Arrisquei tudo pelo futuro
Mas afinal para que é que queres Lisboa, Mariana?! exclamou Tiago, voltando-se abruptamente para ela. O que é que a nossa Coimbra tem de mal?! O nosso Instituto Politécnico já não te serve? E porque é que decides essas coisas sem sequer falares comigo?!
No olhar do Tiago havia um misto de mágoa e autêntica perplexidade, como se não acreditasse que a Mariana nem tivesse tentado conversar sobre uma decisão daquele peso. Sentia-se traído, como se, de certa forma, ela lhe tivesse virado as costas.
Já a Mariana tentava manter-se serena. Trincava os lábios, lutando para falar em voz calma e firme, mas sentia o timbre tremular. Por dentro, tudo nela se apertava já antevia que a conversa ia correr mal e agora a discussão estava mesmo a acontecer.
Antes de mais, é a minha vida, Tiago, o meu futuro respondeu ela, tentando não se mostrar vulnerável. E depois, não foi esta conversa que já tivemos o ano passado, antes da minha licenciatura acabar? Foste tu que me convenceste a ficar, quando sempre sonhei ir viver para Lisboa desde miúda!
A voz traiu-lhe um travo amarga, e os olhos encheram-se de lágrimas, apesar de se esforçar para não mostrar a dor.
Tiago parou junto à janela, apertando os dedos na moldura branca com tanta força que os nós dos dedos ficaram pálidos. Como se tentasse controlar o turbilhão de emoções que começava a rebentar-lhe por dentro.
E bem fiz, retorquiu ele, mais baixo, mas ainda agitado não percebo a lógica de arrastares-te para a capital e gastares rios de euros em renda, quando aqui em casa tens tudo o que queres.
A mente dele já só via imagens do futuro que sonhara: casa acolhedora, família, estabilidade, jantares à lareira. Só que agora, esse futuro parecia feito de areia a desfazer-se à menor brisa. Se ela fosse para Lisboa, como é que poderiam ficar juntos? Iria ele esperar cinco anos por ela, sem saber sequer se Mariana ia querer voltar?
Gano bem, posso-te dar tudo, percebes? Tu não precisas de trabalhar. Ele tentava, desesperado, que ela entendesse o seu ponto de vista. Para que é que vais largar tudo para ir andar cansada sozinha?
Na voz de Tiago ouvia-se, pela primeira vez, um pedido quase suplicante. Ele só queria que ela percebesse o medo que sentia de a perder.
Foi demais para a Mariana, que se levantou do sofá, as bochechas rubras de indignação.
Mas tu achas mesmo que eu quero ser dependente de ti? Nem pensar, Tiago. Eu quero ter as minhas coisas por mim, nunca quis ser dona de casa e depender de mesada de ninguém!
Mariana sabia muito bem o que era a insegurança de depender só de um ordenado. Tinha aprendido da maneira mais dura, aos treze anos, quando os pais se separaram. O pai nunca mais deu nada, e a mãe esforçou-se sozinha, com magros trocos a chegar apenas para pôr comida na mesa. Roupas novas, só herdadas das primas. Sapatos só velhos e remendados, sonhos guardados na gaveta.
Demorou tempo, é verdade, mas a mãe voltou a juntar-se. Só que o novo padrasto não gostava de Mariana: apontava-lhe tudo, dizia que comia a comida dos outros. Acabou por ir viver para casa da avó, vendo o irmão mais novo viver com a mãe. Tudo pequeno, apertado, mas com dignidade. Se alguma coisa Mariana aprendeu disso, foi não depender de ninguém nem do marido.
Ela não queria trazer mais esse assunto para a conversa, para não piorar. Tiago não via o mundo ao mesmo modo: sentia-se o pilar da casa, achava que o emprego era eterno e a vida estática. Até olhava de lado para os colegas, achando-se insubstituível.
E porque não vens tu comigo para Lisboa? arriscou Mariana já mais calma, tocando-lhe no braço. Aproximou o rosto, olhando-o de frente, quase a implorar carinho. Tu próprio disseste que o teu escritório principal é lá! Não me parece complicado pedires transferência, Tiago, toda a gente te valoriza na empresa.
Ela acreditava mesmo nisso: mudar seria a solução, estariam juntos, cada um a tentar crescer. Tiago era competente, sabia que seria valorizado.
E recomeçar tudo do zero?! cortou Tiago, afastando o braço. O olhar endureceu, cheio de receio. Tenho aqui todas as oportunidades, respeito dos colegas, portas abertas para ser chefe. Em Lisboa? Era mais um, a lutar com todos, ninguém me conhece para confiar.
Falava cada palavra como quem bate o punho na mesa. Para ele, ali era tudo seguro, Lisboa era lidar com o desconhecido, voltar ao início, arriscar sem garantias.
Mas para mim Lisboa é onde há oportunidades, Tiago. Só isso. A voz da Mariana fraquejou, sentiu a garganta apertar-se. Não te peço para largares o teu emprego… só para veres se é possível a mudança. Só isso.
Tiago olhava para ela, o rosto tenso, pensando mil e uma coisas. Teria Mariana realmente motivos profissionais ou seria ciúmes dele, alguém à espera em Lisboa? A dúvida corroía-lhe o peito. Tentou afastar esse medo, mas ele teimava em ficar lá, na sombra.
Achas mesmo que é assim tão simples? Pedir, transferir, largar tudo, recomeçar? E se não me corre bem? Ficamos sem nada, sem emprego, sem estabilidade, sem casa o futuro que tentei construir para nós.
Mariana respirou fundo, querendo manter a calma.
Não te peço para largares tudo, só que penses nisso. Que tentes perceber. Eu também quero o nosso futuro… só o imagino de outra forma.
Ele virou costas, foi até à janela e ficou a olhar na rua. Crianças a correr no recreio, uma rapariga pulava à corda, um miúdo tentava moldar um burrinho de areia. Mas para Tiago nada daquilo fazia sentido naquele momento. A cabeça só girava, cheia de dúvidas.
O ano anterior já quase tinham tido esta guerra. Mariana sonhava com Lisboa. Tiago convenceu-a a adiar. Agora, via nos olhos dela uma determinação nova. Já não era uma vontade caprichosa era mesmo decisão. Os seus argumentos escoavam-se. Talvez devesse falar com a mãe dela, ou algum amigo e se fosse tudo uma manobra para obrigá-lo a pedir-lhe em casamento? Será que Mariana queria um anel mais do que o canudo?
Inspirou fundo, sentindo tudo a rebentar por dentro. Precisava de controlar a situação, antes que fosse tarde.
É assim: se não largares essa ideia e quiseres mesmo ir, fica a saber que, se passares a porta da cidade, acabou. Não vou esperar eternamente, nem confiar em quem está longe. Pensa o que é mais importante um curso em Lisboa, ou termos futuro juntos?
Disse isto quase a frio, sem o tom caloroso com que sempre falara com ela. Queria ser claro que Mariana percebesse que não estava a brincar.
Tiago saiu da sala a bater com a porta. Um dos quadros caiu, o vidro estilhaçou-se no chão. Ninguém ligou a isso nem ele, nem Mariana.
Mariana ficou ali imóvel, ainda a digerir o que tinha acabado de ouvir. “Mas o que foi isto agora?” Pensava se Tiago a considerava mesmo capaz de o trair só por sair da terra. Depois, o ultimato… Nem parecia dele. E casamento? Aquilo era o quê… um pedido disfarçado de ameaça?
No peito, a raiva de não ser escutada e a dor de ser obrigada a escolher a sua vida ou um amor.
Estava mesmo preparada para desistir dos próprios sonhos só para agradar a alguém que nem sequer fazia um esforço por compreendê-la? Ele tinha uma proposta de transferência realista. O patrão próprio já elogiara Tiago. Notava-se: mais do que medo de recomeçar, era orgulho ferido, receio de não se destacar entre outros.
Suspirou. Se Tiago não queria sequer tentar… quem era ela para insistir? Namorados há muitos, uma oportunidade destas só uma vez. Não era altura de abdicar de si.
Endireitou-se, respirou fundo e murmurou tão alto quanto precisava:
Eu vou para Lisboa!
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Com as mãos ainda a tremer, Mariana arrumava o resto da roupa. Sentia o olhar de Tiago pesado, no batente da porta, braços cruzados e olhar de quem não compreende. Como se ela tivesse escolhido outro caminho qualquer em vez de ele.
Tentava não chorar, guardando rapidamente vestidos, dobrando camisolas, encaixando livros e cadernos. Tudo no seu lugar, como quem já não olha para trás.
Dizer mais alguma coisa não fazia sentido. As conversas já tinham sido ditas e repetidas até à exaustão, entre lágrimas e silêncios pesados. Talvez estivesse a cometer o maior erro da vida. “E se não aguento a pressão? E se o curso for demais e Lisboa me engolir?” pensava.
Talvez voltasse a casa, sem canudo e sem Tiago que, provavelmente, arranjaria outra entretanto, alguém tranquilo, feliz com Coimbra e a vidinha segura.
Mas, mesmo assim, não parou. Fechou a mala, acertou as pegas e olhou para ele pela última vez.
Preciso mesmo de fazer isto, Tiago. É a minha escolha.
Pegou na mala, ajeitou a mala menor ao ombro e avançou, de peito apertado mas espírito mais leve que nunca. Aquela era a vida que queria tentar, por mais difícil que fosse. Era agora ou nunca…
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Dez anos depois, Mariana regressou a Coimbra para o aniversário redondo da mãe. Saiu do táxi diante do velho prédio onde crescera, e parou um instante. As ruas, os muros, as árvores estavam mais pequenas, encolhidas pelos anos, mas o peito ficou quente. Era ali que tudo começara.
Mariana estava deslumbrante: fato risca de giz, cabelo apanhado, um colar de pérolas singelo. Homens olhavam-na pelo passeio fora, mas ela já nem notava. Os olhos não escondiam a certeza e serenidade que a vida lhe trouxe. Tinha tudo o que queria: um grande amor, uma filha, uma carreira invejável e tudo conquistado por ela própria.
Ir para Lisboa acabara por ser a melhor decisão que tomou. Licenciatura brilhante no Instituto Superior Técnico, oportunidades a surgir à porta. Em menos de dois anos, estava a chefiar projetos internacionais aprender, crescer, arriscar. A vida recompensava quem ousava.
Agora, morava num T3 com varanda aberta para o Campo Grande, onde tomava café ao sol. Tinha carro novo, saldo generoso na conta, e, o mais importante, autonomia. Era casada, sim, mas em igualdade.
O marido, Miguel, trabalhava também num escritório importante nada de milionários, apenas alguém honesto, trabalhador, cúmplice. Conheceram-se na empresa logo no primeiro mês dela ele era mentor, um ombro de apoio. Começou por uma ajuda num dossier, depois parcerias, amizade, até tudo fluir para outra coisa. Mariana lembrava-se bem dessa fase: o jeito como ele percebeu logo o nervosismo dela frente ao primeiro evento importante, o sorriso caloroso a dizer “Não te preocupes, eu trato disso”. Apetecia ficar.
Ao lado, a pequena filha deles, Leonor, de cinco anos, cheinha de energia e a segurar uma caixinha de música pintada à mão para a avó. Leonor só queria despachar-se para entregar o presente: pulava logo ali na calçada, a repetir baixinho “Mãe, quando posso dar?! Estou mesmo ansiosa!”
Mariana sorriu, de ternura (a filha era igual a ela, vontade própria e brilho nos olhos). Aconchegou-lhe os caracóis, beijo na testa:
Calma, minha luz, já vamos. Ela vai adorar esse presente especial!
Leonor aninhou-se mais à mãe, mal contendo o entusiasmo. Aquilo sim, era a felicidade. Mariava sentiu paz valeu mesmo a pena. Seguiu a intuição, nunca desistiu.
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Tiago?! O que é que tu fazes aqui? O espanto na voz dela foi quase infantil, ao cruzar o olhar com o antigo namorado entre os convidados. Por um segundo, Mariana sentiu um frio na barriga de memória, mas logo recuperou. Endireitou os ombros, escondeu as dúvidas.
Fui eu que o convidei interrompeu a mãe, sorrindo. Temos-nos dado bem nos últimos anos. O Tiago casou com a Anabela, filha da minha colega de trabalho. Não sabias?
Francamente, não sigo a vida dos meus ex-namorados, mãe Mariana quase riu, controlando o tom. Mas por dentro sentia-se estranha não desconforto, só o toque amargo da nostalgia. É coisa que não me tira o sono.
Tiago estava um pouco afastado, trapalhão, mãos nos bolsos, carrancudo. Passava a festa a espreitá-la, dentes cerrados. E via-se, nos olhos dele, uma pontada de inveja. Ela estava radiante: sucesso, segurança, uma filha irrequieta.
Olhou-a: blusa elegante, sorriso sereno, pose de quem sabe o que é e o que vale. Ao lado, a miúda agarrava-lhe a mão e sussurrava coisas no ouvido Leonor era pura luz.
Tiago, cá por dentro, sabia que nunca deixou de pensar em Mariana. Por mais voltas que a vida desse, espreitava sempre as redes sociais à procura de sinais do insucesso dela. Queria ver se regressava derrotada, sem o curso, pronta a aceitar as condições dele. Sonhara poder dizer eu avisei.
Mas a verdade era dura: com Mariana, tudo correu bem. Sem ele, melhor ainda.
Tiago, por sua vez, tinha ficado preso em Coimbra. A sucursal da empresa acabou por fechar quatro anos antes. Nunca arranjou nada como antes uns biscates, projetos temporários, mas nada fixo, e os salários minguaram para metade.
E se eu me tivesse arriscado com ela? esse pensamento doía-lhe. Pensava nas oportunidades em Lisboa, o apoio dela ao lado, tudo diferente. Mas naquele dia, ele escolheu a segurança, o orgulho, o medo de perder controle. Agora custava.
Olhava para ela, filha, família, e doía-lhe. Estava a perder o que tinha de mais importante por ser teimoso. Viu-se a querer falar com ela, pedir desculpa, pelo menos desejar-lhe felicidades… Mas, nesse instante, Miguel chegou, pousou a mão com carinho no ombro da Mariana, sussurrou-lhe qualquer coisa. Ela riu com felicidade genuína, recostou-se nele. Estavam bem, juntos tudo tão natural, tantos anos de companheirismo.
Tiago percebeu o que antes não via: há dez anos, ela escolheu acreditar em si, arriscar tudo. Ele ficou, por medo. Quem perdeu afinal?
Com olhos pesados, virou costas e saiu. Passou junto a uma mesa cheia de fotografias antigas: uma onde estavam, os dois, felizes e sonhadores. Sorriu, agora, mas com tristeza. Como foram tão ingénuos? A vida tem outros planos, se não soubermos mudar a tempo.
Tocou no vidro, como se a quisesse chamar para esse passado, à Mariana de antes. Mas ela tinha crescido, conseguido tudo, e estava feliz longe dele.
Abandonou a sala discretamente, misturando-se com quem passava. Lá dentro, a música, as gargalhadas, a festa e a vida a continuar. E Tiago só ficou com a dúvida e um vago sabor a oportunidade perdida.







