Diário de Catarina
Outra vez?! Simona! Simona, acorda! Senão ela ainda acorda os mais novos! Segura a miúda! despenquei-me da minha cama, puxei a minha irmã pelo ombro e sussurrei de novo. E quando é que esta menina descansa
A Sónia tinha pesadelos frequentemente e, esta noite, o seu gemido parecia ecoar pelo quarto, comprido, doloroso, como se roubasse o sono de todos. De arrepiar! Dei por mim a olhar por cima do ombro, como se alguém espreitasse na sombra.
Isto parece filme de terror lamentou a Simona, arrastando as pantufas até à cama da Sónia com os olhos semicerrados. Cobriu-a com o seu próprio edredão, aninhou-se ao lado dela e começou a cantar, baixinho, uma cantilena que já ouvimos tantas vezes crescer em Portugal:
Dorme, dorme, meu menino, à beirinha do teu sino
Ena, Catarina! Não é noite para canções Ela está mesmo a ferver! Vai chamar a Mãe!
Senti os pés frios no chão, suspirei e fui até ao quarto dos pais. Não havia volta a dar, a Sónia era tão filha deles como nós todas. Se a Mãe soubesse que tínhamos escondido alguma coisa ia ficar bem zangada.
O silêncio naquela divisão era diferente, só o ressonar sereno do meu irmão mais novo, o Sérgio, embalava a noite. Toquei-lhe no ombro e estremeci caramba, já estava a sonhar outra vez. Encostei-me ao berço e toquei de leve a mão da Mãe.
Mãe
Os seus olhos, tão castanhos como os meus, abriram de imediato, como se nem tivesse adormecido, e apertou-me os dedos com a mão quente.
Diz, filha.
A Sónia não está bem, parece que tem febre alta Está um forno!
O Sérgio gemeu baixinho, e a Mãe cantou logo uma melodia de embalar, igual à que a Simona lhe cantava.
Dorme, dorme, meu menino
Ela pôs a minha mão pequenina no corpo do irmão.
Embala o Sérgio, para não acordar de todo. Eu já volto.
Nada a fazia parar, nem as dores nas costas depois de ter caído do escadote a limpar a Mãe ergueu-se, correndo de pontas pelos corredores escuros.
Aquela casa, todos diziam que era loucura nossa. Quantas noites passámos a construir paredes, a ouvir comentários familiares:
Tanta casa para quê? Ainda por cima sem filhos
Doía-me ouvir aquilo, e baixava a cabeça. Tantiam repetidamente que se não pudéssemos ser pais, não adiantava sonhar com uma casa cheia. Mas o pai, o Afonso, abraçava a Mãe e, de cada vez, passava-lhe a mão na cara:
Esquece o que dizem. Eles não entendem nada.
A Mãe, no fundo, tinha medo que ele quisesse desistir dela por não poderem ter filhos.
Não seremos família, Afonso. Devias procurar alguém que te desse o que mereces
Deixa essas conversas! Ainda vamos ver isso!
Andámos anos de consulta em consulta, médicos a encolher os ombros em Lisboa, em Évora, em Coimbra:
Não fazemos milagres, desculpe.
A Mãe foi, durante muito tempo, apenas sombra de si própria. Mas, quando decidimos construir a casa, foi como se reacendesse em si um bocadinho de esperança.
O primeiro casamento dela, aos 19, foi só para fugir do jugo da avó Lídia, mulher dura, incapaz de acarinhar como a minha Mãe ansiava. Tanto a elogiava como dizia que era um erro de nascimento.
Poucos dias antes do casamento, ouvi-lhe perguntar:
Mãe, porque me trata assim? Sou só a tua filha
Cresce e deixa de patetices. Faz tudo certo e não te posso criticar dizia-lhe, fria.
A Mãe percebeu nesses dias que os pais desejavam um rapaz, não uma rapariga. Não queria repetir o erro, e jurou, se um dia fosse mãe, nunca preferir ninguém.
O casamento durou pouco. Quando perdeu um bebé, o primeiro marido desapareceu. A avó queria que voltasse para casa, mas o avô deixou a Mãe viver sozinha em Lisboa e ajudou-lhe a seguir com a vida.
O tempo passou, licenciou-se em Direito e dedicou-se ao trabalho. Mas a ferida ficou. Com as complicações da saúde, os médicos disseram-lhe que nunca poderia ser mãe. Tornou-se um fantasma dentro de quatro paredes, mas ninguém conseguia chegar-lhe ao coração.
Foi numa daquelas festas familiares, cheias de primos e tias, que conheceu o Afonso. Coincidência das coincidências, ele era só o taxista que levou uma das tias ao almoço. Mas no meio do barulho, a minha Mãe decidiu:
Para a cidade, se faz favor.
No fim da viagem, esqueceu-se da carteira. O Afonso, com um sorriso tonto:
Não faz mal. Um sorriso já paga.
Ela não gostou nada da brincadeira e saiu a correr, mas mal sabia que, no dia seguinte, ele estaria à porta, pronto para a levar ao trabalho.
Começaram a falar, a sair, mas a Mãe sabia dos olhares de esguelha da família. Filha de académicos, e de repente com um taxista? A avó Lídia ameaçou deserdá-la. Mas ela foi firme. Pela primeira vez na vida soube o que queria.
Logo ao início, contou-lhe tudo.
Pode ser que nunca tenhamos filhos, sabes disso?
Eu amo-te, Catarina. Não há garantias nenhumas na vida.
Casaram-se pelo civil em Lisboa, festinha modesta em casa dos pais dele em Santarém. Da minha Avó Lídia nem um telefonema, mas a família do Afonso era calorosa, humilde, de uma honestidade rara. A sogra, D. Teresa, serviu o melhor cozido e ensinou-lhe logo a fazer compotas:
Na tua casa nunca deve faltar cheiro a pão e a fruta em calda, Catarina! Isso é que faz uma casa portuguesa!
Um dia, depois de saber da impossibilidade da Mãe, a D. Teresa acalmou-lhe o coração:
Se os filhos não podem vir de ti, vêm de onde forem precisos. Fui adotada, sabes? Nunca fui menos amada por isso.
Aquilo ficou na cabeça da Mãe.
Construímos a casa, todos juntos: o Afonso com a família, o avô Miguel a fornecer materiais e contactos. A mãe era agora advogada de propriedade. A vida, apesar de todas as dúvidas, compunha-se devagarinho.
A Mãe e o Afonso frequentaram uma formação em adoção nos serviços da Segurança Social. Não foi preciso esperar muito. Ligaram-lhe e foi a D. Teresa, a sogra, ao telemóvel a dar-lhes a notícia mais importante:
Há três irmãos, a mãe deles não os quer mais… São cá da vila, são bons meninos. Pensem bem, Catarina, são três de uma vez.
Não houve tempo para hesitar.
Foi assim que a Simona (que na altura tinha sete), a Leonor (seis) e o Sandro (dois) entraram nas nossas vidas.
Logo de início, acharam estranho mas contemplaram a Mãe e disseram, muito direitinhas:
Não tenha medo, vemos que é boa pessoa.
O Sandro, então, colou-se à minha Mãe em dois tempos.
Os comentários vieram logo:
Catarina, estás maluca? Três de uma vez, e com o sangue que têm!
Mas a Mãe, pela primeira vez, cortou a conversa à Avó Lídia.
Vivi sempre pelas tuas ordens, Mãe. Agora é a minha vez.
E desligou-lhe o telefone, e nós sentimos no olhar dela que, por fim, era dona da sua própria história.
O tempo correu. Passado um ou dois anos, com a vida apressada entre filhos, tribunal e clientes, a gravidez chegou. A Mãe achou que era cansaço, mas o Afonso obrigou-a a ir ao hospital.
Veio o Sérgio. Nasceu num inverno chuvoso e trouxe à casa um rebuliço de risos e choros, uma alegria desengonçada e tanta luz.
A Simona e a Leonor reagiram bem à chegada do irmão. Mas o Sandro, com só quatro anos, ressentiu-se. Era carente, precisava de atenção, até perceber que o amor, afinal, não acabava só se multiplicava.
Depois, sem aviso, a tragédia aconteceu. A Sónia, prima direita, filha da prima da Mãe, ficou órfã depois de um acontecimento horrível. Recebemos um telefonema da avó Lídia, em pânico.
Catarina, o que aconteceu?!
Uma vida despedaçada, e a Sónia, pequenita, ficou entregue a um centro de acolhimento em Braga.
A Mãe foi buscá-la sem pensar. Foi difícil quebrar as barreiras do medo e da dor. Durante meses, a Sónia levantava-se a meio da noite, a gritar pelos corredores da nossa casa. Dormíamos com ela, deitávamo-nos a seu lado, cantávamos as cantigas que a D. Teresa ensinara, mas ela só se acalmava encostada à minha mãe, noite após noite.
Tentei tudo dei-lhe as minhas ganchas, a minha camisola preferida, mas nada. O Sandro resolveu o caso. Voltou de um fim de semana com a avó Teresa, com um livro sobre os índios do Canadá.
Mãe, olha aqui! E mostrou o desenho de um apanhador de sonhos.
O que é isso, Sandro?
É para segurar os sonhos maus. Assim a Sónia já não se assusta.
A Mãe foi comprar linhas, miçangas e nós, as irmãs velhas, arrancámos penas dos gansos do quintal da D. Teresa.
O Sandro ficou sentado a escolher as contas: azul como o céu sobre o Douro, vermelho como os cravos do nosso jardim, amarelo como o sol de verão
Decidimos não contar à Sónia. Íamos fazer-lhe uma surpresa.
Mas, naquela noite, o grito da Sónia acordou muita gente. Entrámos todas, e, pela primeira vez, ela estendeu os braços à Mãe:
Não me deixem ir embora
A Mãe pegou-lhe ao colo, notando o febrão, e chamou logo o pai. A rotina começou: baixámos a febre à moda antiga, panos de água fria, conversinhas doces.
Quando os médicos chegaram, veram ao que íamos. Deixaram-nos em paz.
O dia amanheceu com a Mãe a descansar ao lado da Sónia. A Leonor, sentada ao lado, a ler, explicou:
Fizemos um apanhador de sonhos à Sónia, mãe. Mas talvez não seja preciso.
Então porquê?
Porque tu és o apanhador de sonhos dela.
Eu?
Claro! Disseste-lhe que ela estava segura, e não chorou mais. Somos todos caça-sonhos, não somos?
São, sim sorriu a Mãe, tão cansada, mas tão feliz.
A casa encheu-se. Veio a D. Teresa cuidar de nós, trouxe um pintainho para a bicharada da quinta, a avó Lídia discutiu com ela e ficaram amigas às turras. O avô Miguel veio aos fins-de-semana, o Sérgio babou-se todo quando nos viu ao pequeno-almoço.
Talvez ainda falte alguém, quem sabe? O tempo dirá.
Hoje, olhando a casa cheia de gargalhadas, crianças, a minha mãe prossegue, vitoriosa, mesmo cansada. Tenho cinco irmãos, três pelo coração. Somos muitos, somos barulhentos e somos todos família, portugueses de corpo e alma.
Talvez este seja o milagre que nunca imaginámos possível. E dou graças, todos os dias, pelo nosso apanhador de sonhos.







