Parente Noturno e o Preço da Quietude
Só não outra vez… murmurava Mariana, olhando para o lava-loiças cheio de água com espuma.
Os ponteiros do relógio da cozinha teimavam em apontar para a 1:15. A casa repousava num silêncio quebradiço. No quarto ao lado, a pequena Benedita ressonava levemente. Na divisão de dentro, devia já sonhar o Samuel. A luz baça do candeeiro desenhava um círculo amarelo na mesa, onde repousava sozinha uma caneca de chá de tília, já fria.
A campainha rompeu o silêncio como lâmina. Longa, insistente, com aquelas pequenas pausas onde Mariana desejava, impotente: por favor, noutra noite.
Do quarto chegou-lhe o sussurro sonolento do Samuel, que reconheceu logo:
É outra vez ele?
Mariana secou as mãos ao roupão e abafou o bocejo aquele mesmo que queria transformar num sinal para o mundo: Estou a dormir, deixem-me em paz e dirigiu-se ao corredor. Sentia uma mistura irritação, e um quê de vergonha por estar irritada. E cansaço, o cansaço pesado, a puxar-lhe os ombros para baixo como edredão molhado.
No óculo, viu a silhueta conhecida. Largo de ombros, com um casaco velho de cabedal e boné empurrado para trás. O sogro, Joaquim Gonçalves, como sempre. Estava meio virado, encostando uma mão à parede e apertando contra o corpo uma caixa de cartão volumosa.
Aos pés, o inevitável saco de supermercado com logótipo verde. Mariana já sabia: bolachas. Sempre as mesmas.
Abriu.
Marianinha! O sorriso de Joaquim quase fazia esquecer que era madrugada. Ainda acordados? Ótimo. É só dez minutinhos.
Boa noite, senhor Joaquim respondeu ela, forçando um sorriso. Por acaso já é mesmo noite.
Eh pá, a noite ainda é uma criança! fez um gesto largo. E eu também, enquanto as pernas me obedecerem. Deixas-me entrar, não? Trouxe… um tesouro.
Levantou a caixa. Na tampa, colada, uma etiqueta desbotadaFilme 8mm. Num canto, escrito à mão: 1978. Fim de ano. Casa. A caixa cheirava a pó, a armários antigos e a algo de um tempo que Mariana só conhecia de fotografias.
Encontrei isto, imagina! Joaquim já se esgueirava para o hall, ignorando formalidades. Estava no sótão do vizinho. Disse-lhe: Isto é meu! Ele sem acreditar, até ler o nome da Laurinda reconheceu a letra dela. É dela, sim senhora.
O nome da Laurinda, mulher do Joaquim e falecida há década, parecia ecoar no corredor como uma sombra.
Do quarto apareceu Samuel, semicerrando os olhos à claridade, vestido com a t-shirt desbotada e umas calças de fato de treino.
Pai tossiu. É uma da manhã.
Pois é! animou-se Joaquim. Horas perfeitas para recordar. Estás tu a queixar-te? Na tua idade, a esta hora, os bailes estavam a começar!
Mariana sentia cada som exuberante do sogro a retinir-lhe na cabeça. E ainda assim, apanhou-se a pensar: Coitado, ele está sozinho. Com a casa às escuras. Deve ter medo, talvez.
Venham à cozinha disse, engolindo um suspiro que ameaçava ser lamento. Mas devagarinho, a Benedita está a dormir.
Evidentemente sossegou Joaquim, já a tirar o casaco com barulho. Eu sou como um rato.
Rato não, sino de bombeiros, pensou Mariana.
***
Na cozinha, Joaquim sentou-se como sempre no lugar mais perto do radiador. As costas não gostam das correntes de ar, explicava invariavelmente. Mariana pôs-lhe a caneca à frente, enchendo de chá mecanicamente, em serviço fora de horas.
Samuel, ainda a bocejar, sentou-se em frente ao pai e pôs o olho na caixa.
O que aí vai? perguntou.
O nosso cinema replicou Joaquim, cerimonioso. Um rolo de filme. Antiguinho, mas resistente. A tua mãe lá, tu em miúdo. A árvore de Natal, saladas e a cara da tua tia Augusta, que tinha gofou um nariz de fazer inveja.
Mariana sentou-se de lado, apoiando o queixo. O relógio quebrou o silêncio com cada minuto 1:27, 1:28… Para Joaquim, parecia que a movimentação só agora começava.
Lembro-me, abrimos a porta já depois da meia-noite narrava ele. O primo António chegou com a mulher. Frio, neve, ainda gritaram: Entrem! A nossa porta está sempre aberta! A Laurinda então disse uma coisa ficou a remexer a memória. Durante a noite, as portas devem manter-se abertas para quem realmente precisa.
Mariana assentiu, as palavras a colarem-se-lhe à pele.
Pai Samuel esfregou os olhos. Quando é que vemos a fita? Não foi para isso que a trouxe?
Foi, foi saltitou Joaquim. Mas já não tenho o projetor. Pensei que pudessem ter aí um guardado.
Num apartamento minúsculo de Lisboa, guardamos um projetor de 8mm no meio do piano de cauda e da impressora industrial ironizou Mariana com cansaço.
Joaquim nem reparou na piada, como lhe era hábito.
Não faz mal, arranja-se. Se calhar tiro cópia no estúdio. Tu, Samuel, que percebes dessas modernices, tratas disso. Até lá conto-vos entre intervalos.
E falou: sobre a primeira máquina fotográfica, as férias no Minho, a Laurinda a rir-se enquanto lhe caía neve dentro do colarinho. As frases fluíam como chá servido por samovar inesgotável, sem uma réstia de noite no tom, como se vivesse à ordem das memórias e não do relógio.
Mariana ouvia, mais por sentir do que por compreender. Na cabeça ecoava o refrão: Amanhã, levantar às sete, Benedita para a escola, relatório do trabalho, os olhos a fechar…
***
Um rumor fê-la sobressaltar-se.
Na ombreira da porta, a pequena Benedita, de pijama às riscas cor-de-rosa, esfregando os olhos com o punho, cabelo em desalinho.
Mãe murmurou, tropeçando no tapete.
Benedita, porque acordaste? Mariana agarrou a filha, impedindo-a de cair.
Queria água disse, meio a dormir. E… sonhei outra vez com o avô.
Joaquim, ao ouvir avô, endireitou-se todo:
Está a ver? As crianças sentem ligação!
Benedita olhou-o ainda enevoada, meio acordada meio a sonhar.
Sonho contigo todas as noites afirmou com solenidade. Bato à porta e não consigo fechá-la porque a maçaneta está quente.
Mariana sentiu um gelo apertar-lhe o estômago. Samuel franziu o sobrolho.
Mas o que são esses pesadelos? sussurrou ele.
Não são pesadelos contrapôs Joaquim. É a alma da miúda a puxar ao avô.
Ou à paz, pensou Mariana, mas só articulou:
Benedita, vamos para a cama, o avô depois… vem, eh… visitá-la.
À noite? clarificou a menina.
Mariana cruzou o olhar com o sogro. Joaquim olhava-a, genuinamente confuso, com olhos de criança.
Também pode ser de dia, filha respondeu Mariana suavemente. Melhor ainda.
A miúda suspirou e pendurou-se na mãe.
Mariana levou-a para o quarto, embalando-a, escutando os sons vindos da cozinha, já abafados mas sempre demasiadamente vivos para aquela hora.
Cobriu a filha e ficou a pensar: É sempre igual. Os dez minutinhos do Joaquim prolongam-se por uma hora de conversa bolachas, chá, olhos pesados e rachas no nosso ritmo.
No corredor, o relógio tic-tac. Os ponteiros já apontavam isso das duas. Mariana inspirou fundo. A paciência dela, como um despertador, também contava os segundos…
***
E cá estamos, outra vez à uma da manhã, lamentou-se Mariana, numa chamada uns dias antes. Sem vergonha, sem pudor! Parece que moramos na tasca O Filho aberta de madrugada.
A Olga, amiga dos tempos da faculdade, ria-se ao telefone.
George Melo de Silva! disse, com voz dramática. Aceita os meus sentimentos. A tua casa foi dominada pelo espírito notívago da geração anterior.
Muito engraçada suspirou Mariana. Mas falo a sério. Não consigo descansar. Estou sempre à espera do toque. E ele toca mesmo! Uma, uma e meia, duas Sempre só dez minutinhos.
Olha, pensa positivo retorquiu a Olga. Tens um modo noturno hardcore: levanta-te, aquece a chaleira, ouve o monólogo. O prémio é bolachas.
Mariana mal sorriu.
Traz sempre as mesmas disse. Daquelas de aveia, pacote verde. Já não as posso ver.
Isso já é símbolo meditava Olga. Devias pôr-lhe um despertador de visitas.
Como assim?
Telefona-lhe tu à uma da manhã.
Isso era cruel riu Mariana.
Brincadeira, lógico gargalhou a amiga. Mas olha, tens de pôr limites. Ele acha que está tudo bem porque abrem sempre a porta.
É o meu sogro, Olga murmurou. Está sozinho, a Laurinda já partiu, o Samuel é filho único. Como lhe vou dizer senhor Joaquim, não venha de noite? E tem o coração, a tensão alta, as memórias…
Também tens um coração. E uma filha, e trabalho. Pôr limites não é má vontade. Às vezes até ajuda todos, nem que só de um lado.
Mariana ficou sem resposta. A ideia das fronteiras soava-lhe desconfortável. Sempre pensou que nuora exemplar era a que aguentava tudo.
***
A primeira visita noturna de Joaquim aconteceu seis meses depois da morte de Laurinda.
Mariana ainda acreditava que era só desta vez, que o luto aparecia quando as ruas estavam vazias e ninguém via.
Ela e Samuel já estavam deitados. O quarto às escuras, só com a luz tímida da janela, o silêncio quase tornando-se sono, quando a porta do apartamento estremeceu com estrondo.
Quem será a estas horas? saltou Mariana.
A campainha tocava ansiosa, quase desesperada. Samuel vestiu-se à pressa e abriu a porta.
Joaquim estava no patamar despenteado, sem casaco, só de camisola e já sem boné. Os olhos brilhavam.
Desculpem murmurou, entrando ainda antes de ser convidado. Não consegui ficar lá. Está tudo vazio.
Cheirava a tabaco e vento frio. Na mão, o saco das bolachas de aveia.
Pai, aconteceu alguma coisa? Samuel inquietou-se. É a tensão?
Não acenou Joaquim, mas os olhos estavam perdidos. Só queria ver-vos.
O nó da garganta de Mariana desatou-se. Lembrava-se do funeral da Laurinda, Joaquim a segurar o chapéu, incapaz de encontrar um norte.
Levaram-no à cozinha e sentaram-no, providenciaram chá. Joaquim não fez anedotas, ficou calado, só lançando de vez em quando frases soltas:
Ela adorava beber chá de noite…
As mãos dele tremiam ao partir as bolachas.
Hoje vi estas bolachas na loja confidenciou. Conhecemo-nos junto daquela prateleira. Estendi a mão e ela também. Apanhámos a mesma caixa. Disse-me: Fique o senhor, eu tenho de olhar pela linha. Eu decidi logo ali… ia casar com ela.
Nessa noite, Mariana não sentiu irritação, só pena.
Pode vir sempre que quiser, senhor Joaquim disse depois, acompanhando-o até à porta, já amanhecia. Estamos aqui.
As palavras eram literais. Joaquim apressava-se a bater-lhes à porta sempre que precisava. E quase sempre, precisava depois da meia-noite.
Primeiro foi uma vez. Depois outra, passados dias. Depois um hábito: já Mariana nem sabia dizer quanto tempo era sem visitas.
***
Quando Mariana abordou Samuel sobre o tema, ele encolheu os ombros:
Pai sempre foi ave noturna dizia. Andava até altas horas a ler, a trabalhar. Em miúdo, apanhava-o na cozinha às duas, com livros.
Mas era casa dele replicava Mariana suavemente. Agora é a nossa.
Para ele esta casa é a continuação defendia Samuel. Estar sozinho lá deve ser um inferno. Ainda mais à noite.
Também me assusta confessava Mariana. Não dormir cansa. A Benedita acorda. E eu salto à porta como se fosse incêndio.
Samuel calava-se, enredado entre entender o pai e proteger a mulher. As palavras é o pai, coitado ficavam sempre no ar, um muro entre Mariana e um diálogo direto.
Uma noite, Mariana não aguentou, ficou na cama a fingir-se adormecida. Samuel foi, abriu a porta. Depois, ouviu-se sussurrar, passos, pratos. Ao fim de meia hora, Mariana, vencida pela curiosidade, aproximou-se da cozinha.
Joaquim estava sozinho, Samuel já se tinha ido deitar. diante dele uma pilha de fotos antigas, iluminadas apenas pela luz da secretária, desenhando uma espécie de palco íntimo.
Laurinda, eras tu bonita murmurava ele às fotos. Nesse vestido disseste que, se engordasses, eu deixava de gostar de ti. E eu, tolo, calei-me. Devia ter dito que nunca…
Virava a fotografia.
O Samuel aqui, pequeno ainda. Naquele televisor vimos cinema juntos. Lembras-te da visita do António às tantas, e estivemos todos até às três? E tu a dizer: Deixem entrar quem quiser, as portas só se trancam depois de morrermos.
Mesmo sozinho, havia na voz dele pedido. Por favor, que alguma casa não me feche as portas à noite.
Mariana, à porta, compreendia. O sogro não era um monstro. Era um grande rapaz perdido pela noite sem ninguém.
Ao cansaço, misturava-se piedade, tornando tudo ainda mais difícil.
***
Um dia, tentou brincar.
Era junho fresco, a janela do quarto entreaberta. Campainha à hora do costume. Em vez de correr a vestir o roupão, Mariana atirou por cima do pijama um kimono de seda florido e pousou sobre os olhos a máscara de dormir que a Olga lhe dera, erguida para ver.
Estás um filme comentou Samuel, trocista.
É a grande estreia de Noites Brancas com Joaquim Gonçalves, respondeu Mariana. E abriu a porta teatralmente.
Boa noite saudou. Agradecemos a sua presença no nosso exclusivo espetáculo noturno: chá, bolachas e olheiras crónicas.
Joaquim ria-se com gosto.
Gente nova tem piada! Pensei que se tinham feito velhos dormir às dez, acordar às seis!
Na cozinha, Mariana exibiu uma embalagem nova de café e apontou para o despertador que usavam para o forno.
Podia ser tradição: meia-noite à portuguesa. Chá, bolachas, guitarras só que o despertador das seis não perdoa, infelizmente.
Pois, mas ao menos há memórias! Em miúdo, viajávamos de comboio de noite, lembras, Samuel? Conversa e chá nas carruagens, gente amiga. As melhores conversas são estas.
A certa altura disse:
A vida tem portas que devem ficar abertas. Pode ser que alguém precise mesmo.
A frase ficou colada a Mariana, molhada, desconfortável, tocante.
Esses alguéns esquecem-se que dentro vivem pessoas também, pensou. Mas limitou-se a sorrir:
Também há janelas que convém fechar, para não entrar frio.
Joaquim, claro, não entendeu a segunda intenção. Atirou-se à história seguinte, indiferente à exaustão e irritação muda de Mariana.
***
Uma noite, ela não abriu a porta.
Benedita com febre, noite mal dormida. Mariana mal conseguira deitá-la, sentava-se já, exausta. A campainha pontualíssima.
Só hoje não murmurou.
Samuel estava de turno, só ela e a filha em casa. Ficou imóvel. A campainha voltou a soar. E depois, silêncio.
Contou até cem, duzentos. O coração a palpitar. Vês? Não abriste. Nada de mal aconteceu, sussurrou-se.
De manhã, ao abrir para deitar o lixo, viu o saco do costume junto à porta. A bolacha, embaciada da humidade da noite. E um bilhete, em papel de bloco: Adormeceram. Não quis incomodar. J.
E só. Nem queixa, nem lamúria. Só o saco.
Atingiu-a o misto de pena e raiva. Por que me sinto mal se só queria dormir?
***
Depois de novo serão noturno, a casa parecia manta húmida pesada e fria.
Benedita constipada fora várias vezes à cozinha, descalça, enquanto Joaquim contava anedotas. Ficara febril, tosse toda a noite. Mariana ia trabalhar e sentia-se cabisbaixa, olhos fundos, rodeada de copos de café.
Ao fim da tarde, a fazer sopa, olhou para Samuel e sentiu rebentar por dentro.
Já não consigo mais disse, sem erguer os olhos.
Então? Samuel preparava a chaleira.
Não vivo mais no ritmo dele. Não somos tasca de emergência, nem pronto-socorro. Temos uma filha, tenho trabalho e já nem me sinto dona da minha casa.
Samuel ia responder o costume é o pai, mas Mariana ergueu a mão.
Espera. Ouço sempre: É o pai, está sozinho, está a sofrer. E eu? Sou mulher, mãe, pessoa, também tenho corpo e limites. E ninguém me pergunta como estou.
O silêncio assentou na cozinha.
Vamos fazer assim mordeu o lábio. Quando ele vier esta noite, falamos juntos. Sério, sem piadas nem dez minutos. Quero as noites de volta. Verdadeiras noites sem campainhas.
Queres proibir o pai de vir? arriscou Samuel.
Quero que venha durante o dia. Ou até às nove. Não estou a expulsá-lo, só quero que saia do nosso horário noturno.
Samuel respirou fundo.
Pode magoar-se
Mas eu já estou magoada murmurou Mariana. Convivo meses com o teatro de que não se passa nada. Os meus ok viraram pequenas cedências.
As palavras, ditas alto, soaram cristalinas. Samuel baixou o olhar.
Está bem assentiu. Hoje… tentamos. Eu fico ao teu lado.
***
Ao ver a caixa do filme nas mãos de Joaquim nessa noite, Mariana sentiu tudo alinhar-se numa imagem completa.
Festas de Família 1979, lia-se na tampa. Joaquim, já sem casaco, pôs a caixa na mesa com orgulho.
Olha só! Encontrei! Isto é vida inteira!
Podemos primeiro falar? arriscou Mariana, enquanto Samuel preparava chá.
Falar do quê? Joaquim, genuinamente perplexo. Primeiro o filme, depois falamos
Mariana cruzou o olhar com Samuel. Ele assentiu: Diz.
Ela pôs-lhe a caneca à frente, sentou-se e sentiu o coração saltar-lhe para a garganta.
Senhor Joaquim ficamos contentes que tenha encontrado o filme. E que nos visite. Mas há uma coisa a conversar.
O quê que justifica conversa à noite? tentou graçar.
Sobre noites respondeu Mariana com firmeza. As de todos.
Joaquim perdeu o sorriso.
Fala, filha.
Vem cá muitas vezes tarde disse Mariana, com doçura mas firmeza. Sempre depois da uma. Para si, a noite é vida. Para nós, sono. Eu e Samuel trabalhamos, a Benedita tem escola. Mexe muito connosco acordar às tantas…
Joaquim franziu o sobrolho.
Estou a incomodar? a voz quase sumida.
Samuel interveio:
Pai, não incomodas disse. Gostamos de ti cá. Mas… é difícil à noite. Sobretudo para a Mariana. E para a Benedita.
Mariana acenou.
Fico em sobressalto cada toque depois das dez confiou. Sinto o coração cair. Não descanso. E a Benedita… olhou para o quarto. Sonha que alguém bate à porta. A maçaneta queima.
Joaquim olhou dela para Samuel, e para a caixa.
Pensei… era como dantes. Eu e a Laurinda gostávamos de chá de noite. Porta sempre aberta. Dizíamos: Se alguém bate à noite, é porque precisa mesmo.
E nós precisamos dormir replicou Mariana, meiga mas inflexível. Não é por não gostarmos de si. É para nos protegermos também, por nós e pela nossa filha.
Suspirou-se o silêncio.
Joaquim contemplou as mãos que lhe tremiam levemente.
Então já não querem que venha?
Queremos muito adiantou Mariana. Mas não à uma da manhã. Venha à tarde, ou até às dez. Avise antes. Preparamos chá, as bolachas que gosta, combinamos.
Samuel reforçou:
Pai, queremos conversar e estar contigo. Só não quando estamos grogues de sono.
Joaquim calou-se e, baixinho, murmurou:
Não fazia ideia achava que se eu não dormisse, ninguém dormia.
Mariana sentiu relaxar por dentro.
Ele não era vilão. Era só alguém cuja noção de tempo parou naquela noite em que perdeu a Laurinda.
Proponho isto sugeriu Mariana, suave. Eu quero ver o filme. Juro. Mas ao sábado, de dia. Juntamo-nos todos o senhor, nós, a Benedita. Chá, bolachas, quase um fim de ano de 1979.
Joaquim fitou a caixa, depois Mariana.
E se eu à noite…
Se não se sentir bem de noite explicou Mariana, ligue. Atendemos. Mas não todos os dias. Se for urgência, cá estamos. Agora… para chá, fica para o dia.
Samuel acenou.
Pai, quero estar contigo acordado, para te ouvir. Agora… já nada percebo do que dizes.
Joaquim sorriu triste.
Um velho parvo… berrou baixinho. Sempre a achar: dez minutinhos não fazem mal…
Já deu para um ano de noites disse Mariana.
Ele assentiu.
Está bem suspirou. Experiências com filmes ficam para sábado. Agora… vou andando.
Eu acompanho-o disse Mariana.
No corredor, demorou-se com o casaco.
Marianinha… se eu bater tarde…
Vou pensar que precisa de mim respondeu ela. Vou preocupar-me. Mas não abro sempre a porta. Também tenho limites.
Ele assentiu. Nos olhos, talvez, respeito pela sinceridade.
***
O sábado chegou.
Na mesa, um velho projetor, emprestado por conhecidos de Samuel. A sala parecia cinema improvisado cortinas fechadas, pano branco na parede.
Joaquim sentou-se junto do aparelho, caixa na mão como relíquia. Benedita trepou ao colo de Mariana, de peluche na mão. Samuel, de cócoras pelos cabos, tentava pôr a máquina a funcionar.
O projetor zumbiu, o feixe de luz cortou o escuro e, na parede, ganharam vida figuras esbatidas.
Uma mulher de vestido florido, sorriso de encher a sala. Ao lado, Joaquim, sem cabelo branco, de braços à volta dela. E o pequeno Samuel, gordinho e feliz.
No ecrã: mesa de Natal, tangerinas, sardinhas em lata, luzes. Em certo plano, a câmara mostra o cartaz colado à porta: Nesta casa estamos sempre de portas abertas. Mesmo à noite. Aos nossos.
Mariana sentiu essa frase rumar-lhe ao peito.
Joaquim fungou.
Foi ela que escreveu murmurou. Queria que se soubesse.
No filme, Laurinda ri, abre a porta sorrindo para quem está invisível e acena: Entrem! Luz, alegria, azáfama. Aparecem relógios 1:05. E a nota escrita a caneta: Aqui há sempre lugar, portas abertas.
Joaquim chorou baixinho, ombros a tremer.
Mariana reparou que Benedita adormecera no seu regaço, braço enlaçado no pescoço.
O projetor suscitava murmúrios, cenas a seguir cenas Laurinda a enxugar loiça, Joaquim a beijá-la, Samuel pequenito a bailar junto ao pinheiro.
Mariana percebia: as visitas noturnas do sogro não eram mero capricho. Era a ânsia de regressar ao tempo em que a casa era feita de risos, não de intrusões.
***
Quando o filme findou, a casa ficou mergulhada em silêncio bom. Benedita dormia, entregue.
Joaquim limpou o rosto.
Perdoem-me murmurou. Pensava que fazia bem. Que se vos visitava de noite, não estaria sozinho.
Mariana devolveu suavemente:
Continua connosco. Sem precisar de aparecer de madrugada. Agora, abrimos portas à luz do dia.
Nos dias que seguiram, Mariana foi ao supermercado. Apanhou o pacote verde de bolachas de aveia e um termo prateado, com montanhas desenhadas: Aguenta o calor oito horas garantia a etiqueta.
Em casa, embrulhou o termo, bolachas e um pequeno chaveiro.
Numa cartinha escreveu: Senhor Joaquim, nesta casa é sempre bem-vindo sobretudo de manhã. O termo para o manter quente, a chave como convite. Por favor, ligue antes de vir. Com amor, Mariana, Samuel e Benedita.
Ligou-lhe pela primeira vez, de dia.
Senhor Joaquim convidou, amanhã será chá. Da manhã. Passe cá quando quiser, até ao meio-dia.
Ele riu-se, mas foi um riso leve, aliviado.
Isto é convite oficial? troçou.
É o prenúncio de nova tradição respondeu Mariana. Sem turnos noturnos.
No dia seguinte, chegou mesmo às dez. Avisou antes: Saí de casa, estejam prontos. No braço, um ramo de margaridas.
Para ti, Mariana com alguma vergonha. Pela paciência.
E trazia também um urso de peluche, de gorro azul.
Para a Benedita explicou. Guarda-sonhos, para o avô lhe contar histórias, não para bater à porta.
Mariana sorriu, sincera.
Entre disse-lhe. O chá já está.
Na cozinha, o sol desenhava quadrados dourados na mesa. O chá estava quente, as bolachas estalavam. Benedita, feliz, abraçava o urso, os olhos vivos de quem dormira bem. Samuel explicava um novo projeto ao pai, o qual retribuía com anedotas sobre comboios noturnos.
Era o mesmo Joaquim, as mesmas histórias. Mas a hora era outra. Manhã em vez de noite, convite em vez de invasão.
À noite, ao deitar Benedita, Mariana ouviu:
Mamã, hoje o avô não apareceu no sonho.
E foi bom? perguntou Mariana.
Sim murmurou a menina. Dormi sossegada. E de manhã vi-o, a sério.
Mariana sorriu na sombra.
Assim é que é, filha sussurrou.
Quando, de novo, os ponteiros marcaram 1:15, a casa dormia. Não houve campainha. Mariana acordou, pela primeira vez em muito tempo, só porque descansara. Não por ter a rotina atravessada.
Compreendeu que aprendera a pôr limites com palavras, sem culpa. O mundo não desabou. O sogro não se afastou. Apenas deixou de chegar de madrugada.
E isso, enfim, era uma pequena vitória. Dela e de todos os que viviam naquela casa.






