Noite, mulher, gato e frigorífico
Não olhes para mim assim!
Leonor fuzilou o gato com um olhar tal severidade que até levantou a sobrancelha coisa que a mãe sempre proibia, dizendo que sobrancelhas grossas e juntas, como as de Leonor, eram feias em raparigas. A mãe, senhora de ar fino, afinava as dela até ficarem como linhas; já Leonor herdara as do pai, e lamentava.
Claro, isso era conversa de infância. As sobrancelhas já há muito domadas, e os anos também se acumulavam. O gato, sabedor de tudo, nem ligou ao ar ameaçador. Sentado no parapeito da janela da cozinha, analisava a dona com expressão entre o desprezo e o mistério, olhos verdes relampejando, reflectindo a luz esquisita do candeeiro do corredor, que filtrava pela porta entreaberta. Um sopro cruzava a sombra e fazia a porta bater de leve, mas nunca fechava de todo. Leonor ressentia-se, desejava que se trancasse por fim, dando-lhe licença absoluta para abrir outra porta, a do frigorífico.
Remexeu-se no chão frio encostada à parede, ficando ali sentada já há mais de uma hora, fixa no frigorífico, tentando hipnotizá-lo com o olhar.
Sabia até à última fatia de chouriço o que guardava nas prateleiras brancas, que tinha lavado recentemente até brilharem. Era ela quem comprava tudo para a casa, motivo de risota familiar.
Leonor, para quê anchovas? Quem, por amor de Deus, come anchovas nesta casa?! gracejava o marido, girando na mão um frasco minúsculo. Por que as trouxeste?
Gosto, oras…
Pois inventa maneira de as meter na ementa, sem rebentar de tanto esforço!
E Leonor inventava. Saía cada prato mais estranho, porque receitas nunca seguia à risca. No início torciam o nariz, depois não sobrava migalha nem para contar a história, já todos pedindo mais.
A família toda. Menos a Leonor.
Nunca soubera comer do que cozinhava nem sequer experimentar! O ato de cozinhar consumia-a de tal forma, era onde surgiam lampejos de alegria e arte; mas, no instante em que o novo prato emergia pronto, vinha uma personagem velha e fora do contexto uma avó inventada, estranha à árvore genealógica, a murmurar, assobiar e espreitar de lado com um dente só, sempre zombeteira ao partir, deixando-a tão vazia de fome a Leonor, que não tolerava sequer olhar para o prato preparado por si.
Sofria deste estranho feitiço e consolava-se a comer coisas que não exigiam lume: bolachas, queijo serra fatiado com lágrima, rebuçados escondidos do próprio filho bebé. Dizia-se que, sendo bolacha de criança, devia ser saudável e assim a culpa não pesava.
De saúde, nunca andava folgada.
Nunca foi gorda. Longe disso. Tudo servia de brasa para a fornalha da família três filhos, marido, gato e casa, todos à espera do afeto incansável de Leonor. Mais, ainda, havia o trabalho, que ela respeitava e às vezes até gostava, sobretudo nas horas que sobravam para o grande projeto: cuidar dos seus.
Nunca se queixara da saúde. Aprendera cedo, com a mãe, a máxima infalível:
Vai passar!
Sempre que vinha uma queixa, a mãe cortava:
Leonorinha, não inventes! Não tens febre! Mediste? Muito bem, filha! Vai tomar chá com limão e deitar-te! Passa sozinho!
A frase mágica acompanhou-a pela vida fora e Leonor nunca julgou preciso fazer regra do que incomodava, nem mesmo quando, após o primeiro filho, o corpo gritava falhas. Ora, tempo não havia! Passa.
Com o segundo filho, tudo foi pior. Levantava-se estoirada ao mínimo choro do menino, mas evitava queixar-se ao marido. Que mãe era, se nem do filho cuidava?
O João, o marido, percebeu tudo sem palavras.
Deixa, Leonor, eu trato. Pegava no filho mais novo e enxotava o maior para fora. Agora dorme, que bem precisas.
Leonor afundava-se num escuro sem sonhos e dormia horas. Só que ao acordar era mais cansaço, mais culpa. Não prestava, afinal?
Se ao menos parasse e refletisse sobre tanto perfeccionismo, percebia tudo. Não há felicidade em ser sempre “assim-assim”
O lema vinha da infância pela mãe e avó inculcado:
Senta-te direita! Pareces um trombone todo torto! Endireita as costas, filha! clamava a avó, Dona Antónia.
Ó mãe, parece-te que não tento? E ela não me escuta! Eu tenho de esconder a comida, come tudo! Já castiguei, insisti, nada funciona!
Leonor, miúda quase leve como um pardal, ia para a mesa de coluna hirta, chorava para o prato e evitava olhar.
Porquê tanta obsessão pela magreza e elegância, só entendeu mais tarde, já adolescente e complexada, achou um velho álbum de fotos onde viu a mãe E o tapete voou por baixo.
Porquê tanto julgamento materno pelo menor excesso? Se a mãe, afinal…
Saía-lhe das fotos uma rapariga roliça e bela de olhos brilhantes, muito parecida a ela própria. Mesmos borbotos de acne, cintura a Leonor até mais fina
Porquê, então, tal rigor?
Veio a resposta:
Tu não percebes? Olha ao espelho! Quem é que te vai querer? Eu só consegui depois de muito custo! Graças a tua avó toda a família a pão e água.
Mãe, e o avô quando deixou a avó?
Que perguntas são essas? Achas que tem a ver? Não, claro! Contradições, só isso. Como eu e o teu pai! Acontece.
Mas como não se entende alguém que vive connosco tantos anos?
Leonor, por favor! Vai fazer algo útil!
“Algo útil” ela sempre soubera o que era: metia os sapatos velhos e ia ao campo da escola. Ali, não corria nem saltava se houvesse meninos a jogar ou pendurados nas barras. Sentava-se em silêncio num banco sob a tília e pensava na vida. Só quando todos se sumiam nas sombras, dava umas voltas, ralhando consigo pela falta de jeito.
Ali, em silêncio, definiu: se era feia e não ia casar, precisava ser útil, ser alguém que não deixasse ninguém indiferente. Percebeu que, tendo valor, o aspeto pouco importa. Melhor ainda, se só ela souber ou for rara.
Mãe, quero ser médica.
Ai sim? Com que habilidades, Leonor?
Estudo bem. Isso não conta?
Pode ser. Não é das piores profissões Tu é que sabes.
E Leonor entrou em Medicina, excelentíssima. O pouco pessoal deu-lhe espaço e aproveitou. A mãe suspirava ao ver tanta dedicação, mas não interferia a avó de Leonor, muito doente, precisava de atenção. E, assim, deixaram-na viver.
Nem tudo, contudo a avó regressou.
Nunca vai arranjar marido! Só pensa nos livros! Precisamos tratar disso.
Fez aparecer uma casamenteira, mulher baixa e despachada, daquelas com missão certeira.
Sua filha é uma pérola! Linda, esperta, vai ser fácil!
Leonor quase se riu.
Bonita ela? O peso já não tanto, a cara mais limpinha, mas nunca bonita disso sabia.
Mesmo assim, arranjaram pretendente com agilidade. Quando o viu ficou sem palavras: baixo, atabalhoado, mal sabia mexer nas mãos. Leonor foi educada, não ofendeu, e considerou todo o esforço por respeito à família.
O chá-convívio de apresentação passou suave. Marcaram novo encontro. Leonor atrasou-se, presa na faculdade, correndo para o café onde o pretendente a esperava. Chegou, olhou em redor, vazio. Estranhou, mas virou-se para sair, quando o empregado chamou:
A menina é a Leonor? Ele deixou-lhe um bilhete. Estava nervoso, até partiu um copo. Depois foi-se embora.
Na nota só: “Não me procures”.
Leonor bufou, livre do peso.
Não ia procurar!
Pareceu-lhe que toneladas se soltaram. Agora tinha argumento: foi dispensada logo ao primeiro encontro. Chegara tarde, sim, mas as raparigas fazem isso, não? E que marido seria este? Não queria. Não havia necessidade.
O empregado, já tirando as conclusões todas pelo papel, olhou-a fundo e sorriu:
O que faz hoje à noite, Leonor?
Instintivamente, Leonor amarrotou a nota, fitou o empregado e perguntou:
Como te chamas?
João.
Diz-me: tens pena de mim?
Não. E o sorriso tomou-lhe o rosto, embora mais sério agora.
Então, encontro-te logo no jardim ao pé da Faculdade de Medicina?
Sei bem onde é. Obrigado.
O primeiro encontro ficou gravado na memória, cada palavra, cada silêncio. Pareciam velhos conhecidos; ambos fãs de jazz, ambos detestavam requeijão. Queriam um gato, nunca um cão (falta de tempo!), sonhavam com uma casa própria e um trabalho com significado profundo, não só dinheiro.
Pareciam feitos para se unir.
Namoraram mais de um ano.
A mãe, aflita, gritava:
Ele não é apropriado!
Porquê, mãe?
É empregado?
Só a meio tempo, tu sabes bem. E o que tem de mal, servir em café? Não percebo.
Tem a mãe e uma irmã pequena a cargo! Para quê tanto fardo?
Mãe, isso é sinal de ser bom homem. Quem cuida, cuida sempre.
Leonor! Respeita-te ao menos!
Tentas ensinar-me isso desde sempre, mãe.
O casamento teve de esperar.
Leonor, não sei o que faço se a minha mãe partir
Vais criar a Inês, claro.
Achas que consigo?
Tens alternativa?
Leonor ajudava como podia, mas tudo foi em vão. Percebendo que restava pouco, ela e João decidiram ir ao registo civil sem avisar ninguém, só levando Inês como testemunha.
Agora já somos família? questionou a menina, olhos atentos.
Somos.
E eu também sou da família?
Claro que sim.
A sogra de Leonor agradeceu com sinceridade:
Obrigada, minha filha. Pela Inês e pelo João perdoa o peso que deixo nos teus ombros. Queria esta menina só para mim por muitos anos, mas
Sogra, pensa em melhorar! Ou é mais divertido lamentar-se?
Obrigada, Leonor. Obrigada por tudo.
A mãe de João foi-se embora pouco depois. O vazio ficou, a dor também. Leonor cuidou do luto da irmãzinha, prometeu-lhe melhores dias.
A mãe de Leonor, ao saber tudo tarde, ficou magoada:
E o casamento? Para isto te criei? Nem um vestido branco?
Não era altura, mãe. Tu sabes.
Não quero desculpas! És minha única filha e saiu assim!
Tentou, sem sucesso, reconciliar-se; o tempo arranjou distância. Apenas assuntos práticos as uniam por anos.
Por fim, não aguentou.
Mãe, tens mais filhos?
Que disparate! Claro que não.
Então porque fazes tudo para perder a única filha?
A mãe, sempre austera, quebrou-se em lágrimas.
Leonor Amo-te. Claro É que nunca soube mostrar. A minha mãe dizia: não se festeja nem se estraga os filhos. Falar direto, sem cor-de-rosa, para que não se desiludam na vida.
Secou-se.
Cresceste fora de mim, sozinha. Nem vi como. A maior mágoa é que te afastaste, tenho medo de gritar e tu não ouvires
Leonor fez o possível para consolar a mãe, mas o vazio escavara poço antigo. Passou a temer repetir o padrão com os próprios filhos. Mesmo tendo Inês e rapazes que lhe confiavam segredos, sentia que faltava sempre alguma coisa, temendo não dar suficiente apoio ou amor.
João percebia e tentava ajudar, mas ela sentia tudo só dela.
Daí, as horas sentadas no chão da cozinha à noite, entre o gato e o frigorífico, amigo branco e leal, guardião dos acepipes de infância. Era ali que revia a vida, revivia as mágoas herdadas e compreendia tudo, lamentando só ter demorado tanto a entender.
Um dia, a porta rangeu. João entrou sem olhar nem para Leonor, nem para o gato; abriu o frigorífico, tirou queijo, tomate e coentros, sentou-se junto à mulher e ofereceu-lhe uma sandes.
Trinca.
João, qualquer dia não caibo nas saias se como assim pela noite.
Come, anda lá! Ofereceu ao gato um retalho, que saltou e ficou no colo de Leonor.
Mesmo assim, amo-te João sorria ao vê-la comer. Vais pesar uma tonelada? Não me importa. Sabes bem disso. Diz-me: o que se passa?
Leonor mastigou, aconchegou-se ao pescoço do marido e afagou o gato.
Está tudo bem suspirou, e acreditou. Só não quero chegar à tal tonelada, vá. Quarenta-e-seis serve bem para uma mulher da minha idade.
Melhor tamanho não há! Nunca vi mulher mais bonita.
Vai dizendo
Se assim for, deixas os passeios noturnos até ao frigorífico?
João!
Que foi? Bora dormir, mulher.
E Leonor riu e deu-lhe a mão, envolvendo-o num abraço silencioso, agradecendo-lhe por sentir, mesmo sem explicação e prometendo a si própria que, um dia, lhe contaria tudo.
Leonor?
Diz
Estamos à espera de mais um bebé?
Como adivinhaste? Leonor oscilou de espanto.
Ó mulher, não te conheço de hoje! E estes seus serões insólitos já os vi antes. Quantas semanas?
Três.
Viva! João abraçou-a e ela tapou-lhe a boca, rindo.
Shiu! Vão acordar os miúdos!
O gato seguiu os donos até à porta do quarto, voltou para a cozinha, enroscou-se no parapeito e escutou de novo o silêncio.
Logo, o silêncio tornar-se-ia presença habitual na cozinha, pois Leonor teria novas tarefas, o gato deixaria a vigília noturna para dormir no quarto de bebé, entre cheiro a leite e promessas de recomeço muito melhor do que o parapeito duro, numa paz só possível nos sonhos mais estranhos e doces.






