Felicidade Complicada
Mas como assim vamos divorciar-nos? Duarte, estás a brincar?
Leonor olhava para o marido, sem entender nada. Divórcio? Vinte e cinco anos juntos! Daqui a duas semanas iam celebrar ou talvez já não. Os pensamentos misturavam-se. E a festa, os convidados? Os convites já enviados Toda a família iria reunir-se. Os amigos fartaram-se de ligar a perguntar o que deviam levar Júlia, a melhor amiga de Leonor, até já tinha enviado o presente pelos correios, já que não podia viajar. Estava de esperanças do sexto mês e a distância de Lisboa para o Porto era longa. Que ficasse por casa. Haveria tempo para se verem depois. Afinal, fora Júlia que os apresentou, Leonor e Duarte, ainda nos tempos da faculdade. E quem mais gritava Viva os noivos! no casamento, escondendo-se atrás do ramo que Leonor, em vez de lançar, entregou-lhe diretamente.
Não percebo o que espera o teu Nuno, pá. Vai deixar escapar uma rapariga como tu?
Deixa lá, Leonor. Júlia ajeitava-lhe o cabelo com jeito. Tudo a seu tempo. Ele ainda não está preparado. E para quê precipitações? Casar só por casar, para depois divorciar ao fim de uns anos? E aquela chatice de dividir bens, filhos, família Prefiro esperar pelo momento certo. Dois anos é muito, Júlia! Leonor ria-se, divertida com o jeito determinado da amiga.
Eu não sei viver aos bocadinhos. Ou é tudo ou nada!
E filhos, Júlia? Logo de início?
Sim! Quero gémeos! Sofre-se de uma vez só, mas fica o assunto resolvido. Há precedentes na minha família e na do Nuno.
Mas é um desafio, criar logo dois de uma vez.
Não concordo, é mais fácil.
Porquê? Leonor gostava de ouvir a amiga. Júlia era perspicaz e sempre pensava em tudo. Quando eram miúdas, nos tempos das traquinices, só Júlia escapava sempre sem castigo. Armava tudo e ninguém suspeitava dela. Pelo menos, sempre que a lógica se aplicava a todas as envolvidas. Mas se alguém fazia a coisa à sua maneira, ela recuava, observando.
É simples, Leonor. Companheirismo, uma competição saudável, estímulo mútuo, e claro, mãe do ano pela destreza! Falta mais algum argumento?
Não, por amor de Deus! Leonor ria, convencida de que Júlia acabaria mesmo por conseguir tudo o que queria.
E assim foi. Só que alguém lá no alto devia ter sentido de humor ainda maior que o de Júlia: em vez de gémeos, vieram trigémeos. Uma verdadeira prova à sua coragem.
Júlia saiu-se lindamente. Ao ponto de a família do marido realmente a respeitar. Nunca se rebaixando, sempre pronta a ajudar, mas com um pragmatismo único. Muitas vezes arranjava tarefas para o Nuno, que não tinha grande vontade em ser o salvador da família, mas lá acabava por ceder, pensando no longo prazo.
Um dia vamos precisar deles, Nuno. E aí, não quero que se virem de costas. Queres jantar batatas fritas com cogumelos? Então vai ajudar a tua mãe a montar aquele armário, que é num instante. Diz-lhe que eu vou ajudar nas limpezas na próxima semana.
Quando Júlia precisou, estavam ali duas avós e um avô. Assim, pôde ter os filhos, cuidar deles, entrar na universidade outra vez e terminar a licenciatura.
Júlia! Estás doida! Como arranjas tempo para tudo? Leonor admirava a amiga.
Quem vai ter coragem de chumbar uma mãe de trigémeos? Além disso, mantenho a cabeça ativa e, no fim, fico com mais experiência para crescer. Não interessa quanto ganho, agora interessa ganhar prática. O resto vem depois.
Júlia conseguiu o diploma e um emprego, convencendo a entidade patronal que só precisaria de uma ama, paga com o ordenado previsto. As avós ficavam com os miúdos, mas isso era segredo.
Leonor pensava nela e admirava como Júlia conseguia tudo. Ela própria sempre fora mais indecisa. Até para escolher collants para o jardim de infância era um drama.
Mas tu, Leonor, quando tomas uma decisão, está certa! Não sou como tu, sempre aos altos e baixos dizia Júlia, com carinho. Tu és conservadora, Leonor. E são as pessoas mais fiáveis do mundo.
Fiável O Duarte é que soube apreciar isso! Como é que ele podia? Porquê? Tinham uma vida estável! Sim, a ausência de filhos pesava, mas aprenderam a aceitar. Leonor tinha sido voluntária num lar de crianças, mas nunca sentiu forças para adotar. Não era a questão do esforço, mas sim, não sabia se conseguiria amar como deve ser. Percebeu que precisava de sentir alguma coisa diferente
Ainda não encontrou a sua criança, Leonor dizia a diretora com quem Leonor convivia no lar, Dona Madalena, enquanto observava as crianças à roda da árvore no Natal. Leonor olhava-as, cheia de melancolia. Quando vir a sua, vai perceber. Ninguém a tira dali, nem dificuldades nem obstáculos.
E se nunca acontecer? E se não for esse o meu destino? questionava, enquanto arrumava os presentes nas mesas.
Então não é para ser. É mais honesto assim. Melhor não dar esperança e depois destruí-la. Vejo tantos casos. Estás a ver aquele menino, o Manel? Já foi devolvido duas vezes.
Santo Deus! Como assim?
Simples. Uma família adotou, depois tiveram um filho biológico, e devolveram-no. Outro caso: tentaram adotar quatro, mas não conseguiram dar atenção e amor a todos. Ele ficou sozinho, sem apoio, recusado novamente. Pediu para voltar ao lar, sentiu-se a mais. Já está velho, mesmo em criança. Já não acredita em ninguém.
Aquelas palavras deixaram Leonor num desespero tal que quase avançou para fazer o processo para o Manel. Mas as palavras de Júlia ecoaram-lhe na mente.
Tens a certeza de que tens esse amor? E se for só pena? Não faças isso. Experimenta ficar com um dos meus, só para ver!
Leonor recusou. Passou a ajudar ao longe, mas pensava sempre em Manel. Tornou-se um farol, lembrando que, acima de tudo, não podia fazer mal a ninguém.
Estava frio. Porque sentia-se assim, se o outono nem era rigoroso e já tinham ligado o aquecimento? Devia ajudar o Duarte a fazer as malas? Roupa quente também? Em Lisboa não era costume o frio apertar cedo, mas que diferença fazia agora? Lembrava-se do conforto da sua infância em Viseu, nunca sabia o que era arrepio. Agora só queria estar com a mãe, desaparecer com ela para as serras, parar tudo. Mas a mãe já não estava. E, sem dúvida, o Duarte também não.
Que raio, quem precisava de liberdade? Queria era o marido perto, como antes. Café ao acordar e às duas da manhã, conversas intermináveis, saídas ao teatro inesperadas, passeios sem planos. Duarte telefonava a meio do dia:
Leonor, que fazes?
Uma confusão de reuniões
Esquece isso, anda comigo passear
Leonor largava tudo e pronto, uma hora depois estavam num passeio pela Mata do Buçaco, em silêncio ou à conversa.
Agora isso era passado. Ela lembraria, ele talvez não. Ele teria futuro, ela ficava com as memórias.
Cozinha, calor do radiador, Leonor imobilizava-se. Ouvia Duarte na casa, portas, gavetas, mala. Tremia tanto que o vaso com a planta que Júlia lhe dera quase caiu. Ao bater a porta de entrada, os dedos de Leonor cravaram-se no peitoril, depois, deixou-se ir, varrendo o vaso para o chão e soltou um grito fundo, cru, que não resolveu nada. O negro da terra misturada com cacos fez-lhe sentido. Tudo, agora, era escuro. Porque a luz tinha ido com ele. Avançava às cegas.
Só uma coisa.
Ergueu-se, arrastou-se até ao quarto, onde estava o telemóvel.
Júúúlia
Nem choro, quase um uivo de dor. E não foi preciso explicar nada.
Duarte foi-se embora?
Foi
Então, amanhã estou aí.
Perdeste o juízo? Por favor, nem penses! Se te acontece alguma coisa, ou ao bebé fez-se silêncio. Tu sabias?
Desconfiava. Da última vez que cá vieram, ele nem me olhava.
Achas que é para melhor?
É. Vais ver.
Não tenho nada! Perdi tudo! O que faço?
Compra um vestido.
Quê!?
Isso mesmo. Vai e compra aquele vestido que nunca ousaste por causa do preço. Agora. E depois mostras-me. Não fiques aí a chorar, porque isso não resolve nada. Compra o vestido, depois apanha um comboio ou avião e vem para cá. Vamos às serras. Também preciso. A miudagem foi para os treinos ou para a competição, isto aqui está vazio. Não me deixes nervosa, manda mensagem com o teu bilhete.
Júlia desligou e Leonor ficou a olhar o telemóvel. E agora?
A resposta veio de dentro. Levantou-se, foi até ao espelho. Ali estava ela. Os anos todos à vista. Já não uma miúda, mas longe de estar acabada. Teimosa, esperançada. Se Duarte pensava que ela ia ficar parada, enganava-se. Júlia tinha razão.
Deu ordens a si própria. Cancelou tudo o que tinha marcado, telefonou a encerrar a festa, tratou do que precisava.
Vestiu o vestido. Vermelho, vivo, como nunca usava. Sempre preferira tons neutros, deixando o extravagante à amiga. Mas, agora, sentiu-se diferente. Precisava de movimento. Com o telemóvel na mão, cancelou as reuniões, treinou a voz, limpou a cozinha e esqueceu que tinha dois aspiradores.
O vestido assentava perfeito. Passou as mãos pelo cabelo, enxugou as lágrimas e endireitou as costas. Era hora de mexer-se.
O voo tinha escala, mas isso até ajudou. Entre malas, baldes de café e distrações, o tempo passou.
As serras do Gerês encheram-no de ar fresco. Caminharam, calaram-se, riram, trocaram histórias. Júlia tinha sempre argumentos que viravam tudo do avesso. O que parecia fundamental, rapidamente deixava de importar.
Volta para cá, Leonor. Assim estás perto do teu pai, abres um centro infantil, faz falta por aqui, já viste as construções novas na cidade? E o teu pai anda adoentado. Assim ficas perto, e não precisas mudar de clima. Pensa nisso.
E pensou. Ao fim de uns dias, estava decidida: seria o melhor.
Divórcio, venda do apartamento e do carro, papéis a assinar, a vida feitoria desfeita. Separou emoções do resto, encontrou-se algumas vezes com Duarte, manteve-se firme, depois apagou-o do telemóvel e da vida.
Porto recebeu-a com uma brisa suave, perfumes de primavera magnólias e limoeiros em flor. Comprou um pequeno apartamento perto do pai. E não se incomodou quando a nova companheira do pai apareceu uma senhora afável, de jeito humilde. Não havia nada para disputar; Leonor ficou feliz por ver o pai animado, jardineiro de novo, chá quente, sorrisos, a descobrir o amor tarde na vida. Pensou: se ele ainda encontrou alguém na curva final, talvez ela também tenha uma segunda oportunidade.
O tempo voou. Dois centros infantis abertos, muito trabalho, uma vida nova. Mudou de aparência, de roupa, finalmente comprou um cão. Mas por vezes, o vazio enchia a cozinha à noite. A saudade aparecia. Dava tudo para ouvir o estalido do interruptor, sentir uma mão no ombro e ouvir: Queres chá quente? Conta-me tudo, Leonor.
Sabia: partir é para partir de vez, mas a alma demorava a largar. Não deixava Duarte ir-se embora do todo.
Uma dor de cabeça com as Finanças, passado quase um ano e meio, serviu de distração e fê-la regressar a Lisboa para resolver tudo presencialmente. O dia seguinte ficou livre. Espreitou os seus antigos centros: um fechou, o outro cheio de crianças. Ficou a um canto, espreitando as cabeças à volta de folhas e lápis. O professor representava um urso e os miúdos gritavam, riam. Era bom vê-los. Ali, a infância corria bem.
Desviou-se para o antigo bairro. Ali estava o prédio onde vivera, o parque. Sem perceber, entrou no parque. Bancos novos, o fontanário limpo.
Viu um homem, de cabelo grisalho, empurrando um carrinho de bebé. Só a dois passos reconheceu Duarte. Por instantes, não percebeu o que mudara nele. Sentava-se de lado, abatido, olhos perdidos. Leonor acelerou, sentiu no coração que não podia deixá-lo sozinho na dor. Conhecia-o demasiado bem.
Duarte
Ele estremeceu, baixou mais a cabeça.
Olá, Leonor.
Sentou-se ao lado.
Está tudo bem?
A pergunta soou estranha, irrelevante, mas ficou. Duarte parou o carrinho, olhou na sua direção.
Não, Leonor. Não está.
Porquê?
Estou sozinho. Perdi tudo o que era importante, vi tudo escapar por entre os dedos. Bastou um erro, uma fraqueza, e perdi tudo.
Não digas isso. Leonor percebeu que duas vidas perdidas podiam ser menos dolorosas se partilhadas. Tens uma filha.
Indicou o carrinho.
É menina ou menino?
É menina. Chama-se Eva.
E a tua mulher?
Não tenho. A Mila morreu. Parto complicado.
Leonor ficou em silêncio, surpresa. No fundo, compadecia-se da rapariga. Mila aproveitou a ocasião certa, Duarte embarcou num erro impensado O tempo passou, e o resultado dormia ali, no carrinho, a respirar tranquila.
Sentaram-se calados. Quando, ao fim de muito tempo, falaram, foi aos tropeções, ambos com tanto para dizer, que a pequena Eva acordou a ver os candeeiros a acender e as estrelas a pipocar no céu.
Leonor levantou-se para olhar a menina e congelou a admirar-lhe o rosto.
Quando vires a tua criança, vais perceber, ecoou a velha frase de Dona Madalena.
Seis meses depois, Dona Madalena levou um rapaz magro de olhos negros ao gabinete.
Manel, sabes porque vim?
Vem buscar-me.
Queres viver comigo?
Não sei. Não acredito.
O olhar de Manel era distante, cansado. Uma faísca brilhou quando Leonor mostrou as fotografias.
O seu marido?
Era.
E esta menina é sua filha?
Não.
A faísca reacendeu-se. Leonor resolveu mantê-la acesa.
Não é minha filha, mas serei mãe dela. E contigo, se quiseres.
Vão devolver-me.
Porquê?
Devolvem todos.
Eu não sou todos. Sabes porquê?
Não.
Porque sei o que é perder tudo. Ficar sem ninguém que goste de ti. Dói muito.
Eu sei
Sabes o que é uma mãe, Manel?
Não.
É quem nunca, nunca deixa que façam sofrer o filho.
Tem pena de mim?
Leonor olhou-o devagar, negou com a cabeça.
Não. Não quero pena. Quero amar-te, percebes? Quero que sejas feliz. E quero que a Eva tenha um irmão mais velho, forte e corajoso. Ajudas-me?
Manel ficou calado muito tempo, depois tocou no vestido vermelho.
Gosto muito.
Eu também. Comprei-o num dia em que estava muito mal, e tornou-se o meu favorito.
Quero tentar.
Não, Manel. Não vamos tentar. Vamos fazer. Porque é o certo. Não te largo. Mas preciso da tua ajuda, sim? Não sei ainda ser mãe, mas irei aprender, se me deres essa oportunidade.
Manel acenou, um sim caladinho, mas firme. E Leonor sentiu no peito um novo recomeço.
Dois anos depois, numa tarde de primavera, caminhava a família pela serra fora. O rapaz magricela tomava conta da irmã, Eva irrequieta, sempre por um triz para se escapulir.
Eva, diz que há lobos na floresta!
Não há, não!
Há sim. E ursos! Grandes e cheios de fome.
Não comeram papa hoje?
A mãe não sabe fazer papa.
A nossa sabe!
Então que faça para os ursos, e já ficam contentes.
Mamã! A Eva diz que a papa dos ursos tem de ser igual à nossa.
Sêmola? Leonor apanhou-os, rindo.
Mas a mãe não sabe, faz sempre grumos!
És tu que não gostas de grumos. Os ursos adoram!
Dá-lhes a minha sobremesa amanhã! E o mel de ontem!
Nem pensar! Esse é meu. Vais pelas minhas costas até quando?
Ao colo!
Então vai para o papi! pôs Eva nos braços do Duarte e passou a mão na cabeça de Manel. E a papa para os ursos, campeão?
Mamã, aqui está tão bom Não quero voltar. Se a Eva começa a alimentar bicharada, nunca mais saímos. Mais vale deixá-los com fome.
Leonor riu, olhando-os.
Eva, tratamos dos ursos depois, sim? E eu aprendo a receita certa!
Pronto! respondeu Eva, rápida, e Leonor e Manel trocaram olhares.
Ai, mãe! Manel apontou para a irmã e fez um ar dramático.
Ai, filho alinhou Leonor. Olha, se ela começa, ainda vamos levar um urso, um lobo e se calhar um dragão para casa, porque esta miúda não os deixa!
O riso ecoou pela serra, esmorecendo à medida que avançavam, com o dia a prometer claridade sobre as suas cabeças.






