Estou Ausente

Já não sou
Outra vez compraste essa porcaria? O Joaquim pousou o saco em cima da mesa de tal maneira que alguma coisa tilintou por dentro. Já te disse: nada de “Veludo”. É caro e não serve para nada.

Carmo Maria estava junto à janela, olhando para o quintal. Lá fora, a filha da vizinha, miúda de uns sete anos, espantava pombos, que voavam em nuvem, dispersavam e voltavam depois a juntar-se no betão, como se nada tivesse acontecido. Carmo fixava-os e pensava que não se lembrava da última vez que comprara algo só para si. Só porque lhe apetecera.

É um creme de mãos, Quim. Dez euros.

Dez são dez. Esqueceste-te de fazer contas?

Não respondeu. Virou costas, pegou no saco, retirou o pequeno frasco de tampa dourada e pô-lo no peitoril, ao lado dos vasos de gerânios. Os gerânios não davam flor há séculos. Carmo andava para tratar deles, perceber o porquê, mas nunca calhava.

Carmo. Estou a falar contigo.

Estou a ouvir-te, Quim.

Foi para a cozinha, abriu o frigorífico, começou a pensar no jantar. Atrás de si ouvia-lhe os passos, pesados, iguais, depois o estrondo da porta do escritório. Suspirou.

Tinha cinquenta e oito anos. Vivia no Porto, num T3 na Rua da Boavista, casada há vinte e nove anos com Joaquim Manuel Pires da Costa. Tinham um filho já crescido, Tomás, que morava em Lisboa e ligava aos domingos nem sempre. Havia uma casa em Vila do Conde, a quarenta quilómetros, um carro velho que só o Joaquim conduzia, e o emprego na biblioteca municipal, onde Carmo trabalhava há dezoito anos.

Tinha a sua vida. Ninguém lhe tirava isso.

Pegou numas bifes de frango da prateleira, pô-los na tábua, pegou na faca. Lá fora a miúda tinha desaparecido, os pombos esvoaçaram. O quintal vazio, cinzento, com restolho de erva a romper nas fendas do cimento.

Percebeu que estava só ali, de faca na mão, parada.

Pousou a faca, foi ao peitoril, abriu o frasquinho. O cheiro era discreto, qualquer coisa floral lá dentro. Passou um pouco no dorso da mão, esfregou. A pele absorveu logo e ficou-lhe uma sensação morna, como se alguém lhe segurasse a mão.

Fechou o frasco e foi finalmente tratar do frango.

A noite foi igual às outras. Joaquim jantou em silêncio, viu o telejornal e foi para a cama. Carmo ficou muito tempo na cozinha, chá frio à frente, folheando uma revista velha de jardinagem. Nem lia. Só estava ali.

No dia seguinte, ao chegar à biblioteca, encontrou a Lúcia Marques, a chorar atrás das estantes das revistas.

Lúcia, o que se passa?

Lúcia Margarida, três anos mais velha do que Carmo, obrigava-se a saber onde estava cada livro. Nunca Carmo lhe tinha visto lágrima.

Nada, deixa Lúcia sacudiu a mão, puxou de um lenço. Desculpa, coisas minhas.

Se quiseres, conta.

Não se conta nada. Limpou o nariz e guardou o lenço. A minha filha ligou-me ontem. Disse mãe, tu já estás ultrapassada. Assim mesmo. Ultrapassada.

Em que sentido?

No sentido direto. Eu dei-lhe um conselho, de mãe, como devia falar com o marido. E ela respondeu: os teus conselhos são do século passado, mãe. Não sabes como se vive agora Lúcia endireitou a pilha das revistas. Talvez ela tenha razão.

Não tem, Carmo disse.

E tu sabes?

Carmo ficou sem resposta. Ficaram ali, em silêncio, rodeadas pelo cheiro a papel e madeira, e cada uma lá foi à sua vida.

Na hora de almoço Carmo foi dar uma volta. Abril estava fresco, mas havia sol. Chegou ao jardim municipal, sentou-se num banco e fechou os olhos. Por entre as pálpebras, a luz era laranja. Pensou na Lúcia, na filha dela, na palavra ultrapassada.

Pensou nela própria.

Carmo Maria Pires da Costa, de solteira Rodrigues. Nascida em 1966, em Matosinhos. Formou-se no Instituto Superior de Letras do Porto, Línguas e Literaturas. Casou-se aos vinte e nove, pouco usual na época. Joaquim era engenheiro, sério, parecia seguro. Um ano depois nasceu o Tomás. Carmo tirou a licença de maternidade, depois voltou a meio tempo, depois trouxe a mãe para casa, até esta morrer. Depois voltou ao trabalho. As coisas foram acontecendo. Direitas, contidas.

No meio disso tudo, perdeu-se qualquer coisa nela que não sabia nomear. Sabia que existira. E que já não estava ali.

Abriu os olhos. Em frente, uma ameixeira atapetada de flores brancas, pequenas, irrealmente delicadas. Carmo fixou-a e pensou que talvez não desenhasse há uns trinta anos. Na faculdade fazia-o, a pastel. Depois, não houve tempo, depois vergonha, depois esquecimento.

Pegou no telemóvel e ligou ao Tomás. Ele atendeu ao terceiro toque, voz de quem estava muito ocupado.

Olá mãe. Tudo bem?

Tudo. Só queria falar contigo.

Olha, estou quase numa reunião. Ligo-te ao fim do dia?

Claro. Liga.

Não ligou. Nada de novo.

Carmo voltou à biblioteca, trabalhou até às seis, comprou pão na padaria e atravessou a rua de regresso a casa há dezoito anos fazia aquele percurso diário, sabia-lhe cada buraco do passeio.

Em casa, Joaquim já estava no computador, a ler qualquer coisa. Carmo tirou o casaco, foi para a cozinha.

Queres jantar?

Mais tarde.

Pôs água no lume, procurou o resto da sopa no frigorífico. Enquanto esperava, olhou de novo para o creme, ainda ali ao lado dos gerânios. O frasco era pequeno, bonito. Joaquim tinha razão dez euros, para quê?

Mas depois lembrou-se do cheiro era bom.

Deixou o frasco ficar.

Passaram duas semanas. Nada de especial mudou. Até que entrou na biblioteca uma mulher chamada Silvana.

Carmo reparou nela de imediato. Quarenta e cinco anos, sobretudo cor de cereja madura, cabelo curto, postura direita. Pediu para se inscrever e disse que procurava livros sobre psicologia e, se houvesse, de pintura a aguarela.

Aguarela? repetiu Carmo.

Sim. Em miúda pintei um pouco. Quero tentar de novo.

Carmo fez-lhe o cartão, indicou as prateleiras. Silvana andava entre os livros com segurança, pegava, folheava, devolvia, voltava a pegar. Carmo espreitava-a ao longe, sentindo nela um certo à-vontade, uma independência. Como se aquela mulher bastasse a si mesma.

Meia hora depois, Silvana trouxe dois livros e perguntou:

E a senhora, lê disto?

Apontou para a psicologia.

Às vezes.

Está cá há muito?

Dezoito anos.

Silvana olhou-a, atenta. Não a julgar, mas a escutar.

É muito tempo disse.

Sim.

E gosta?

Carmo hesitou. Pergunta simples, resposta difícil.

Gosto. Gosto dos livros. Das pessoas. Do sítio é familiar.

Familiar, repetiu Silvana, como quem pesa o termo. Pois.

Levantou-se e saiu.

Na semana seguinte, voltou. Devolveu um livro, pediu outro sobre aguarela. Carmo arranjou-lhe um álbum de reproduções. Silvana aceitou, depois perguntou:

Não quer experimentar?

Experimentar o quê?

Pintar. Eu vou a um workshop de aguarela todos os sábados. Somos poucos, é simples. Venha.

Carmo quase disse logo que não. Mas em vez disso, saiu-lhe:

Onde é?

Silvana escreveu o endereço num papel: Espaço Arte Luz Azul, na Rua de Cedofeita, sábado, onze da manhã.

Carmo levou o papel no bolso do avental, depois pô-lo ao lado do creme, no peitoril. Joaquim não perguntou pelo papel. Na verdade, raramente lhe perguntava seja o que fosse, a não ser dinheiro ou comida.

Sexta-feira ao jantar, Carmo disse:

Amanhã vou a um workshop. De pintura.

Joaquim ergueu os olhos do prato.

Onde?

Na Cedofeita. Aguarela. Uma leitora nossa convidou.

Que leitora?

Nova, a Silvana.

Ficou calado, mastigou, pousou os talheres.

E quanto custa?

Não perguntei ainda.

Pois. Pegou no pão. Vai, se não tens mais nada que fazer.

Carmo olhou para ele. Ele já não olhava. Ela pensou que há vinte e nove anos ouvia variações destas frases. Outra vez. Para quê. Quanto custa. Nada que fazer.

Está bem disse. Vou.

Levantou-se no sábado às oito, lavou-se, vestiu um camisola cinzenta e calças escuras. Olhou-se ao espelho. Há muito que não o fazia assim com atenção. Reparou: rosto já não jovem, mas não feio. Olhos cinzentos, com vida. Cabelo com alguns brancos, mas denso. Passou-lhe a mão, ajeitou. Abriu o creme, passou nas mãos e um pouco no pescoço.

Saiu às nove, sem pressas.

O Luz Azul era no segundo andar de um prédio antigo, fachada banal mas interior renovado com graça: paredes brancas, chão de madeira, janelas enormes. Carmo subiu, abriu a porta.

Silvana já lá estava. E mais quatro mulheres, idades e feitios vários, e um homem forte nos cinquenta, camisa aos quadrados. Tudo sentados numa mesa comprida, copos de água, folhas brancas.

Carmo! Silvana acenou. Veio mesmo!

Carmo sentou-se. A formadora, Zita, explicou: hoje vamos pintar um ramo de lilases. Carmo segurou no pincel a mão tremeu, não de nervos, mas de hábito.

Não pensem no bonito, disse Zita. Pensem na água e na cor.

Carmo traçou o primeiro risco. O roxo espalhou-se, misturou-se com azul. Depois outro risco. E outro. Via como as tintas ganhavam vida, iam para sítios que ela não planeava, e isso intrigava. Silvana ao lado, concentrada. O homem refilava baixinho com a sua pintura minúscula. Passada uma hora, Carmo olhou o seu papel. Não era um ramo de lilases era qualquer coisa difusa, manchada, roxa e azul. Mas tinha ali vida s própria. Era dela.

Gosto disse uma idosa de frente chamada Graça.

Duvido retrucou Carmo.

Eu acho. Tem emoção.

Carmo olhou de novo. Talvez. Se calhar, sim.

Acabado o workshop, Silvana sugeriu um café ali perto. Carmo aceitou. Sentaram-se à janela, pediram, e Silvana perguntou:

Gostou?

Gostei. Não estava à espera.

Eu sabia Silvana segurava a chávena com as duas mãos. Por vezes tem um olhar que parece que vê, mas não quer olhar de frente.

Carmo não respondeu logo. Depois:

Está no Porto há muito?

Três anos. Vim de Braga. Depois de me separar.

Percebo.

Não foi fácil, Silvana disse sem drama. Depois foi melhor. Depois até ficou interessante.

Interessante?

Viver sozinha. Descobri coisas sobre mim. Sorriu-me, calorosa. É casada?

Há vinte e nove anos.

Correu bem?

Carmo mexeu o café sem necessidade.

Depende dos dias.

Silvana assentiu, não puxou mais o assunto. Carmo apreciou isso nela.

Em casa, já perto das duas, Joaquim via futebol, não perguntou nada. Carmo aqueceu a sopa, almoçou sozinha. Pegou no papel do workshop, com o ramo de lilases, e encostou-o à parede junto dos gerânios.

Os gerânios pareciam mais vivos que há uma semana. Carmo espreitou. Num caule, nascera um botão vermelho pequenino. Nunca o tinha visto.

No sábado seguinte voltou ao workshop. Depois mais um. Silvana nunca faltou. Foram-se aproximando; começaram a conversar no fim dos workshops, primeiro pouco, depois mais. Carmo falava da biblioteca, dos leitores, dos livros. Silvana contava o seu trabalho de contabilista numa pequena empresa, de Braga, da filha, que ficara lá com o pai e estudava línguas.

Um dia, Carmo perguntou:

Não se sente só aqui?

Às vezes. Mas é uma solidão diferente.

Diferente como?

Silvana pensou, cruzou as mãos.

Antes vivia ao lado de alguém e sentia-me sozinha. Essa é a pior solidão. Agora, estou sozinha, não me sinto só. Distingue?

Carmo distinguiu. Não disse, mas algo dentro se moveu. Como gelo a partir-se no Douro, devagar mas de forma incontornável.

Em maio, a direção da biblioteca anunciou um concurso aberto pela Junta de Freguesia: um evento cultural teria de ser planeado para os moradores. A diretora, Dona Amélia, convocou toda a equipa:

Ideias?

Todos se calaram Carmo também, mas já tinha ideias a mexer.

E se fosse uma noite literária? sugeriu Lúcia. Leitura de textos.

Já fazemos todos os anos. Tem de ser diferente.

Sobre mulheres? arriscou Carmo.

Olharam-na.

Mulheres como assim? perguntou a diretora.

Com histórias reais. De vida. Convidamos mulheres da freguesia de todas as idades, a contar. O que mudou, como foi. Sem floreados. E, se quiserem, mostram trabalhos manuais quadros, bordados, cerâmica.

Houve silêncio.

Incomum, disse Dona Amélia.

Mas genuíno.

Quem organiza?

Eu, surpreendeu-se a própria Carmo com o que dissera.

Está bem, Carmo Maria. Força.

Carmo ligou quase logo a Silvana. Esta riu-se.

Você?! Que bom. Quero participar. E perguntamos também à Graça, lembra-se? Ela faz cerâmica.

Graça, com sessenta e dois anos, reformada há três, agora passava dias a modelar barro quase sempre pássaros e vendia nas feiras. Carmo ligou-lhe; ela aceitou logo, só pediu: Fale pouco, fico baralhada.

Carmo tornou-se organizadora, ao serão, com Joaquim fechado no escritório. Sentava-se à mesa da cozinha com o caderno, rascunhava e corrigia. Era uma sensação diferente: criar algo, não só manter, servir ou cumprir.

Uma noite Joaquim apareceu atrás dela, com um copo de água.

O que escreves?

Trabalho. O evento.

Sempre a biblioteca.

Sim, a biblioteca.

Encheu o copo, ficou a olhar.

Tens estado sempre ocupada.

É mau?

Encolheu os ombros.

O jantar estava frio hoje.

Desculpa. Para a próxima aqueço.

Saiu. Carmo fixou-lhe o andar. Falou do jantar, não do brilho novo nos olhos dela. Falou do trivial. Nunca do essencial.

O evento foi na terceira semana de junho. Carmo recrutou quatro mulheres: Silvana, Graça, uma professora reformada, Fernanda Alves, que escrevia poemas guardados há anos, e Zita, a formadora das aguarelas, a mais nova. Fez cartaz, colou nos cafés, publicou anúncio no jornal da freguesia. Temeu que ninguém aparecesse mas o salão encheu, mais de trinta pessoas, de várias idades.

Carmo apresentou. Não discursou muito: Viemos ouvir-nos, e isso já é tudo. Passou a palavra à Graça.

Graça contou como ficou à nora depois da reforma meses a sentir-se deslocada, até ao dia em que, quase por acaso, foi mexer em barro. Apercebi-me que tinha mãos, disse ela. O público riu.

Silvana falou sobre recomeços: mudar-se aos quarenta e seis, a coragem de largar, o medo do costumeiro. Percebi que temia mais o hábito do que o novo.

Fernanda Alves leu dois poemas. A voz tremia, depois estabilizou. Quando terminou, alguém aplaudiu; logo todos lhe seguiram o gesto.

No fim, Carmo arrumou tudo com Lúcia.

Ficou tão bem, Carmo elogiou Lúcia. De verdade.

Nunca pensei.

Eu sempre soube que tinhas jeito com pessoas. Nunca te permitiste.

Carmo olhou. Talvez Lúcia tivesse razão era bom, e doía um bocadinho perceber isso só agora.

Em casa, Joaquim já dormia. Carmo despiu-se, foi à cozinha, bebeu água. No peitoril do velho estavam o frasquinho e o desenho dos lilases. Os gerânios floriam de força, quatro ramos vermelhos.

Passou creme nas mãos, devagar. Olhou o gerânio e pensou em Silvana. Temia mais o hábito do que o novo.

De manhã, Joaquim perguntou:

E então, como foi?

Bem. Veio muita gente.

Sempre comeste?

Houve chá.

Chá não é comida. Enterrou-se no telemóvel.

Carmo levou o café à varanda. Era cedo, o pátio ainda vazio, cheirava a tílias. Pensou: a preocupação dele revela-se assim perguntas. Aceitou durante vinte e nove anos essa forma como se fosse substância, sem notar como o sentido original se perdera.

Não sabia. Só agora começava a olhar sem desviar.

Em julho, Tomás ligou numa quarta-feira, diferente do costume.

Olá mãe. Como estás?

Bem, Tomás. Aconteceu alguma coisa?

Não, só que a Silvana me escreveu.

Carmo estacou junto ao frigorífico.

Que Silvana?

A tua amiga. Descobriu-me nas redes. Escreveu que organizaste um evento fantástico. Eu nem sabia.

Também nunca perguntaste.

Silêncio.

Desculpa, mãe. Conta-me tudo.

E Carmo contou-lhe. Do workshop, da Graça e dos seus pássaros, da Fernanda e dos poemas, da sala cheia. Tomás escutou. No fim:

Parabéns, mãe. A sério.

Obrigada.

Fazes isto há muito?

Não, foi a primeira vez.

Já devia ser há mais.

Devia, sim.

Silêncio partilhado. Depois: Mãe, e tu e o pai, tudo bem?

Carmo encostou à janela. Julho iluminava o pátio, dois rapazes jogavam bola.

É familiar respondeu.

Isso é bom ou mau?

Ainda não sei.

Tomás não insistiu. Disse que viria em agosto e ficaram assim. Carmo ficou tempos a olhar para a rua.

Em agosto, Tomás veio uns dias. Parecido com Joaquim no corpo, mas com algo dela no jeito, um escutar atento. Trouxe queijo e bolachas, ficou à mesa a ouvi-la. Ouviu mesmo.

Uma manhã, enquanto Joaquim estava na casa de campo, Carmo e Tomás sentaram-se na cozinha. Disse-lhe:

Mãe, estás diferente.

Como assim?

Não sei explicar. Parece que és maior. Riu-se Soa esquisito.

Não. Faz sentido.

Estás realmente feliz?

Carmo abraçou a chávena. O café estava quente.

Sim. Mas mete medo.

Medo de quê?

Quando vemos melhor quem somos, também nos vemos tudo à volta. E nem sempre é simples.

Tomás acenou. Ficou calado.

O pai nota?

O pai nota é se o jantar vem frio, falou Carmo, logo achando injusto. Desculpa, não devia dizer isto.

Não tem mal, disse Tomás. Já falaste com ele?

Sobre o quê?

O que precisas.

Carmo olhou para a rua. Agosto cansado, relva amarelada.

Tenho pouca prática respondeu baixo.

Tenta.

Tomás foi-se embora. Carmo arrumou-lhe a cama e ficou a pensar nisso: tenta. Durante vinte e nove anos tinha falado de muita coisa mas do essencial, quase nunca. Porque era mais fácil calar. Porque Joaquim tinha um género de olhar que paralisava conversas antes do começo.

Em setembro, Dona Amélia chamou-a para avisar: a Junta queria repetir o evento, agora em toda a rede de bibliotecas locais. E que queriam Carmo de novo à frente.

É a sério, Carmo Maria. Mais trabalho. Mas também podemos rever as condições.

Aceito.

A diretora sorriu.

Ficou outra este verão. Não leva a mal, pois não?

Não.

Está mais viva.

Carmo saiu, foi até ao balcão. Cumprimentou um leitor, entregou-lhe policiais, anotou no registo. Depois ficou a olhar a sala: prateleiras, mesas de leitura, janelas por onde entrava aquela luz de setembro.

Dezoito anos só agora olhava como realmente sua. Não um lugar onde existe, mas um lugar que é.

No outono, algo mudou em casa. Carmo não sabia o que primeiro. Tudo aos poucos, como deve ser.

Joaquim notou que ela chegava mais tarde. Que aos sábados saía cedo. Que ia a encontros com outras mulheres desconhecidas para ele.

Quem é essa Silvana?

É minha amiga.

Agora tens amigas?

Conhecemo-nos na biblioteca, em fevereiro.

E é todos os fins de semana?

Quase sempre.

Joaquim olhou-a. Havia novidade no olhar não irritação, não desdém do costume. Algo que Carmo nunca tinha visto. Percebeu que era confusão.

Não proíbo disse ele. Só não estou habituado.

Não habituado a quê?

A teres tanta coisa.

Carmo sentou-se defronte dele. Pela primeira vez em muito tempo olhava-o sem aquela distância automática. Era um homem que quase desconhecia, depois de trinta anos juntos.

Quim, disse. Ficas contente por eu fazer algo para lá de casa e do trabalho?

Não sei. Talvez.

Talvez?

Como te digo, não é habitual. Foi até à janela, ficou ali. Dantes, estavas sempre aqui. Agora andas por aí.

Não. Estou aqui.

Aqui, mas diferente.

Carmo olhou as costas dele. Largas, agora um pouco caídas com a idade. Sessenta e um anos. Também ele envelhecera, e ela não reparava.

Quim, quando foi a última vez que falámos? Mas falar a sério, não de jantar nem de carros.

Ele voltou-se.

Falamos, não é?

Sobre o quê?

Ele nada disse. Olhou para além dela.

Pois, Carmo suspirou.

Novembro trouxe frio e uma grande noite cultural. Carmo preparou tudo três semanas; juntou oito mulheres, combinou uma exposição com um artista local. Silvana ajudava em tudo. Viam-se quase todos os dias café, biblioteca, ou a caminhar junto ao Douro.

Um dia à beira-rio, Carmo confessou:

Não sei como vivi antes.

Foste vivendo, respondeu Silvana.

Não. Quero dizer, vivia muito fechada. Porquê?

Não é o porquê, Carmo. Foi assim que aconteceu.

Mas podia ter sido de outra maneira.

Podia. Silvana parou, olhou o Douro, cinzento de novembro. Mas o “de outra maneira” começa quando começa.

Tenho cinquenta e oito anos.

E então?

É muito.

Carmo, virou-se Silvana está a falar a sério?

Estou.

Então respondo a sério. Conheço mulheres que aos trinta e cinco acharam que já estava tudo feito. Que eram peças de museu, para não mexer. A Carmo, aos cinquenta e oito, está a começar. Para mim, é mesmo a altura.

Olhavam o rio. Uma barcaça passava devagar, ao longe.

Sabe, disse Carmo. Pinto todas as semanas, faz nove meses.

Eu sei.

E esta manhã escrevi um texto para o evento. Meu, do princípio ao fim.

Já me leu.

E acho que está bom.

Está vivo. Melhor que estar bom.

O evento aconteceu numa sexta-feira de novembro. Apareceram mais de setenta pessoas. O salão ficou cheio. Carmo abriu a sessão, leu o seu texto. A voz saiu firme, as mãos quase não tremiam. Falou de como cada mulher traz dentro algo muito seu, que às vezes espera uma vida para ser notado. De como a idade não fecha portas, por vezes até as abre onde nunca olhámos. Não discursou falou como quem, só agora, entendeu isso de verdade.

No fim, veio ter com ela uma senhora muito idosa, trazida pela filha. Chama-se Eulália Matos, oitenta e três anos.

Menina, disse. Estava a falar de mim?

De todas nós respondeu Carmo.

Não. De mim mesmo. Senti-o Eulália segurou-lhe a mão nas suas, secas e quentes. Eu fazia bordados em miúda. Depois larguei. Achei tolice. Hoje, apetece-me voltar. Oitenta e três anos não acha ridículo?

Nada ridículo.

Acha mesmo?

Sim.

Eulália Matos foi-se embora. Carmo ficou a olhar. A filha levava-a pelo braço; saíam devagar, mas levavam qualquer coisa.

Começou dezembro devagar. Carmo agora orientava um pequeno clube literário à quarta-feira, na biblioteca. Iam sete, oito fregueses às sessões. Discutiam tanto que Carmo mal conseguia meter uma frase.

Em casa, o ambiente estava tenso. Não escandaloso, não barulhento. Apenas denso. Joaquim calado, a pensar, sem dizer. Carmo não esperava mais que ele viesse falar.

A meio de dezembro, entrou-lhe no escritório:

Quim, preciso falar contigo.

Então fala.

Não assim. Fechou a porta, sentou-se ao lado. A sério.

Ele fechou o livro, olhou-a.

Que se passa?

Nada. Mas quero dizer algo que nunca disse. Ou quase nunca.

Joaquim calado, alerta.

Durante anos vivi como se eu quase nem existisse, murmurou Carmo. Fazia tudo, mas cá dentro estava quase ausente. Em parte permiti. Mas em parte é também por nós dois. Por como fomos vivendo.

Joaquim olhava a mesa.

Queres separar-te?

Não sei o que quero. Só sei que precisamos de falar. A sério. Preciso que me vejas. Não a comida, não a camisa lavada. A mim.

O silêncio foi longo. Lá fora nevava no Porto, quase um milagre.

Eu não sei, Carmo, confessou, baixinho. Não aprendi a fazer de outra maneira.

Eu sei. Olhou-lhe as mãos pousadas nos joelhos. E não te culpo. Só quero tentar. De outra forma. Quero saber se tu também queres.

Ele não respondeu logo. Fixou a janela. Depois olhou para Carmo, mostrando de novo aquela inquietação viva.

Mudaste muito este ano.

Mudei.

Nem sempre te entendo.

Sei.

Mas não quero… hesitou. Não te quero perder. Aqui, em casa. Nem de todo.

Carmo fitou-o. Sessenta e um anos, ombros caídos, ar de quem nunca pensou no depois do hábito.

Então vamos tentar, disse ela. Não prometo facilidade. Mas tentamos.

Janeiro nasceu com frio e luz azulada. Carmo ia à biblioteca, orientava o clube, pintava ao sábado. Tinha vários trabalhos já prontos; alguns a Silvana levou, outros decoravam a cozinha. Os gerânios tornaram-se viçosos Carmo percebeu o que faltava, mudou para vaso maior.

Via menos a Silvana trabalho difícil, mas ligavam-se.

Um dia, Silvana perguntou:

Já pensou em organizar mais eventos na primavera?

Estou a pensar nisso. Queria um festival de vários dias.

Isso é imenso!

É. Carmo sorriu. Gosto de trabalho grande.

Silvana riu-se.

Quem diria, há um ano?

Ninguém.

Com Joaquim, era difícil como sempre mas agora conversavam mais a sério. Às vezes resultava, outras vezes ele fechava-se. Carmo agora esperava menos, focava-se no seu.

Em fevereiro, no jantar:

Fui ao médico na semana passada, disse ele.

Alguma coisa te incomodava?

Por rotina. Pressão alta de vez em quando. Receitaram-me uns comprimidos.

Fizeste bem.

Não perguntas porque não contei logo?

Porquê?

Não queria preocupar-te. Olhou para Carmo. De hábito.

Tens o hábito de não me preocupar?

Sim. Tu agora andas sempre tão ocupada.

Carmo olhou-o. Havia ali algo de novo; não descortinava.

Quim. Quero saber o que vai contigo. Quero saber do médico. Quero saber. Percebes?

Percebo. Acenou. Vou dizer.

E eu também.

Ficaram em silêncio, o vento batia com gelo nas janelas. No peitoril, o frasco de creme e um novo desenho: ramo de macieira, branco, suave.

Gosto desse desenho, elogiou Joaquim. Foste tu?

Eu mesma.

Tens jeito.

Estou a aprender.

No fim de fevereiro, Lúcia Marques telefonou, tarde, eram nove horas.

Carmo, desculpa a hora. A minha filha veio cá.

E está bem?

Estamos em paz. Ela disse ter errado ao chamar-me ultrapassada.

Ficaste contente?

Muito. Olha, queria pedir-te… Posso experimentar o teu workshop? Aguarela?

Claro. Sábado às onze.

Tenho medo de não conseguir.

Ninguém consegue à primeira. Assim é que tem graça.

No sábado, lá estava a Lúcia. Pegou no pincel atrapalhada, segurou como caneta. Zita corrigiu-lhe a posição. O primeiro risco saiu escuro, o segundo demasiado transparente. Lúcia bufou:

Carmo, vê isto. Um borrão.

Eu vejo. Gosto.

Não é ramo, é nada.

É a primeira vez.

E não te custa mentir-me?

Não estou. Para a próxima sai diferente.

Lúcia olhou, depois riu-se.

Pronto. Para a próxima.

Março trouxe o primeiro calor. Carmo submeteu proposta para o festival da primavera, a direção aprovou. Tomás avisou que vinha visitar em abril para assistir.

Um destes serões, com Joaquim já na cama, Carmo ficou na cozinha a desenhar ideias. Lá fora pingava dos beirados, a neve dava lugar a charcos, a primavera queria entrar. No peitoril, o gerânio verde, três ramos vermelhos, um botão para abrir.

Carmo olhou para o frasco, já vazio, guardado assim mesmo. Comprou outro igual, “Veludo”, dez euros. Joaquim não comentou.

Abriu um caderno em folha limpa e escreveu: O que sei agora que não sabia há um ano. Olhou o título. Depois fechou-o. Não é preciso escrever. Está dentro.

O telefone tocou, quase onze tarde demais para chamadas. Era Silvana.

Está tudo bem? perguntou Carmo logo.

Sim, melhor até. A voz estava animada, emocionada. Carmo, tenho de te dizer. Ofereceram-me trabalho em Braga. Muito bom. A minha filha vive lá. Estou a pensar.

Carmo calou-se.

Queres mesmo ir?

Ainda não sei. Por isso liguei. Diz-me.

O que queres ouvir?

O que tu pensas.

Carmo olhou para fora. Abril, escuro, húmido, vivo.

Acho que já decidiste. Só não te disseste ainda.

Silêncio.

Talvez, disse Silvana. Sim.

Então tens medo de quê?

Do que fica: o grupo, tu, a Graça, a Fernanda.

Nós ficamos, sempre.

O Porto está longe de Braga, Carmo.

Silvana. Carmo rodou a caneta entre os dedos. Lembras-te do que me disseste? Na marginal, em novembro.

O quê?

O de outra maneira começa quando começa.

Silvana riu, quente.

Eu era esperta.

Sempre foste.

Carmo, posso perguntar-te uma coisa? A sério.

Pergunta.

És feliz?

Carmo olhou o gerânio, o creme, os desenhos, o caderno por escrever.

Tornei-me eu mesma, disse. Acho que isso é mais importante.

É essa a resposta?

Sim.

Fico feliz por ti.

Eu por ti.

Carmo…

Sim?

E se eu for?

Carmo olhou a folha branca do caderno.

Continuo, respondeu.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

Estou Ausente