O avô já não está cá
A Inês tinha acabado de regressar de mais uma viagem de trabalho e mal teve tempo de pousar a mala e tirar o casaco, quando a mãe lhe ligou.
A voz da D. Fernanda estava estranhamente tremida. Mas confesso que nem me dei conta. Talvez por causa do cansaço.
Inês, filha, já chegaste a casa?
Olá, mãe. Sim, acabei de entrar. Acabei mesmo agora de abrir a porta. Porque ligaste? Passou-se alguma coisa?
Ainda bem, filha. Que já estás em casa. Respondeu a mãe, de maneira contida.
Senti logo que a minha mãe queria dizer alguma coisa, mas estava a hesitar, sem saber como começar. Ou talvez por outra razão.
Deve ser mais um daqueles mexericos que apanhou na vizinhança… e agora não aguenta para me contar tudo. pensei, sem paciência. Hoje não estava com cabeça para conversas. Tudo o que queria era atirar-me à cama e dormir, depois de uma longa noite mal dormida no comboio.
No compartimento ao lado, viajava um grupo de rapazes que começaram a beber logo ao final da tarde. Depois da meia-noite, deram início a um concerto improvisado, guitarra e tudo.
Até me dedicaram uma música, vejam bem…
Laranjeira, pequenina
Eram dois, nunca mais,
Saiu à beira do rio,
A Inês, que já não vês…
ecoava, do outro lado da parede.
Noutra altura talvez tivesse achado piada, mas naquele momento só desejava que lhes rebentassem as cordas da guitarra. Não aconteceu, claro.
Mãe, vou descansar um pouco da viagem, tomar um banho e depois ligo-te, está bem?
Não sei se vais conseguir, filha… suspirou a mãe.
Como assim não vou conseguir? comecei a estranhar aquele tom.
Descansar, Inês. Hoje não vais conseguir descansar.
Mas porquê? Não estou à espera de visita nenhuma, nem vou a lado nenhum. E tu não me vais aparecer de surpresa, pois não?
Houve um silêncio.
Inês, já não temos o avô…
Senti-me gelar. Agarrei o telefone com as duas mãos, sentei-me lentamente no sofá. Não estava nada à espera daquilo.
Ligou-me a D. Maria do Carmo, a vizinha dele. Passou lá para lhe levar leite e encontrou o avô António já caído, mesmo à entrada da porta, mão ao peito, sem respirar. Deve ter estado ali a noite toda. Bom, agora temos de ir ao Alentejo, filha. Preparar o funeral. Os vizinhos ajudam, pelo menos. Inês, estás a ouvir-me?
Estava tão atordoado com a notícia que mal consegui dizer qualquer coisa. Consegui balbuciar um Uh-hum.
A D. Maria do Carmo também telefonou aos outros familiares, mas recusaram-se a vir. Um deles até lhe disse: Se ao menos tivesse deixado herança, ainda pensávamos no assunto. Gastar dinheiro e tempo sem razão, para quê? E a casa onde o avô morava, como deves imaginar, ninguém a quer saber dela há anos.
Digo-te sinceramente, nem eu tenho vontade nenhuma de voltar àquela aldeia. O teu avô, como sabes, não me queria lá. Pediu-me que nem aparecesse no funeral. Jurei-lhe que assim faria, e cumpro o que prometo. Por isso só posso contar contigo, filha. Tu podes ir, não podes? Dar-lhe um último adeus?
A mãe calou-se. Eu também me calei, olhando para a mesinha de cabeceira, onde estava a última carta do avô.
Ainda com o selo do correio afixado enviada há mais de um mês. Infelizmente, não a tinha chegado a ler, pois tinha estado fora em trabalho.
Era já a terceira viagem só neste semestre, e provavelmente não seria a última. No trabalho abriram nova sucursal em Braga, e os colegas arranjaram sempre desculpa para não ir um com problemas de saúde, outro com filhos pequenos, outro com complicações familiares… Só eu parecia ter uma vida suficientemente tranquila.
Inês… voltou a voz da minha mãe no telefone. Não quero que digam por aí que esquecemos o velho. Era difícil, é verdade. Mas era gente. E até tínhamos boa relação, não tinhas?
Claro, mãe, vou. É evidente que vou. Só não percebo como pode ter acontecido. O avô estava tão bem pelo Natal, até parecia rejuvenescido.
Oh filha a mãe com voz resignada , a idade apanha toda a gente. Há quem nem chegue à reforma, e o teu avô já estava a rondar os oitenta. Temos de agradecer por tanto.
Fiquei em choque. Sempre gostei imenso do meu avô e, na verdade, eu era talvez a única que mantinha relação com ele. Os outros familiares de António Coelho já tinham cortado ligação havia muito tempo. A minha mãe… Bem, entre ela e o avô havia tensão desde sempre.
O meu avô nunca lhe perdoou a morte do meu pai, e culpava-a por tudo o que aconteceu. Achava que ela forçou o marido (o meu pai) a trabalhar demais, até à exaustão, quando ele era só um professor simples. Tudo para ganhar mais uns tostões para as melhorias na casa e para viver acima das possibilidades. Um dia o coração do meu pai não aguentou mais.
Dizem que não há dor maior do que um pai enterrar o filho. Foi horrível vê-lo naquele funeral, completamente destroçado. Depois disso, nunca mais quis a minha mãe na casa nem a porta aberta no dia do funeral do neto, quanto mais.
Everything as you want! disse então a minha mãe, chorosa mas orgulhosa. Não sou culpada de nada. Homem tem é de ganhar dinheiro, para isso é que serve. Se tinha problemas de saúde, não era a mim que se queixava…
Rezam as más línguas que o avô ia atirar-lhe um cepo naquele dia, não fora um vizinho impedir.
Comigo, pelo menos, ele nunca deixou de falar. Adorava a neta. Quando eu ainda era pequeno, passava todos os verões com ele. Quando cresci e comecei a trabalhar, trocávamos cartas. Sim, cartas ele nunca teve confiança em telemóveis, não queria saber desses modernismos.
Talvez fosse por isso também que a família se afastou dele. Quem haveria de manter uma correspondência à moda antiga em pleno século XXI?
Na aldeia, chamavam-no de esquisito. Depois de perder a mulher e o filho, veio-lhe um fraquinho., diziam as mulheres ao fim da tarde, sentadas à sombra a tricotar.
No último mês de vida, até a D. Maria do Carmo duvidou da sanidade dele. Ele falava sozinho, mas parecia falar com um gato. Só que… ninguém nunca viu gato nenhum. Nem se ouviu miado. Era caso para pensar…
Depois de desligar com a minha mãe, deixei-me ficar a olhar para o teto. Chorei. Queria tanto ter ido ao Alentejo ver o avô naquele verão, mas o trabalho não deixou. Primeiro uma viagem, depois outra, depois mais uma…
O chefe já nem tinha vergonha de me mandar outra vez. Se não gostas, Inês, faz o favor, batateira, de procurar emprego noutro lado mas salário igual não arranjas. E era verdade, o salário era bom, por isso aguentava.
Um dia, pensei, isto tudo acaba, volto à rotina habitual. Apesar disso, sentia-me usada quem me dera um pouco de respeito. Eu também gostava de vida própria, família, amigos… mas já nem sabia o que isso era, entre tanta viagem.
*****
O funeral foi como todos os funerais de aldeia simples, com poucos familiares, muitos vizinhos. Depois do silêncio, pregado o último prego, uns homens baixaram o caixão à terra, ataram as cordas, e os que ficaram atiraram terra até tapar o buraco. Ficaram flores, coroas e uma tristeza funda. Já não há avô. Existiu, e agora já ninguém.
Resta o almoço de homenagem, os vizinhos de copo na mão, as anedotas de ocasião para animar as memórias. Bebeu-se vinho e disseram-se as verdades possíveis com isso, lá se vai mantendo viva uma pessoa, na memória dos que a amaram.
Quando todo o mundo tinha saído, voltei à casa do avô. Um silêncio enorme. Senti-me sozinha, triste, perdida. Perdi-o… Nem cheguei a tempo de me despedir.
Procurei tarefas para acalmar a cabeça: abri todas as janelas, limpei o chão, sacudi o pó dos móveis, tirei teias de aranha e arrumei o resto dos alimentos no frigorífico.
Dei por mim a reparar na casa, no quintal bem tratado. Nada de plantado ainda, só a terra preta, mas os canteiros estavam direitinhos. Talvez o avô soubesse que já não ia cá estar ou então só não lhe deu tempo.
No pomar, as macieiras estavam em flor, com groselhas e framboesas alinhadas. O avô nunca deixava a terra ao abandono.
Sabe-se lá quem vai agora cuidar disto, pensei, cansado.
Sentei-me num banco à sombra e telefonei à mãe, a contar-lhe como tudo correra.
Fizeste bem, filha, em lá ir. Como ele era, era uma pessoa, e merece respeito.
Ele era normal, mãe, normal. A vida é que lhe calhou dura. Não guardes ressentimento, por favor. Amava mais o meu pai do que a ele próprio. Só não teve forças para lidar com tudo.
Eu sei, Inês… Que descanse em paz. Quando voltas?
Nem hoje, nem amanhã. Fiquei de fazer luto pejado e quero descansar um pouco, aproveitar o sossego da aldeia. Ainda tenho de cá ficar uns dias… Devias vir à aldeia também, sabes que aqui está também a campa do pai. Nunca vieste cá desde o funeral…
Disse ao teu avô que devia ter levado o André para o Porto, mas ele… enfim. Agora deixa-me, que começou a minha novela preferida. Liga-me se precisares.
Sorri ao ouvir isto. A minha mãe sempre soube evitar conversas difíceis.
Fui fazer chá de folhas secas hortelã e erva-cidreira, reminiscências do avô. Bebi e fui deitar-me cedo.
Antes de dormir, peguei na carta dele, reli-a. Desta vez pareceu-me ainda mais estranha. Em vez de falar de si, escrevia de um tal gato o Panças.
Falava como se existisse mesmo. Dizia:
Sabes, minha neta, o Panças adora leite. Dizem que não se deve dar leite a gatos, mas ele ontem bebeu meia tigela. Amanhã vou pedir mais leite à vizinha, porque já acabou e ele está sempre cheio de fome. O curioso é que só o vejo de raspão mal o vejo, já corre para o barracão. Fico a pensar se foi a vida que lhe bateu tão mal.
Mas nunca vi esse gato. E nos dias que estou cá, nada. Curiosamente, o tal olhar dele na nuca, que dizia no postal, senti-o ontem olhei para trás e não vi nada.
Talvez amanhã pergunte à D. Maria do Carmo se percebe alguma coisa deste Panças…
*****
Acordei ao nascer do sol. As janelas deixando passar a luz pálida, os melros chilreando cá fora, o galo a cantar desafinadamente o típico amanhecer alentejano.
Levantei-me, abri a janela, inspirei fundo. Lembrei-me dos verões com o avô fazíamos casas para os pássaros, pintávamos, ríamos.
Depois fui à vizinha.
D. Maria do Carmo, sabe de um gato preto, Panças, do qual o meu avô falava?
Hã? arregalou os olhos.
É estranho, eu sei. Mas na última carta só falava do Panças. No início não falava de nada disto, mas de repente passou a ser o tema principal.
Ah! exclamou ela. Olhe, filha, há coisa de um mês começou a falar para um gato. Vi-o umas vezes a insistir, como se ele lhe fosse aparecer, mas nunca vi gato nenhum. Passava, via-o a falar sozinho, olhava por cima do muro e nada. Mas ele falava, falava. Contava-lhe da vida, das mágoas… e chamava-lhe sempre Panças. Outras pessoas também ouviram. Mas ninguém nunca viu gato algum nem dentro nem fora da casa. Enfim, filha, acho que o teu avô começou a baralhar-se mesmo.
Pode ser, disse eu, pensativo. Mas nunca senti o avô fora de si. Talvez haja algo que não sabemos. Ou então o gato era mesmo bom a esconder-se. Aqui na aldeia não desapareceram gatos?
Não, e além disso ninguém aqui tem gatos pretos.
Voltei para casa, pus mãos à obra no quintal mas não me saía o assunto da cabeça. Se este gato existia mesmo, para onde terá ido?
Mal sabia eu que, do outro lado do murinho, um gato preto de olhos vivos me observava.
O Panças já há dias me seguia à distância entre todos os que passaram por ali, só por mim pareceu sentir confiança. Talvez fosse o cheiro, ou só porque tinha o mesmo jeito doce do avô.
Nunca o avô lhe fez mal; pelo contrário, contava-lhe tudo, e chamava-o para junto de si. Só o medo impedia o Panças de aparecer: as pessoas tinham-lhe feito muito mal quando era pequeno.
Na noite em que o avô morreu, ele percebeu logo sentiu o cheiro estranho e encostou-se à porta, mas não conseguiu entrar. Passou a noite encolhido, a miar baixinho…
Agora, espreitava-me. Tinha vontade de me conhecer, mas não se atrevia. O medo de humanos sobrevivia, mesmo que visse que eu não lhe fazia mal.
No nono dia de luto, a tradição portuguesa de lembrar os mortos, aconteceu algo especial.
Estava eu a arrumar o quintal quando o vi, de relance; o Panças, olhos de azeviche, espreitava do meio das silvas.
És tu, Panças? sorri. O avô escreveu mesmo sobre ti.
Dei-lhe espaço, chamei-o, mas ele sumiu num ápice. Tentei ir atrás, mas não o apanhei.
Anda cá, não tenhas medo, só te quero conhecer falei, espreitando debaixo das laranjeiras.
Por coincidência, a D. Maria do Carmo passava na rua, trouxe-me bolinhos para levar na viagem e apanhou-me a chamar pelo Panças.
Espiou pelo portão, viu-me sozinha, e comentou para si:
Primeiro o avô, agora a neta isto pega-se pela vizinhança, só pode…
Ao almoço, as nuvens começaram a cobrir o céu; um prenúncio de trovoada. Sentia-se no ar uma inquietação sufocante: até as galinhas cacarejavam desconfiadas, e ouviam-se os trovões ao longe.
Lá vem tempestade murmurei, olhando o céu.
E, de repente, caiu uma chuvada torrencial. Chamei o gato várias vezes para entrar, mas não apareceu.
O Panças encolheu-se na arrecadação, orelhas baixas, assustado pelo trovão. Tinha mais medo da trovoada do que de mim.
*****
A chuva batia no telhado sem parar, uns minutos ao rubro, outros mais mansa. A noite caía de vez, e não conseguia dormir.
Um relâmpago fortíssimo iluminou tudo, e de repente vi dois olhos brilhantes na janela.
Ai Jesus! dei um salto, recuando na cama.
No segundo seguinte, algo encharcado e negro entrou pela janela, correu para debaixo da cama e ficou imóvel.
Baixei-me: o Panças. Tinha-o finalmente ali comigo, ainda tremia. Custou-me muito tirá-lo dali, mas com jeitinho consegui.
Sequei-o bem, enrolei-o numa manta e, enquanto lá fora a tempestade rugia, eu e o gato aquecemo-nos juntos.
As trovoadas ficaram menos assustadoras naquele abraço improvisado.
*****
De manhã acordei com o Panças a tentar abrir a janela.
Os primeiros raios dançavam nas cortinas; a tempestade tinha passado.
Então, para onde vais, senhor Panças? sorri.
O gato olhou-me como se me pedisse desculpa pela fraqueza da véspera. Miou baixinho, arranhando o vidro.
Não te deixo sair sem pequeno-almoço. Depois decides: ficas aqui ou vens comigo. Acho que era isso que o avô queria que ficássemos juntos.
Dei-lhe de comer e abri-lhe a porta. Fui arrumar as coisas, o autocarro não demorava.
Quando saí com a mala, o Panças já me esperava à porta, enrolando-se nas minhas pernas, decidido a vir comigo. Via-se nos olhos encontrou aquilo que sempre procurou, um lar.
Sabia que sim, Panças murmurei, sorrindo.
Fui à vizinha entregar a chave da casa para ela ir vigiando.
Esse é…?
É, afirmei. O verdadeiro Panças. Viu que estava tudo bem com o avô, simplesmente nunca quis aparecer. Agora vem viver connosco. Medo de gente, sim, mas mais ainda tinha das trovoadas.
Deus me valha… abanou a cabeça, rindo. Lá vou eu tratar da casa. Vens cá outra vez, Inês?
Vimos os dois, prometo. Sempre que der.
Entrou-me mais um saco com bolos para a viagem.
No autocarro, com o Panças ao colo, olhei para a janela e juro que me pareceu ver nas nuvens o sorriso do avô António.
Até o Panças pareceu ver colou-se ao vidro, olhos brilhantes.
O rosto sorria, piscava-nos o olho. Depois, as nuvens passaram, e ficou a certeza: mesmo que parta, uma pessoa nunca vai embora, enquanto existir no coração de quem a amou.
O avô continua connosco. E, quem sabe, orgulhoso por ver a neta e o seu misterioso amigo, por fim, juntos.






