O Maldito casarão antigo
Chegámos! Descarreguem! o motorista travou o camião diante de uma cerca de madeira gasta e desligou o motor.
Clara sacudiu levemente a Zélia, que dormia profundamente encostada ao ombro dela.
Filhota, chegámos. Abre os olhinhos.
A sonolenta Zélia esfregou os olhos com o punho e rodou a cabeça, esforçando-se por ver a casa.
Mãe, é aqui que vamos viver agora?
Sim, querida. Vamos lá! Temos de descarregar as coisas e ver como é lá dentro.
Clara saltou do estribo para o chão e pegou a filha ao colo. Por trás do camião, apareceu Henrique, que viera atrás delas no seu próprio carro.
Tudo bem?
Sim. Onde estão as chaves?
Toma o ex-marido passou-lhe um molho de chaves. Os papéis da casa estão na mesa, depois vês. No sábado venho buscar a Zélia, como combinámos.
Está bem.
Vou ajudar a levar as coisas e depois tenho de ir. Há muito para fazer.
Clara acenou. Sentia uma dor cravada no peito, como um ninho de gatos a arranhar-lhe a alma, mas sabia que não havia como mudar o que aconteceu era seguir em frente! E, de preferência, sem mais choradeiras.
Ela e Henrique tinham vivido juntos cinco anos. Um mês antes, Clara soube, como quem desperta num susto, que Henrique tinha outra. Não era apenas uma aventura era algo sério, uma família a caminho…
Primeiro, Clara sentiu-se arrastada para uma dimensão paralela, onde o mundo era cinzento e tudo parecia suspenso. O que fazer a seguir? Como continuar? Não conseguia pensar nisso. Ontem ainda tinha porto seguro, um marido e uma rotina tranquila; hoje nada, tudo desaparecera… E evaporara-se também a confiança nas pessoas: se até o mais próximo dos seus lhe cravou a faca sem olhar para trás, que esperar dos outros? Nunca discutiam e comunicavam como sempre. Por isso, nunca desconfiara de nada.
A notícia não foi só um golpe: foi um apagão total do ânimo.
No piloto automático, Clara cumpria as tarefas: cuidava da filha, cozinhava, limpava, trabalhava, mas não conseguia reunir-se em pedaços nem pensar no futuro.
A casa onde tinham vivido era dos pais de Henrique.
Clara tinha apenas uma velha tia, dona Beatriz, que residia noutra cidade. Era a sua única família. Como não conseguia ir vê-la com frequência, contratou uma vizinha para levar compras, medicamentos e ajudá-la. O apartamento dos pais, herdado, Clara alugara de longa duração, e metade do dinheiro ia para a conta dela, metade para uma conta de tia Beatriz. Muitas vezes sugerira trocar a casinha da tia por um apartamento mais perto, mas esta recusava.
Quando Henrique revelou a traição, sabia que Clara não faria escândalos não era o feitio. Imaginava que Clara se fecharia num silêncio estoico. Por isso, quando não deu mais para esconder, porque boas almas já tinham contado tudo a Clara, apareceu em casa, esperou a filha adormecer, e chamou Clara à cozinha.
Sei que já sabes. Não vou justificar-me. Aconteceu. Temos uma filha. Precisamos pensar em não magoá-la. Como pensas viver daqui para a frente?
Não sei ainda Clara segurava uma chávena, olhando fixamente a mesa.
Por dentro, estava uma tempestade. Perguntas como porquê? e por que comigo? saltavam como coelhos loucos, sem a deixarem pensar, mas de fora não se notava nada. Não queria que Henrique visse o que lhe vai na alma. A mágoa sufocava. Mas, em parte, ele tinha razão. Tinha de pensar em Zélia.
Talvez tenhamos de terminar o contrato com os inquilinos.
Não é preciso. Eu falhei contigo e com a Zélia. Falei com os meus pais Clara, o que achavas de mudar de casa?
Para onde? Clara olhou-o nos olhos, ainda marido.
Sabes que a minha mãe tem aquela casa dos avós no outro lado da cidade. Não é nova, precisa melhorias, mas está firme e aquecida. A tua tia Beatriz mora na mesma rua, não é? Mãe quer passar a casa para ti e para a Zélia. Que achas?
Uma espécie de indemnização? Clara sorriu com amargura, mas pensou melhor.
Talvez fosse a opção mais razoável. Não queria cruzar-se com ele e a nova companheira na rua. O bairro antigo, os parques, tudo doía. Passear com a filha só trazia memórias de tempos melhores.
Agora era altura de pensar no futuro dela e da Zélia.
O que perdia? A cidade era pequena, mas tinha boa escola, posto de saúde, e tudo perto inclusive a única parente que lhe podia valer. Zélia ainda era pequena, exigia cuidados. Dificilmente Henrique seria tão presente como antes. Isso significava procurar trabalho…
Clara assentiu, decidida:
Aceito.
Combinado! Henrique levantou-se. Amanhã combina com a minha mãe irem à conservatória. Ela liga-te. Tenho de ir.
À porta, hesitou e, sem olhar para trás, murmurou:
Perdoa. Nunca quis isto para ti.
Clara não respondeu. Acenou em silêncio, fechou a porta, escorregou por ela, e, mordendo a manga do casaco para abafar o som, uivou baixinho para não acordar a filha.
Não foi choro, foi uivo. Em criança, vira um documentário sobre lobos. Sentiu-se, naquele momento, menos mulher, mais loba ferida.
Chorou muito. Pareceu-lhe que a raiva escorria nas lágrimas, deixando para trás apenas espaço vazio. Uma ideia só a batia nas costelas do espírito, como borboleta tonta: tinha de encontrar algo bom, preencher aquele buraco, ou ficaria presa para sempre na cova do desespero.
As semanas seguintes foram um nevoeiro: só via o que tinha de fazer sobre a mudança.
E agora ali estava, junto à cerca carcomida do novo lar, contemplando um pomar abandonado, tanto que a casa mal se via. Entre as árvores destacava-se pedaço de telhado e um bocado de varanda.
Zélia puxou-lhe a manga:
Mãe, a que é que estás à espera?! Vamos!
Avançaram pela vereda, rodearam uma macieira velha e então viram a casa.
Não, Clara sentiu: aquilo era uma CASA. Já cansada, mas ainda forte, cúmplice do tempo, com um pequeno sótão e uma varanda ampla com vidrinhos coloridos. Emoldurada pelo outono, pedia para ser fotografada. Clara abriu a máquina e tirou umas quantas fotos. Ao olhar para o futuro lar, percebeu que afinal gostava daquele lugar, e o volume de trabalho para o recuperar era aquilo de que precisava agora. Zélia, boquiaberta, enfiava o dedo na boca. Clara puxou-lhe o pompom do gorro:
Tira o dedo da boca, catraia! Surpreendeu-te a casinha?
Mãaaãe, é tão bonita!
Concordo. Mas vamos ver por dentro, decidir onde vais dormir.
Sim! Anda!
Subiram os degraus, atravessaram a varanda. Corredor comprido, dando para cozinha e divisões. Clara inspecionava, pensando no arranjo dos móveis.
Casa pequena: cozinha, duas casas em baixo e uma no sótão, uma sala de jantar ampla, com uma mesa redonda onde pendia um candeeiro antigo coberto por uma echarpe de croché. O cheiro a bolor do espaço não a incomodou; paradoxalmente, sentiu-se acolhida ali.
Clara! Já descarregámos tudo e paguei aos moços gritou Henrique ao passar na sala. Vem, mostro-te o aquecimento e a caldeira.
Mostrou-lhe os básicos e despediu-se.
Clara foi à cozinha.
Pôs a chaleira ao lume, tirou comida das caixas para alimentar a filha. Enquanto aquecia o ensopado, passou à limpeza do tampo da mesa.
A cozinha era pequena, mas aconchegante. Dois janelões davam para o pomar. Junto de um deles, a mesa onde ela trabalhava, enquanto Zélia, sentada, balançava as pernas e espreitava os armários e o candeeiro com feitio de chapéu repleto de cores.
De repente, ouviu-se uma pancada violenta na janela. Zélia gritou, Clara estremeceu e levantou o olhar. Um enorme gato ruivo encarava-a na ombreira.
Ora essa! Obrigatório assustar assim? Clara recuperou o fôlego. Zélia, olha que beleza de gatarrão!
O bicho fixava Clara, olhos dourados, sem pestanejar.
Estás à espera de convite? Se entraste, alguma coisa se arranja para ti.
O gato saltou do peitoril e sumiu.
Ele queria convite formal riu Clara. Zélia, vai lavar as mãos! Já almoçamos.
Virou-se e ficou pasmada. O gato estava à porta.
Como entraste cá? Deixei a porta fechada!
O gato nem se mexeu. Observava dona e filha com olhos semicerrados, tão ternurentos que Clara não evitou sorrir.
Pegou num pedaço de galinha, partiu, pôs num pratinho velho:
Vem, prova lá isto!
O gato marchou até ao prato e começou a comer devagar.
Clara foi verificar portas cerradas. Só então reparou num alçapãozinho na porta: um acesso secreto, talvez feito de propósito para um felino qualquer.
Sabido, o visitante conhecia bem o caminho!
Voltando à cozinha, viu Zélia sentada no chão, a conversar com o gato, que escutava atento. Pela primeira vez em muito tempo, Clara soltou uma gargalhada:
Dois grandes conversadores!
Filha e gato rodaram a cabeça ao mesmo tempo; Clara jurou que o gato até deu de ombros, como a filha, tal era a semelhança.
Bateram à porta, Clara fez sinal à filha para esperar, e foi abrir.
Boa tarde! Sou a vizinha, Paula Gracinda. Podes tratar-me por tia Paula. Toma! Uma senhora vigorosa estendia-lhe um frasco de leite cremoso. Da minha cabra! Beba à vontade!
Boa tarde! Clara, surpreendida pelo ímpeto, lembrou-se das boas maneiras. Sou Clara, muito prazer! Olha, ainda está morno! Muito obrigada! Apanhou o frasco e convidou a vizinha a entrar.
Tia Paula não se fez rogada e entrou.
Clara pousou o leite junto ao fogão. Zélia voltou-se:
Boa tarde! Chamo-me Zélia.
Boa tarde, menina! Eu sou a tia Paula.
Muito prazer! Sabe de quem é este gato?
Como não hei-de saber? É meu malandro! Chama-se Salvador. Muito guloso, atenda-se! Nesse caso, enxote-o come tanto cá como em casa. Se não, nunca mais caça um rato!
Há ratos aqui? Zélia abriu a boca, espantada.
Claro! Há em todas as casas do campo, sobretudo no outono. Portanto
Mãe, precisamos mesmo do Salvador! Quer dizer precisamos de um gato nosso!
Clara sorriu:
Vá devagar, Zélia. Tia Paula, conhece alguém que queira fazer uns biscatos? Alguém que limpe o quintal, arranje a casa? Não dou conta disto sozinha; preciso de mãos masculinas.
Conheço sim. Vai falar com o senhor Manuel o Manelito. Mora três casas abaixo, portão verde. Bigodudo, desenrascado, bom homem. Cobra pouco e faz tudo.
Obrigada! Aliás, quer um chazinho? Agora só tenho bolachas e rebuçados, ainda estamos a arrumar, mas está convidada.
Não digo que não respondeu tia Paula, sorrindo.
Tomaram chá, enquanto a vizinha contava histórias do bairro, da família, até perguntar, de repente:
Diz lá, Clarinha, como vieste parar a esta casa?
Ficou para mim, herança Clara disfarçou o amargor e sorriu para dentro. Não queria trazer mágoas ao novo chá.
Sabes, esteve vinte anos fechada. As meninas já esqueceram, mas os mais velhos lembram: esta casa tem fama de não trazer felicidade.
Está a meter-me medo! Porquê? Aconteceu cá alguma coisa?
Não, não temas! Mas ninguém cá ficou muito tempo. Três anos, saíam. Alguém adoecia, outros perdiam gente, outros nunca foram felizes. Assim ganhou má fama. Diz-se que foi construída por um negociante local para a noiva; ela morreu de febre, nem um ano passou. Ele vendeu, foi embora, e nunca ninguém cá ficou. A casa tem quase cem anos, foi renovada, mas está sempre vazia.
Clara rodava uma colher de chá nas mãos, pensativa.
Curioso… Pois, é o que há! Cá estaremos! abanou a cabeça com decisão. Somos mulheres de fibra! Não é, Zélia? Não é qualquer mezinhas que nos mete medo! Logo se vê se a casa é mesmo assim.
Passaram-se meses.
Clara adaptou-se ao novo sítio. Zélia ia ao jardim de infância; Clara trabalhava no atelier local e até participava em festas tirando fotos. Antigamente achava a fotografia só passatempo, mas engravidando de Zélia tirou cursos, foi crescendo no ofício agora fazia disso profissão.
A casa e o quintal foram ganhando vida. O ajudante, Manelito, era verdadeiramente o braço direito.
Homem alto, largo de ombros, chegou pelas mãos de tia Paula:
Chama-me Manelito! Já me habituei.
Ouviu o que Clara queria, deitou mãos à obra.
Juntos limparam o pomar revelando árvores de fruto e canteiros. Clara percebeu que cuidando regularmente, Zélia teria fruta fresca sem precisar de ir ao mercado. Depois, puseram a casa em condições: telhado, varanda, escadas. Levou tempo, mas valeu a pena.
A casa reviveu, respirava. Agora, Clara saía de manhã para a varanda com um chá quente e afagava os corrimãos novos, sentindo: ali era o seu lugar. Um refúgio de paz…
Assumia os cuidados à tia Beatriz ao fim do dia, passava sempre por casa da tia com Zélia antes de voltar para casa. Percebeu, finalmente, que foi uma excelente decisão mudar-se. O coração acalmara, quase deixara de doer, o ressentimento por Henrique. Ele continuava presente na vida da filha, o que ajudava Clara a aceitar tudo. Nem tudo foi fácil, por certo. Até ela, ensimesmada na filha, admitia ter negligenciado o ex-marido. Decidiu não mexer mais no passado, mas criar em Zélia a ideia de lar seguro mesmo separados, pai e mãe amavam-na.
Tia reforçou:
Isso mesmo, Clarinha! Não guardes nada amargo. Às vezes um desgosto pequenino, levado tempo demais, vira tragédia. Esquece! Melhor pensar no bom que já tiveste. Olha para a tua menina! Isso é o mais importante. O resto, deixa passar. Não guardes mágoa ela só te rói cá dentro. E lembra-te: a miúda está de olho em ti! Os adultos esquecem-se, mas os pequenitos veem tudo Pensa: que memórias queres deixar nela? Que mãe ela vai recordar?
Clara acenava, em silêncios concordantes.
Aos poucos conheceu todos na rua. Sem dar por isso, ora uma vizinha, ora outra vinha tomar chá. As mais novas traziam filhos Zélia logo arranjou companhia. Os mais velhos também apareciam.
Assim conheceu tia Matilde, um pouco mais abaixo. Matilde ensinou Clara a cozinhar pão caseiro; Zélia adorava. Até parou de fazer birras com o leite: mordia numa fatia crocante do pão e o copo esvaziava-se logo; Clara ria, limpando o bigode de leite da filha.
Depois fez amizade com o senhor António, morador antigo, que apareceu com um alguidar de morangos de uma variedade gigante:
Rainha Vitória, chama-se isto. Habituando-se, ensino a tratar.
Com as obras ajudadas por Manelito, Clara pôs uma mesa grande na varanda, limpou os vitrais e enceradeou o chão de madeira. Num canto, uma cadeira de baloiço, paixão de Zélia. Quase todas as noites sentava-se ali, com o atrevido Salvador, decidido desde o primeiro dia a dividir-se entre duas casas. Clara, agora, saía de manhã para a varanda com passos cuidados, depois de quase ter pisado os ratos alinhados na escada Salvador ganhava o direito a entrar quando quisesse, pelo desempenho. Aliás, Zélia era louca pelo gato.
A única vizinha que não agradou a Clara foi a Dona Carminda. Era um pouco mais velha, muito faladora, e além do mais, uma fofoqueira profissional. Demorou a perceber, mas depois Clara fazia de tudo para a conversa não pegar. Carminda, percebendo que Clara tinha ouvidos disponíveis, insistia. Clara servia chá, suspirava e cantarolava mentalmente para se isolar, enquanto Carminda desfiava maledicências ao vento.
Com o tempo, Clara reparou em algo estranho: sempre que Carminda aparecia, acontecia-lhe uma pequena desgraça.
Primeiro, rasgou a saia num prego invisível Clara tinha a certeza de que acabara de tratar dos corrimãos! Era impossível.
Depois, sentou-se fora da cadeira: esta ficava entre a mesa e a parede impossível cair ali.
Fosse isso ou não, Carminda começou a esquecê-la.
Certa manhã, a podar os arbustos, Clara ouviu Carminda a conversar com tia Paula:
Ó Paula, tu não entendes! Vive ali com a criança, mas que não tem homem? Duvido! Casa sempre arranjada, pomar cuidado Alguém cá anda, aposto.
Ora, és teimosa! O Manelito ajudou-a, ela pagou-lhe. Sabes bem disso.
E a casa?
O que tem a casa?
A cidade inteira sabe que é amaldiçoada! Já devia ter fugido dali, mas continua. As pessoas gostam dela! Vêm cá, nunca vêm a mim. Porquê?
Porque não é a casa que faz a pessoa, a pessoa é que faz a casa! Clara é boa pessoa, por isso as pessoas vêm ter com ela. Vai lá à tua vida, Carminda, que eu tenho leite ao lume!
Clara afastou-se em silêncio, a sorrir. Há gente para tudo!
Mãe! Mãe, onde estás? Zélia gritou da varanda.
Aqui! Já acordaste? Já te lavaste?
Ainda não! Espera! Olha!
Clara virou-se para onde a filha apontava. Pelo pátio, do fundo do quintal, vinha Salvador arrastando na boca uma criaturinha ruiva, igualzinha a ele. Ao chegar ao pé dela, lançou um olhar solene. Clara agachou-se e Salvador depositou-lhe o presente: um gatinho chiador e indignado.
Obrigada, Salvador! Achas que precisamos mesmo dele?
O gato murmurou, virou costas e voltou à casa da tia Paula. Missão cumprida.
Então, Zélia, talvez precisemos mesmo. Que nome damos?
Salvador!
Clara ergueu o gato à altura dos olhos:
Bem-vindo, senhor Salvador Salvador! Vá, meninos, para dentro! Hora do pequeno-almoço!
Zélia riu, empurrou a porta da varanda e um sopro quente da casa abraçou-as, entrelaçando sonhos e cheiro a pão.






