A Vida Depois do Divórcio

Vida depois do divórcio

Leonor, para quê tanta teimosia? a voz de D. Amélia ressoava na cozinha antiga, naquele tom de paciência condescendente, como se explicasse a tabuada a uma criança. Bastava ouvi-la para que algo no peito de Leonor se contraísse de desconforto. O Rodrigo é um excelente rapaz. Bem-apessoado, inteligente, um salário jeitoso e ainda herdou o apartamento do avô em Lisboa. O que queres mais?

Leonor pousou a colher com que mexia o caldo verde e ergueu o olhar para a mãe. As mãos tremiam-lhe de leve; apressou-se a escondê-las debaixo da mesa, para D. Amélia não perceber.

Mãe, ele traía-me Leonor falou em voz baixa, mas com firmeza. E não foi uma vez nem duas, era constante. Estivemos casados seis meses e eu já tinha mais provas do que aquelas que bastaram ao juiz. Nem quis dar-nos tempo para pensar, logo despachou o processo! Percebe, mãe? Até um estranho viu que o nosso casamento estava perdido!

Pronto, filha, mas olha lá encolheu os ombros a mãe, endireitando o avental com cerejas bordadas todos os homens fazem dessas coisas. E olha, se por acaso fosses uma boa esposa, não ia buscar consolo nos braços de outra! Tinhas era de cuidar de ti, filha. Fazer uns cursos, inscrever-te no ginásio, cortar o cabelo. E pronto, ao primeiro tropeção, zás! Divórcio!

O suspiro de Leonor ecoava exausta, envolto em resignação. A conversa repetia-se à exaustão, rodada, quase todos os dias desde que se refugiara naquela casa, à espera que os inquilinos saíssem do pequeno T1 na Graça, herdado da avó. Só sonhava com a calma de recomeçar um sítio só dela, onde pudesse respirar em paz.

***

O toque da campainha, brusco, incessante, quebrou o silêncio do entardecer. Leonor sentiu logo um calafrio: era o Rodrigo, de novo. O coração caiu-lhe aos pés, as mãos tornaram-se húmidas. A mãe fazia questão de lhe abrir a porta, sempre sorridente, como se não percebesse (ou não quisesse perceber) o mal-estar da filha.

Leonor, olha que é o Rodrigo! gritou D. Amélia da cozinha, com a alegria de criança nas palavras. Entra, entre querido! chamou para o corredor com tanto entusiasmo que Leonor sentiu enjoo.

Agarrou a colher até branquearem-lhe os nós dos dedos, o metal doloroso na palma. O nó na garganta crescia, a respiração pesada.

Mãe, eu não quero falar com ele murmurou, a tentar controlar a voz.

E eu? atirou a mãe, agora áspera. Esta casa é minha, e convido quem quiser. Enquanto viveres aqui, cumpre as minhas regras!

Levantou-se a custo da cadeira, quase a derrubar a chávena, e atravessou a cozinha ignorando os olhares. O cheiro intenso do perfume de Rodrigo deu-lhe náuseas sempre o mesmo, amadeirado, que antes reconhecia até nos sonhos.

Leonor, espera! chamou-lhe o ex-marido, numa voz melosa, que só alimentava mais irritação.

Ela não respondeu. Abriu o vidro da varanda de rompante, saiu sem olhar para trás e fechou-o com força, como se assim pudesse trancar para sempre todo aquele passado. Sentiu o frio na cara e no pescoço, mas não quis saber. Empoleirada no gradeamento, olhava Lisboa os prédios cinzentos, as luzes dispersas, uma figura apressada de guarda-chuva aberto lá em baixo. Ao longe, um camião do lixo fazia um barulho surdo, aqui e ali biscava-se uma música leve numa varanda uma felicidade alheia que doía.

“Ao menos que ele vá embora depressa”, pensava, enquanto se encolhia no casaco leve. Ouvia o riso vivo da mãe, louça a tilintar, água corrente, conversas descontraídas como se nada tivesse acontecido, como se a filha não estivesse ali, a congelar sozinha.

Os minutos passaram lentos, gelatinosos. Leonor estremecia de frio, mas nem pensava regressar à cozinha. Respirou fundo, prendeu os olhos nas luzes distantes, tentou ouvir só o burburinho da rua, qualquer coisa menos o que se passava ali dentro.

De repente, o trinco rangia não muito alto, mas bastante para Leonor estremecer. Era Rodrigo no terraço, a poucos passos, as mãos nos bolsos, inclinando-se na tentativa de lhe alcançar o olhar.

Podemos falar a sério? perguntou ele.

Não há nada para dizer Leonor desviou o rosto, fixando as gotas na vidraça ao lado, a lutar para controlar a irritação crescente.

Por favor… Eu já percebi onde falhei, mudei mesmo. Dá-me uma nova oportunidade. Posso ser diferente, prometo.

Nem um pedido de desculpas decente virou-se finalmente, indignada. Só queres voltar ao conforto antigo, à rotina. Não mudaste, Rodrigo. Só te incomoda o que perdeste.

Mas…

Chega interrompeu-a, surpreendendo-se até com o tom de firmeza. Não quero promessas. Não quero um homem que não sabe ser leal a uma mulher, que põe o seu ego acima do respeito por mim.

Tentou abrir a porta da varanda, mas claro a mãe tinha trancado.

Mãe! gritou Leonor com um desespero que mal reconheceu na própria voz. Abre isto!

Uns segundos depois, o trinco rodou. D. Amélia apareceu ao fundo da varanda a sorrir, com chá fumegante numa chávena e um avental com cerejas, como se estivesse tudo em festa.

Então, estão aí a apanhar frio? pôs a chávena sobre a mesa, ajeitou a toalha colorida. Vão comer alguma coisa, está tudo quentinho. Chá de limão como vocês gostam.

Leonor atravessou a divisão quase a ignorar os olhares, com raiva não só de Rodrigo, mas principalmente da mãe aquela intromissão constante, sem qualquer compaixão pelas dores e escolhas da filha.

Mãe, basta! parou no corredor, encarando D. Amélia. Não quero vê-lo aqui, nem quero que o convide! Esta é a minha vida, deixe-me ser eu a decidir!

Deixa-te disso, Leonor a mão materna no ombro pareceu-lhe estranha, obrigatória, distante. Ele está arrependido, só precisa de uma segunda oportunidade. És muito orgulhosa devias ser mais compreensiva…

Leonor fechou os olhos, contou até dez. Discutir era inútil, mas não podia evitar que as lágrimas se acumulassem nos olhos. Retirou-se para o quartinh, fechando a porta com força, tapando-se do mundo. O ar estava pesado de calor, esquecera-se de abrir a janela de manhã. Sentou-se na cama, apertando as mãos até não tremerem.

Do outro lado, os risos da mãe com Rodrigo prolongavam-se como se D. Amélia quisesse provar qualquer coisa ao universo. O tom de Rodrigo chegava abafado, mas igualzinho ao de tantas discussões: cândido, paternalista, como se argumentasse com uma criança birrenta.

“Como teve coragem de aparecer depois de tudo? Após todas as mentiras, todas aquelas ‘colegas’? Três só nas que eu soube, em seis meses… quantas seriam ao todo?”

Quando finalmente a casa silenciou, Leonor voltou à cozinha. O cheiro a chá com hortelã e a bolo de cenoura flutuava no ar, reconfortante. Por um instante apetecia-lhe ignorar tudo, sentar-se à mesa como antigamente. Mas conteve esse impulso.

Para quê essa cara? perguntou-lhe a mãe, com sorriso forçado. O Rodrigo está arrependido. E já lhe disse: tem que te provar que mudou.

Não quero que prove nada apoiou Leonor na ombreira da porta, a sentir a rugosidade da tinta. Não o chames cá, nem quero vê-lo. Só quero algum sossego até ir para minha casa. Não peço assim tanto.

A mãe largou um suspiro carregado, sentou-se como se o peso do mundo lhe tivesse caído nos ombros.

És muito radical respondeu, agora séria ninguém é totalmente certo ou errado. Tu também cometeste os teus erros… Foste fria? Não lhe deste atenção?

Portanto, a culpa foi minha? a voz saiu-lhe embargada. Fui eu que o obriguei a trair-me?

Não é isso… hesitava D. Amélia, os olhos postos na janela, onde já anoitecia mas uma relação é feita dos dois. Faltou-te paciência, filha…

Só lhe faltou a ele outra coisa: fidelidade! cortou Leonor, com uma firmeza que nunca pensou ter. É assim tão difícil manter uma promessa?

***

Rodrigo passou a surgir amiúde, como um fantasma entranhado naquela rua de Alfama. Aparecia à porta da mãe, cruzava-se “por acaso” quando Leonor ia pôr o lixo, oferecia-lhe bombons, dizia que só queria conversar.

Um dia veio com rosas vermelhas e uma caixa de chocolates Regina, daquelas com licor cá de casa, que Leonor adorava em criança. As flores cheiravam a água fresca, via-se que acabavam de vir do mercado. Rodrigo avançou com um sorriso de comoção por instantes, ela quase sentiu o passado a puxá-la.

Para ti e os olhos dele brilhavam como dantes, com aquela covinha que em tempos lhe era querida. Agora via um homem mais velho, olhos cansados, sorriso artificial.

Não devia ter vindo Leonor recuou um passo. Já lhe pedi para não aparecer.

Eu sei… mas não consigo esquecer-te. Ainda significas muito para mim.

Significava corrigiu ela. No passado.

Rodrigo calou-se, o olhar por fim resignado.

Desculpa andar atrás de ti.

De repente, D. Amélia apareceu à porta.

Entra, rapaz! Anda cá, não fiques aí fora! e a sua voz era demasiado alegre, demasiado teatral. Leonor, aceita o ramo! Uns cravos tão bonitos…

Não, mãe. Não preciso de flores de estranhos Leonor respondeu controladamente.

A mãe ignorou e acolheu Rodrigo sob o braço. Ele entrou, constrangido, mas sem protestar, e Leonor resguardou-se no seu quarto.

Vai insistindo; ela é boa rapariga ouvia-se a mãe do outro lado. Há-de perceber teu esforço. Persiste.

Leonor abafou os ouvidos. Chorava ou desenhava e desenhava, pois só assim as linhas desfeitas começavam a dar-lhe alguma paz. A tinta e o papel eram, por agora, o seu refúgio.

***

Os meses passaram. Leonor mudou-se enfim para o pequeno T1 na Graça. Arranjou amigas novas, passou a frequentar uma aula de ioga aos sábados. A cada manhã, na varanda, inspirava fundo desapegando-se do passado com pequenas liberdades, pequenos passos.

Numa dessas tardes, ficou à conversa com o instrutor de ioga, Vasco. Era mais velho, tranquilo, sempre atento, com um sorriso seguro que não julgava. Trocaram contactos, falaram, voltaram a encontrar-se. Vasco não era como Rodrigo sem promessas vazias, sem grandes gestos, mas sempre presente, sincero.

Com ele, Leonor sentiu liberdade para ser imperfeita. Encontrava-se, aos poucos, feliz junto de alguém que nem precisava de a preencher: bastava estar.

Quando contou à mãe pela primeira vez, D. Amélia reagiu de pronto um interrogatório seco, afiado e cheio de crítica.

Quem é então esse tal Vasco? Que faz ele da vida? Tem casa própria? espalhou as perguntas como quem lança pedregulhos.

Instrutor de ioga. Trabalha ali perto do meu emprego, aluga um apartamento no Bairro Alto.

Só isso? torceu o nariz a mãe, como se provasse limão. Não tem nada. Vais sustentá-lo, é? Queres passar a vida a contar trocos?

Mãe, só quero respeito. Ele é bom para mim. Basta-me isso.

Bah, isso não é vida! O Rodrigo podia dar-te tudo. Tu é que és complicada, nunca sabes o que queres!

Leonor suspirou, ignorando o debate inútil. Para D. Amélia, felicidade era dinheiro, estatuto e marido com emprego público; mulher boa era a que engolia tudo em silêncio. Sabia que jamais a demoveria.

Com Vasco, tudo era simples: conversavam, passeavam por Alfama, cozinhavam juntos. Leonor, enfim, acreditava na possibilidade de outro futuro. Meio ano depois, Vasco pediu-a em casamento. Puseram os pés no Miradouro de Santa Catarina, de mãos dadas, e ele disse-lhe ao ouvido:

Leonor, quero ficar a teu lado. Casar contigo.

Sim sussurrou ela, e sorriu, sentindo-se inteira.

Logo adivinhou os dramas em casa. D. Amélia cruzou os braços, postura severa, nada disposta a ceder.

Não podes casar com um magala destes! Vais-te arrepender, filha! Estás a estragar a tua vida!

Mãe, a minha decisão está tomada. E estou feliz, só isso deve importar.

Não sabes nada da vida… vais chorar lágrimas de sangue!

***

O casamento foi singelo, como ambos sonharam. Só os mais íntimos, nada de esplendores nem quintas caras. Vestido branco simples, fato azul marinho para Vasco. Ao trocarem as alianças e ouvirem o “pode beijar a noiva”, Leonor sentia que, finalmente, fazia algo seu.

D. Amélia não apareceu. Entregou, em vez disso, um ramo de lírios brancos com uma fita preta e um bilhete: “Espero que ainda vás a tempo de voltar atrás.” Leonor olhou aqueles lírios, pousou-os sem lágrimas.

Ainda houve uma última surpresa: a mãe convencer Rodrigo a aparecer. Ele aguardava junto ao portão, mãos nos bolsos.

Que fazes aqui? Leonor perguntou, sem o peso de outrora.

A tua mãe pediu-me respondeu, cabisbaixo. Disse que não estavas bem, que me querias dizer algo…

A minha mãe fala muito interveio Vasco, sereno, puxando Leonor pela mão. Mas nem sempre acerta.

Liga-me se te fartares de viver de tostões. Estou sempre aqui.

Rodrigo saiu, e o mal-estar desvaneceu-se como um vapor já distante.

Após o casamento, Leonor e Vasco receberam uma proposta. Um trabalho em Braga, cidade cheia de vida. Leonor aceitou sem hesitar. Ia, pela primeira vez, recomeçar sem sombras.

No dia da partida despediu-se da mãe. D. Amélia, de costas para a porta, braçalho cruzado à janela.

Mãe, vamos para o Minho.

A fugir dos problemas?

A correr para a felicidade. Só quero que respeites a minha escolha. Se conseguires, serás sempre parte da minha vida, mãe.

A mãe virou-se, olhos duros.

E porquê haveria de te respeitar? Trocaste tudo por um tipo qualquer. Que futuro te garante ele? Não é ninguém!

Leonor sentiu o cansaço pesar-lhe nos ossos. Quantas vezes aquela conversa?

O Vasco dá-me respeito, confiança, paz. Com ele posso ser eu. Isso basta-me.

Paz? É isso que chamas ter paz? A viver de renda, numa cidade longe, para quê? O Rodrigo dava-te tudo. Não vou deixar as coisas assim!

***

Leonor não soube que, nesse serão, D. Amélia pegou no telefone e ligou a Vasco, num tom afável e matreiro.

Olhe, Vasco, preocupo-me muito com a Leonor. Ela é impulsiva, não sabe o que faz. Vai arrepender-se. Ainda ama o Rodrigo, sabia? Você é só um refúgio, ela não vai ser feliz longe de tudo. O Rodrigo estará lá quando tudo correr mal.

Vasco ouviu tudo e respondeu calmo:

D. Amélia, agradeço a preocupação, mas conheço a Leonor melhor do que pensa. Sei o que quero e quem amo. Ela escolheu-me. Não a vou desiludir.

Ai menino, quanta ingenuidade! Acha mesmo que vai ser feliz com ela no Norte, longe de tudo?

Vamos encerrar a conversa. Leonor sabe o que faz. E estamos juntos.

Desligou, sentindo pena em vez de raiva. Que difícil vida para quem cresce assim, sempre posta à prova.

***

No dia seguinte, Leonor bateu à porta da mãe com um ramo de margaridas e uma caixa de bolachas de manteiga, as preferidas de infância. Quis despedir-se bem, sem mágoa.

Nem queres ponderar? D. Amélia não se continha, ajeitava a toalha, voltava a vincá-la. Fica um mês. Não vás já. Podes cansar e arrepender-te…

Mãe, já está tudo alinhado. A nova casa fica ao pé do parque, já conheci os colegas, o Vasco já falou com a nova academia… Está tudo pronto.

Ele tratou de tudo, não foi? Quer amarrar-te, porque sabe que aqui, comigo e com o Rodrigo, abrias os olhos!

Leonor hesitou, desarmada pela injustiça destas palavras.

Achas mesmo que o Vasco é assim? Que me manipula?

Todos são! O Rodrigo pelo menos era franco. Este esconde-se atrás da bondade!

Basta, mãe. Não suporto mais ser culpada só porque quero ser feliz!

Virou-se para sair, mas a mãe agarrou-lhe o braço, forte.

Espera, filha. Eu só quero o melhor para ti.

O melhor é o que escolho eu, mãe.

Soltou-se com cuidado para não magoar a mãe. A senhora recuou, abatida.

Então, é assim? Vais trocar tua mãe por um homem?

Não te estou a abandonar, mãe. Só quero espaço para decidir o que quero da vida. Gostava que me aceitasses. Mas se não conseguires, precisamos da distância.

Quando deres conta do erro, sabe o caminho murmurou D. Amélia.

Leonor fitou a mãe, os cabelos já cinzentos, a mão tensa agarrada ao parapeito. Quis abraçá-la, mas tal gesto soaria falso. Saiu devagar, atravessando o pátio sem barulho. No bolso, o novo número de telefone, que não daria à mãe pelo menos por agora. Sabia, no fundo, que um dia poderia voltar a falar, mas por enquanto precisava de espaço. Espaço para se encontrar, para respirar livre, inteira, dona de si.

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