com a parceira reclinada, mão a segurar.

Quando acabou a música abriu os olhos e baixou as mãos.

Estava a observar, comentou, sem mágoa.

Sim. Hesitei. Dança bonito.

Não estou a dançar. Estou a recordar. É diferente. Dançar é para dois. Sozinho, é memória. Memória vale, mas o baile é partilhado.

Fez pausa.

No sábado dançamos a sério. Não aqui. No salão. Lá há soalho.

O salão da residência janelas altas, cadeiras encostadas às paredes. Ocasionalmente espectáculos. Soalho já gasto, mas verdadeiro.

Pode estar lá gente, avisei.

Que assistam.

Mordi o lábio.

Tem a certeza que estou pronta?

Não, disse honestamente. Mas as pernas estão. A cabeça nunca está. Isso não muda.

Sexta, fui à hora marcada. Fisioterapia habitual: massagem das mãos, flexão, resistência. Cumpriu tudo. Mas vi: a mão direita cedia face à semana anterior. Os dedos já não abriam tão bem. O mindinho curvava.

Nada disse.

Ele também não.

No fim pediu:

Costas direitas, queixo alto. Mostre.

Ergui-me. Queixo alto. Braços ao lado.

Olhou-me tempo. Depois assentiu.

Amanhã. Cinco da tarde. No salão.

Saí do quarto. No corredor estava D. Otília. Não perguntou nada. Pelo rosto percebi que sabia.

Amanhã? confirmou.

Amanhã.

Ela virou costas e foi, passos abertos, pés para fora. À porta parou, sem olhar.

Vou passar o soalho no salão. Que não escorregue.

E foi-se.

Nessa noite não dormi. Olhava o tecto na T1 da Amadora. Apartamento sem alma nem traço, nem uma estante habituada à minha mão. Três anos ali nenhum canto me pertencia. Vivendo de modo a partir sem deixar rasto, como água: passa e evapora.

António Loureiro era oposto. Deixava marcas. Em cada mulher que ensinava. Em cada aluno. Na fotografia do rapaz no fraque preto. As mãos dele guardavam e transmitiam.

Virei-me na cama, as palmas sobre a almofada. Fortes, unhas curtas. Mãos de trabalho. Mãos que apoiam, puxam, esticam nunca guiam, nunca convidam, nunca seguram para alguém confiar e atirar-se para trás sem medo.

Amanhã as minhas pernas seriam as dele. E as mãos dele levar-me-iam donde nunca fui.

Lembrei do que disse D. Otília. Ele não pede para si pede para ti. Para não esqueceres. Agora já percebia. Não queria dançar uma última vez. Queria que eu dançasse a primeira.

Isso assustava. Verdadeiramente.

***

Sábado. Cinco horas. Salão.

Cheguei mais de hora antes, ansiosa. O dia demorava a passar. Utentes, processos, exercícios igual aos outros, mas dentro de mim o metrónomo marcava. Um-dois-três. Um-dois-três.

Faltavam quinze minutos, fui trocar de roupa. Saia a única que tinha, azul escuro, pelo joelho. Comprei há dois anos para um casamento, nunca mais vesti. Sapatos baixos. Cabelo preso.

Salão vazio. D. Otília adiantou tarefas, levou os utentes para a cantina. O soalho brilhava. Alguém o tinha lavado. Janelas grandes. Lá fora, pinheiros, céu cinzento de março.

Às cinco ouvi rodas no corredor. António entrou sozinho no salão. Cadeira em andamento certo. Camisa branca com botões de punho. Nunca o vira de camisa, só camisolas de malha, práticas. Hoje, camisa branca. O metrónomo no colo.

Parou perto da parede. Observou o soalho. Depois olhou-me.

Boa saia, comentou. Valsa pede saia. Calças não têm encanto.

Aproximei-me. As pernas não tremiam. As mãos sim, um pouco.

Pôs o metrónomo num banco ao lado. Deu-lhe corda. O pêndulo de cobre oscilava.

Tac. Tac. Tac.

Fique à minha direita. Frente à janela.

Posicionei-me.

Mão esquerda sobre a minha direita, como treinámos. Suave.

Encostei. Os dedos dele fecharam-se, quentes. Mais fracos que segunda. Notei. E ele soube que eu notara.

Não tenha pena, pediu. Dance.

Com a outra mão carregou no telemóvel. Soou Strauss. O Danúbio Azul. Violinos. Pausa antes do compasso.

Um.

A mão guiou-me à direita. Passo curto, pé direito.

Dois-três.

Pé esquerdo encosta. Mais um passo atrás.

E fomos.

A mão assinalava o percurso. Direita passo. Circular volta. Frente recuava. Atrás avançava. Sentado na cadeira, o tronco dançava. Ombros giravam, corpo rodava, cabeça inclinava tudo que fizera cinquenta anos, o corpo ainda sabia. Eu era as suas pernas. O prolongamento. A metade que lhe foi tirada.

O soalho deslizava sob sapatos baixos. Não contava. Só seguia a mão. Direita. Círculo. Ao lado das janelas e dos pinheiros. As cadeiras a espreitar. De uma ponta à outra.

Três minutos.

Três minutos a valerem cinquenta e seis anos de ensaio. Desses, dele. Eu só escutava. A mão. O ritmo. A vida dele, a passar da palma para a minha mão, e dos pés ao chão e ao soalho.

A música acalmou. O acorde final. Ele parou a mão.

Fiquei defronte. A saia esvoaçava. O coração batia depressa. Mas os ombros sempre subidos, sempre tensos estavam em baixo, relaxados.

Ele olhou-me. No seu rosto vi a mesma expressão da fotografia. O jovem de fraque, seguro de que era o melhor do salão. As mãos certas, a parceira podia confiar.

Obrigado, disse. Foi uma bela valsa.

Fiz tudo errado, gaguejei.

Não. Fez o que era preciso. Confiou. O resto são pormenores.

Largou-me a mão. E disse o que nunca esqueci:

Agora sabe dançar valsa, Mariana. Essa é a minha herança. Quando dançar, parte de mim dança consigo.

Fiquei no salão. Tac. Tac. Tac. O metrónomo marcava o silêncio. Strauss calou-se.

Leve-o, António apontou o metrónomo. Precisa mais dele que eu.

Não, disse.

Mariana. Leve.

Virou a cadeira e foi-se. À porta parou.

Costas direitas. Queixo alto. Não se esqueça.

Avançou para o corredor.

Fiquei sozinha. O soalho. As janelas. Os pinheiros. O céu cinzento de Março. E a placa de cobre, tic tacando.

Peguei no metrónomo. Apertei-o ao peito. A madeira quente das mãos dele.

No dia seguinte fui à rotina. António de volta à camisola de malha. A camisa branca no armário. Fisioterapia do costume: flexão, resistência dos dedos. Não falou de dança. Eu também não. Como se nada se tivesse passado.

Mas percebi: estava mais calmo. Não triste. Só sereno. Quem faz o que tinha de fazer, pode finalmente descansar.

Nesse fim-de-semana fiquei na residência, cobri um turno de uma colega. Passei junto ao quarto ao fim do dia. A porta estava encostada. Ele na janela a ver o pinhal. As mãos pousadas nos apoios. Paradas.

O metrónomo, comigo na mala.

Duas semanas fizemos sessões iguais. Ele exercitava. Eu registava. A mão direita perdia força as medidas comprovavam. Não lhe dava números. Ele não perguntava.

Numa quarta disse:

Mariana, obrigada por não ter pena.

Não tenho, António.

Foi por isso que lhe agradeço.

Em abril, António Loureiro adormeceu e não acordou. D. Otília telefonou-me às seis. Voz firme trinta anos habituam.

O Loureiro foi-se esta noite. Em paz.

Desliguei, sentei-me na cama e fiquei uma hora imóvel. Não chorei. Só fiquei. A Amadora acordava lá fora carros, porta à entrada a bater. Uma manhã como tantas. O mundo igual. Mas eu não.

Na segunda, voltei ao quarto dele. A cama feita. A mesa vazia. A filha levou a fotografia veio do Brasil, tratou dos papéis em dois dias e regressou. Segundo D. Otília, chorou no corredor, mas de olhos secos entrou no quarto. Levou o quadro, o álbum, a camisa. Deixou a cadeira.

Na prateleira do meu apartamento estava o metrónomo. Madeira. Pêndulo de cobre. Wittner, 1962. Alemão. Presente do professor pelo primeiro torneio regional.

Levantei-me. Fui à prateleira, dei-lhe corda.

Tac. Tac. Tac.

Costas direitas. Queixo alto.

Um-dois-três.

Dei um passo com o direito. Pequeno passo. Como ele ensinou. Esquerdo junto. Passo atrás.

O meu T1, sempre vazio e sem memórias, pela primeira vez não estava desabitado. Porque ali dançavam dois. As minhas pernas. E as mãos dele. As mesmas longos dedos, articulações grossas, semicírculo no ar.

Parte dele dançava comigo.

E dançará sempre.

Porque às vezes, confiar em alguém é o primeiro e mais corajoso passo para sermos realmente livres.

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