Avó por uma Hora

Avó à Hora

Senhor António Rodrigues, desculpe, mas hoje precisava mesmo de sair mais cedo. Permitiria? O meu filho está doente.

Leonor pousou em cima da secretária os documentos preparados e a lista de reuniões do dia seguinte. Faltava ainda uma hora para o fim do expediente, mas já tinha recebido dois telefonemas da creche, e decidiu arriscar pedir para sair. Nunca tinha esperado arranjar emprego nesta empresa de construção quase foi um milagre, tendo em conta a sua completa falta de experiência como secretária e aqueles requisitos de imagem do anúncio, em que nem por isso se via ao espelho.

Sim senhora, este ponto claramente não é para mim pensou, olhando-se de alto a baixo antes da entrevista.

O velho casaquinho, muito estimado, ainda conservava alguma dignidade, mas a saia já tinha visto dias melhores. Foi a mãe quem a cosera, esmerando-se a escolher tecido, numa costura de dias inteiros, e cada novo ponto era uma aventura de coragem.

Não fica nada abaixo das compradas prometeu a mãe.

Pois não, mãe, sendo feito por si e à mão só pode ser melhor disse Leonor, a mentir só um bocadinho, mas sabia o quanto a mãe precisava de ouvir aquilo.

Lá por casa sobrava pouco dinheiro para renovos, desde que o pai partira, tudo mudou. Com o ordenado de enfermeira, a mãe fazia milagres, mas sem grandes festas. E depois apareceu a avó. A relação da mãe, Ermelinda, com a sogra sempre foi, digamos, tensa.

Ó Ermelinda! Não tens qualquer noção do que é uma família de verdade. Mas também não admira, vinda tu de onde vens… Mas agora fazes parte da nossa família, por isso habitua-te: quem entra aqui, tem obrigações.

Leonor era demasiado nova para entender subentendidos, o discurso soava imponente, mas na prática era tudo para um lado só. A mãe que cuidasse e pagasse; a avó recebia tudo com ar de rainha e resposta, nem vê-la. Chuva de queixas, só isso.

Mãe, porque é que tu não respondes? Leonor, já crescida, estranhava o silêncio em frente às lições de vida da avó dirigidas à mãe. Ermelinda raramente levava Leonor, mas a exigência da avó às vezes era incontornável.

Porque, filha, sei que não tem razão e também sei que é alguém doente e muito sozinha. Fora nós, não tem ninguém. Brigou com a irmã, os sobrinhos fugiram. E mais prometi ao teu pai nunca a abandonar. E as promessas são para cumprir.

Leonor revoltava-se e queria despejar tudo, mas a mãe, sempre calma:

Não vale a pena. O importante é sabermos que está tudo feito e está tudo certo. A tua avó não precisa de nada.

Não precisava mesmo era de tirar o teu dinheiro! resmungava Leonor, olhos revirados para o orçamento escrito no caderninho das despesas.

Chega, Leonor! Não caias nesse erro… Não te deixes contaminar. Tudo o que é da tua avó, é dela, não é nosso nem nunca foi. Não desejes sequer em pensamento. Senão um dia perdes o controlo.

Só entendeu aquilo anos depois, quando a avó morreu. A carta da velha senhora, um testamento frio, tudo para os sobrinhos e nem uma palavra de gratidão. A mãe não comentou, apenas disse a Leonor:

Deixa, filha, que eu cumpri a minha parte. Vamos embora.

Mais tarde soube o resto. E quando insistiu:

Deu-lhes a eles porque são de sangue. Já chega com as perguntas! Não te metas na lama, fica para trás.

E por fim, a verdade em tom resignado:

Achava que tu tinhas pouco do teu pai, que eras sangue estranho.

Mas sou parecida com ele, não sou, mãe?

Como duas gotas de água. Aproveita e aprende o que é bom desta família, esquece o veneno.

Seguiu a vida. Acabou o liceu, entrou para a faculdade. Foi aí que a famosa saia foi costurada de novo. Nos exames, nas aulas, e depois quando ficou na universidade. E nessa saia conheceu o futuro pai do seu filho.

Entrou na empresa com mais medo que esperança, mas as vozes do departamento de RH logo riam atrás: Sem experiência, com uma criança pequena? Onde já trabalhou? Professora universitária? E decide mudar agora porquê?

Para tentar algo novo.

Quase desmaiava, de pernas bambas, mas não foi rejeitada. Por sinal, o chefe viu nela mais do que julgava. António Rodrigues, ao vê-la hesitar perante a máquina de café, riu-se:

Primeira vez que vejo uma mulher a ler o manual e não a experimentar todos os botões!

O trabalho ficou simples. António, controlador, percebeu que Leonor guardava tudo na memória e marcava reuniões por milagre: tudo certo, tudo no tempo. Só havia um senão as frequentes saídas antecipadas por doença do filho.

Leonor, entendo, mas isto já é um hábito! Qualquer dia fico sem secretária António massajava as têmporas.

Dê-me um comprimido, que a dor já passa!

Não é preciso, obrigada. Mas pense numa solução. Não considera recorrer a uma avó, uma ama, um familiar?

Não há ninguém. A minha mãe já morreu.

Triste. Então talvez uma ama.

Não posso suportar. Mas vou encontrar alternativas, prometo.

Foi buscar o Tiaguinho à creche, esgotada. Entrou em casa e quase chorou. O normal: sopa, comprimidos, chatices. E aquele desgosto de quem faz tudo sozinha.

A mãe tinha dito: A vida vai-te dar gente boa, nem que seja só duas ou três vezes. Cuida de não deixares fugir.

O pai do seu filho, esse, era um génio, mas de futuro nada. Ideias, planos, mas família, nem vê-lo. Quando ele quis ir trabalhar para o estrangeiro, feito maluco, Leonor explicou: Vais ser pai!, mas ele fugiu à responsabilidade.

Mas tinha mesmo de ser já?

Tem.

Então foi um prazer Boa sorte!

Tiago nasceu um mês depois de Ermelinda morrer de ataque cardíaco entre colegas, enfermeiros ninguém conseguiu salvá-la. Leonor não chorou: Depois, mãe, depois, primeiro o Tiaguinho!

Mas depois também não houve tempo. O filho nasceu frágil, sempre doente. Leonor tornou-se uma máquina de rotinas: roupa, comida, consultas. Chegou a ser empregada de limpeza para juntar trocos. E assim foi sobrevivendo.

Voltando de buscar medicamentos, Leonor cruzou-se com a vizinha:

Olá, Ana!

Outra vez? O Tiaguinho outra vez com febre?

Nem me fales… Mais uma e é despedimento certo! Mais valia ter cá uma avó…

Arranja uma ama!

As amas são caras…

Pois, não há avó que valha. Enfim, dá cá um beijinho ao rapaz! Força!

Em casa, tentou procurar anúncios de amas baratas, sem esperança. Então, uma batida suave à porta. Estranhou ninguém usava campainha?

Olá, Leonor. Posso entrar ou vamos tratar de negócios no hall? era a Dona Etelvina, a vizinha do lado, pouco mais do que a conhecia de bom dia.

Ah, desculpe! Entre, entre…

Vamos à cozinha, que não vale acordar o menino. Soninho é o melhor remédio!

Instalou-se na mesa, mãos no colo, olhar de sabichona:

Ouvi dizer que procuras uma avó à hora. Estou cá! Precisas?

O quê?!

Uma avó de ocasião. Cuido do pequeno quando precisares.

Precisava, sim senhora. Mas como soube?

A Ana contou-me. Então, menina, perguntas o que quiseres investiga, sou mulher para responder a tudo!

Leonor serviu-lhe chá e abriu a caixa de bolachas.

A história era simples: nascida ali, operária, logo mãe de dois, viúva cedo, filhos longe, netos que mal via. Ficou sozinha, a ver miúdos da janela e o desgosto a apertar. A Ana falou de babysitter, mas acho que posso ser avó de aluguer, eu a ganhar, tu também. Pensa nisso!

Leonor, aprendida no mundo da desilusão, hesitava. Convidar um quase-estranho para cuidar do filho? Mas à noite, pesou prós e contras. De manhã, bateu à porta da Dona Etelvina:

Aceito!

Começou, assim, a parceria. Dona Etelvina era colaboradora, como ela dizia:

Tu trabalhas, eu também. Tu ficas descansada, eu apanho uma ajuda para a reforma.

Os filhos ajudam? perguntava Leonor.

De vez em quando. Eles têm a vida deles e eu, graças a Deus, ainda faço tudo sozinha.

Às primeiras vezes, Leonor vigiava-os com cautela. Mas Tiaguinho afeiçoou-se logo à cuidadora.

Está mais fraquito, mas dou-lhe já chá de limão e uma história comprida. Vais ver que passa!

Mas, Dona Etelvina, não tenho limão…

Trago eu, menina! Quem tem tempo de ir ao mercado?

Dias depois, Tiaguinho lia e jogava damas com apenas cinco anos!

Este miúdo é um génio, Leonor. Meta-o no xadrez. Eu levo!

O pequeno saltou para a piscina e para torneios. E Leonor, alegre, confidenciava à vizinha:

Nunca conseguiria sem ela! Que sorte!

Quando a minha filha crescer, tiro-te a Etelvina, aviso já! atirava Ana, a rir.

O tempo avançava. Tiago foi para a escola. A ajuda de Etelvina tornou-se rara, mas já não se imaginavam sem ela.

Um belo dia, António Rodrigues chamou-a ao gabinete:

Leonor, está na hora de voar. Com o seu currículo, pode muito mais do que secretariar homens como eu. Que tal regressar à matemática?

Empresa investiu, formou-a e, num instante, Leonor era promovida. Mais dinheiro, mais calma levantar cabeça, finalmente.

É assim mesmo, menina! Merecido Etelvina radiante.

Já não eram só colaboradoras, já eram família. Por isso Leonor percebeu cedo, quando Dona Etelvina desapareceu sem aviso.

Ana, para onde foi ela? Não disse nada.

Já ligaste aos hospitais?

Já a todo o lado. Não me aceitam denúncia, não sou família.

E os filhos?

Dizem que não podem. Isto há-de ter um castigo! Sou só eu a procurar!

Foi pessoalmente por enfermarias.

Quem é para si? Ninguém? Então porquê esta preocupação? ouvia a cada porta fechada.

Depois de quase uma semana, lá a encontrou. Entrara inconsciente, perda de memória temporária.

Por que ninguém me disse? chorou Leonor ao médico. Se eu soubesse, vinha logo!

Atropelada. Acordou ao fim de dois dias, mas não se lembra de nada. Quem é a senhora para ela?

Sou filha! Onde é o gabinete do diretor de serviço?

Pouco depois, transferiram-na para o quarto. Leonor pegou-lhe nas mãos:

Como está?

Quem és tu?

Sou a Leonor. Vai lembrar-se. Fique calma e descanse.

Os filhos? Nem sinais. Arranjaram desculpa, negócios, pressas.

Que se lixe! Fazemos nós! Leonor pousou o telemóvel num suspiro. Quem me dera que a mãe visse isto… Só olham para o umbigo.

Com alta, Leonor trouxe-a para casa.

Tiago, ela esqueceu tudo. Chama-lhe avó Etelvina, vá pode ser que acalme e recupere a memória.

Mãe, ela mora cá agora?

Mora!

Tiago sorriu:

Parece bem.

Agora ele é que controlava os horários, preparava o almoço e empurrava a avó para brincar às damas.

Faço os TPC e depois jogamos. Combinado?

A avó anuiu, com aquela felicidade discreta de quem voltou a pertencer a alguma coisa. Chamava Tiago de neto, Leonor de filha, mas ambos sabiam que parentesco era só um detalhe.

Quando, finalmente, apareceu um dos filhos de Etelvina, de nome Jorge, Leonor ia apressada para casa: era o aniversário do Tiago.

A Leonor? Eu sou o Jorge, filho da Dona Etelvina. Posso ver a minha mãe?

Devia era ter vindo mais cedo. Sente-se à vontade, mas só aviso: os papéis e o apartamento, trate à vontade, mas à sua mãe, só a tiro daqui de rastos.

Gostava de a levar para minha casa…

Não teve intenção antes. Agora não altere o presente. Agora ela está em paz.

E se não me reconhecer?

Os médicos não prometem nada. Mas que está bem, está.

Podemos visitá-la?

Claro! É sua mãe, não minha.

Da despedida, Leonor ficou com a sensação de que a visita não se repetiria. Fechou a porta com força: Paciência! O que interessa é que, por cá, está tudo como deve ser.

Tiago! Põe a água ao lume! Vamos festejar!

Mãe, a avó também come bolo?

Claro que sim! A maior fatia para ela! É preciso adoçar a boca como ela costumava dizer.

E a vida! Tiago riu-se.

Isso mesmo. Vamos lá adoçar isto, que já merecemos!

E seguiram juntos para a cozinha, cada um com o seu papel nesta companhia um pouco improvisada, mas tão, tão portuguesa.

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