Nem Penses em Cantar

Não te atrevas a cantar

Estás a sorrir de forma estranha.

Bárbara demorou a perceber que era consigo. Olhava para as mãos, delicadamente pousadas sobre os joelhos, em cima daquele vestido azul-escuro que ela própria jamais teria escolhido. Demasiado apertado nos ombros. Demasiado brilhante. Definitivamente, demasiado pouco dela.

Bárbara. Disse que o teu sorriso não está certo. Parece forçado. As pessoas notam.

Henrique sussurrava-lhe ao ouvido, sem sequer virar a cabeça. Olhava fixamente para a sala, onde os convidados do vigésimo aniversário da empresa dele já se sentavam. Vinte anos de negócios. Uma festa grande. Uma noite importante. O papel dela também estava alinhavado de antemão parecia cláusula de contrato: sentar-se ao lado dele, parecer apresentável, não falar demais, não beber mais que um copo de vinho, não abordar os sócios sem ser autorizada.

Desculpa, murmurou ela.

Não peças desculpa, corrige.

O restaurante era daqueles que fazia o dinheiro sentir-se pesado e presente, sem ostentar. Não gritava “luxo, mas era impossível ignorá-lo: nas toalhas densas, na luz cálida dos candeeiros, no deslizar quase invisível dos empregados, como se levitassem pelo chão encerado. Bárbara já ali tinha estado algumas vezes e, de cada vez, sentia-se deslocada. Não enquanto esposa de empresário mas enquanto pessoa, mulher com nome, história e um passado qualquer, daqueles que se apagam com o tempo.

Estava a caminho dos 56 anos. Vinte e oito deles ao lado de Henrique Menezes. Tinham-se conhecido quando ela terminava o curso no Conservatório. Era alta, cheia de voz, rendida a Chopin e Ravel sim, um cliché de conservatório, mas verdadeiro. Ele era empreendedor jovem, olhar ambicioso, convencido de que o mundo era matéria moldável ou comprável. Olhou para ela como se fosse o próprio mundo. Mais tarde percebeu que só queria remodelá-la.

Henrique, posso ir cumprimentar a Filomena? Ela está ali sozinha.

A Filomena espera. Não tens nada que ir à mesa dos Coelhos.

Mas conheço-a há vinte anos.

Bárbara. Nem raiva, só aquele cansaço paciente de quem explica tudo a uma criança. Hoje é uma noite importante. Limita-te a sorrir.

Ela sorriu. Certinho, como devia.

A sala encheu-se lentamente. Sócios, clientes, políticos da terra, esposas sorridentes. Todos vestidos de propósito, todos convenientemente alegres, todos conversando sobre aquilo que é seguro em jantares deste tipo. Bárbara ouvia fragmentos das conversas e tentava recordar a última vez em que falara sobre algo realmente seu música, contraponto, ou porque diabos ainda hoje o segundo concerto de Ravel a fazia arrepiar-se, mesmo que só passasse na rádio.

Rádio, em casa, era coisa rara. Henrique detestava música clássica. Dizia que o deixava nervoso.

Na mesa ao lado, uma mulher de vermelho ria-se estrondosamente de uma piada. Era um riso autêntico, rouco, cheio de vida. Bárbara deu por si a olhá-la de soslaio, não invejando o vestido, nem a juventude, nem sequer a beleza. Era só aquela liberdade de rir, sem pedir licença, sem parecer exótico. Quem dera.

O jantar seguia, com brindes, palmas, discursos sobre vinte anos de sucesso e um futuro brilhante. O discurso de Henrique foi, como sempre, breve e impactante. A sala bateu palmas. Ele sabia como controlar público, disso não havia dúvida. Bárbara também já soubera quando subia ao palco, a cantar, e o público ficava suspenso, só dela.

A última vez que cantou para alguém tinha sido há vinte e quatro anos, num serão no Conservatório. Henrique foi buscá-la a meio, “porque era urgente”.

No fim da sobremesa, o animador anunciou um concurso de talentos. Diversão típica de jantares: podia ir ao palco fazer uma graça, cantar, contar uma história. Henrique torceu o nariz.

Ridículo, murmurou.

Bárbara não respondeu. Olhava o palco, o microfone solitário, o pianista jovem que já garantira música ambiente durante o jantar. Ela reparou no jeito delicado com que batia o pé, mesmo nas peças mais suaves.

Dois animaram a plateia um com uma anedota, outro soprou na harmónica. Palmas simpáticas, sem entusiasmo. O animador voltou a convidar participantes, e a sala amainou.

Bárbara sentiu, não um empurrão, mas como se uma porta silenciosa se abrisse dentro de si. Pousou o guardanapo, levantou-se.

Onde vais? perguntou Henrique.

À casa de banho.

Só que não. Foi ao animador, murmurou algo ao ouvido. Ele ergueu as sobrancelhas, mas sorriu. Aproximou-se do pianista, falaram baixo menos de um minuto. Ele acenou, agora curioso.

Quando o animador chamou o seu nome, Henrique demorou a perceber. Bárbara evitou encontrar-lhe o olhar fixou-se no microfone.

Três degraus para o palco. À frente, uma sala de estranhos fatos caros, vestidos de cerimónia, gente a conversar distraidamente. Uns poucos olharam-na, com sorrisos expectantes: “o que será agora?”

Acenou ao pianista.

Primeiros acordes. E houve um silêncio surdo, porque aquela não era melodia de jantar, nem fado de ocasião. Era Ravel. Vocalise. A peça preferida dela no conservatório. Sem palavras. Só voz e música.

Começou a cantar. E nos primeiros segundos, duvidou que o som saísse sequer tantos anos sem abrir a boca em público, talvez tivesse morrido. Mas não. O timbre tinha mudado, era mais escuro, mas estava ali e era vivo.

À terceira frase, o silêncio inédito varreu a sala. Não devagar, mas de repente: pararam as conversas, pousaram copos, voltaram-se para o palco. Bárbara não notou. Pensava só em respirar no tempo certo, em não se perder, em não pensar no olhar frio de Henrique ou no que viria depois.

O depois, por agora, era irrelevante.

Quando terminou, houve uns segundos de pasmo antes das palmas. De pé, a sério, sem condescendência. A mulher de vermelho gritou “bravo”. O pianista olhou-a como quem acabou de ver o impossível.

Desceu do palco com pernas bambas. O coração acelerava, mas estava sereno. Caminhou até à mesa já esperando o olhar de Henrique.

Ele não aplaudia.

Senta-te, ordenou.

Ela sentou-se.

Sabes o que acabaste de fazer?

Cantei.

Não faças esperta. Expuseste-te àqueles convidados todos. Sem minha autorização. Achas isso normal?

O que parece?

Parece que a minha mulher gosta de atenção. Que quer mais do que tem. Ele rodou o copo devagar, pousou-o com força. Vamos embora em dez minutos.

Henrique, ainda não…

Dez minutos, Bárbara.

Três pessoas conseguiram chegar até ela nesse curto período. A mulher de vermelho, Filomena Dolores, apertou-lhe a mão “Maravilhosa. De onde saiu?” Um homem com ar de professor barbudo só disse: “Extraordinária. Estudou onde?”. A Filomena, velha amiga, apareceu transbordante de perfume e de colo, e Bárbara quase se desfez em lágrimas.

Onde tu andaste estes anos? Meu Deus, cantaste como…

Filomena, temos de ir, Henrique apareceu e pegou-lhe no braço, aparentemente gentil, mas apertando com força. Desculpem, a Bárbara está indisposta. Vamos sair.

No carro, silêncio. Pior do que qualquer discussão. Bárbara olhava pela janela para a noite de Lisboa, os candeeiros molhados, montras de pastelaria. Sentia uma calma estranha, nem alegria nem medo, apenas a certeza de que, ao menos, se lembrava do nome próprio.

Em casa, ele pendurou o casaco, olhou-a.

Ouve bem. Compreendo que estejas entediada. Queiras alguma coisa tua. Mas há limites. Existem fronteiras para o que é ou não apropriado. Esta noite deixaste-me embaraçado com gente de quem dependo.

Cantei. Aplaudiram.

Fizeste-te artista num jantar de empresa. Sabes a diferença?

Não, Bárbara surpreendeu-se com a sua calma. Explica lá.

Ele fitou-a, longo silêncio.

Tens tudo. Casa, conforto, estatuto. Não percebo do que te queixas. E sinceramente, nem quero saber.

Eu digo-te. Falta-me a mim mesma.

O que é isso?

Tu sabes.

Ela fechou-se no quarto. Ficou deitada, de roupa, a olhar o teto branco e liso como toda a vida deles de fora. Ouvia Henrique a mover-se, portas de armário a abrir e fechar. Depois, silêncio.

Não dormiu. Pensou nos anos já passados desde que aceitara sair da escola de música onde ensinava canto. Henrique dizia: “não é carreira de senhora crescida, pagam uma miséria, não precisas de trabalhar”. E ela cedeu. Pensou que ia descobrir qualquer coisa nova onde encaixar, mas a qualquer tentativa ele arranjava motivo inadequado, inconveniente, desnecessário.

Henrique nunca lhe bateu, nem gritou. Limitava-se a explicar calmamente o que é certo e errado. Vinte e oito anos habitando explicações até se esquecer do próprio timbre, mesmo por dentro.

Até ontem.

De manhã, com ele no duche, Bárbara remexeu na gaveta de cima, desenterrou a velha mala. Meteu documentos, passaporte, diploma do conservatório, algumas fotos, telefone, o maço de notas que escondera no fundo, a poupar sem destino. Agora via o sentido.

Vestiu o básico. Jeans, camisola de lã, casaco. Quando Henrique saiu da casa de banho, ela estava à porta com a mala ao ombro.

Para onde vais?

Vou embora.

Demorou a responder.

Não digas disparates.

Não são disparates. Vou-me embora.

Bárbara. Ele secou as mãos, olhou-a como quem atura um desvario Tu agora estás em baixo. Vai deitar-te. Falamos logo.

O que tínhamos a dizer já foi dito.

Não tens dinheiro. Não tens trabalho. Vais para onde?

Logo se vê.

Bárbara, tem juízo. Tens cinquenta e cinco anos! Vais…

Ela abriu a porta e saiu. Ele gritou qualquer coisa, mas já não ouviu. O elevador demorou eternidades, tempo suficiente para se ver refletida nas portas de inox: amarrotada, indefinida. Quase sorriu ao próprio reflexo.

Saiu a andar. Respirava. Lisboa cheirava a folhas e a café barato duma pastelaria qualquer. Entrou para um galão, sentou-se à janela e pegou no telemóvel. Ligou à única pessoa a quem podia recorrer.

Filomena, preciso de ajuda.

Meu Deus. O que aconteceu?

Saí de casa. De vez.

Silêncio. Depois:

Onde estás?

Filomena vivia sozinha num T2 em Benfica. Filhos adultos, marido falecido há anos. Abriu a porta, viu Bárbara com uma mala, nada perguntou. Só disse:

Entra. Já ponho água para o chá.

Passaram tarde e noite na cozinha. Bárbara contou tudo; Filomena escutou, sem juízos, só repondo chá. Quando Bárbara terminou, Filomena resumiu:

Saíste. O resto resolve-se.

Ele vai bloquear tudo. Fez questão de avisar.

Vai bloquear as contas?

Já deve ter feito isso.

Pois, vamos esperar para ver, resmungou Filomena, apertando a boca.

Henrique não fez esperar os truques. O telemóvel de Bárbara começou logo a apitar: ele próprio, a secretária, depois a mãe de Bárbara, cuidadosamente “informada” pelo marido de que a filha sofrera um colapso nervoso após a festa e precisava de tratamento.

Mãe, não estou doida.

Bárbara, ele está tão preocupado… disse que ontem te portaste de forma estranha, que devias ir ao médico…

Mãe, cantei. Peguei no microfone e cantei. Não foi um surto.

Ele diz que foi completamente desadequado, que o envergonhaste…

Mãe. Estou bem. Estou na Filomena. Amanhã ligo-te.

No ATM, três dias depois, confirmou-se o que suspeitava: cartão bloqueado. As notas no envelope desapareceram rapidamente; Filomena recusava receber renda, mas não podia abusar para sempre.

Pouco depois, recebeu em casa umas sacolas enviadas por um par de estranhos roupas aleatórias, sandálias de verão, bugigangas. Nada útil em outubro. Nenhum livro. Uma mensagem subtil.

Dias depois, a mãe informou-a que Henrique lhe fizera uma visita a repetir o seu monólogo de marido injustiçado, repetindo que Bárbara era instável, que fez de tudo e ela nunca apreciou. A mãe escutou. Sempre soube ouvir quem falava pausadamente.

Bárbara, se calhar devias mesmo conversar… voltar…

Mãe, ele bloqueou as minhas contas e agora anda a espalhar que sou doida. Como é possível sequer falar com alguém assim?

A mãe hesitou.

Os homens, filha. Quando se sentem feridos…

Bárbara desligou. Olhou o céu de Lisboa, encostada à janela. Depois, abriu o diploma e pousou-o em cima da mesa. Capa azul-escura, letras douradas: Bárbara Costa Mendes. Licenciada em Canto Conservatório. Não lhe tocava há pelo menos quinze anos.

Na manhã seguinte, chamou para a antiga escola. Perguntou pelo professor Vieira, aquele de olhos penetrantes. Afinal continuava lá, setenta anos, mas ativo. Deram-lhe o número.

Professor Vieira? Aqui é a Bárbara Mendes. Lembra-se de mim?

Longa pausa.

Mendes? Do quarto ano?

Sim.

Claro. Para onde desapareceu, menina Bárbara?

Desapareci, de facto. Professor, preciso da sua ajuda.

Encontraram-se dois dias depois, no velho Conservatório. Vieira estava igual: magro, olhar agudo. Escutou-a atento.

Envelhecemos.

O professor também.

É da vida. Esboçou um sorriso. Cá vai: cante.

Agora?

Por que não?

Cantou, insegura; o fôlego não servia, a voz chocalhava nos agudos. Vieira apenas escutou.

A voz está cá, sentenciou. A técnica, fraquinha. O fôlego, péssimo. Mas há voz. Isso é o essencial.

Quanto tempo para recuperar?

Depende de ti. Dois, três meses e já falamos com propriedade. Fixou-a. Porque paraste?

Casei-me.

O marido proibiu de cantar?

Não proibiu nada. Foi acontecendo.

Vieira observou-a com pena.

Foi-se esvaindo, ecoou. Pois bem. Vamos trabalhar.

Vieram os dias de prática todos. Ao Conservatório às nove, saía depois das duas. A voz regressava devagar, uns dias melhor, outros parecia voltar à estaca zero. Vieira era inflexível: “A voz não tem idade. Tem disciplina e vontade. O resto são desculpas”.

Filomena arranjou-lhe um part-time a dar aulas de canto num centro cultural para idosos lá do bairro. Pagavam pouco, mas era dela. Três vezes por semana, mulheres dos sessenta aos oitenta, que cantavam só por prazer sem carreira, sem dramas. Ver aquilo era terapia.

Henrique, persistente como um prego torto, continuava a minar pela via dos conhecidos: dizia que ela fugira com um professor, que era instável, que tinha aturado tudo sem ter recompensa. Uns acreditavam, outros ignoravam. A mãe ligava de tempos a tempos, pé ante pé, sempre a medir palavras.

Já pensaste no futuro? Onde vais viver?

Penso, mãe.

Ele diz que aceita conversar, se voltares.

Não volto.

Vocês podiam acordar. Dividir tudo…

Não há acordo, mãe. Quem me bloqueia dinheiro e difama, não quer acordo. Quer poder. Com isso não negoceio.

A mãe suspirava, mudava de conversa. Bárbara não a culpava. Para ela, casamento era um valor inquestionável. Censurá-la seria como exigir que falasse dinamarquês.

Um mês depois, Vieira largou uma bomba:

Dentro de dois meses, concerto solidário na cidade. Programa clássico, procuram solistas. Posso recomendar-te.

Bárbara estacou.

Professor, não atuo há vinte e quatro anos.

Sei disso.

Público exigente?

Transmissão na RTP2, angariação para o IPO. Bastante exigente.

Ela hesitou.

Tenho de pensar.

Decide rápido.

Dois dias depois, aceitou. Vieira assentiu de forma neutra, como se já soubesse.

Seis semanas de “campo de treino”. Arias de ópera, canções, e por insistência do professor um Ravel exigente para fechar. Exausta, adormecia muitas vezes no sofá da Filomena sem jantar. Mas era um cansaço vivo, não aquele mofo de anos atrás.

Filomena vigiava-a constantemente, enchia-lhe pratos e ralhava que não comia, nem descansava. Bárbara ria, agradecida.

Três semanas antes do concerto, surgiu a primeira contrariedade: o administrador do evento telefonou, voz nervosa.

Sra. Bárbara, houve uns “comentários” sobre a sua participação.

Falou com o Menezes?

Pausa longa.

Não posso confirmar.

Pois.

Telefonou a Vieira. Ele escutou, seco:

Aparece amanhã. Resolvo isso.

E resolveu. Não detalhou como, mas Bárbara ficou no programa. Só que as pressões não acabaram. Uma semana antes do concerto, Filomena ligou aflita:

Vieram cá dois tipos, dizem ser do Henrique. Perguntaram se vives cá.

O que disseste?

Disse que não conhecia nenhuma Bárbara. Mas olham muito para a porta de entrada. Cautela.

Estranhamente, não teve medo, só uma resignação serena: ele nunca ia deixar ir. Não era raiva, era lógica toda a vida foi o dono de tudo e todos. Ela sair de casa era, para ele, uma afronta à ordem universal.

Contou ao professor. Ele limpou os óculos, impassível:

Vai tentar estragar o concerto.

Aposto que sim.

Tens medo?

Pensou com verdade.

Não. Já me fartei de ter medo.

Bom. Vieira fuzilou-a com os olhos. Vai estar presente o Victor Godinho.

Quem é?

Produtor. Renomado. Trabalha com teatros grandes, tem interesse em ti desde o restaurante alguém lhe contou. Vai ouvir-te. Foca-te a sério.

Bárbara olhou-o.

Fez de propósito?

Dou aulas há quarenta anos, menina. Nos meus ficheiros existem três vozes de verdade. Uma emigrou e ganhou prémios. Outra faleceu. A terceira casou-se mal e desapareceu. Esperei que voltasses.

O dia do concerto foi cinzento. Bárbara chegou à Gulbenkian cedo, saboreou a sala vazia e o silêncio expectante dos 900 lugares. Era o seu momento favorito: sala sozinha, palco à espera.

A vinte minutos do início, o administrador abordou-a, hesitante:

D. Bárbara, lá fora há dois homens a pedir para a ver em nome do seu marido. Dizem ter um atestado para internamento hospitalar.

Ficou calada.

Podem dizer o que quiserem. Vou mesmo assim. Se quiserem, que comprem bilhete.

O administrador torceu-se. Bárbara olhou-o nos olhos.

Este é o meu concerto. Ninguém me vai travar? Percebe?

Percebo

Chame o professor Vieira.

Vieira tratou do resto. Bárbara nunca soube como, mas eles não entraram. Apenas ficaram à porta. Pouco antes do início, Bárbara viu um vulto desconhecido alto, de sobretudo elegante conversando com Vieira. Só podia ser Godinho.

Apareceu em palco a terceira. Sala cheia, câmara lateral. Vestido simples, escuro, escolhido por ela. Chegou ao microfone, olhou a plateia.

E cantou.

Primeira peça, fluída, com gosto. Na segunda, tropeçou num compasso, retomou o fôlego. Na terceira, esqueceu o público, as câmaras, tudo só música. Ali estava o seu lugar. Era dali.

Durante Ravel, a sala ficou suspensa: do tipo de silêncio comovido em que até a respiração custa.

Quase a acabar, viu entrado Henrique, à socapa. Aproximava-se do palco, vermelho, discutindo com o segurança. Outro homem interveio.

Bárbara segurou a última nota até ao fim. Sem falhar.

O público ergueu-se em peso.

Henrique parou, hesitou já no corredor. Ao seu lado, Godinho calmo, gestos mínimos falava-lhe baixo. Henrique respondeu qualquer coisa, mas a expressão transfigurou-se: percebeu, ali, que era ninguém naquela sala.

Virou costas e saiu.

Nos bastidores, o produtor veio cumprimentar Bárbara, mãos fortes.

Já me tinham falado da senhora. Agora ouvi. Acho que está na hora de conversarmos.

Sobre quê?

Contrato, digressão. Primeiro Portugal, depois Europa. Tenho salas que precisam desta voz. Sorriu. E garanto: ninguém mais a cala.

Vieira, a um canto, apenas acenou. Como se dissesse: já está.

Só falou mesmo com a mãe depois. Visitou-a em Almada, ficaram na cozinha.

Vi-te na televisão, filha.

Viste?

A Filomena avisou-me. Não sabia que cantavas assim.

Ouviste-me no conservatório, lembras-te?

Era diferente. Lá eras minha filha, só viaço nervosa. Aqui, vi-te na televisão e… tu eras tu. Pausa. Perdoa-me.

Porquê?

Por ter acreditado sempre nele, não em ti. Ele sabe explicar tudo. E tu calavas-te. O silêncio engana.

Bárbara apertou-lhe a mão.

Está tudo certo, mãe. Só demorámos mais um bocadinho.

Não ficaste zangada?

Não.

A mãe chorou baixinho, só lágrimas. Bárbara ficou ali, a segurar-lhe a mão, a pensar que perdoar é como fazer mala para a viagem longa: só se leva o necessário.

Um ano passou.

Bárbara estava agora nos bastidores do Musikverein em Viena, a ouvir o burburinho austero da sala. O ambiente já não era estranho: roupa, tosses discretas, brilho de candelabros. Nevara lá fora.

A vida era outra: apartamento arrendado, tranquilo, em Viena. Contrato de produção, agenda preenchida, malas constantemente arrumadas. Vieira ligava-lhe religiosamente para discutir o programa. A mãe visitava-a frequentemente, achava-lhe sempre ar cansado mas feliz.

Ouvia notícias do Henrique por amigos: o negócio fraquejara, perdera sócios. Voltou a casar, a mulher nova quase não tinha voz própria. Bárbara ouviu, pensou nisso, e só sentiu um cansaço resignado. Não era raiva, nem pena: algumas pessoas não mudam, só trocam de cenário.

Pena da mulher, mas já não era com ela.

O seu caminho era outro: às vezes solitário, às vezes encantado mas dela. Dias de aeroportos, zangas com maestros, noites hotel, manhãs noutro país, outro palco, aplausos que eram para si. O direito a escolher o próprio vestido. A fechar a porta sabendo que não há ninguém a corrigir sorrisos.

Ocasionalmente, pensava no tempo perdido. Não com mágoa com honestidade. Vinte e oito anos. A cantar, teria sido tudo diferente. Talvez. Ou não.

Pensar em “se” não serve de nada. Importa o agora.

Ela estava ali. A voz estava ali. O palco, também.

Uma assistente entrou:

Dona Bárbara, três minutos.

Já vou.

Bárbara ajeitou o vestido escuro simples, escolhido por si. Respirou fundo. Fechou os olhos.

De súbito, recordou-se de Henrique no restaurante, “estás a sorrir assim-assim”, e ela: “desculpa”, obediente. A pensar que já nem ouvia a própria voz.

Agora sorriu. Não do modo “certo”. Só porque lhe apeteceu.

E saiu para o palco.

O silêncio foi total.

E ela cantou.

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