O Último Pedido
Não volto mais para casa suspirava David, contorcendo-se de dor e sentindo cada fibra do seu corpo reclamar. E a Benedita nunca mais vou ver. Tinha pensado em pedi-la em casamento Não deu tempo Porque é que isto tinha de me acontecer?
Ora, não se aflija assim tentou animar a enfermeira, forçando um sorriso ao ver como o rapaz, acabado de chegar de ambulância, estava lívido. Vai correr tudo bem, confie.
Duvido murmurou David, já sem forças, olhando o teto do hospital de Santa Maria.
Não disse mais nada. Limitou-se a assistir, num silêncio assustado, à azáfama em redor do bloco operatório, onde preparavam tudo para uma cirurgia de urgência.
***
David sempre detestara hospitais.
Desde pequeno que aqueles lugares lhe gelavam a alma. Como podia alguém simpatizar com um sítio onde lhe faziam doer e nunca, sequer, lhe pediam desculpa pelos sofrimentos emocionais? Então que conversa é essa, Davidinho?” dizia, sem piedade, a enfermeira que lhe picava o dedo para tirar sangue. Já és um homenzinho, daqui a nada vais para a escola, mas choras como uma rapariga! Não tens vergonha?
Mas David não tinha vergonha; só tinha dor e tristeza. E, como era miúdo, chorava ainda mais, tentando em vão fugir daquelas agulhas, de mãos firmes mas frias. Depois, já a caminho de casa com a mãe, prometia de lágrimas ainda nos olhos que nunca mais, por coisa nenhuma deste mundo, punha os pés num hospital.
Prefiro morrer, mas não ponho mais cá os pés afirmava, sem hesitação.
Ó filho, mas o que tu dizes tentava a mãe pacificá-lo. Os médicos estão cá para ajudar, para que as pessoas vivam mais e melhor. Não há razão para ter medo.
Pois, são bons é para eles próprios atirava David, sentindo metade da alma levar fuga naquele dedo espetado. Que se tratem a eles a mim deixem-me em paz!
Dispensa-se contar o que David sentiu quando os pais o arrastaram ao dentista para arrancar um dente. Os gritos atravessaram portas e janelas fechadas. Não foi experiência agradável, nem para ele, nem para quem o ouvia.
Não era de admirar, portanto, que já em adulto fugisse de médicos e hospitais como o diabo da cruz. Sempre que podia, mantinha-se o mais longe possível de tudo o que cheirasse a batas e rebuçados de menta, guardados no bolso do farmacêutico.
Mas as voltas da vida levaram-no, contra vontade, ao Hospital de Santa Maria de Lisboa. Apanhou um ataque de apendicite, mesmo na noite em que ia levar a Benedita a jantar. Ela foi quem chamou a ambulância quando lhe viu a cara cinzenta de dor.
Não chames ambulância, já me passa pedia o David, quase em súplica.
Não digas disparates, David. Vê-se logo que é grave. Aposto que tens o que eu tive: apendicite.
Foi assim que David, mesmo a contragosto, foi parar àquele hospital onde os corredores, só com o cheiro, já lhe deixavam suar frio.
Mal imaginava e aquele pensamento gelava-lhe o sangue que cirurgiões iriam mexer na sua “vida interior”. E, ainda, ao ver, de relance, dois auxiliares calados a empurrarem uma maca com alguém que “já não sofria”, sentiu o peso da fatalidade cair-lhe em cima dos ombros.
Já está, não volto mais para casa nunca mais vejo a Benedita. Queria pedi-la em casamento Não tive tempo. Porque é que isto me aconteceu?
Mas não se preocupe tanto garantiu a enfermeira, notando o pânico no ar. Vai correr mesmo tudo bem.
Pois, duvido disso tornou David, só para si.
A enfermeira continuou, tranquila:
Olhe que foi operado a tempo. Se tivesse esperado seria pior, poderia ter complicações graves.
E de facto, a operação decorreu sem sobressaltos. Pela primeira vez, em anos, David saía do hospital sem traumas adicionais. Nada doeu. E, inesperadamente, deixou-se embalar por um sono pesado, acordando só para mudar o soro.
Na manhã seguinte
Descobriu que tinha agora um vizinho de quarto: um velho franzino, rosto queimado pelo tempo.
Só me faltava esta, pensou David, aborrecido. Ainda vou ter de ouvir a história da vida toda do velhote
Não, ele só queria silêncio, paz, ninguém a chateá-lo. Nem à Benedita telefonou: mandou-lhe um SMS (estou bem, não te preocupes) e devolveu o telemóvel à almofada.
E ficou a matutar na reviravolta do destino. Havia mais de um ano que vivia com Benedita e ontem ia pedi-la em casamento. Reservara mesa num restaurante de Alfama, combinara com os músicos para tocarem Canção de Mar, a música preferida dela. O anel estava pronto numa caixinha. Tudo pensado até ao prato falso onde viria o anel.
Mas o destino trocara-lhe as voltas. Agora estava ali, caído de cama, com um desconhecido.
Para surpresa sua, o idoso não se pôs a contar lérias. Cumprimentou-o com educação, e depois limitou-se a cochichar para si, especialmente quando o telemóvel ficou sem bateria, após horas em vão a tentar telefonar a alguém.
Não tinha carregador. E, para aquele velho Nokia, ninguém naquele hospital tinha, sequer, algo parecido.
Quando o aparelho se apagou, os olhos do idoso foram inundados de lágrimas. David, sem saber porquê, sentiu-se desagradavelmente envergonhado pela sua anterior má vontade.
Passado um tempo, sentou-se à beira da cama e arranjou coragem.
Está tudo bem consigo?
Não não consigo falar com o meu filho respondeu o idoso num lamento.
Ele não sabe que está aqui?
Sabe A enfermeira telefonou-lhe quando dei entrada. Mas ele não quer falar comigo na mesma. Discutimos há meio ano, pouco antes do meu aniversário. Queria pôr-me num lar para vender a casa. Eu não aceitei mas não foi por causa da casa
O idoso contou a David como entrara de urgência no hospital, vítima de um ataque de coração. Os médicos estabilizaram-no, mas disseram-lhe logo que só uma operação lhe podia salvar a vida.
Está marcada para depois de amanhã, suspirou mas nem sei se lá chego. Pode ser que vá antes.
Não diga disparates! tentou David animá-lo. Os médicos estão cá é para ajudar. A mim tiraram-me o apêndice ontem e cá estou, rijo como um carapau!
O velho esboçou um sorriso, percebendo que David não via a diferença entre apêndice e coração, mas não o corrigiu.
Fiquei só com uma cadelita, a Deolinda. Fica lá fora. Era só o que queria: pedir ao meu filho para tomar conta dela, caso me vá embora. Ou então, ao menos, tratar que a Deolinda encontre bons donos. Os vizinhos não podem; já têm muitos bichos. E o meu filho podia, ao menos uma vez, cumprir o último pedido do pai afinal, a casa que tanto deseja é para ele. Mas não atende as minhas chamadas Nem à enfermeira quis ouvir. É o filho que tenho
Lamento murmurou David, pensativo.
Preocupa-me a Deolinda. Como ficará sozinha quando eu cá não estiver? Ninguém cuida dela, fica na rua
Este velho é um bocado estranho; com uma cirurgia tão arriscada e pensa numa cadela. Mas, ouvindo a história sincera de como aquele animal se lhe colara ao destino e de como foi encontrada numa valeta, num dia de chuva, meia morta David percebeu. Aquela Deolinda era tudo para o idoso.
Encontrei-a precisamente no dia dos meus anos, há seis meses. O meu filho nem me deu os parabéns, não tenho mais família. A minha mulher, santa mulher, morreu há cinco. Curiosamente, na véspera dos meus anos, sonhei com ela vinha com uma cadela à trela e sorria-me. No mesmo dia, encontrei a Deolinda, amarrada e ao frio, junto ao supermercado. Perguntei a toda a gente, ninguém sabia de quem era. Esperei horas, debaixo de chuva, que alguém a viesse buscar. Quando anoiteceu, percebi que ninguém viria, e levei-a para casa.
E ficou com ela?
Fiquei. Que podia fazer? Foi a mulher a mandar-me companhia lá de cima. Ninguém acredita, pois, mas acredito que sim.
David acenou, não querendo desmontar a fé do idoso.
Em três semanas tentei ainda encontrar-lhe o dono, pus avisos pela cidade Mas ninguém apareceu. E quis o destino: a Deolinda tornou-se mais do que amiga. É o sentido da minha vida, sabe? Sem ela, a casa ficou às escuras.
Nessa noite, David pensou muito na cadela que agora vagueava pelas ruas de Lisboa. E no filho cruel, capaz de virar as costas ao próprio pai.
A imagem perseguiu-o mesmo nos sonhos: sonhou com uma cadela pequena, parecida com Deolinda, a farejar passeios, olhos tristes, sozinha.
De manhã, David acordou alarmado com o som rouco do velhote, aflito, agarrado ao peito.
Chamo um médico?! saltou da cama.
Não depois murmurou o idoso. Telefona ao meu filho, Miguel. O número está no papel, em cima da mesa. Se ele quiser, que venha despedir-se. E, se não quiser, ao menos que cuide da Deolinda Assim, parto mais descansado
David hesitou chamar o médico de imediato, ou cumprir primeiro o último desejo do velho? Tremendo de nervos, pegou no telemóvel, digitou o número rabiscado no papel.
Sim? É o Miguel? Sou o colega de quarto do seu pai ia dizer o nome, percebeu que não sabia sequer o apelido. Nem se tinham apresentado.
Armando Nogueira murmurou o velho.
Armando Nogueira, sim. Ele está mal e pede que venha vê-lo.
A morrer, é? Em que hospital está? O de Santa Maria, não é?
Sim, Santa Maria, terceiro andar, quarto 314.
David passou o endereço completo e, depois, correu chamar a enfermeira.
Então, como se sente? perguntou instantes depois, já de regresso, segurando-lhe a mão trémula. Aguente, que a enfermeira já chamou o médico. E o seu filho disse que vinha. Não feche os olhos, está bem?
O coração de Armando Nogueira parou antes mesmo do médico chegar. Dee certeza, não sentiu dor: serenou-se, mãos nas de David, olhos carregados de paz.
Cerca de vinte minutos depois, os mesmos auxiliares de antes chegaram para levarem o ex-colega de quarto de David para sempre.
***
O seu pai morreu quase nos meus braços informou David, no dia seguinte, quando Miguel apareceu.
Pronto, ao menos foi assim respondeu o filho, com um tom quase aliviado. Ao menos não ficou acamado a dar trabalho, como acontece a muita gente. Eu próprio já nem tenho tempo para nada trabalho, família, sabe como é. Menos uma preocupação.
O seu pai pediu várias vezes que olhasse pela Deolinda, a cadela.
A cadela? Pois Ele apanhou-a na rua, andou sempre mais preocupado com o bicho do que com ele próprio. Por causa dela não quis ir para o lar, quando bem lhe fazia melhor companhia Se tivesse ido, ainda cá estava.
Foi o último pedido do seu pai. Podia ao menos respeitá-lo, já que a casa fica para si
Miguel encolheu os ombros, trocou olhares frios com David, recolheu o velho Nokia do pai, enfiou o papel do número no bolso e saiu sem palavra de despedida.
David ficou a pensar como o mundo podia ser cruel. Aquele homem, setenta e sete anos, podiam ter sido noventa. Outros chegam aos cem, mas a vida não quis assim.
E o cão? Agora, restava-lhe vaguear, sozinho, pelas ruas de Lisboa.
Duvido muito que o Miguel cumpra a vontade do pai. Deve vender a casa, a Deolinda há de ficar ao abandono… Se os vizinhos ainda a derem de comer, menos mal. Se não
Na noite seguinte, David sonhou com Armando, a vaguear pela cidade, chamando pela cadela. E ambos, homem e animal, choravam.
O estranho é que esses sonhos continuaram, mesmo depois de ter voltado para casa. E Benedita, atenta ao namorado, não pôde deixar de notar a tristeza.
David, está tudo bem?
Está Só penso
Em quê, se posso perguntar?
É complicado. Fiquei no hospital com um senhor idoso. Teve um ataque de coração, queriam operá-lo mas não houve tempo. Só que ele deixou uma cadela, a Deolinda. E o filho, não ligou nenhuma. O Armando ainda lhe telefonou várias vezes, mas nunca respondeu. No fim, quando ele veio ao hospital, já era tarde. Eu falei-lhe da Deolinda mas percebi logo, nos olhos dele, que só o interessava era vender a casa. Estava, até, a falar ao telefone com uma agência imobiliária, para saber o que precisava para vender logo E fico a pensar na sorte daquela cadela, sem culpa nenhuma. Aposto que, se é amiga como o dono, também é especial.
Então, vamos procurar? sugeriu Benedita. Se ela ainda anda pela zona, ficamos com ela. Tu sempre quiseste um cão…
Estás a falar a sério?
Claro! Ia ser bonito termos um cão. Fazíamos caminhadas juntos. E, confia, tu e a Deolinda vão dar-se bem.
És um génio, Benedita sorriu David, beijando-a. Mas, espera, como é que havemos de saber o endereço?
Deixa isso comigo, disse, piscando-lhe o olho. Só precisamos passar pelo hospital, mas antes vamos à mercearia: eu cá não resisto a um bom chocolate e um frasco de café moído.
Ao fim de algum tempo, com a simpatia de Benedita mais um sorriso e um presente irresistível, a funcionária da receção do hospital cedeu e, discretamente, escreveu o endereço numa folha.
Menos de uma hora depois, lá estavam eles nos Olivais, diante de uma pequena casa antiga, com vedação verde a cair de madura.
Percorreram a rua, olhos atentos. Nada de cadela. Uma vizinha aproximou-se.
Procuram alguém? Estão perdidos?
Não, obrigada respondeu David. Sou amigo do senhor Armando, que acabou de falecer. Queria saber se viu a Deolinda
A cadelinha? Ai, pobre bicho Ficou dias seguidos à porta a esperar por ele. Uivou noites inteiras, pobrezinha. Um destes dias, o Miguel o filho dele chegou, levou-a, nem disse para onde. Só sei que não ficou cá mais. Nem ele foi-se, e nunca volta.
E para onde a levou? Sabe?
Diz que arranjou quem ficasse com ela, mas duvido. Era um homem sem paciência para animais, sempre foi assim, desde puto. Há coisas que não mudam
A vizinha mostrou, no telemóvel, a foto da Deolinda: uma corgi de olhos espertos.
Que gira murmurou Benedita. E tão pequenina!
Desejo-lhe sorte, meus amigos despediu-se a vizinha, abanando a cabeça.
David e Benedita circularam pelas ruas, perguntaram aos transeuntes, mas a Deolinda parecia ter desaparecido do mapa. Quando tentaram telefonar a Miguel, ele já os bloqueara. Nem mensagens, nem chamadas.
Vamos pensar positivo, talvez ela esteja bem disse Benedita, com um fio de esperança.
Ainda suspiravam, quando o trânsito os obrigou a fazer um desvio. A caminho de Chelas, Benedita avistou, no meio de arbustos, uma cadelita pequena, igualzinha à da foto.
David, não será ela?!
Parece. Vamos ver.
Trataram de estacionar, acercando-se devagar do animal, que os espreitava, desconfiada.
Deolinda Deolinda! chamou David, suave.
A cadela hesitou, cheirou o ar. Aproximou-se devagar e, de repente, como que reconhecendo a mão de quem tinha cruzado com o dono, encostou a cabeça à palma de David e wagou vigorosamente a cauda. Sentiu nela o cheiro de Armando.
David afagou-a, de olhos húmidos. Benedita também se emocionou. Entre lágrimas e sorrisos, meteram a Deolinda no carro e seguiram, finalmente, para casa. Deolinda, sentada no banco de trás, fechava os olhos num sono tranquilo.
***
Pois, está visto o que vale o Miguel disse David já em casa. Diz que a encaminhou, pois. Deitou-a fora e pronto.
Deixa lá contrapôs Benedita. O mundo dá voltas. O mais importante é que salvámos a Deolinda. Agora tem família. O Miguel, um dia, há de sentir o mesmo que fez ao pai.
Tens razão sorriu David, olhando para Deolinda enrolada no sofá, adormecida, a sonhar de certeza com um reencontro.
Chegou-se ao armário, tirou a caixinha do anel.
Nessa mesma noite, finalmente, pediu Benedita em casamento.
Não foi num restaurante nem com música mas foi o momento certo.
Percebeu, então, que há coisas que não podem esperar pela ocasião perfeita. O importante é não deixar para amanhã.
E Benedita disse sim, sem hesitar.
Aqui fica a históriaNo dia seguinte, David acordou cedo com Deolinda a lamber-lhe os dedos dos pés. A luz filtrava-se suave pela janela, misturando-se à felicidade discreta e tranquila que sentia ao ver Benedita ainda a dormir, sorriso escondido nos cabelos revoltos. Por um instante, David pensou em Armando e imaginou que, de algum lugar, o velho sorria também, aliviado por ver cumprido o seu último pedido. Imaginou-o jovem, correndo nos campos com Deolinda ao lado, livre de mágoas antigas.
Sentiu o peso de perguntas e culpas a dissolverem-se. Não era preciso compreender todos os porquês: a vida era aquilo, encontros breves, gestos simples, a coragem de fazer o que está certo. Às vezes, salvar um pequeno cão era salvar pedaços do que restava de esperança no mundo.
Benedita abriu os olhos e sorriu-lhe.
Bom dia, futuro marido.
David riu.
Bom dia, família.
E Deolinda, espreguiçando-se feliz aos seus pés, pareceu concordar.
Lá fora, a cidade recomeçava o bulício. Mas naquela casa, por fim, havia paz, e uma certeza: alguns finais são melhores porque contra todas as probabilidades acontecem.






