Traição sob a Máscara da Amizade
Este inverno parecia determinado a mostrar-se digno de cartão postal: caiu tanta neve que Lisboa ficou irreconhecível, parecendo saída de um conto de fadas. Flocos fofinhos rodopiavam no ar sem pausa e pousavam em telhados e calçadas, enquanto o frio dava à cidade um ar limpo e cristalino. Bem, se Lisboa tivesse estas neves, claro mas vamos fingir, só pelo encanto da narrativa.
Dentro do aconchego do apartamento de Matilde e Gonçalo, reinava outro tipo de paisagem: o calor e o sossego. Pela janela via-se um mundo branco (melhor olhar para o Chiado assim do que aturar filas nas pastelarias), mas cá dentro abria-se um refúgio sereno. A luz da velha candeia de mesa criava uma aura dourada que afugentava qualquer brisa fria.
O casal estava refastelado no sofá, embrulhado num cobertor tão fofo quanto o algodão doce da Feira da Luz. Na televisão passava mais uma comédia familiar destas que servem para descontrair e rir aquele tipo de filme sem grande mensagem profunda, para não obrigar o cérebro a dar voltas. Matilde seguia as cenas com atenção, sorrindo de vez em quando aos seus próprios pensamentos. Gonçalo estava relaxado, a olhar para a televisão, mas o olhar fugia para os flocos que dançavam do lado de fora. Era impossível não contemplar aquela beleza nórdica em plena capital.
O ambiente foi interrompido pelo toque insistente do telemóvel de Gonçalo. Não atendeu de imediato, como se duvidasse de quebrar aquela paz doméstica. Só que o telefone era teimoso e continuou a tocar, sem se dar por vencido. Com um suspiro resignado, o homem pescou o telemóvel do bolso, olhou para o ecrã e voltou a suspirar:
Outra vez o Diogo… comentou para Matilde. Terceira vez só hoje!
Matilde virou um pouco a cabeça na sua direção, sem tirar os olhos da televisão.
Aposto que quer convidar-te para ires a casa dele, não? Comprou aquela quinta nova, deve querer celebrar a valer. Mas por que será que esse homem nunca aceita um não com elegância?
Gonçalo passou o dedo pelo ecrã e atendeu, esforçando-se por parecer entusiasmado:
Olá, Diogo!
Ó Gonçalo! Então, quando é que vens? Olha que isto está tudo pronto! A lareira já arde, tem mesa posta, pessoal animado… Anda, homem! E traz a Matilde. Até parece que tens medo de te divertires!
Gonçalo demorou uns segundos, a pensar numa resposta decente. Pisou o risco e fitou Matilde, que abanou a cabeça discretamente sinal de bem me apanhas se for agora a correr aprontar-me para o barulho. Eles preferiam mil vezes o planinho deles: silêncio, mantinha, sofá… essas festas barulhentas podiam esperar.
A hesitação não durou muito; uma ideia astuciosa brilhou-lhe na cabeça.
Ouve, Diogo, a coisa complicou-se um bocado… baixou o tom. A Matilde foi passar dois dias a casa da mãe. Se eu apareço sozinho, depois ainda alguém mete conversa torta e arranjo problemas com ela… Vou declinar desta vez, está bem? Mas prometo, ficamos para outra.
Do outro lado, o Diogo ficou em silêncio uns instantes, até largar um tom surpreso:
A Matilde foi-se embora? E só volta quando?
Só amanhã ao fim do dia… explicou Gonçalo, com uma voz cheia de saudade inventada. Foi tudo repentino. E tínhamos tantos planos! Cinema, passeio à beira-Tejo, quem sabe até patinar ali no Terreiro do Paço, enquanto há neve (não todos os anos temos este espetáculo!). Mas não deu. A ver se é para a próxima, sim?
O Diogo ainda ficou em silêncio, como quem está a tramar alguma coisa, mas respondeu meio satisfeito:
Pronto, pronto, mas avisa quando ela voltar. Queremos muito ver-vos!
Claro, claro! Próximo fim de semana combinamos, se calhar.
Despediu-se, pousou o telemóvel na mesinha entre as cadeiras e soltou um suspiro de alívio.
Já me safei à justa… murmurou ele, virando-se para Matilde. Mas porquê esta pressa toda? Eu já deixei bem claro que não me apetecia muito ir ao arraial dele. Aquilo é só copos e barulho, só vêem a noite como só mais uma… Nem vale a pena lembrar. Prefiro mil vezes isto: tu, eu e o sofá.
Apertou-a num abraço e o stress da chamada rapidamente se dissipou no calor daquela sala. O filme rolava na televisão, as luzes criavam um cantinho seguro bem longe dos jantares festivos típicos das famílias portuguesas, com crianças aos saltos, avós a berrar e primos a jogar cartas.
Matilde aninhou-se junto a Gonçalo, a sentir-lhe o calor e o bater do coração. Ali estavam só eles, envoltos no seu mundo; a luz suave, o filme a preto e branco (um clássico, claro, porque são sempre os favoritos dos que gostam de ver cinema de verdade), o tic-tac discreto do velho relógio de parede. Tudo fazia sentido. O mundo lá fora que espere.
Também acho, disse ela, espreitando-lhe nos olhos. Hoje é só filme e cama. Não precisamos de mais nada.
Ele sorriu e apertou-a com uma confiança feliz. Era já capaz de ver o fim perfeito para o dia: dali a pouco, apagavam as luzes, enfiavam-se debaixo da mantinha, e ficavam a ouvir de longe o vento e a neve a bater nos vidros. Mas… só que não. O telemóvel voltou a tocar, qual gaivota a acordar o pescador às cinco da manhã. O mesmo número, pensou quase resignado.
Gonçalo franziu o sobrolho ao ver quem era: opa, outra vez o Diogo? Lá estendeu a mão e atendeu, mas agora já pouco paciente.
Ó Diogo, eu já disse…
Gonçalo, o tom do Diogo estava agora inquietante, daqueles que anunciam desastre estou no Clube Cristal, viemos aquecer para a próxima festa… E encontrei aqui a Matilde. Com outro homem. Estão a beber, estão em modos… Percebes? Achei que devias saber. Ela não está em casa da mãe. Alguém não está a ser sincero…
Gonçalo imobilizou-se, olhando de esguelha para Matilde, depois para o telemóvel, como quem pensa será que ele está a gozar comigo?.
O quê? Tens a certeza? Não estarás a confundir? Eu sei bem onde está a minha mulher!
Certinho direitinho, pá! Ela já vai bem lançada, aos abraços ao tipo. E disse-me para não me meter. Queres falar com ela?
Gonçalo fechou os olhos um segundo para alinhar os sentidos. O filme parecia ter parado, o som da sala esfumou-se num silêncio estranho.
Pronto… passa-lhe o telefone. Quero ouvir esta história.
No altifalante ouviram-se uns graves de música pimba, intercalados com risadas e vozes abafadas. E então apareceu um timbre feminino assustadoramente parecido com o de Matilde.
Sim? Quem fala? soou do outro lado, já com ligeira hesitação.
Gonçalo olhou para Matilde, que estava ao lado dele, de olhos arregalados. O mistério adensava-se.
Matilde? És tu? Isto é o Gonçalo. O que é que se passa?
Do outro lado, uma gargalhada seca, e o mesmo tom, agora atrevido:
Ó Gonçalo, já chega, pá! Deixa-me viver. Fartei-me desta rotina tua. Quero sair, dançar, beber cansada dessa vidinha aborrecida.
Matilde saltou do sofá, branca como papel.
Que raio! Só me faltava esta! Mas quem é esta gaja e porque é que sabe o teu nome? O que é que se passa aqui?
Então e tu estás onde?
E isso interessa? Queres saber tudo agora? Andas tão controlador! Eu faço o que me der na real gana!
Nova explosão de gargalhadas, depois o Diogo volta ao telefone:
Ouviste, Gonçalo? Toma lá eu avisei!
Gonçalo cortou-o, completamente farto da telenovela:
Chega. Amanhã vejo isso. Agora não me chateies.
Desligou bruscamente, atirou o telemóvel para o sofá e ficou ali, a olhar para o teto, a pensar que se Matilde não estivesse mesmo sentada ao seu lado teria engolido aquela história toda.
Matilde caiu sentada ao lado, boquiaberta, ainda a digerir tudo. Mas o que era aquilo? A voz era parecida, mas… não era ela! Alguém tinha de lhe ter dado um guião nem dúvidas!
Bem, isto está bonito… murmurou, com a voz um pouco presa. Que raio foi isto? Que teatrinho!
Gonçalo passou a mão pelo cabelo, já todo despenteado.
Não faço ideia. Mas aquele timbre… igualzinho. Riso, pausas, nervosismo, tudo… alguém treinou para isto!
E o Diogo armou-se em certezas disse ela, a voz a tremer . Imagina que eu realmente não estava cá. Terias acreditado?
Gonçalo puxou-a para junto de si e respondeu, firme e confiante:
Ia sempre desconfiar. Conheço-te demasiado bem. E não és dessas. Isto parece uma brincadeira muito mal feita e vou descobrir. Se for preciso, meto-me no clube a pedir câmaras. Quero ver a tal Matilde.
Ela aconchegou-se, sentindo finalmente o frio a passar.
Pois, não era eu. Mas quem e porquê?
Gonçalo fez um encolher de ombros, mas o olhar dele já não pairava na trapalhada agora estava decidido. Apertou-lhe a mão, dizendo sem palavras: juntos, ninguém os abalava.
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No dia seguinte, quase à hora do almoço, Matilde estava na cozinha, com o laptop à frente e uma chávena de chá verde. O telefone tocou Diogo. Hesitou, mas não resistiu à curiosidade. Tinha de tirar isto a limpo.
Olá, começou ele, com voz hesitante. Falaste com o Gonçalo depois de ontem?
Matilde apertou o telefone, pronta a meter-se ao barulho, mas decidiu virar o jogo:
Sim… discutimos. Ele ficou todo desconfiado, diz que eu lhe minto. Nem quis ouvir-me.
Diogo fez uma pausa. E lá veio aquela satisfaçãozinha, meio oculta, mas está lá.
Pois… sempre disse que ele nunca te deu o devido valor. Tu mereces mais.
Matilde controlou a vontade de revirar os olhos.
O que queres dizer, Diogo?
Ele baixou o tom quase confidencial, sussurrado:
Quero dizer que já devia ter-te dito isto… Gosto de ti. Muito. Sempre gostei. Se te fartares do Gonçalo… estou cá. Ele não te merece. Eu dava-te tudo, Matilde.
Ela ficou em silêncio, processando. Há quanto tempo andava aquilo por trás? E só agora a abrir o jogo, logo depois daquele teatro barato Será que foi ele a urdir tudo? De certeza.
Respirou fundo e respondeu, com voz firme:
Isso é muito descabido. Amo o Gonçalo. Vamos resolver isto sem a tua ajuda.
Tens razão, desculpa se fui longe demais… com a confiança já a esvair-se. Mas olha, o Gonçalo disse-me umas coisas estranhas, parece que andava à procura de uma desculpa para te largar. Quero que fiques bem…
Matilde fechou a mão tanto que os dedos ficaram brancos. Só faltava perder as estribeiras agora!
Olha, Diogo… a voz dela estava gelada primeiro, estive em casa ontem. Segundo, não discutimos. Terceiro, já percebi toda a armadilha. Trocaste os pés pelas mãos.
Pausa. Ouviu-se o cérebro dele a chiar, a engendrar uma saída.
O quê? Estás a falar de quê?
Que arranjaste uma miúda para fingir ser eu. Ensaiaste-a e puseste-a ao telefone. Só para me lixar com o Gonçalo. Para quê, Diogo?
Silêncio. E de repente, desabou:
Sim! Fui eu que planeei. Porque gosto de ti, Matilde! Porque ele não te merece! E queria que visses finalmente quem tem verdadeiro apreço por ti.
Ela fechou os olhos ao ouvir a confissão, mas manteve o sangue frio.
Que belo apreço… Traíste a amizade, Diogo. E esperavas o quê?
Riu-se sem alegria, um riso seco:
Felicidade? Achas mesmo? Tu, mulherengo como és? Vais mas é dar uma volta. Se fosses o último homem do mundo, nem assim!
Ele titubeou, sem saber que mais dizer. E depois, voz pequena, como quem já perdeu:
Só queria que visses que sou melhor que ele. E quanto ao resto… tentei arranjar distrações para te esquecer. Mas nenhuma chega aos teus calcanhares.
Só que Matilde não estava para mais novelas:
Olha, chega. Foste tudo menos amigo. Foste falso. E tudo porque? Por uma ilusão tua?
Agora era ela que ditava o final.
Matilde, desculpa… foi só um sopro no telefone, já sem chama.
Mas ela já tinha decidido. Não havia volta a dar.
Não vais ter perdão, nem amizade. Não procures mais, nem a mim nem ao Gonçalo. E vou gravar esta conversa para ele ouvir, já agora.
Desligou o telefone e pousou-o na bancada. Respirou fundo, sacudindo os resquícios de raiva. Olhou para fora: Lisboa continuava envolta naquela camada branca de sonho, como se nada tivesse acontecido.
Nisto, entrou Gonçalo na cozinha. Reparou logo que ela estava séria.
Então?
Ela virou-se para ele, esboçando um sorriso triste:
Está tudo desvendado. Ele planeou tudo confessou-se apaixonado, tentou que discutíssemos, prometeu-me o mundo…
Gonçalo sentou-se ao lado dela no sofá, pegou-lhe na mão com firmeza, transmitindo apoio e carinho.
Então nunca foi amigo respondeu baixo. Deixa-o. Já não gastas nem uma lágrima com isso. Sempre achei qualquer coisa estranha, mas estava a tentar dar-lhe o benefício da dúvida.
E agora está tudo claro, concordou ela, encostando-se a ele . Ao menos não precisamos mais de desculpas para faltar a festas e jantares.
Sorriu-lhe, meio malandra:
Olha que até é bom. Agora, sempre que alguém convidar para festas ou almoços de família, posso responder: Desculpem, mas não posso estar no mesmo sítio que tal pessoa. Parece-me justo!
Desta vez Gonçalo desatou a rir, sem reservas.
Fechado! Ficamos a ver filmes e a beber chá que se lixe a vida social.
E a dormir sem pressas, sorriu ela, puxando o cobertor, num cantinho só deles.
Perfeito, concordou ele, enlaçando-a com mais força.
Assim, com a neve a cair devagar lá fora, o aroma do chá e da madeira quente, o mundo voltou a ser o que era: seguro, fiel, só deles. Não havia mais lugar para mentiras. Naquele ninho, o mais importante já lá estava confiança, calor e a certeza de que o resto, bem… pode sempre esperar para amanhã.
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Do outro lado da cidade, Diogo mastigava uma torrada fria na cozinha, amargurado, a olhar para a chávena vazia de café. Nem sabia quando bebera o último gole só dava voltas à mesma frase na cabeça: Não me voltes a telefonar. Nunca.
Ele bem queria sentir-se culpado, mas o que vinha era raiva surda, pesada, que pesava tanto nos ombros que até os bichos da loiça em cima do armário tremiam. Entre dentes, pensava:
Mas por que raio correu isto mal?! e esmurrou umas fatias de broa esquecidas no prato.
Lembrava-se da combinação com Mariana aquela rapariga nova do café, que fisicamente até podia passar por Matilde e, com uns minutos de ensaio, tinha apanhado o timbre ao jeitinho. Quando Diogo lhe explicou o esquema, ela achou hilariante: Sempre quis ser atriz. Vamos a isso!
Passo a passo, lembrou-se de cada gesto no clube, dos olhares, das instruções tudo estudado. Na sua cabeça, era inequívoco: se tudo corresse como planeado, Matilde via finalmente que Gonçalo não a merecia e a história mudava.
Agora ficou a ver passar o comboio: perdeu Matilde, perdeu Gonçalo, perdeu tudo. Mas aceitar? Isso é que não.
Passou pela janela, olhou o manto branco e resmungou baixinho:
Porque é que lhes corre tudo bem e a mim nada?! Eu é que merecia! Eu sou melhor!
Sabia que a amizade com Gonçalo também tinha desaparecido, como pegadas na neve. Mas não admitiu derrota; preferiu alimentar o ressentimento.
O telemóvel, de castigo na mesa, nem mexia. Não voltaria a marcar. Não ia implorar nem desculpar-se. Ela que ficasse com o seu Gonçalo, as suas mantinhas e as suas noites de chá de camomila. Mas, lá no fundo, só repetia para si mesmo:
Isso devia ser eu a viver naquele mundo. Era a minha vez…
E lá fora, Lisboa ou noutro universo, a Lisboa com neve continuava tranquila, indiferente aos desaires e lições de amor dos seus habitantes.







