Apego Adicional

Apêndice

O Fernando, mas ela vem com apêndice! Ou isso para ti não faz diferença? resmungou Alzira, encostada ao portão, lançando-me um olhar maroto. Não podias arranjar melhor? Com tantos rapazes bons na vila, logo tinha de ser este!

Assunção suspirou. Custava-lhe admitir, até para si própria, que não concordava com a escolha do filho. E ouvir isso da boca da vizinha era ainda mais doloroso.

Os miúdos são uma alegria, Alzira! Percebeste? Em que é que ela é má, diz lá? É nova, bonita, bem-educada, nunca se ouviu dela uma má palavra, sei bem. E quanto ao menino Mas o que tem? Ela não o teve por aí, casou e foi mãe. Ficou viúva cedo, olha que mais se há de querer? Hei de criar, educar, e será mais um neto para mim. Agora, deixa de falar por falar, mulher!

Assunção apertou os lábios e enxotou o gato da vizinha que avançava pelo muro.

Veja lá, que já me levou três pintos, Alzira. Olhe que lhe ponho o Faísca atrás e depois não se queixe!

Ai, susto não pega! Alzira afastou o seu gato malhado do muro. Quem é que corre quem, afinal? Fecho o maroto, que o ano passado também me roubava os pintainhos. Não fosse ele caçador de ratos, já cá não estava. Mas que se há de fazer, animal é animal, não é?

Pois, mas que fique lá com os instintos em casa!

Olha, esqueci! Os frascos! O doce já deve estar pronto.

Aqui a conversa e quem é que está a mexer o tacho?

É a Olguinha. Veio ontem ajudar a tratar do quintal.

Mas ela não está quase a dar à luz?

Pois por isso mesmo, a família toda na terra e ela na cozinha. Não gosta de estar sem fazer nada. Não é nora, é um tesouro!

Então porque é que tanto a elogias pelas costas e à frente fazes cara feia?

Para haver ordem, mulher! riu Alzira. Tira como exemplo quando fores sogra. Se fores muito meiga, montam-te em cima e não te largam.

Isso depois vê-se Assunção acenou com a mão Frascos queres ou desenrascas-te? Não tenho tempo para tagarelices, há trabalho para fazer.

Mal Alzira saiu, Assunção pôs mãos na massa. Amanhã o filho vinha e trazia a noiva para apresentar. Noiva… Assunção largou a massa e encostou as mãos à mesa, olhando para fora. O que será dela?

Nunca tinha conhecido bem Leocádia. Só ouvira falar e, de longe, a vira duas vezes, quando foi visitar a irmã, no concelho vizinho. Não se destacava por nada: uma jovem igual a tantas outras, loira, olhos grandes. Crescida, como o Fernando. Já não era uma miúda, era uma mulher. Fora casada, tinha um filho. Um miúdo, teria uns três anos. A vida nunca fora meiga com Leocádia: órfã de cedo, criada pelos avós, que a educaram, casaram-na, e ainda celebraram o bisneto, quando o marido dela morreu num acidente. Viúva nova, com um filho ao colo. Assunção tinha pena, claro. Mas preferia sentir pena de longe. Pelo filho é que o coração doía, desde que o marido falecera, Fernando era tudo para ela. Uma bênção e um susto ao mesmo tempo. Já era homem feito, devia criar família, mas adiava sempre, respondia em brincadeira quando questionada, dizia que esperava o grande amor. Agora aparecia com Leocádia.

No mesmo dia, Assunção correu à casa da irmã, Henriqueta. Precisava de saber, de entender o que se passava. Mas Henriqueta cortou logo.

Que alarme, mulher! Pareces uma galinha sem cabeça.

Que raio de gente é essa? Ele vai trazê-la, e depois?

Vai, pois, mas é para a casa dele, não para a tua!

Como assim? Assunção ficou atónita.

Então o Fernando não te contou que assinei a casa dos avós para ele? Está velha, claro, mas o terreno é grande. Constroem lá de novo.

Assunção ficou cheia de pensamentos. O filho ia sair de casa, ficava sozinha… Bem, entre uma vila e outra nem é longe, o autocarro passa ali perto. Mas não era a mesma coisa, não. Uma coisa era tê-lo em casa, ajudar nas lides, outra era ser visita só em dias de festa.

Ficaste tristonha? Ou nem gostas da ideia? Henriqueta sentou-se junta a ela. Tens de perceber, Assunção, o Fernando já é homem, é natural, tem de fazer vida. E tu tens de o deixar ir.

Eu percebo, só que… Tenho medo. Se não correr bem? E o rapazito?

Ouve, na nossa vila há muitas raparigas, mas nenhuma tão direita como a Leocádia.

Isso assusta-me. Perfeita demais

Tu és impossível! Se fosse má, também te queixavas. O importante é que sejam felizes. E não faças nada que te possa afastar do Fernando.

Como assim?

Se não aceitas ela, perdes o filho. Ele gosta mesmo dela.

Assunção escutava e sentia um nó apertado no peito. Mexeu os ombros, compôs-se e voltou à massa. Era preciso receber bem a noiva, mostrar que tinha lugar na família. Henriqueta tinha razão, o filho não podia ver a mãe desagradada. Depois, o tempo diria.

Linhando os pastéis pequeninos na travessa, Assunção lembrou-se como o marido adorava esses bolinhos de trinca só.

São como sementes de girassol, nunca chegam! costumava dizer ele, beijando-lhe as mãos.

Assunção riu, com lágrimas nos olhos. Como lhe fazia falta o Joaquim agora! Saberia o que fazer, dar-lhe-ia o conselho certo.

Passou a noite em claro. Virava-se de um lado para o outro. Que viesse depressa o dia

No dia seguinte, Leocádia chegou timidamente, atrás de Fernando. O miúdo, Simão, mexia-se, curioso. Tanta coisa para ver! Um cão grande, Faísca, olhava a cadeia desconfiado, um gato saltava pelo muro. Simão esticou-se para ir atrás.

Deixa-o, deixa-o andar, vou trancar o Faísca, não há perigo disse Assunção a Leocádia.

O miúdo veio até ela, olhos abertos e atentos.

E o gato, para onde foi?

Que gato? Não tenho gato aqui! desconfiou Assunção.

Simão apontou atrás do galinheiro e Assunção correu logo.

Olha o tramado do gato! Vai é embora que já chega! atirou o chinelo e Simão ria-se. Era esperto o garoto, traquina mas meigo. Mostrou-lhe um pintainho, e Simão só ousou fazer-lhe uma festa, com mãos delicadas.

É pequenino!

Assunção chamou o rapaz e, poucos minutos depois, já Simão estava ao seu colo, a comer pastéis. Reparei no olhar grato da Leocádia para o Fernando.

Tens um menino muito bom, Leocádia! Esperto e gosta de comer, como qualquer avó deseja.

Vi que Leocádia respirou de alívio. Ela era mesmo toda sensível, vivia tão preocupada com o filho. Era boa mãe, e era isso que importava. O nó do peito já era quase nada.

Fernando, sempre em brincadeiras, falava no casamento. Leocádia ficava calada, de olhos postos na mesa. Quando Fernando saiu da sala, Assunção perguntou-lhe:

E tu, não dizes nada? pôs uma taça de cerejas à frente de Simão.

Para que falar? Eu já disse ao Fernando que não quero festa grande no casamento. Casávamos no civil e acabava logo.

E ele não aceita?

Diz que não fica bem. Que a família espera, e não quer desilusões.

Pois, tem a sua razão. Mas tu tens direito de opinar. Mas afinal, porquê esse receio da festa?

Leocádia levantou os olhos cinzentos.

Tenho medo. Felicidade gosta de sossego. Da primeira vez, casei cheia de alegria e correu mal.

Não penses assim, Leocádia. Perder o marido foi duro. Mas se ele gostava de ti, queria ver-te feliz. Cada um carrega o que a vida lhe deu, não se pode fugir do destino.

Eu só tinha medo de ser julgada.

Porquê?

Por casar de novo. Ainda por cima com alguém como o Fernando. Ele tinha escolha, podia ter ficado com quem quisesse. E escolheu-me

Simão mexeu-se no colo da avó, que o pousou no chão.

E tu, quem és? olhou-me, olhos curiosos.

Agora sou tua avó, Simão. Chama-me avó Sónia.

Está bem! acenou a cabeça, sério.

O casamento, claro, foi à vontade do Fernando. A família falou, murmurou, mas bastou um olhar de Assunção para calar as bocas.

Quase um ano viveram os três em casa dela. O nó do peito sumiu, esquecido. Assunção via o carinho de Leocádia pelo filho, e tudo fazia sentido. Sabia, no íntimo, que era tempo de deixar ir, difícil era aceitar. De vez em quando resmungava, mas Leocádia tinha o dom de suavizar qualquer azedume, respondendo sempre com gentileza.

Pareces uma pedra, Leocádia! Devias, pelo menos umas vez, dizer ao marido como te sentes! Se calhar acalmava a sogra dizia Alzira, a empurrar a vaca no portão.

E depois todos discutiam, não? Mãe e filho de costas voltadas, de que serve? respondia Leocádia.

És muito orgulhosa, rapariga. Isso é mau.

O melhor é viver à minha maneira e ouvir menos as opiniões dos outros rematava Leocádia, entrando para casa.

Alzira bufava e ia espalhar novidades ao largo.

A casa que Fernando construiu ficou pronta um ano depois do casamento. Mudaram-se, trataram da lida, o tempo voava. Num dia de consulta, Leocádia soube que estava grávida.

Estou grávida? perguntou, espantada, à médica.

Então não está contente? Ou não era desejado?

Claro que sim! Mas corre tudo bem? Da outra vez foi diferente

Há riscos, tem de descansar. Vamos tratar para corre tudo bem para mãe e bebé.

Nessa tarde, Assunção veio tomar conta de Simão.

O que tens? Assunção reparou quando Leocádia lhe abriu a porta um pouco retraída.

Nada O seu rosto parecia zangado, pensei que estava chateada comigo.

Assunção arregalou os olhos. Alzira, claro, ela é que lhe tinha estragado o humor logo pela manhã.

Com uma nora doente e ainda por cima de apêndice? Ainda vais a tempo… tinha dito Alzira.

Assunção respirou fundo. Tanta maldade, mas porquê tanto veneno?

Deixa isso, filha. Não ligues. O mundo está cheio de gente assim.

Não faz mal, mãe. Só queria mesmo não ir para o hospital.

Tens de ir, Leocádia! Se é para bem do bebé, não há que hesitar. Quanto ao Simão, fica sossegada, cuido bem dele.

Fernando levou Leocádia ao hospital e seguiram-se dias longos de espera. Envergonhada pela tragédia dos pensamentos, Assunção tentava encontrar distração. Simão brincava no quintal. Um instante, e desapareceu.

Onde foste, rapaz? Assunção largou os tachos, limpou as mãos e saiu. O portão estava aberto. A rua, deserta. Em poucos minutos foi como se Simão tivesse evaporado.

O que Assunção não sabia era que Simão ouvira uns rapazes a maltratar um cachorrinho preto e branco do outro lado do portão. Ele correu para ajudar o cão.

Larguem-no! Está a doer-lhe! gritou. Os rapazes riram, empurraram o cão, Simão tentava puxá-lo para si. Eles seguiram a correr e, só quando uma mulher lhes ralhou e obrigou a largar o cão, Simão percebeu que estava longe de casa.

E tu? Não vais também maltratar o cão?

Não, ele é pequeno. Dói-lhe.

A mulher seguiu caminho e Simão ficou ali, abraçado ao canito. O que fazer? Lembrava-se: se te perderes, fica parado, esperam por ti. Sentou-se num banco à sombra de uma porta. Era só esperar, a avó havia de chegar.

Só que ele já estava longe de casa. Assunção procurava nos arredores, mas nem sinal. Fernando, chegando de autocarro, apressou-se. Em casa, viu logo que algo se passava.

Fica aqui, vou procurar a mãe e o Simão disse à mulher cansada.

Encontrou Assunção já aflita.

Simão desapareceu! Saiu pelo portão, não estava a ver, não sei que fazer!

Calma, mãe. Diz-me tudo outra vez. Procuraste onde?

Aqui perto, ele nunca ia longe!

Pois. Vai procurar mais por estas ruas, eu vou mais longe. Não entres em casa, a Leocádia não pode ficar em sobressalto!

Encontrou Simão uma hora depois. O rapaz dormia num banco, com o cachorro aconchegado a ele, que logo rosnou ao Fernando.

Vais ser um bom guarda, hã? Fernando fez-lhe uma festa e pegou Simão ao colo.

Estive quieto, pai, fiz como disseste!

Bem, assim foi fácil encontrar-te. E esse?

É quase igual ao Faísca da avó.

Este é o Zé. Queres levá-lo?

Posso mesmo?

Claro. Casa sem cão não é lar!

Abraçado ao filho e ao cachorro, Fernando voltou. Assunção, ao ver ao longe, sentou-se exausta.

Mãe, já está. Está tudo bem.

Assustaste-me, filho!

Avó, não faço mais.

Assunção chorou baixinho, a embalar Simão. Que se danem as línguas da Alzira! Era neto, quanto mais não fosse!

Leocádia só soube mais tarde da história. Simão percebeu, não contou nada. Abraçados, lavavam o cachorro, tudo risadas.

Tinha saudades!

E eu ainda mais!

A irmã do Simão nasceu no tempo certo. Uma menina, ruidosa, a quem deram o nome de Sónia, em honra à avó. Assunção desatou a florescer, e se podia, ia logo visitá-los. Temia que Leocádia guardasse mágoa pelo episódio do Simão, mas nunca um queixume ouviu.

Ele podia ter fugido comigo, mãe. Não se culpe. Para ele, qualquer bicho é mais importante que ele. Até as joaninhas vai por na relva para não serem esmagadas.

É bom menino!

Assunção não dava conselhos, só ajudava como podia, e era agradecida pela confiança de sempre ouvir: “Obrigada, mãe!”

Ao ver Simão correr para ela, Leocádia sorrir e lhe pôr a menina nos braços, Assunção sabia que fazia bem.

Vais à neta outra vez? Alzira espreitava pelo portão.

Aos netos, mulher. São dois!

Só um é teu!

São dois, Alzira! Ambos meus. Quem não compreende, paciência. E queres saber? O amor é coisa de dois lados. Para seres amada, tens de ser tu a dar primeiro. Eu sou amada, tu és respeitada. São coisas diferentes.

Pois Respeito basta!

O amor é melhor, mulher! Mas deixa lá, que vou perder o autocarro. Os meus esperam por mim.

E num passo leve, Assunção foi ao encontro da família, sentindo-se plenamente viva.

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