Meça com o coração, confirme com a razão

Mede com a alma, confere com a razão

Ai, meninas, a minha sogra anda completamente fora de si! Ontem apareceu lá em casa com uma panela de caldo verde! Conseguem imaginar? O meu caldo verde não lhe serve! O filhinho dela só gosta do dela! Sofia afastou a chávena de café e aproximou-se do copo de vinho. Digam-me, por favor! De onde é que aparecem estas senhoras? Acham que também vamos ser assim? Se é para isso, levem-me mas é para o mato, que é para não voltar a encontrar o caminho para casa!

Sofia, tem calma! Elisa pousou a mão na de Sofia, num gesto de consolo. Se calhar é da menopausa. Ou está só aborrecida. O teu marido é-lhe único filho. O que é que ela há-de fazer agora, além de se meter para te fazer bem? Ao menos foi só caldo verde! Tu agradeces e pedes mais! Uma preocupação a menos para ti. Deixa-a ir cozinhando!

Era o que faltava! Ainda acaba por se mudar lá para casa! Já tenho que chegue do que ela faz agora! Lembras-te daquele conjunto que comprámos antes do Natal?

Para presenteares?

Sim. Ela deitou-o fora!

Como assim? Elisa quase entornou o bule de chá na toalha, deixando-a manchada de amarelo-claro.

Faz mal à saúde! As cuecas não são de algodão! Sofia esboçou um riso nervoso. Nem lhe disse quanto custou. Se soubesse, comia-me viva ali mesmo.

Não há quem te entenda! Preocupa-se contigo, e tu só reclamas. Elisa começou a rir, mas rapidamente voltou ao tom sério. Mas porque é que ela anda sempre a bisbilhotar a tua roupa?

Pergunta-lhe tu! Sofia atirou o guardanapo para a mesa e começou a limpar a nódoa. Raios, que disparate! Nunca mais isto sai daqui!

Tem calma! interveio Olívia, que até então se mantivera em silêncio, tirando-lhe o guardanapo e empurrando-lhe a chávena de café. Estás muito nervosa. Assim não pode ser.

Quem não fica! Meninas, enquanto vivíamos em casa arrendada era tão bom! Ela nunca vinha. Podia passar metade do dia a vaguear pela casa, pensar nos bolos das encomendas, sem ninguém a chatear. Ela nunca ia perceber que trabalhar em casa também é trabalhar. E nem lhe passa pela cabeça que eu até já ganho quase tanto quanto o filho dela. Mas desde que comprámos o apartamento, sinto-me uma esponja debaixo do microscópio. Ela aparece a qualquer hora! Faz o que lhe apetece, porque, claro, ajudou-nos com a entrada. Agora estou presa para o resto da vida, ao que parece. Sofia fungou ao terminar.

Troca a fechadura.

Não posso. O meu marido volta a dar-lhe as chaves. É a mãe dele, depois ainda se ofende! Só me apetece pedir o divórcio!

Diz antes que tens juízo, pá! Sofia, não te reconheço! Na escola eras a maior refilona, e agora esvaíste-te! Elisa bufou a fingir indiferença.

Despedi-me das expectativas. Sofia bebeu um grande gole de vinho e inspirou fundo. Basta de lamúrias. Preciso mesmo é de agir de uma vez por todas. Senão qualquer dia até o meu miúdo foge de mim. Ontem perguntou porque é que a mãe estava tão mal-disposta. Que lhe vou responder? Que a avó é que me tira do sério? Vocês têm razão, não posso continuar assim

Claro que não! Olha, ainda vou procurar um orfão, assim o caldo verde é só meu! Elisa acenou ao empregado, chamando-o. Um docinho, para acalmar as emoções?

Vai, sim Sofia limpou discretamente os olhos com o guardanapo e sorriu. Queres ver o bolo de casamento que fiz recentemente? Nem eu acreditava que fosse capaz!

As três aproximaram-se do telemóvel de Sofia, todas boquiabertas:

Que espetáculo!

Sofia! Isso? Como é que conseguiste fazer aquilo? Que perfeição, parece obra de arte!

Segredo de confeiteira! O meu filho ajudou-me. Estava a montar os Legos, eu reparei e inspirei-me. Mas só de pensar em entregar o bolo no local já recebi seis encomendas para os próximos dois meses. E nem sei como vou dar conta do recado.

Põe a tua sogra a ficar com o neto, ao menos que se ocupe.

Ai, querida Elisa, tu és mesmo ingénua! Ela logo se queixa das costas, das pernas e da cabeça.

Olha que se fores com o teu marido até à terra das avós, ela fica toda contente!

A mão de Sofia parou no ar.

Olívia! És um génio! Assim não se atrapalham e ela tem pelo menos tempo com o menino. E o meu come o caldo verde dela em pratos lavados do jeito que ela gosta. Só preciso de dar uns rebuçados ao pequeno para animar a festa.

As amigas riram, lembrando-se como o filho de Sofia ficava impossível depois de comer doces. Em todas as festas, Sofia controlava sempre a dose de açúcar do miúdo.

E tu, Olívia, como vais? Elisa virou-se para a amiga Estiveste calada o tempo todo, a tua sogra não te apoquenta?

Elisa, nem tempo teve. Só passou pouco desde o casamento. Sofia provou a tarte de limão e torceu o nariz. Credo, aguenta-se doce disto?

Vai lá ensinar-lhes como é que é! Elisa soltou uma gargalhada, depois notou que Olívia estava estranha. Que se passa?

Sei lá, meninas. Está tudo demasiado calmo. Ouço-te, Sofia, e penso que não devia estar assim.

Talvez te tenha calhado uma sogra sensata, Olívia! Não é para todas. A da Sofia é caso raro.

Não sei Olívia lembrou-se do dia do casamento e das palavras da futura sogra, Dona Marina.

Ouve, Olívia, não sou santa nem saco de moedas para te agradar. Ainda não me conheces. Sou bicho do mato, tenho o meu feitio e por vezes sou melindrada, portanto, vai demorar a encontrarmos harmonia. Mas há uma coisa: o mais importante é a família. E o Alexandre, meu filho, se te escolheu, é por algum motivo. Não vejo muitos méritos em ti ainda, além de seres bonita e, suponho, inteligente por teres terminado o curso com média alta. O resto, o tempo dirá. Não vou meter-me demais, vocês não são crianças. Se precisam, ajudo. O resto é esperar para ver.

A sinceridade de Dona Marina deixou Olívia desconcertada. Era estranho ouvir isto de uma pessoa que mal conhecia, e logo num momento tão crucial.

Olívia e Alexandre conheceram-se num casamento de amigos. Olívia estava longe das raparigas ansiosas por agarrar o ramo, quando se aproximou um rapaz baixote, forte.

Então, não vais apanhar o ramo? Não queres casar?

Não.

Porquê? Todas deviam sonhar com isso.

Casar?

Claro.

Tua informação está trocada. Algumas sim, mas a maioria quer ser amada, isso é o que importa.

E é por isso que não participas na brincadeira?

Nem por isso. Olívia sorriu. É que nestes saltos não me aguento de pé, quanto mais saltar!

Passaram a noite a conversar e acabaram por sair juntos. Ele acompanhou-a a casa e, ao despedir-se, beijou-lhe a mão, pedindo o contacto.

Olívia passou a noite a acariciar a mão, a imaginar o que diria a avó.

Diria: Finalmente! sorriu Olívia só para si, lembrando a expressão da avó Conceição.

A avó Conceição criou Olívia sozinha, desde que o filho morreu e a mãe de Olívia partiu para Lisboa à procura de trabalho. Mandava cartas, uns mimos simples e dinheiro de vez em quando, mas a certa altura desapareceu. Conceição pensou acionar buscas, só que chegou uma carta: confessava que estava casada e ia ser mãe de novo. Olívia, criança, iludiu-se, depois percebeu que a família dela era só a avó. A mãe inventou uma vida nova, esqueceu-a. Durante anos nunca lhe ligou, nem escreveu. Olívia sentia-se revoltada, descarregava tudo na avó, nunca lhe dava descanso. Lembrava-se apenas de uma coisa: por mais que fizesse, à sua espera havia sempre prato de sopa, mãos macias, conforto mesmo depois das penteadelas de madeixas negras, e a mão da avó nunca lhe fugia.

A doença da avó abalou Olívia aos quinze anos. Ficou tudo do avesso: só havia hospitais, horários de remédios, estudar. Ouvir a avó falar, mesmo quando mal conseguia, era penoso.

Olívia, estuda! Agora és por ti. Já não sou apoio. Não sei quanto tempo tenho. Deixa-me partir tranquila, sem te deixar desamparada!

A força da avó impressionava-a. Conceição viveu mais do que os médicos previam e partiu quando Olívia já estava na universidade.

A mãe apareceu só dois meses depois do funeral.

Não pude abandonar os outros filhos desculpou-se sem olhá-la nos olhos.

Escandalizou-se, furiosa por saber que a casa e um pequeno terreno nos arredores tinham ficado para Olívia.

Não é justo. Tens de dividir, filha.

Olívia não percebeu o que lhe deu. Chorou, gritou, despejou anos de frustração na mãe, relembrou dias à beira da cama da avó, a escutar o coração batendo devagar: Bate! Não pares enquanto ela estiver aqui!

Sabia que era egoísmo, via o sofrimento da avó, mas o medo de ficar sozinha era maior, porque mãe já não tinha e família também não.

A mãe ouviu tudo, depois juntou as suas coisas, bateu com a porta e nunca mais apareceu.

No início Olívia ficou à deriva, mas depois concentrou-se nas promessas feitas à avó. Estudar era fácil, o complicado era trabalhar a par da universidade. Elisa, filha do dono de uma grande loja de mobiliário, arranjou-lhe emprego.

O meu pai não acredita nisto, mas eu sei que não vais falhar.

Elisa era brilhante, bonita, despachada, mas nos amores não dava sorte.

Só aparecem tótós. Já era para estar no terceiro filho e nada! O bandido deve andar perdido algures!

Queria uma família grande, trocava o escritório de advogada por um lar cheio em cinco minutos.

Elisa e Sofia eram as companheiras de sempre. Andaram na escola juntas, e mesmo cada uma com vidas e origens diferentes, estavam unidas. Elisa familiar de posses; Sofia, criada só pela mãe com dificuldades; Olívia, sobrevivente das reviravoltas da vida. Sofia quase morava em casa de Olívia. Elisa nunca faltava às tardes de sopa da avó Conceição, gabava os bolinhos e ajudou Olívia na altura do testamento.

Deixa cá ver se ela tenta! Esmagámo-la no tribunal!

Não é preciso, Elisa. Ela já percebeu.

Sem Olívia saber, Elisa ainda foi conversar com a mãe dela. Não se falou mais disso.

Depois veio o Alexandre. Namoraram dois anos, casaram. Elisa apanhou o ramo no casamento e logo atacou o melhor amigo de Alexandre.

Dançamos?

Olívia e Sofia divertiam-se a observar o flirt. Não deu em nada. Elisa namorou o Máximo um mês, largou-o de repente e cortou o assunto.

Não é o tal!

Conhecendo-a, ninguém chateou. Era assunto resolvido.

Máximo aparecia em casa de Olívia e Alexandre, mas Elisa evitava-o.

Porquê, Elisa? Não é má pessoa, pois não?

Tem cuidado, Olívia. Há ali gato escondido.

Olívia nunca percebeu bem. Era simpático, sempre disponível para ajudar. Gozava com a Sofia, elogiava tudo o que Olívia fazia, sem notar a crescente irritação de Dona Marina, a sogra.

O tempo passou, Olívia engravidou de surpresa. Andava a preparar tratamentos médicos porque os médicos diziam ser quase impossível de modo natural. Alexandre apoiou, sabendo dos seus problemas. Aquela notícia foi um choque de felicidade.

É um milagre, Alex! chorava Olívia, braços abertos, sem se preocupar com Dona Marina, que estava por lá nesse dia.

O melhor presente! Alexandre abraçava-a, mas olhava de lado a mãe.

O que foi, mãe?

Sei lá… foi tão de repente…

Estás a insinuar alguma coisa?

Marina virou-se para o filho, fitando-o:

Confias na tua mulher?

Mãe!

Confias? insistiu.

Confio a 100%! Não quero mais conversas dessas! desviou o carro de um buraco e olhou de lado para a mãe Não te entendo. Devias era estar feliz!

Estou, filho. Mas agora Agora sim.

Nasceu Tomás e Olívia mergulhou nos cuidados do bebé. Marina não se impunha, mas não recusava ajudar.

Olívia! Eh, volta à terra! Elisa abanou-lhe a mão à frente do rosto, tirando-a dos seus pensamentos. Ainda aí estás?

Estava só a pensar. Olívia afastou as más memórias. Meninas, mudando de assunto: novidades, Elisa? Algum candidato?

Olhou para o telemóvel: já tinham passado duas horas, e Dona Marina não lhe ligava para saber quando voltava. Afinal, uma sogra de ouro. Foi ela quem fez questão que Olívia fosse ao café com as amigas.

Vai, Olívia! Precisas de sair, distrair-te. Fico eu com o Tomás.

Obrigada Olívia nem sabia o que dizer. Apesar de tudo, com Dona Marina as coisas eram sempre civilizadas, mas sentia sempre um certo gelo, pequenino, quase invisível, mas tão afiado como uma farpa. E nem sabia porquê.

Fingindo ouvir Elisa a rir nas histórias com outros homens, Olívia sentia-se inquieta. Sentia que algo não estava bem. Tinha tudo, mas sentia-se inquieta…

O toque do telemóvel assustou-a, quase entornou o vinho.

Olívia a voz de Dona Marina era tão rouca que Olívia quase não a reconheceu.

O que aconteceu depois ficou borrado na sua memória. Não se lembrava das amigas a darem-lhe estalos para a acordar, de chamarem o táxi, de Elisa aos gritos ao telefone, de Sofia com água fria. Não se lembrava de chegar a casa, onde Dona Marina, envelhecida de repente, passou Tomás para Elisa e quase sussurrou:

Vais comigo? Tenho medo

Alexandre morreu numa estrada à noite, depois de cair num buraco aberto. O carro virou, foi para a contramão e colidiu com um camião.

Olívia foi engolida pela dor, só queria chorar ou lavar a casa até não sentir mais nada. Propôs a Dona Marina ficar com elas, pelo menos por uns tempos, mas ela recusou.

Não consigo Está aqui tudo dele. Parece que a qualquer momento aparece e pede que lhe frite pataniscas.

Porque comigo não pedia

Cada um tem as suas coisas. Marina sorria, triste. Ele sempre dizia que as tuas eram melhores.

Tomás corria entre mãe e avó, tocando-lhes no rosto, sem perceber porque é que estavam tão tristes nem onde estava o pai.

Olívia notava que Dona Marina amaciava junto do neto. Por isso começou a pedir mais ajuda. Percebeu que era o certo.

Passaram seis meses, o Natal e a chegada do fim de ano foram agoniantes. Olívia tentava não pensar que aquele devia ser o primeiro Ano Novo na serra, em família. Era o sonho antigo de Alexandre, aprender a esquiar.

Eu vou conquistar as pistas e tu vais brincar com o Tomás, fazer bonecos de neve.

Aprende a ficar de pé nos esquis primeiro! gozava Olívia.

Já conquistei a ti, as montanhas serão canja!

Dava-lhe vontade de gritar com a dor. Ia cancelar as reservas da viagem, mas Dona Marina interveio.

E se formos? Não sei se é a melhor decisão, mas talvez nos faça bem, juntas. É o primeiro Natal que o Tomás pode recordar…

Olívia aceitou.

A Serra da Estrela recebeu-as cinzenta, a chover quase toda a semana. Só uma vez saíram mesmo para ver o mar espumoso em Figueira da Foz, as ondas a perder de vista.

Que desolação Olívia ajustou o gorro no Tomás, que saltava de entusiasmo à beira-mar e esperava que a mãe partilhasse o seu fascínio.

Imenso, Olívia a própria vida a mostrar força Marina abraçou-se, absorta no seu silêncio. Olívia, de repente, agarrou-a nos ombros, apertou-a instintivamente. Surpreendeu-se com o gesto. Nunca tinha sido tão próxima da sogra, nem esta dela.

Marina apoiou a nuca no ombro de Olívia.

Que sorte a minha continuarmos juntas

Juntas?

Sim, Olívia, juntas. Por pouco não te perdi também.

Não percebo

O Máximo! disse quase cuspindo o nome, e Olívia ficou gelada.

O quê?

Apareceu uma semana depois disse que precisava de falar comigo

Ajudar?

Não, filha. Veio dizer que o Tomás não era filho do Alexandre. Insinuou até que era dele. Como sabia dos problemas do Alexandre, disse que tu tinhas arranjado uma solução.

Os braços de Olívia caíram-lhe, recuou.

E acreditou?

Achas? Estaria agora contigo se acreditasse num miserável desses?

Olívia fixou-lhe os olhos.

Enxotei-o logo, disse Marina, abraçando-a.

Porquê?

Porque ele mentia. Via-se nos olhos. E além disso, lembra-te, o Alexandre acreditava em ti sempre. Enquanto estavam juntos, conhecemo-nos pouco, mas se me permites, quero ficar contigo e com o Tomás. Não preciso que me aceites, mas para mim significa tudo.

Não peças nem penses nisso. Somos família. Como dizia a minha avó, que raio de família é se não está junta? Isso sim era vazio.

Então também não quero que sejamos um vazio. Marina abraçou o Tomás, que se chegou enregelado. Está frio, menino. Vamos voltar para o hotel antes do jantar. Conta-me da tua avó, Olívia.

Caminharam sob a chuva, a conversar. Olívia sentiu que, pela primeira vez, falava sinceramente com a sogra. Parou e não resistiu:

Mas por quê?

Quem?

O Máximo. Para quê?

Não sei, filha. Há gente que faz o mal só porque pode. O Alexandre e ele grew up juntos, mas o Alexandre sempre teve mais sucesso. Talvez fosse inveja… Não quero saber. Desde que desapareça da nossa vida.

Eu também.

Olívia não lhe contou que ele também tinha tentado falar com ela, mas foi Elisa, então a viver lá em casa, que deu conta dele antes que dissesse seja o que for. Lembra-se só do grito de raiva e da porta a bater.

O que foi aquilo?

Não te preocupes. Se o vires, põe-o na rua. Não é teu amigo nem teu inimigo. É pior.

Agora Olívia começava a entender.

Os últimos dias da viagem foram de conversas. Tomás enlaçava ora a mãe, ora a avó, a tentar perceber o clima. Elas beijavam-no, falavam, recordavam Alexandre, faziam planos.

Seis meses depois, Olívia tirou dos guardados uns sapatos de salto esquecidos, calçou-os, suspirou.

Isto é tortura chinesa!

Quer ser bonita, aguenta! ria-se Marina, ajudando-a a fechar o vestido.

Não posso ir de sabrinas?

Vais arrastar o vestido. Leva-as e mudas nos lavabos.

Pegou no neto, apontou para o ramo de flores.

Vamos, senão ainda nos atrasamos.

Ai, não! Olívia apressou-se. A Elisa nunca me perdoaria! Esperou toda a vida e eu a fazer má figura!

O casamento de Elisa foi exuberante e apressado. Tudo parecia correr demasiado depressa: a chegada da conservadora, as alianças entregues pelo Tomás orgulhoso, os convidados a sentarem-se, os brindes, os presentes. Por fim, as três amigas aproximaram-se na mesa do bolo, Sofia acariciou discretamente a barriga já arredondada de Sofia.

Está tudo bem?

Melhor não podia. Até fiz as pazes com a sogra. Se não fosse, a Elisa ficava sem bolo. Sofia, aborrecida, virava o suporte, ajeitando o bolo como queria. Ninguém faz nada direito, tenho de ser eu a tratar de tudo!

O que se passou?

Vê. Sofia indicou o bolo. Ficou torto no transporte Dói no coração, foram três dias de trabalho!

Ficaste um espetáculo, Sofia! riu Elisa, surgindo de surpresa.

Ai, que susto! Queres matar-me? Queres ser madrinha antes do tempo?

Hoje não! Hoje o dia é meu. E tu, para quê tanto drama?

Só porque sim Sofia tentou posicionar-se à frente do bolo.

Elisa fez um gesto a brincar com o dedo.

Fui só eu Não resisti a provar! Estava tão bom!

Ah, sua malandra! Sofia sufocou entre indignação e riso.

Castiga-me depois, agora vou para a pista! Elisa fugiu na direção do noivo.

O que se há de fazer com ela?! Sofia encolheu os ombros. Andarilha!

Sentou-se, exausta.

E os teus? Onde andam, Olívia?

Ali a dançar.

E tu, Olívia, como estás?

Está tudo bem, Sofia. Somos felizes.

Já lhe chamas mãe?

Ainda me envergonho.

Que tolice! Se eu tivesse uma sogra assim

Olívia olhou para Marina a dançar com Tomás. Pensou que, de facto, Sofia tinha razão. E aquela palavra, cheia de tanto significado, assentava-lhe como uma luva.

Mãe

Olívia pronunciou, testando a força. Deparou-se com o olhar atento de Sofia, acenou e desta vez disse com convicção:

Mãe!

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