O Hóspede de Inverno
Na aldeia, durante o inverno, a noite chega cedo, e, quando há temporal, ainda mais depressa. Às sete da tarde, pela janela, só se via branco um ruído surdo de neve que tapava tudo e escorria devagar pelo vidro.
Eu estava sentado à mesa a rever um manuscrito.
O trabalho não era urgente o prazo era para dois de janeiro , mas sempre tive o costume de não deixar nada para a última hora. Além disso, o que é que um homem faz na noite de passagem de ano quando está sozinho, a cidade mais próxima a setenta quilómetros, sem televisão há dez anos e só com a gata Amália enrolada na beira do aquecedor, alheia à tempestade lá fora?
Comprei a casa em Vale Mourão há vinte anos com a minha mulher. Achávamos que era só para o verão, para respirar ar puro. Mas a Maria partiu num acidente, e a cidade perdeu o sentido para mim. Fiquei quase sempre aqui com o computador, os manuscritos, e Amália, a minha gata, que agora dormia profundamente no calor.
No início, os vizinhos tentavam compreender. Depois, acostumaram-se. O António Simões, o editor que vive na casa das portadas azuis, só vai ao correio e à mercearia. Não incomoda ninguém, nem espera visitas. Bom vizinho.
Sobre a mesa estava a impressão do livro. Nome do autor: M. Faria. Oito meses a trabalhar naquele romance, a corrigir, a discutir pela editora, a receber respostas só com aceite ou recusado e voltava ao texto. Não conhecia o autor só apelido, inicial, e as trezentas e oitenta páginas de alguém que passou tempo demais a ir pelo caminho errado até perceber.
Era um bom romance.
Nestes anos já revi de tudo, e reconheço a diferença. Ali havia uma voz verdadeira não impostada, não de escola. Essas vozes não se aprendem. Ou se tem, ou não se tem. O autor sabia disso, e havia ali um receio dessa consciência.
O telefone tocou às sete e meia.
Oh António, olha lá, quando é que entregas isso? perguntou a Catarina da editora, num tom embaraçado. Era véspera de feriado, entendia o meu silêncio.
Dia dois respondi.
Não fiques nisso. Pode ser depois dos Reis, são as festas
Dia dois, Catarina.
Ficámos calados. Ela sabia discutir nunca servia de nada comigo.
E estás aí sozinho de novo?
A Amália está comigo.
António
Catarina
Ela riu-se, despediu-se, e eu regressei ao manuscrito. Voltei à página que me andava a atormentar há três dias.
Página cento e dezassete. Terceiro parágrafo de cima. Uma frase estava ali, sentia que não pertencia ao sítio, sem entender porquê. Não era o sentido, nem as palavras era o ritmo. A frase era longa, o texto afundava-se nela. Experimentei alternativas cinco vezes e apaguei todas.
À sexta tentativa saiu bem.
Escrevi, reli, fiquei satisfeito, fechei o portátil. Faltavam duas horas para o bater à porta.
O som dos nós chegou por volta das nove e meia.
Não foi à janela foi à porta.
Achei ser o vento. Mas o vento não bate empurra, uiva. Isto foi um bater distinto três batidas, depois duas.
Amália abriu um olho, fechou-o de novo.
Levantei-me. Espreitei pela cortina para o alpendre. Um homem estava ali. Sozinho, sem carro, cercado pela brancura, de sobretudo xadrez encharcado. A luz do candeeiro ao portão balançava e via-se que não era ameaça estava simplesmente gelado, a precisar de abrigo.
Na aldeia, não se deixa ninguém à porta, especialmente numa tempestade.
Deitei o casaco pelas costas e abri.
Boa noite disse ele antes de mais, voz rouca e baixa. Desculpe bater a estas horas. O telemóvel morreu, o carro saiu da estrada. Vi luz em sua casa
Olhei-o de alto a baixo. Alto, quase que batia no topo da porta. Sobretudo largo, pingava. Num braço, os óculos, noutro, nada nem saco, nem mochila. As lentes embaciadas, por isso os segurava.
Entre convidei.
Entrou devagar, tímido, resguardando-se, preocupado em não incomodar.
O carro ficou longe? perguntei, enquanto tirava o cachecol.
Duzentos metros, mais coisa menos coisa. O trilho engoliu, caí no erro. Pausa. O carregador ficou em casa, o GPS comeu a bateria toda.
Compreendido.
Enquanto ele pendurava o casaco, pus água para chá. Voltando, vi-o ainda com os óculos na mão. Só os pôs depois de aquecer um pouco as lentes, encostando-lhes a palma.
Pendure aqui indiquei o cabide.
Obrigado disse, pendurando o casaco e encaixando os óculos. Miguel.
António apontei para a cozinha. Venha.
Na aldeia, todos sabem de todos. Vale de Santa Ana é a aldeia vizinha, seis quilómetros por campo. No inverno nada por lá, só uns casebres de verão. Entre as duas, uma linha velha de arvoredo e uma estrada esburacada.
Mora em Santa Ana? perguntei, enquanto ele se sentava.
Comprei agora na primavera, mas nunca fiz inverno aqui. Riu-se, breve. Não pensei que fosse assim tão diferente.
Nem viu a previsão?
Vi. Dizia nevão moderado.
Moderado na autoestrada não é moderado nos campos.
Agora aprendi.
Pousei-lhe a caneca à frente. Bem quente, nada de perguntas. Segurou-a com as duas mãos, quase como se nela houvesse vida.
O carro é o menos disse. Amanhã vem o reboque. É só telefonar.
Dô-lhe o meu carregador apontei a tomada.
Ligou o telemóvel e sentou-se de novo. Tornou a segurar a caneca, recolheu-se no calor.
Já está cá há muito? perguntou.
Cinco anos sem sair. Antes era só casa de verão.
Nunca sentiu saudade da cidade?
Não.
Não insistiu. Apreciei.
O telemóvel era antigo já não se vendem daqueles há três anos. Pequeno, gasto nas pontas. Para ir de zero a cinco por cento, ia demorar uns quarenta minutos sei por experiência.
Portanto, ficava por ali.
Peguei eu também a minha caneca.
Já jantou?
De manhã.
Só de manhã?
Achei que ia estar aqui pouco tempo.
Tinha sopa no frio de ontem, de feijão. Pus a aquecer. Ele não se opôs com não esteja para isso ou não se incomode. Ficou sentado, à espera como deve ser.
A espera passou em silêncio. Não era desconforto, era apenas paz. O temporal lá fora cobrava a sua nota monótona, a Amália ressonava no aquecedor, e a cozinha tinha aquele calor amarelado das casas portuguesas. Achei curiosa a sensação um estranho à mesa e nada perturba.
Fiz chá de novo meia hora depois.
Do lado de fora, o temporal não cedia. Jantámos sopa, quase sem conversar não por falta de assunto, mas por não ter pressa.
Aqui é silencioso murmurou.
Sempre foi. Tirámos o rádio e a televisão.
Mas dentro apontou para a sala dentro é muito calmo. Não há rádio, não há TV.
O rádio está ali, pequeno, na janela. Às vezes uso.
Pois Em Lisboa, só consigo trabalhar com auscultadores. Ouço tudo, paredes, vizinhos não dá para concentrar.
Só trabalhas a escrever?
Sim.
Romances?
Prosa. Últimos dois anos, um romance só. Custou a sair.
Ainda assim, terminou.
Entreguei no outono. Agora nem sei o que fazer.
Conhecia esse vazio não meu, mas dos escritores quando largam um livro. Uns começam logo outro, outros andam perdidos um ou dois meses, outros afastam-se de tudo. Cada um, sua resposta.
Passa disse-lhe.
Eu sei. Agora, ainda não passou.
Amália saltou do aquecedor, aproximou-se, cheirou-lhe a mão, voltou. Miguel seguiu-a com o olhar.
Isso é um bom sinal? perguntou.
Normal. Se tivesse ficado, era mesmo bom.
Continuarei a conquistar o lugar respondeu, sério.
Ri-me.
Posso perguntar? disse, um pouco depois.
Diz.
Porquê dia dois?
Demorei um instante.
O prazo explicou ele. Disseste pelo telefone dia dois, mas hoje é trinta e um. Revisas um manuscrito na noite de Ano Novo, e tinhas ainda dois dias. Porquê agora?
A pergunta era certeira. Demasiado para um forasteiro atolado na neve.
Hábito disse.
Que hábito?
Não empurrar para depois o que já está quase pronto.
Olhou-me. Não acreditou, não me apanhou na mentira mas percebeu que não era toda a verdade.
E aqui não faz diferença esperar. Não festejo especialmente, prefiro trabalhar do que olhar o relógio.
Compreendo aceitou, sem pena, só guardando a informação.
Pausa. Lá fora, uma janela batia na casa ao lado o vento a fazer-se ouvir. Os vizinhos partiram em Novembro, só regressam na primavera. O som era irritante, mas a noite tornou-o estranhamente presente.
Estavas a trabalhar, quando bati comentou Miguel.
Estava.
E trabalhas em quê?
Sou editor, de literatura.
Interessante.
Normalmente gosto.
Olhou-me, mais atento.
Gostas de mexer nos textos dos outros? Não pesa?
Pensei.
Quando o livro é mau, pesa. Quando é bom não, pelo contrário. Dá gosto ajudar a polir. Como restaurar há ali uma estrutura. Só limpamos o que está a mais.
Acenou. Calado, como se pensasse para si.
Não te incomodas que mudem o teu texto? perguntei.
Só se mexem onde dói.
E como sabes?
Se dói, era importante. Se não, pode ir.
Sorri. Boa definição. Só escreve assim quem já viveu a experiência.
Tiveste más revisões antes?
Tive de tudo. A primeira editora mexeu tanto no meu livro que deixou de ser meu. Era a história de um velho e o mar ficou a de um gestor de escritório. Exagero um pouco, mas percebes.
E aceitaste?
Eu tinha vinte e nove. Achei que eles sabiam melhor.
E depois?
Percebi que saber mais não é ter razão. São coisas diferentes.
Assenti. É verdade. Um editor pode dominar a técnica, mas não ouvir a voz do texto. Isso é o que importa.
***
Já noite cerrada lá fora apagou-se tudo, o temporal grossava, a lâmpada ao portão nem atravessava o véu branco.
Miguel já ia na segunda chávena. Amália voltou a passar, desta vez sem parar. Notei que não lhe fez chamadas não gostava disso, ela.
Posso? apontou à estante.
Força.
Levantou-se, percorreu as três prateleiras policiais num, prosa noutro, o resto baralhado. Só lia os lombos. Depois voltou.
Muitos policiais.
Leio para descansar. Lá, tudo se resolve.
E na vida?
Nem sempre.
Pegou na caneca.
Fala-me do romance.
Demorei a perceber o que revisava.
Para quê?
Por interesse. Disseste que arranjar um bom texto é como restaurar. Quero saber como o vês.
Era uma conversa estranha. Não má, só incomum. Um desconhecido, num serão de inverno, a querer saber a sério do trabalho.
É sobre um homem só. Fez o que julgava correto demasiado tempo. Descobre que afinal era só medo de mudar. É a diferença entre hábito e escolha.
E o final?
Ele parte. Não das pessoas de si antigo. Acho o melhor final.
Miguel ficou calado.
E gostas desse final?
Gosto. O autor preferia outro primeiro.
Qual?
O regresso voltar ao que deixou.
E convenceste-o?
Sugeri. Decide sempre o autor.
Pousou o olhar na mesa. O silêncio era espesso cheio de pensamentos.
Por que fosse melhor sair que regressar? perguntou.
Porque o regresso responde “para onde”; partir, “quem és tu”.
Fitou-me.
Frase tua, ou do livro?
Minha. Numa nota ao texto.
Silêncio. Não apressei.
Há quanto tempo editas?
Oito anos.
E pensas sempre assim dos finais?
Só quando vejo verdade na história. De outra forma, tanto faz. Mas uma verdadeira empurra sempre ao fim certo. O trabalho é não estragar.
Miguel olhou pela janela, longo tempo.
Deve ser difícil…
O quê?
Ler por inteiro o outro. Não para ti, para ele.
Refleti.
Às vezes. Quando o autor resiste, ou não vê o que faz. Mas este, não. Este ouve.
O que ouve?
Tomei tempo. Não era a trama, era outra coisa.
O autor tem uma frase mexi nela, ele aceitou, mas ainda hoje me pergunto se foi certo.
O texto original?
Era sobre a tempestade. Escreveu longo, cortei por ritmo ficou mais nítido, mas perdeu-se algo.
O quê?
Não sei. Algo vivo.
Lê como ficou.
Pedido estranho, mas não disparatado.
“A tempestade não escolhe. Fica, quando tudo o resto parte.”
Silenciou. Uns instantes demasiado longos percebi que algo mudava nele, não na sala. Olhava a mesa, a forma de segurar a caneca, tenso não era reflexão. Era o reconhecimento.
Aconteceu algo? perguntei.
Não. Pausa. Escrevi diferente: “A tempestade não escolhe para onde vai só sabe que sobrevive quem não tem medo do frio.”
Pousei devagar a caneca.
Essa frase estava no manuscrito. Naquela página cento e dezassete. Lutei com ela três dias até a cortar. Ninguém em lado nenhum a tinha visto só eu e a editora. E o autor.
Nunca foi publicada.
És M. Faria afirmei.
Não era pergunta.
Encarou-me.
Miguel Faria. Sim.
Não soube que dizer. Ao mesmo tempo estranho e familiar, como se, ao longo destas horas, tivesse adivinhado e só agora percebesse. Dois desconhecidos a conversar sobre finais e vazio, eu a rever dele, ele a escrever dele, oito meses a mexer juntos sem nos cruzarmos antes.
Corrigi o teu romance oito meses.
Sei. Disseram-me que era o “A. Simões”. Só sabia a inicial.
A. Simões.
António Simões. Eu próprio.
Afinal, conhecíamo-nos através do texto, das notas, dos “aceite” e “não aceite”. Ele ficou com o meu final, rejeitou-me a 4ª capítulo. Insisti na segunda parte aceitou depois. Discutimos cada passo. Mas nunca caras.
De repente, percebi que já o conhecia. Não o homem à frente a sua voz escrita. Sabia como alongava frases nas dúvidas, encurtava na certeza. Que demorava na resposta à minha revisão, pensava, não por teimosia. Não tinha medo de me dizer “não” e não justificar.
Ele só sabia a inicial. Era injusto. E naquele temporal, veio bater à minha porta.
***
Porque não disseste logo? questionei.
O quê? Não sabia que eras o meu editor. Só disse que escrevia.
E eu só disse “editor”.
Pois ambos escondemos.
Tinha razão. Não referi a editora, ele não nomeou o romance. Os dois pouco de falatório. E agora estávamos ali.
A frase original era tua. Cortei porque era longa no contexto. O ritmo quebrava.
Aceitei. Mas gostava da tua.
A tua era mais honesta. Por vezes, é mais importante isso que a exactidão.
Ficou tempo calado.
Posso repor a frase antiga? perguntou.
Se pedires à editora, posso.
Não, deixa assim. Tens razão, o ritmo é tudo.
Não discuti. Importava-me o ter perguntado.
O telemóvel apitou quinze por cento. Já dava para telefonar. Miguel não se mexeu.
Leste tudo?
Três vezes. Um editor lê sempre três: para entender, sentir, depois trabalhar.
E o que sentiste?
Que alguém precisou de tempo para perceber. E finalmente percebeu.
Baixou os olhos.
Certo murmurou.
É um romance bom acrescentei. Digo poucas vezes. É genuíno.
Não respondeu; acenou, e vi que era importante para ele, mas não tinha jeito para agradecimentos.
Calámo-nos de novo mas, desta vez, era um silêncio cúmplice, de quem partilhou algo importante e já está à vontade.
Sempre viveste sozinho? perguntou.
Entendi. Não queria saber do hoje, mas do resto.
Não. Fiquei viúvo há cinco anos.
Lamento.
Não faz mal abanei. Já não dói tanto. É diferente.
Não insistiu com o “compreendo”. Só quem passou entende. Em vez disso, perguntou:
E porquê Vale Mourão?
Porque é calmo. E porque era aqui que estávamos juntos agora ainda o sinto por cá.
Miguel acenou devagar.
E tu, Santa Ana?
Divorciei-me há dois anos. Fiquei com a casa em Lisboa, mas vazia. Comprei este lar pelo vazio ser diferente.
Ri-me. Não esperava. Ele pôs em palavras o que nunca consegui explicar porque quero uma casa só para mim, assim.
Entendo disse.
Percebes?
Melhor do que imaginas.
Sorriu, para dentro. Mas agora, vi-lhe no rosto.
Tiraste o monólogo do quarto capítulo lembrou.
Retirei.
Porquê?
Porque o leitor já sabia. Estava a mais.
Custou-me.
Disseste na nota.
Respondeste-me: “Compreendo, mas não.”
Compreendendo, era preciso. Pena não é argumento.
Pensou uns instantes.
Tens razão admitiu. Fica melhor. Só percebi depois.
Só se percebe depois.
Não te importa agradecerem só depois?
Não. Importa é que o texto fique certo. Quando sair, digo para mim “aceite”, já chega.
Miguel olhou-me, longo tempo. Não como a desconhecido, mas como quem começa a conhecer.
Achava que os editores eram invisíveis disse.
Devem ser. O texto não é sobre nós.
Mas tu não és.
Isso é problema.
Não, não é afirmou.
***
Vinte e três e quarenta e cinco.
Faltam quinze minutos para o novo ano comentou Miguel.
Sei.
Lá fora, a tempestade já só era neve, macia. O candeeiro ao portão já não oscilava. Nevava, mas sem ímpeto, como se o próprio vento se cansasse.
Tens outra coisa além de chá? perguntou.
Há vinho. Abri no Natal.
Serve?
Branco.
Perfeito.
Fui ao frigorífico, servi dois copos comuns não uso cálice, nunca guardei. Pus à frente.
Brindamos a quê? perguntou.
Ao novo ano.
Muito vago.
Então, à honestidade. Que às vezes vale mais.
Fitou-me. Não desviei o olhar foi também a primeira vez no serão.
Concordo.
Ouviam-se as badaladas pelo rádio antigo, sempre no parapeito desde que a Maria ali o pôs no primeiro verão. Nunca o mudei, só troco as pilhas.
Agora foi diferente.
Tocámos copos, brindámos em silêncio. Amália mexeu-se, espreguiçou-se, acalmou. Nevara devagar, grandes flocos. Sem vento.
Telemóvel novamente trinta por cento.
Miguel olhou para ele. Depois para a janela. A seguir, para mim.
O reboque não vem de noite.
Não. Só de manhã.
Tens onde me deixar dormir?
Acenei.
Divã no escritório. Está lá o manuscrito, mas tiro.
Não tires. Não vou incomodar.
“Incomodar” palavra certa. Não “estar calado”, mas não ocupar espaço meu.
Está bem.
Fui de novo pôr chá, só para fazer algo com as mãos.
António chamou ele.
Voltei-me.
Ainda bem que o carro escorregou.
Fitei-o. Sentou-se com as mãos copo, disse sincero, sem rodeios.
Ainda não sei admiti.
Sei. É natural.
A água ferveu.
Enchi duas canecas uma para ele, uma para mim. Pousei à sua frente.
Obrigado murmurou.
Lá fora, a neve caía lenta, suave. O temporal já havia passado.
Mas ele não saiu.
E eu não lhe perguntei quando.
No escritório, repousava o manuscrito página cento e dezassete, terceiro parágrafo. Lá, a frase dele na minha versão. E, dentro dele, a própria frase original. Ambas sobre a mesma coisa o que resiste, quando tudo o resto parte.
Talvez isso seja a verdade.
Eu, à mesa, chá nas mãos; ele, à minha frente; e, pela janela, o silêncio do inverno, o ano novo já a caminho.






