Epílogo

Apêndice

Olha, Ana, mas ela já traz apêndice! Ou achas que não faz diferença? Teresa encostou-se ao portão, lançando um sorriso trocista para a vizinha. Não encontraste melhor? Tu, que até nem és feio nem desengonçado, rapaz tão bom… E raparigas por aqui não faltam, mas foste escolher logo aquela!

Ana suspirou. Não queria admitir nem a si mesma que a escolha do filho não a deixava confortável. E ouvir aquilo da sua melhor inimiga custava o dobro.

Para nós, os netos são alegria, Teresa! Ouviste? Diz-me lá o que é que ela tem de mau. É jovem, bonita, de bom trato e honesta, disso tenho a certeza. O filho e que mal tem? Não foi filho de acaso, nasceu no casamento. E se ficou viúva tão nova, quem somos nós para apontar o dedo? A vida não avisa ninguém. Vamos criá-lo, educá-lo, e será mais um neto para mim. Não é preciso estar aí a falar à toa!

Ana apertou os lábios e enxotou o gato da vizinha, que vinha pelo muro em direção ao seu quintal.

Está cheio de vícios! Já me levou três pintainhos, Teresa. Toma conta do teu bigodes, senão largo-lhe o Figo, depois não te queixes.

Ai, assustas-me muito! Teresa retirou o gordo gato tigrado do muro. Quem é que ainda corre atrás de quem? Eu fecho o descarado! Até cá já me correu atrás dos frangos o ano passado. Se não fosse tão bom caçador de ratos, já o tinha dado a alguém. Mas olha, são instintos.

Que fique com os instintos em casa!

Olha, já me ia esquecendo! Os frascos para a compota! Aquilo deve andar pronto.

Pois, andas aqui a conversa e alguém lá dentro a mexer no tacho?

A Olga. Veio ontem ajudar na horta.

Ainda por cima grávida?

Por isso mesmo: horta toda a mexer, ela na compota. Não quer ficar parada. Não é nora, é ouro!

Então louvas pelas costas e ralhas de frente?

Tem que ser, para haver respeito! Teresa voltou a sorrir. Um dia és sogra, Ana, tira exemplo. Sê meiga e sobem-te à cabeça!

Logo se vê! Ana acenou com a mão. Levas os frascos então ou desenrascas-te? Que eu tenho mais que fazer, muita conversa dispensa-se.

Expulsando a vizinha, Ana voltou ao trabalho da massa. Amanhã chegava o filho com a futura nora para se apresentarem. “Futura nora”… Ana parou de amassar e apoiou as mãos na mesa, fitando a janela. O que é que ia sair dali…

Nunca conhecera bem a Benedita. Só ouvira histórias e cruzara-se com ela duas vezes, de longe, quando ia visitar a irmã, noutro povoado. Nada de especial, rapariga normal. Cabelos claros, olhos grandes. Apenas alta, a condizer com o seu Miguel. Mas propriamente rapariga já não era: mulher feita, viúva, com um filho pequeno uns três aninhos. A vida não tinha sido meiga com Bené. Perdeu os pais em miúda, cresceu com avós. Criaram-na, educaram-na, casou-se. Mal tinham festejado o bisneto, quando o marido da Benedita morreu num acidente. Ficou sozinha, viúva de fresco, com uma criança… Tristeza dá pena, mas Ana preferia ter pena de longe. Doía-lhe o coração pelo filho. Desde que ficara viúva, Miguel era o seu amparo. Tinha alegria por tê-lo por perto, mas também medo. Já homem feito, é natural que queira criar família. Sempre desconversava, dizia que esperava por um grande amor. E agora, de repente… aparece-lhe Benedita. Ana correu de imediato a falar com a irmã. Tinha de saber melhor.

Qual o drama agora, foi o Miguel para a guerra? Maria ralhou-lhe logo. Era mais velha, podia.

Quero perceber, ora. Quem é ela afinal? Vai trazê-la, e depois?

Trazer, traz. Mas não vão ficar para sempre.

Como assim? Ana ficou sem saber.

O Miguel não te disse que eu lhe deixei a casa dos avós? Velha não serve para já, mas o terreno é grande. Logo se arranjam.

Mil pensamentos atravessaram Ana. Então o filho ia-se embora! Mesmo sendo só do outro lado da aldeia, entre povoados, era diferente. Ficar sozinha era outra história. Vê-lo anunciar casa feita, mulher à porta, vida nova só o iria ver em dias de festa.

Estás desse modo? Não ficas contente? Maria mudou de tom, sentando-se ao lado.

Não é não ficar contente tenho receio. E se não dão certo? Ou se o miúdo dá trabalho…

Ouve bem. Raparigas, há muitas. Mas como a Benedita, nenhuma. Ninguém tem palavra melhor sobre ela do que eu.

Isso é que assusta. Tão certinha, até dá desconfiança.

Nunca estás satisfeita! Maria amuou. Se fosse ruim, tinhas de quê reclamar. Ana, chega! Importante é que sejam felizes. E que tu não cometas o erro de perderes o teu filho.

Que erro? Ana assustou-se.

Se não aceitares a Benedita, perdes o Miguel. Vi bem como ele olha para ela. Aquilo é amor.

Naquela noite, Ana não dormiu. Um nó apertou-lhe o peito, crescia sem sossego. Tinha de ser força, tinha de os receber sem mostrar reservas.

Pequenos pastéis formando fila no lindo prato. Ana sorriu pensando como o falecido marido adorava esses bolos pequeninos, de trincar de uma vez.

Uma delícia! Não há quem resista! Dizia, beijando-lhe a mão.

Como lhe fazia falta o Manuel! Dava-lhe sempre conselho e consolo.

Passou a noite sem dormir. Ao raiar o dia, estava pronta.

Benedita chega atrás do Miguel, receosa diante da futura sogra. O Salvador remexe-se-lhe nos braços, atento ao novo espaço. Tanta coisa por explorar! Um cão enorme preso, calmo, estranho; um gato fofo a deambular sossegado. Salvador estica-se, olhando para a mãe, pedindo permissão.

Deixa-o, Miguel. Vá, corre um bocado. Eu fecho o Figo, já não há perigo. Posso vê-lo daqui. Ana estudava Benedita.

Que miúda frágil, pálida. Ninguém diria que carregava tão sadio garotinho nos braços. Uma pena bateu o nó dentro do peito de Ana, apertou-lhe a garganta. Quando a Benedita largou o miúdo no chão, ele correu para ela.

Onde foi o gato?

Que gato? Ana estranhou. Aqui não há, quem viste?

Salvador apontou. Ana preocupou-se:

Anda, vamos atrás, senão vai atrás dos pintainhos de novo!

Chegaram junto ao galinheiro quase a tempo.

Ah, bandido! Sai já daqui! Ana atirou-lhe o chinelo.

Ver Salvador rir fez Ana rir também. Rapaz despachado, e tão meigo. Ana mostrou-lhe um pintainho; ele temia pegar-lhe, só afagou.

É pequeno!

Ana fez-lhe sinal para vir; dali a pouco já Salvador comia pasteizinhos ao seu colo. Apanhou o olhar da futura nora dirigido ao noivo e disse, sorrindo:

Menino esperto tens aí, Bené! E bom garfo, como qualquer neto de avó.

Viu o alívio no rosto da rapariga. Tão nervosa, tão preocupada Boa mãe, pensou Ana. Sentiu o peito aliviar. Maxim falava, entusiasmado, sobre o casamento. Benedita, calada.

Quando o filho saiu, Ana virou-se para ela:

Então, estás tão calada porquê? Trás cá o prato das cerejas… Come, está boa!

Não há muito a dizer. Disse ao Miguel que não queria casamento pomposo. Só assinávamos e pronto.

E ele não aceita?

Diz que a família espera, que não é bom deixar gente desiludida.

Tem alguma razão. Mas tu também devias falar. Por que não queres festa?

Receio… Benedita olhou-a nos olhos e explicou. Felicidade gosta de silêncio. Já fui muito feliz em festa, e correu tão mal…

Olha Bené, a vida é como é. Se te amava, estaria feliz por te ver recomeçar. Cada um tem medidas de tristeza e de alegria. O destino, não sabemos. Mas aceitar, tem que se aceitar tudo o que vem, agradecendo ou não. Fugir, ninguém foge.

Tinha medo… que me julguem por casar de novo. Com um rapaz como o Miguel, que podia ter qualquer rapariga…

Nessa altura, Salvador remexeu-se e Ana baixou-o ao chão.

Quem és tu? Os olhos claros, atentos, fitavam Ana.

Agora sou tua avó, Salvador. Chama-me Avó Ana.

Está bem! respondeu o miúdo, sério.

Casaram-se como Miguel quis. Os parentes ainda murmuraram, mas a postura firme de Ana calou-os cedo.

Miguel e Benedita viveram quase um ano em casa da mãe dele. Ana esqueceu o tal nó no peito, esqueceu as dúvidas. Via o carinho de Benedita pelo filho e percebeu que fazia bem em largar as preocupações. Nalgum momento, sentia-se desconforto, mas a Benedita tinha o dom de tudo resolver, com calma, sem rancor.

Nunca dizes nada, Bené? Deitasses as mágoas cá para fora, talvez a Ana se acalmasse dizia Teresa, enxotando as vacas para a horta.

E arranjava discussão para quê? Mãe e filho desavindos, e depois? Grande conselho! Benedita ironizava.

És teimosa, Benedita! Isso é mau…

Melhor ser dona do meu nariz, do que dar ouvidos a curiosos! cortava Benedita, virando costas.

Teresa bufava, lançando nova bisbilhotice na aldeia.

O terreno de Miguel ficou pronto e mudaram-se. Entre lides e tarefas, o tempo voava. Ao sentir-se mal, Benedita foi ao médico.

Grávida, eu? admirou-se.

Surpreende-a o quê? Ou não era desejado?

Não diga tolices! Muito desejado! Só que… com o primeiro tudo foi diferente.

Há riscos, mas faremos tudo para si e para o bebé ficarem bem.

Ana chegou nesse dia para ajudar Salvador. Assim que entrou, Benedita afastou-se.

Que tens? Ana ficou intrigada.

Nada, só me assustou a cara zangada…

Ana percebeu logo de onde vinha o azedume. A culpa era da Teresa, sempre a envenenar o ar.

“Se não bastava já o miúdo, agora vem ela doente. Valha-te Deus, Ana! atirara Teresa de manhã.

Oh Teresa, como podes ser tão amarga? O que é que a Benedita te fez? Deixa de maldizer!

Era só para brincar Desejo tudo de bom!

Ana virou costas, mas o mau humor ficou colado. Benedita percebeu logo que Ana vinha magoada.

Não ligues, Bené! É que apanhei uma briga no autocarro, fiquei irritada.

Benedita sorriu. A sogra não sabia mentir. Mas se queria proteger-lhe os nervos, aceitava.

Prepara as coisinhas. Precisas de ajuda?

Está tudo pronto. Mas não me apetece nada ir para o hospital.

Ana foi firme:

Tens de ir, Benedita! Se é preciso para a saúde do bebé, não se discute. Eu cuido do Salvador, não te preocupes.

Miguel levou-a ao hospital e começaram os dias longos. Médicos deram boas notícias: Quase pronta para ir para casa. Tem quem a ajude?

Fico com a minha sogra, cuida do rapaz.

Tem sorte com a sogra? Normalmente é história de terror…

Sogra excelente! Benedita sorriu.

Enquanto Benedita preparava o regresso, Ana dava voltas à aldeia a arrancar cabelos.

Ai, Nossa Senhora. E agora, o que digo à Benedita?!

O Salvador desapareceu de manhã. Ana, confiante de que o miúdo nunca saía do quintal, ficou a cozinhar. O prato de legumes estava mesmo à frente da janela. Via o miúdo brincar na caixa de areia. Distraiu-se uns minutos, ali voltou os olhos, já não o viu.

Assustada, foi ao quintal. Salvado tinha desaparecido.

Na rua, súbito, percebe-se que Salvador tinha ouvido barulho para lá do portão e correu logo a espreitar. Um cachorrinho preto e branco uivava, preso numa corda por uns miúdos mais velhos.

Larguem-no! Dói-lhe! Salvador empurrou o portão, saiu.

Risadas maldosas; Salvador, sem medo, entre os miúdos, tentando salvar o cão. Acabou por se afastar tanto de casa, que quando os miúdos largaram o cão ao ouvir uma senhora irritada, ficou sem saber onde estava.

Que crianças são estas?! ralhou a mulher, olhando Salvador que, a tremer, abraçava o cachorro.

Vais maltratar o cão também?

Não! Ele só precisa de colo.

A mulher seguiu caminho e Salvador, ao ver-se só numa rua estranha, fez o que a mãe ensinara: “Se te perderes, não andes. Fica à espera.” Descobriu um banco à beira dum portão, sentou-se, cachorro ao colo, e esperou.

Não adivinhava que Ana o procurava ruas mais perto. Miguel, ao chegar e ver o portão aberto, correu com a mulher à cama. “O Salvador deve ter ido ao café com a mãe, vou procurá-los.” Encontrou Ana a chorar na rua ao lado.

Mãe, onde está o Salvador?

Desapareceu! Saiu do portão…

Pronto, acalma-te. Já procuraste onde? Eu vou além.

Encontraram-no uma hora depois, a dormir no banco com o cachorro. O cão ladrou; Miguel sorriu:

Grande guarda-costas. Bora para casa, Salvador.

Pai Eu fiquei quieto como disseste.

Muito bem. E esse cão?

Parece o Figo da avó, mas é mais barrigudo. Podemos ficar com ele?

Porque não? Casa portuguesa sem cão não é casa!

Chegaram, Ana a tremer de alívio.

Avó, desculpa! Não volto a sair assim

Ana chorou de gratidão. “Dizia a Teresa que não era meu neto? De que me serve? Este é dos meus!”

Benedita soube da aventura mais tarde; Salvador, caladinho, percebeu que era melhor não preocupar a mãe. Os três lavaram o cachorro, todos a rir, molhados até à alma.

Tive saudades!

Eu ainda mais!

Nasceu Iria, uma menina de pulmão forte, e deram-lhe nome da avó Ana. Ana reviveu, corria para casa do filho sempre que podia. Tinha medo que Benedita ficasse com mágoa, que lhe negasse o convívio. Mas Benedita nunca a censurou.

Podia ter sido comigo. O Salvador salva até formigas do passeio; é o coração dele.

Só pode ser boa gente.

Ana não se metia, ajudava como precisava. O agradecimento sincero de Benedita dava-lhe forças para tudo.

Obrigado, mãe!

Ver Salvador correr para ela, Benedita sorrir-meigamente ao entregar-lhe a menina Ana sabia que tudo tinha valido a pena.

Vais outra vez para os netos, Ana? Teresa da esquina, à espera, vendo Ana fechar a casa.

Vou, Teresa. São dois, sabias?

Só uma é tua!

Não, são dois, os dois são meus. Netos são do coração. Mas tu, sabes lá o que isso é Queres um segredo, Teresa? Passas tanto tempo a ensinar os outros a viver…

Vamos lá, surpreende-me.

Amor, Teresa, faz-se em duas mãos. Se queres ser amada, também tens de amar. Por isso, os meus amam-me e tu?

A mim respeitam-me!

Pronto, já não é mau. Mas olha que amor ainda é melhor Não achas, Teresa? Ana piscou-lhe o olho, olhou para o relógio, que quase passava o autocarro, e apressou o passo. Lá estava gente à espera dela.

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