Pelas Paredes dos Outros

Paredes alheias

Sabes no que penso? murmurei, esfregando o mesmo prato pela quinta vez, a água morna a pingar pelos pulsos. Que já nem uma colherzinha de chá nos resta. Está tudo no quarto deles. E agora deito-me na minha casa a pensar: será que estamos a fazer barulho? Que não lhes estejamos a incomodar?

João fitava o pátio escuro lá em baixo, o rosto meio perdido no vidro embaciado. Respirou fundo tão fundo que até o silêncio da casa se curvou.

Visitantes, murmurou, sem virar. Tornámo-nos visitas. Na nossa própria cozinha.

E, como se invocados pelo destino que comanda os sonhos, o riso abafado de Mariana e o timbre grave do namorado escaparam da antiga sala. Estavam a ver um daqueles filmes que nunca acabam, enrolados entre almofadas.

Ali estávamos: eu, com o prato em mãos, João à janela, e só uma pergunta a ecoar debaixo dos azulejos: como chegámos até aqui? Como acabámos a temer puxar o autoclismo à noite com receio dos “nossos” novos habitantes? E tudo começou tão inocentemente. Tão familiar. Como um favor de sangue pedido entre famílias, dizendo-se sempre: “É só por uns tempos…”

Foi em Setembro do ano anterior, uma tarde de tomates em conserva e suor por todo o avental, que o telefone tocou em Lisboa. Limpei as mãos e ouvi a voz um pouco trêmula da minha irmã, Ermelinda, lá do Porto nunca liga para nada, sempre ocupada.

Olá Leonor, estás bem?

Desconfiei logo. Quando a Ermelinda liga, há problema. Olha, lembras-te da Mariana, a mais velha?

Lembro pois, claro… O que se passa?

A menina entrou em Jornalismo, na Nova de Lisboa! Fez tudo sozinha, até bolsa conseguiu, que orgulho… Só que não consegue vaga na residência antes do próximo semestre, talvez depois. E pensei que vocês têm três quartos, sendo só dois aí… Será que a podias inscrever na vossa morada? Só para o documento, percebes? Fica em casa de amigas, já está tudo combinado.

O meu peito encolheu: é família, claro, e Mariana sempre foi um doce. Mas João ele sempre dizia: “Nunca inscrevas ninguém em casa”. É coisa séria. Depois, para tirar, é um inferno. Mas a voz calma da Ermelinda e a imagem daquela menina tímida a querer estudar em Lisboa…

Tens a certeza, Ermelinda? Ela não vai mudar de ideias e acabar por cá? Com o João… não sei, a casa é pequena, tornava-se estranho.

Oh, Leonor! E a Ermelinda desatou a rir. Mariana precisa de liberdade! Vai dividir com amigas, nem pensa em estar com tios é só burocracia universitária. Papelada.

Dei a promessa do costume: deixava falar com João. Ele, ao ouvir à noite, ficou carregado.

Nem penses, Leonor. Inscrições são sarilhos. Começam sempre com papelada, acaba com as malas na sala.

Mas liguei à irmã no dia seguinte. A culpa pesa nos sonhos, e eu via a Mariana miúda, sentada à mesa dos Natais, bem arranjadinha. A decisão escapou-me dos lábios.

Mariana chegou em Setembro, a mala enorme, de ténis brancos, cabelo liso apanhado num rabo-de-cavalo e um sorriso de porcelana.

Tia Leonor, obrigada! A mãe trouxe mel de Rosmaninho, marmelada, suspiros do Porto…

Encantou-nos ali mesmo. Sentámo-nos a beber chá misturado com histórias do curso, ela a sonhar com as luzes da RTP e reportagens de lugares estranhos. Tudo em ordem. Mostrou uma foto do quarto que ia partilhar no Bairro de Alvalade três camas num espaço minúsculo, mas a juventude às vezes encaixa-se em três palmos de chão.

Só preciso realmente do comprovativo de morada. Pouco apareço. Juro.

João, quando a viu, desarmou: foi educada, foi “Senhor João”, e desapareceu assim que ele sentou-se para jantar. Era só papelada, depois silêncio.

Levou três dias: fomos ao registo civil, demos todas as assinaturas ela iria oficialmente ser nossa “habitante temporária” até Setembro seguinte. Quando recebemos o papel, Mariana agradeceu mil vezes pelo telemóvel e desapareceu à vida de estudante.

Mas a vida, nos sonhos, nunca fica quieta.

Durante dois meses, só sabíamos dela por mensagens parabéns de aniversário, felicidades, tudo correto e distante. Mas em Novembro, Mariana ligou a pedir para ficar em casa uns dias: desavenças com colegas, barulho, festas, não conseguia estudar. Era sessão de exames, precisava de paz.

Deixámos, claro. Ficou no sofá da sala, pediu desculpa pelo incómodo e jurou: “É por uma semana, à procura de novo quarto”.

Uma semana virou duas. Exames passaram, e Mariana pediu mais um mês porque arranjou part-time num jornal de bairro. O dinheiro não chegava para outro aluguer Lisboa é cruel e planeava poupar para um estágio em Madrid no verão.

Tia Leonor, pago o meu quinhão das despesas. Só até as coisas estabilizarem.

João explodiu.

Basta, Leonor! Eu avisei… Está a navegar por cima de nós!

Respondi como só uma tia envergonhada faz: É menina, está a tentar. Paga contas. Não nos quer sobrecarregar.

Com o tempo, metade do armário era dela: roupas, livros, mochilas, comida “só dela” no frigorífico. Comprava os seus iogurtes, mas ia buscar açúcar, azeite. Trazia depois, mas aquela sensação instalava-se: já era mais dela do que nossa.

As conversas com João eram curtas, como se o silêncio ocupasse o corredor. Ele saía cada vez mais cedo, ficava até tarde. E Mariana, disso não posso negar, continuava delicada, pedindo licença, limpando. Mas foi ficando, ficando, o tempo alterando tudo de lugar.

Uma noite apareceu com o namorado, Tomás estudante de informática em Setúbal, conhecido daquele jornal. Perguntou-me, tímida:

Tia, o Tomás pode ficar cá connosco um bocadinho? Projecto do curso, só por hoje.

Eu acenei, o João não estava. Ouvi risos vindos da sala. Senti uma raiva quente: a nossa sala! O nosso antigo lar!

Quando João soube, ficou vermelho.

Chega. Não passa deste verão decreto dele na penumbra do quarto.

Mas nem sempre os sonhos acabam onde queremos. Em Junho, Mariana pediu para renovar o papel mais um ano jurou, só para não a expulsarem da faculdade.

Liguei à minha irmã, a voz dela cansada:

Aguenta só mais um pouco, Leonor. A Mariana é boa rapariga… pelo menos mantém-se ocupada, não te incomoda.

Renovei, sozinha, porque João já se recusava a ir ao registo.

O verão foi breve. Em Setembro, voltou com mala nova queria notas altas, ia passar a estudar ainda mais. A vida instalou-se por completo. Trouxe o Tomás mais vezes, desta vez com ares de pertença. Lembro-me do cheiro a torradas e conteúdo do frigorífico repartido, vozes cruzadas de manhã. Nós na cozinha, eles ocupando a sala.

Em Novembro, perdi a coragem.

Mariana, prometeste sair depois da inscrição. Os teus projectos são todos aqui. Vais procurar casa?

Baixou os olhos.

É caro. Só aqui me sinto bem: internet rápida, calma. Estou a pagar as minhas contas.

Não é só contas, respondi. É privacidade. Esta casa foi sempre nossa.

Foi aí que percebi: já não pedia licença, já exigia direitos. Era “proprietária” no papel, reivindicava espaço.

Chegou o Natal, e, nesse inverno, a solidão assentou-se. Comprámos uva-passa para dois, árvore pequena na cozinha. Mariana foi passar as festas com os pais.

João suspirou, alívio tranqüilo: pelo menos, casa vazia para brindar.

Porém, em Janeiro, Mariana trouxe notícia: Tomás ia mudar-se também. A residência dele era infernal, e aqui teriam paz pagando despesas, claro.

Na cozinha, sentados à luz mortiça, João perdeu a paciência. Voz dura:

Não. Basta. Em Fevereiro tens de sair! Pega no que é teu, não se admite mais abusos.

Mariana olhou-o fria, diferente daquela menina educada de antigamente.

Não podem obrigar-me. Tenho inscrição legal, vocês só conseguem tirar-me daqui no tribunal. E Tomás deve ficar, é meu noivo. É a lei.

Em sonhos, embaciados pelo exaustão, os dias passaram. João realmente foi à advogada: longos papéis, requerimentos, documentação. Mariana, firme, trazia Tomás mais vezes. Até um novo televisor compraram e montaram na parede da sala.

Certa vez, Tomás apareceu a beber sumo na nossa cozinha, desejou-nos “boa noite” com um ar de quem já pertence ao espaço. Suspensi o olhar no chão.

E se vendermos, João? sussurrei. Arranjamos algo pequeno, só nosso, longe desta confusão.

A cabeça dele balançou, resignada.

Estávamos a dar o nosso mundo, Leonor… a casa que montámos, tudo.

E, no entanto, já aqui não estamos. Isto não é mais casa, quase sorri, tão amargo.

Voltámos à rotina de chá frio e pratos lavados a ouvir o riso alheio, vozes que cresciam onde devia caber apenas o silêncio do casal. Os dias, em roda, parados no mesmo compasso.

Lembras-te daquele dia, Leonor, João disse, longe, aqui nesta cozinha, pensámos: inscrevemos ou não inscrevemos? Devíamos ter dito “não”.

Devíamos, murmurei, o amargo a subir-me à garganta.

Entre passos pelo corredor e portas que abriam para casas de banho que já não sentiamos nossas, restou apenas cansaço. Daniela a do andar de cima é que resumia bem quando nos tropeçava no elevador a caminho dos sonhos:

Às vezes, o pior é o favor transformado em dívida de vida. Nunca acaba.

Nessa noite, já sem força, arrastei-me pela casa, vi as sombras da sala projectadas nos azulejos do corredor. João já dormia, respirando lentamente naquela solidão feita de paredes conhecidas, agora estranhas.

E o pior não era a perda da casa. Era a perda da esperança. Da fé de que quem recebe nunca esquece, que o sangue compensa e o bem regressa ao sítio de onde nasceu. O pior era saber: passámos a vida a proteger o lar e, ao fim de tanto, tornámo-nos hóspedes onde devíamos ser reis.

Lá fora, nos telhados de Lisboa, começava a primavera. Mas cá dentro, era sempre inverno, e o frio era só nosso.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

Pelas Paredes dos Outros