Motim Tardio
Tu tens mesmo consciência do que estás a fazer? a voz da Matilde soava tão calma, quase plana, que aquilo era pior do que qualquer berro. Percebes o que isto significa para todos nós?
Lurdes estava à janela a olhar para a rua. Chovia aquele típico chuvisco outonal, e os passantes apressavam-se por baixo dos guarda-chuvas, a evitar tanto o contacto visual como as poças.
Eu sei o que significa para mim respondeu finalmente.
Para ti. Matilde rodou a palavra como quem pesa um tomate no mercado. É sempre assim: para ti. E nós?
Vocês são adultos, Matilde.
Mãe, tu tens sessenta e um anos.
Não preciso que mo lembrem.
Matilde sentou-se no velho sofá da sala. Aquele sofá já tinha mais idade do que alguns prédios em Lisboa veio da outra casa, da vida anterior. Lurdes olhou para ele e pensou na quantidade de vezes em que tinha prometido despachá-lo, e depois nunca teve coragem. O hábito pesa. E, sejamos francos, deitá-lo fora era quase como despedir um amigo.
Já te passou pela cabeça o que a malta vai dizer? indagou Matilde.
Não disse a mãe, com honestidade desarmante. Nem pensei nisso.
***
Isto começou lá para março, quando a Lurdes Maria Esteves Silva, professora reformada de português e literatura, hoje com uma modesta massinha acumulada e um part-time a dinamizar o clube infantil da biblioteca, aceitou um convite para passar o fim de semana com a amiga Gracinda em Évora.
A Gracinda já vivia por lá há oito anos. Depois de enviuvar, comprou uma casinha nos arredores da cidade, plantou uns tomates, criou uma série de galinhas e, segundo dizia, finalmente conseguia respirar. Lurdes visitava-a, quase sempre de verão, mas neste ano, algo empurrou-a a ir já. Não em agosto. Agora.
Março em Évora não é primavera para gente friorenta: chuva miudinha, cheiro a terra. As casas caiadas quase brilhavam no céu enevoado, e Lurdes sentia uma paz estranha na rua estreita. Uma diferença entre silêncio e vazio foi lá que percebeu.
A Gracinda recebeu-a à porta, de chinelos, com um sorriso e um já pus os rissóis ao lume.
Sentaram-se na cozinha de azulejos, chávenas na mão, enquanto Gracinda lhe contava as novidades do quintal, do vizinho que queria emigrar para a Suíça e da nova ideia que andava a magicar.
Estou a pensar em comprar uma cabra.
Oh Gracinda, és impossível! disse Lurdes, arqueando as sobrancelhas.
Para ter leite, queijo fresco Dizem que é fácil, puseram no Facebook!
Tu nunca viste uma cabra ao vivo!
Por isso mesmo, vai saber a descoberta! e lá foi recheando as chávenas. E tu? Estás apagada, mulher. Desculpa, mas é verdade.
Lurdes olhou para as mãos, já marcadas pelo tempo, veias a despontar.
Vou andando.
Vou andando serve para pouco. Alguma coisa não está bem.
Está tudo na mesma.
E isso é que é a chatice, sentenciou Gracinda. Quando está tudo igual, está tudo mal.
Lá ficou Lurdes calada. A noite caiu devagar e, lá fora, acendia-se a primeira luz amarela do candeeiro municipal.
No dia seguinte, a Gracinda arrastou-a até ao mercado. Não ao hipermercado vamos com calma , mas ao mercado tradicional, com peixeiro a cacarejar e velhas de avental a vender tomate e meias de lã. Foi junto aos cogumelos secos que Lurdes viu o António.
Ao início, nem o reconheceu. Quarenta anos e o cabelo branco têm esse dom. Mas qualquer coisa no feitio do andar, as mãos metidas nos bolsos, era igualzinho. Parou.
Ele também.
Lurdes? arriscou o homem.
António.
Nada mais disseram nos primeiros segundos. A Gracinda, súbtil como só ela, fugiu para o lado dos peúgos.
Estás por aqui? perguntou ela.
Já há dois anos. E tu?
Vim visitar a Gracinda.
Pois.
Silêncio. Não daqueles desconfortáveis, mas dos que sabem a tempo bem passado.
Não mudaste nada.
Não mintas.
Pronto, vá, mudaste poucochinho.
Ela soltou uma gargalhada. Não estava à espera.
***
O António Ribeiro era colega de faculdade. Não namorado, nem melhor amigo colega. Deram-se bem durante cinco anos de curso. Depois, cada um foi à sua vida. Ele foi para o Porto, ela ficou em Lisboa, casou, teve filhos. Soube pelos conhecidos que ele casara também e tinha filha. Nunca mais.
E agora: junto ao balcão dos cogumelos secos.
Combinaram jantar num cafézinho da praça. Gracinda, óbvia e tranquila: Vai lá, mulher! Não estou aqui para estragar recomeços, vê lá tu.
O café tinha madeira, luz quente e umas fotografias antigas de Évora nas paredes. Lá se sentaram, chá para os dois, fatia de tarte de maçã e conversa durante horas: antigos professores, as tristes figuras dos anos 80, piadas que deixaram de fazer sentido mas ainda davam para rir.
A certa altura, António disse:
A minha mulher morreu há três anos.
Sinto muito murmurou Lurdes.
Vá, já não custa tanto. Não é esquecer, só aprende-se a viver de outra forma.
Percebo.
E tu?
Ela pensou. O Álvaro, seu marido, saiu de casa para outra mulher já nove anos atrás. Sem grandes cenas. É assim, Lurdes, anunciou, e ela procurou nos anos todos alguma falha imperdoável da sua parte, até perceber que, com o tempo, nem tudo precisa de um motivo. Os filhos, a biblioteca, a Gracinda a vida foi-se tornando rotina, segura, mas sem cor.
Vai-se andando.
Ele assentiu, aceite como coisa natural. Nem sempre é preciso dizer tudo.
***
De regresso a casa, Lurdes achou que aquilo tinha sido só um episódio curioso: um reencontro, sorrisos, amigos que nunca se tornaram mais do que isso. Mas, uma semana depois, o António escreveu na aplicação: “Olá. Chegaste bem?”
Respondeu. E, vá-se lá saber como, começaram a trocar mensagens. Primeiro só de longe a longe, depois todos os dias. Lurdes não era mulher de smartphone (a Matilde passava a vida a ralhar por ela demorar a responder ou mesmo a ignorar a campainha do WhatsApp), mas nestes casos Bom, ficava à espera.
O António escrevia sem floreados, com aquela simplicidade rara. Falava sobre o restauro de igrejas, de como era diferente acordar no Alentejo, perguntava pelos miúdos e pelas crianças do clube. Chegou a mandar uma foto da sua gata Azeitona a dormir no parapeito, outra do chazinho fumegante, outra ainda de um céu azul de fazer inveja a qualquer postal turístico.
A Matilde, já a matutar no assunto há semanas.
Mãe, há algum passatempo novo no telemóvel? picou, cruzando os braços. Andas ali agarrada!
Estou a ler.
Tu sempre disseste que a vista se estraga com telemóveis.
Se calhar enganei-me.
A filha espiou-a com olhos de não me escapas, mas não perguntou mais.
Em abril, António sugeriu passar por Lisboa.
Preciso de tratar de uns papéis ali no Museu Nacional, podemos beber um café?
“Se não te importares…” Lurdes achou graça ao cuidado, típica formalidade de alguém que ainda diz meu estimado colega. Respondeu-lhe:
Aparece.
Encontraram-se junto à Praça do Comércio, com vento de abril, daqueles que só Lisboa conhece: frio que se finge primavera e sol de enganar turistas. Lurdes tirou o casaco bom do armário, aquele que estava à espera do tal dia especial.
Ali estavam ambos, num recanto junto ao rio, a falar do trivial e do importante: restauros de património, o clube, a filha de António em Madrid. Ela contou-lhe como um miúdo de oito anos inventara que os livros funcionam como janelas ao contrário: não deixam ver de fora para dentro, mas de dentro para dentro de nós.
Isso é de génio disse António. Só oito anos? Devias trabalhar com escritores.
Talento nato respondeu, rindo.
Foram beber um café, conversa sem pressas, sem obrigações, sem listas de tarefas. Sentia-se bem, até se esqueceu da Matilde, do velho sofá e das regras da cidade.
Ao despedir-se, António disse:
Gostava de voltar.
Volta quando quiseres.
***
A Matilde percebeu tudo em maio. Não porque a mãe lhe tivesse contado, mas porque lhe tocou o telefone três vezes e Lurdes não estava em casa o que era totalmente fora de rotina. Na última chamada:
Onde andaste?
A passear.
Sozinha?
Pausa minúscula: até o silêncio tem vozes.
Não.
E abriu-se a caixa de Pandora: perguntas, receios, indignações.
Quem é ele? interrogou a filha, já inflamada.
Um colega da faculdade.
Disseste que tinhas encontrado um conhecido qualquer!
Pronto, é isso.
Mãe, tu…
Eu sei a idade que tenho, Matilde.
Silêncio.
Mas isto é só passear?
Por agora, é.
Por agora repetiu a filha, como se o mundo fosse desabar com aquelas palavras.
O filho Miguel, a viver no Porto, lidou com mais pragmatismo. Lurdes, calma, contou-lhe que havia um amigo novo, um António do Alentejo. Ele só perguntou:
Ele é boa gente?
É, sim.
Ótimo disse o filho. E ficou-se por aí. Lurdes passou o resto do dia a cozinhar a ideia: seria melhor assim, ou preferia o furacão da Matilde? Não chegou a conclusão.
***
O verão trouxe outras rotinas. António passou a vir mais vezes a Lisboa, ela foi a Évora algumas vezes. Iam juntos ao mercado, ao museu, à pastelaria. António mostrou-lhe a oficina: cheirava a madeira velha, linhas de santos e retábulos, tintas e cheiro de cera.
Não te mete impressão mexer em coisas tão antigas? perguntou ela.
Pelo contrário, respondeu ele. Gosto de sentir que houve vida aí antes de mim, e que há depois. Não faço isto por qualquer razão esotérica.
Lurdes olhou para a peça que estava a ser recuperada. O rosto iluminado, traços confiantes.
O Álvaro dizia que eu perdia tempo com crianças. Com tão pouco que se ganha, não valia o esforço.
E tu?
Durante muito tempo acreditei que tinha razão. Quase até à reforma.
O António não disse nada. Bastava aquele olhar compreensivo.
No fim do dia, estavam em casa dele, chá quente na caneca, chuva a bater na janela. Lurdes pensava que finalmente o peito lhe assentava de calma. Não era falta de problemas: Matilde falava pouco, a neta, Rita, perguntava sempre se a avó voltava logo, e aquela culpa de ir só por si ainda a picava. Mesmo assim, o inquieto acalmava.
Já te passou pela cabeça mudar-te? O António disparou.
Para aqui?
Para aqui, para outro lado… mudar.
Falava devagar, não queria assustar.
Isso é proposta?
Não, mulher, é pergunta banal. Já pensaste nisso?
Não. Já pensei noutros tempos. Mas sempre pareceu impossível.
Porquê?
Filhos, neta, a casa, o trabalho… é tudo cá.
Os filhos já têm vida própria.
Não deixa de ser difícil.
Ele acenou, paciente.
Essa conversa ficou por ali, mas a semente ficou também.
***
Em agosto, Matilde veio visitá-la. Não havia aniversário, nem convocação de família. Só apareceu, mala na mão e bico calado.
Beberam chá. Matilde olhou a rua, depois lançou:
Isto é para valer?
O quê?
O António, tudo isto.
Não sei, filha.
Não te parece estranho? A esta altura da vida?
A minha idade ou a tua?
A nossa. O pai ainda é vivo, mãe…
O teu pai está noutra relação há nove anos, Matilde.
Isso não apaga trinta anos de casamento.
Pelo contrário: muda tudo.
Matilde recolheu a sua chávena.
Pensaste no que a Rita vai pensar? Já tem oito anos.
Ela só vai saber aquilo que explicarmos.
E o que lhe explicamos?
Lurdes olhou para a filha. Matilde parecia tanto o pai: o queixo, o olhar sério. Quando era pequena era enternecedor; agora, via-se aquilo como um espelho inquieto de si mesma.
Explicamos que a avó conheceu um bom amigo.
E depois?
Depois, logo se vê.
Tu dizes sempre isso!
Só o digo quando não sei mesmo qual será o depois. É genuíno.
Matilde ficou algum tempo calada. Depois, num tom magoado:
Tenho medo que te arrependas.
Também posso arrepender-me de não fazer, Matilde.
Ela virou-se.
Isso é filosofia. Não me acalma.
Também não acalma a mim, sabes. Mas é o que é.
Matilde apanhou o comboio de regresso ao Porto sem mais discussões. Abraçaram-se, como sempre, um calor estranho e tenso no gesto. Parecia que não queriam largar e, ao mesmo tempo, mal sabiam como agarrar.
***
Setembro chegou húmido e fresco. Lurdes já estava há seis anos reformada, mas o clube da biblioteca mantinha-lhe a semana organizada. Todas as terças e sextas havia miúdos, lápis, livros e vozes infantis. O espaço era acolhedor, de estantes baixinhas e almofadas velhas no chão.
A directora, D. Odete Matias, de sesenta e cinco anos, já tinha percebido tudo. Não por coscuvilhice, mas porque Lurdes mudara; era como se tivesse deixado de viver só para os outros.
Lurdes, há coisas a acontecer disse uma vez, sem perguntas.
Há, sim.
São boas?
Ainda não sei.
Olha, o que interessa é que haja movimento. Senão, ficamos como o Mondego nas secas, já viste aquilo, até medonho.
Lurdes riu-se.
Em setembro, António sugeriu irem juntos uns dias até Tomar, ver uma exposição de manuscritos. Ela aceitou. Alugaram dois quartos numa pensão simpática, passearam, perderam-se nos conventos, jantaram peixe do rio. Uma noite, António encarou Lurdes com a solenidade de quem vai fazer proposta de casamento em canal aberto:
Quero que saibas uma coisa.
Diz.
Não te quero pressionar. Se alguma vez te sentires assim, não é de mim.
Ela segurou o olhar dele.
Eu sei. Obrigada por seres assim. Como se diz em Lisboa: amigo e pronto.
Quero mesmo que acredites nisto. Não estou à espera de coisa nenhuma em concreto, não me vais decepcionar se não houver resultado.
Ela ficou calada um bocadinho, olhando a noite da janela: o rio adormecido, luzinhas refletidas.
É estranho aceitar isso murmurou.
Porquê?
Porque à força de tanto condicionalismo, de tanto sim mas, uma pessoa já desconfia de tudo.
Aqui não há mas.
Eu sei. Só estou habituada ao contrário.
Foram-se deitar cedo, juntos e tranquilos, cada um na sua paz.
***
Outubro trouxe finalmente a conversa do euromilhões: Lurdes telefonou à filha e nem deu espaço para protestos.
António convidou-me a ir viver com ele para Évora. Estou a pensar nisso.
O silêncio ficou pendurado.
Estás a falar a sério.
Estou.
Conhecem-se há sete meses.
Oito, vá.
Ó mãe! Oito meses! Sabes lá tu quem ele é!
Sei quanto basta.
Achas que estar bem com alguém chega? As pessoas mudam!
Matilde…
O pai também mudou, e foram trinta anos.
Mais silêncio.
Não é justo disse a filha, baixinho.
Só quero ser honesta contigo e comigo, filha.
Mais tarde, ligou o Miguel.
Mãe… vais mesmo mudar-te?
É o que estou a ponderar.
Tem boas condições aí? Ele é decente?
Sim, Miguel. Não te preocupes.
Vais alugar a casa?
Vou. Nunca se sabe, se precisar de voltar.
Está bem, mãe. Mas liga-me regularmente, sim?
Claro que sim, filho.
Depois desta conversa, Lurdes ficou algum tempo à janela, a olhar para o nevoeiro húmido do bairro. Eram sessenta e um anos e, pela primeira vez na vida, uma decisão só sua: não por ser empurrada, nem por haver um drama, mas apenas porque lhe apetecia.
Aquilo é que era novo.
Foi ao telemóvel e, para o António, só escreveu: Estou a pensar. Dá-me mais um tempinho.
Resposta rápida: O tempo que precisares, Lurdes.
***
A Gracinda telefonava todas as semanas, imparcial. Nem pressas, nem travagens. Perguntava então, novidades?, falava da cabra que já comprou e baptizou de Ausenda.
Como se chama a dita? perguntou a Lurdes.
Ausenda, ora. Ai o que tu inventas…
É nome de respeitinho, ela anda dona do pedaço desde o primeiro dia.
Tu és um caso perdido, Gracinda.
Olha, lá está, perdi-me e encontrei-me, o que importa é ir vivendo. Se tivesses trinta anos, achas que ainda estavas a pensar?
O quê tem o tempo a ver com isto agora?
Nada. Ou tudo. A idade só serve para termos mais desculpas para adiar. Chamarmos-lhe sabedoria quando é só medo.
És pior que a D. Odete, credo.
Riso do outro lado.
Olha que o medo de arriscar e o de fazer asneira não são o mesmo. Um é prudência, outro é desperdício.
Lurdes desligou a pensar: grão de verdade havia ali. Passámos a vida a ser mulher de, mãe de, professora de. Quando tudo isso se recusa ou se afasta, quem somos nós?
Foi a biblioteca, livremente escolhida, que pela primeira vez foi realmente sua.
Agora, talvez outra escolha.
***
No fim de outubro aconteceu algo inesperado. Ligou-lhe a ex-sogra, mãe do Álvaro, a D. Balbina. Oitenta e dois, sozinha em Almada, Lurdes visitava-a de quando em vez, mais por hábito que outra coisa.
A Matilde contou-me. Vais embora.
Ainda estou a pensar nisso.
Pensa bem. Mas olha, mereces ser feliz, rapariga. O meu filho nunca te deu o valor que merecias, sempre vi. Não disse antes, digo agora: vai, não deixes que a vida te passe ao lado. Os netos estão bem entregues aos próprios pais.
Mas D. Balbina
Deixa lá. Visita-me quando quiseres, a porta está sempre aberta. Agora cuida de ti, ou te arrependes.
Lurdes desligou e ficou tempos, absorta. Aquilo deixou-lhe um nó: toda a vida fora vista como mãe, como avó, como a que resolve tudo. Balbina, afinal, via-a como pessoa.
E o António? Como a via? Isso é que era difícil saber.
Talvez fosse esse o segredo: sem expectativa, sem passado enguiçado.
***
Em novembro caiu o primeiro frio e, com ele, uma chamada da Rita.
Avó, disseste à mãe que vais sair de casa?
Não sei ainda, querida.
Se fores, vens visitar-nos?
Claro, meu amor.
Prometes?
Prometo.
Avó… há aí igrejas bonitas?
Muitas. Brancas e grandes. E o céu azul, azulado mesmo.
Como cá?
Um bocadinho diferente, mas também bonito.
A mãe está preocupada que adoeças e eu não gostava nada!
Coração apertado.
Diz à mãe que estou bem e quero ficar bem.
Ela sabe, mas tem medo.
Eu também tenho medo.
Do quê?
De muita coisa. Mas quem é valente não deixa de ter medo, faz as coisas à mesma.
Tu disseste isso, eu nunca esqueço!
És a minha menina.
E pronto, foi-se.
***
No meio de novembro, Lurdes aventurou-se: foi passar uma semana inteira à casa do António. Avisou a D. Odete, pediu à Gracinda para vigiar a correspondência.
António apanhou-a na estação. Pelo caminho, falava do restauro do convento, mas ela, mais atenta ao monte branco atrás das oliveiras, sentia que aquilo era já o princípio de outra coisa.
Foram dias normais num lar novo ele a arrumar, ela a cozinhar. Pequenos-almoços no recanto da cozinha, ovelhas a mugir ao longe, caldeirada ao fim do dia.
Uma noite, perguntou:
Não te faz confusão viver a dois?
Mais confusão me fez viver uma década só para agradar aos outros. Agora, não.
Trocaste de profissão tarde. Porquê?
Precisava de mudar. O dinheiro fazia falta, mas a alma também.
E a tua mulher?
Sempre me apoiou. Não falava muito, mas percebe-se quando alguém torce por nós. Arlete era assim: serenava o caos.
Tens saudades?
Muitas. Mas saudade não obriga a ficar parado.
Compreendo.
Lá ficaram, em silêncio bom.
***
Na quinta-feira, telefonou Matilde.
Ainda estás aí?
Sim.
Até quando?
Até domingo.
Pausa.
Mãe, posso perguntar porquê? É só para provar alguma coisa?
Não é para provar. É para viver diferente do costume.
A nossa vida não era má!
Não era. Mas não era exatamente a minha.
E o que te faltava?
Lurdes hesitou. Tinha tido tudo: casa, filhos, trabalho que gostava, amigas. Nunca lhe faltara tragédia.
Mas um certo sentimento persistente: a vida parecia plano bem executado, certo só que vivia-se um bocadinho ao lado, sem mergulhar, só à superfície.
Faltava-me eu, Matilde.
O quê?
Eu própria, filha.
Matilde ficou em silêncio, depois perguntou:
Vais ser feliz?
Não sei, mas gostava de tentar.
Pronto, mãe pronto.
Não era guerra, mas também não era trégua.
***
Domingo, de malas à porta, António perguntou:
Decidiste?
Quase.
Isso é mau?
Quer dizer que preciso de mais uns dias.
Ele sorriu, compreensivo.
Tens medo de errar.
Tenho.
Posso dizer-te uma coisa?
Claro.
Há erros que se corrigem facilmente. E há erros de não tentar, que nos acompanham para sempre. Eu prefiro o primeiro tipo.
Lurdes ficou a olhar.
Dizes tudo o que me passa pela cabeça.
Ele riu-se. Tinha um sorriso sossegado.
De volta a Lisboa, a casa esperava-a em silêncio. Bebeu chá, abriu o livro deixado na mesa: uma frase salientada, que agora parecia inédita: O que fazemos conosco é mais importante do que aquilo que esperam de nós.
Pegou no telemóvel: Em janeiro vou, para ficar algum tempo. Vamos ver.
A resposta não tardou: Espero-te.
***
Dezembro foi um tempo parado entre dois sonos. Lurdes manteve a biblioteca, visitou a D. Balbina, organizou papéis. Por dentro, um equilíbrio estranho: a decisão estava praticamente tomada, mas aquela sensação de vida acesa ainda a surpreendia.
Matilde telefonou no início do mês.
Não mudaste de ideias?
Não, querida.
Vais arrendar o apartamento?
Já pus a agência a tratar disso.
Mãe não achas que só parece melhor porque é novo?
Ó filha, com sessenta e um, não sou ingénua.
Ninguém está imune a desilusões
Sim, mas ao menos agora já sei pôr travão, se for preciso. E nunca sabemos tudo enquanto não arriscamos.
E se não for quem tu achas?
Tudo pode correr mal, Matilde. A vida é sempre pode ser. Quando casaste, tinhas certezas?
Tinha vinte e sete.
E?
Pronto, mãe.
Vais ajudar-me a fazer as caixas para a mudança?
Pausa. Depois, calmamente:
Claro. Vou.
***
O reveillon foi passado na casa da Matilde, com a Rita e o genro Jorge. Até o Miguel veio do Porto, com a família. Sofá velho, filhos, neta, conversa cruzada.
Rita enroscou-se ao colo dela e cochichava segredos sobre cada prato.
Este foi a mãe que faz; este não, comprámos já feito. A mãe só diz que mostrou na internet.
Lurdes piscou-lhe o olho.
Assim a avó fica cheia de informação privilegiada.
Não é informação, é para ti, só.
À meia-noite, Matilde levantou-se, erguendo um copo:
A mãe vai para Évora, em janeiro.
Dito assim, soou neutro, quase natural.
Vais por muito tempo? perguntou Miguel.
Vamos vendo respondeu Lurdes, sorrindo.
A Rita bocejou.
Avó, vais mesmo?
Vou, pois.
Prometes visitar?
Prometo, sim.
Pronto a neta sorriu, adormecendo sossegada.
E ali ficou Lurdes, a olhar a vida toda: filhos crescidos, neta a dormir, o velho sofá que sobreviveu a todos os regimes. E longe, em Évora, alguém a escrever-lhe: espero-te.
***
A quinze de janeiro, Lurdes ligou à D. Odete.
D. Odete, vou sair do clube.
Silêncio do outro lado.
Quando?
Em fevereiro. Para terem tempo de arranjar alguém.
Vais para Évora?
Sim.
Para ele?
Para ele e para mim.
Gosto disso. Boa sorte, Lurdes. Mereces.
No último dia, os miúdos fizeram-lhe um postal gigante, cada um um desenho. O menino das janelas ao contrário desenhou uma janela e escreveu em baixo: Para veres por dentro.
Lurdes dobrou o postal e guardou na mala.
***
A vinte e três de janeiro, chegou a Évora. António foi buscá-la à estação, ajudou com as malas, apontou para o vaso em flor na janela.
Comprei explicou. Achei que a casa precisava de vida.
Aposto que até a cabra da Gracinda ia gostar.
Abriu a janela, olhou o quintal: terra nua, galinhas atrevidas, telhados baixos.
Então? perguntou António.
Pergunta-me daqui a um mês.
Pergunto.
Virou-se e acrescentou:
Obrigada por nunca me apressares.
Ele ficou naquela quietude que lhe era tão própria.
Obrigada tu por vires.
***
Três meses depois, já não era exatamente novidade. Évora é pequena: sentem-se os olhares, as perguntas contidas, os comentários nenhuns mas olhos todos. Gracinda apresentou-a a um grupo do clube de leitura do centro cultural da terra. Parecia interessante, ela aceitou ver como corria.
A Matilde telefonava uma vez por semana, depois mais vezes. Começou a perguntar pelo António, pelas amigas novas, pelo que a mãe lia. Como a vista que se adapta à luz: foi-se habituando.
A Rita escreveu uma carta, verdadeira, com selo e tudo, ilustrada com duas igrejas, o rio e a pergunta “A Ausenda é mesmo uma cabra? A Gracinda disse-me.”
Lurdes respondeu por igual: carta com desenho, flores, e a promessa de visita breve.
***
Foi numa tarde de abril que a Matilde apareceu em Évora sozinha, sem a Rita. Deu uma volta pela casa, admirou o sossego do bairro, a luz a entrar pela janela.
António ofereceu chá e foi para a oficina.
Isto tem o seu encanto admitiu Matilde.
Tem, sim.
Pequeno.
Compensa com a calma.
Não tens saudades de Lisboa?
Tenho. De vocês, sobretudo. Da biblioteca, dos pastéis de nata do bairro.
Ainda assim, ficaste.
Ainda assim.
Rodou a chávena nas mãos.
Ele é boa pessoa?
É, Matilde.
Estás feliz?
Não sei se chamaria feliz. Estou bem.
A filha acenou a cabeça.
Está bem.
“Está bem” quer dizer o quê?
Quer dizer está bem sorriu. Ainda tenho medo, mãe. Por ti. E acho que vou ter sempre.
Eu sei.
Mas tento perceber, tento aceitar.
Basta. Por mim, basta.
Acabaram o chá a falar de automóveis, da Rita, de novelas.
Matilde despediu-se. Atravessavam o portão e ela parou.
Mãe?
Sim?
Não sei se algum dia vou perceber isto. Mas quero dizer-te uma coisa
Parou, olhos claros, herança do pai.
Sempre estiveste aí, isto abalou-me. Mas quero que saibas que vou gostar sempre de ti, estejas onde estiveres.
Eu estou sempre deste lado do telefone, filha.
Abraço apertado; saudade antecipada nesse gesto.
Ao fundo da rua, Matilde virou-se.
Mãe, a tua flor está a dar botão. Eu vi.
Está, sim.
Que bom, disse a filha, antes de seguir caminho.
***
De volta, António estava a aquecer uma sopa. Lurdes parou na janela: a rua calma, um cão a dormir ao sol, a flor pequenina no parapeito.
Correu bem? perguntou ele.
Correu.
Ela é boa rapariga, só está assustada.
Eu percebo.
Pôs a mesa, gestos já rotineiros.
António, achas que fiz bem?
Ele virou-se.
E tu, o que achas?
Acho que sim. Pela primeira vez, sinto que a decisão é minha. Só minha.
Então pronto. Já respondeste.
Sentaram-se a comer juntos, Évora de abril a querer parecer verão, a luz dourada a entrar pla janela. Não era felicidade pronta, nem contas saldadas. Apenas uma casa, um prato fumegante, aquele homem do outro lado. E, talvez, fosse suficiente.
Não sabia.
Mas a sopa estava quente, a flor abria em botão e na mala ia guardado um postal de um menino: Para veres por dentro.
***
À noite, tocou o telefone: era a Rita.
Avó, a mãe foi aí?
Foi, sim.
Não chorou?
Não. Porquê?
Ela chora às vezes, acha que eu não noto.
Lurdes sorriu, apertando o peito.
Diz-lhe que vou visitá-la. Já, já.
Está bem. Avó, já aí é primavera?
Quase. Ainda há frio, mas nota-se.
Em Lisboa já está calor! É engraçado, no mesmo país.
O país é grande, menina.
Avó, tens saudades nossas?
Lurdes olhou a noite pela janela.
Muitas, querida.
Isso é bom. Quem sente saudades, gosta.
Lurdes não encontrou resposta.
Até breve, avó.
Até breve, Rita.
António lavava a loiça na cozinha; uma vizinha passava com as compras. A noite era tranquila, o bairro pequeno, nenhum drama para contar à posteridade.
E Lurdes pensava: a Rita tem razão. Quem sente saudades, gosta. É tudo isto: proximidade e distância, escolhas (certas ou não), que com o tempo se tornam só as nossas escolhas.
Levantou-se e foi ajudá-lo a lavar os pratos.






