A vida vazia de Mafalda
A neve ou o que seria neve numa Lisboa que sonha que é Moscovo já não queimava os pés descalços de Mafalda. Há muito que Mafalda deixara de os sentir. O vento cortava-lhe o rosto, os braços, o pescoço, atravessando-lhe a camisola fina de dormir como navalha; cada rajada era um grito, um chicote húmido. Os cabelos grisalhos, cobertos de gelo, pesavam-lhe como cordas velhas entrelaçadas em pão ázimo. Era um inverno absurdo, mais pesado do que o Tejo, e Mafalda perdera a noção de onde estava. Cambaleou pelo quintal da casa baixinha na Mouraria, apoiando-se sonâmbula à cerca imemorial e sussurrando para ninguém:
Por favor, leva-me. Já chega, meu Deus… Que venha o descanso…
Teria ficado ali para sempre, congelada, esquecido vulto num pátio de calças penduradas, não fosse a vizinha Rosalina, que nessa noite saíra para espreitar a gata e percebeu que a porta de Mafalda estava escancarada, a luz acesa.
Mafalda! Estás aí? Andas a brincar ao fantasma?
Rosalina meteu-se pelo quintal de Mafalda adentro, gritando nomes antigos, nomes que pareciam sinos rachados.
Mafalda! Onde te meteste, mulher de Deus? Mafalda!
Mafalda encostara-se ao muro, aninhada como uma andorinha, murmurava sempre o mesmo pedido: morrer, morrer. Rosalina, coração aos pulos, correu buscar o marido. E juntos, arrastaram Mafalda para dentro de casa, onde o silêncio era tão denso como a geada.
Mafalda ficou de cama. Na manhã seguinte, a jovem enfermeira Filipa visitou-a, admirada de a mulher de noventa e um anos não apresentar nem gripe, só os pés roxos, inchadíssimos.
A senhora devia ir ao hospital. Chamo o táxi?
Mafalda mirou as tranças escuras da rapariga, as faces rosadas, e abanou a cabeça teimosa:
Fico aqui. Já vi tudo. Não te rales, minha querida. Não tenho nada para pedir. Vai à tua vida, com Deus.
Passaram-se duas semanas assim. De quando em quando, Mafalda tentava recordar para quê, porque raio saiu ela para o quintal naquela noite gelada, só com a camisa e com o coração rebentado? Toda a gente dizia que a velhota surtara por simples tolice ou velhice, mas por dentro, Mafalda sentia que fora outra coisa. Devia ter sido o destino, uma chamada impossível de resistir. Na véspera, sentada na cama sob a luz amarela, ela desmanchava um velho peúgue, dedos experientes, os olhos parados a meio do ar. Sorria para o nada para o passado com aquele sorriso estranho, quase assustador, que têm os que já não pertencem realmente a lado nenhum.
Toda a vida dela fora um longo corredor de trabalhos duros, contas por pagar, estômagos vazios. Não sabia o que era felicidade desde a infância, havia sempre que trabalhar, trabalhar, pagar rendas impossíveis, mendigar favores. Mas houve, sim, um breve instante de claridade, um só momento e foi amor.
O nome dele era António.
Tó… Tózinho… sussurrava Mafalda, arrepiando-se, meio sorrindo-meio chorando.
Sonhava, ou parecia-lhe. Caminhava por um campo de trigo imaginário, para lá da quinta onde em tempos fora criada de servir. Tapava os olhos da luz, esperando-o. Ele dissera que vinha. O medo e a esperança, a sede e a ânsia, todo o peito numa avenca de emoções cruas. Ela via, no calor da tarde, António. Corria para ele, de braços no ar: Tó! Tó!
Foi assim que adormeceu, embalada numa ilusão. Acordou desperta pela ventania, a janela a gemer. Levantou-se, mãos a tatear paredes, pés nus a pisar frio, e disse para a noite:
Já venho, é só um instante
Saiu de casa, empurrando a porta com o ombro, olhos semicerrados de brancura e sonho. Voltou a chamar:
Tó
O vento gelado entrou-lhe nos ossos, atravessou-lhe as entranhas. Descendo os degraus do quintal às cegas, marchou para fora, na direção de coisa nenhuma só sabia que era ao encontro dele, e o frio já não doía. Quando deu por si, rodava como folha pelo terreno, sem rumo, tropeçando na sebe, metendo os pés em caldeiros de água. E assim a encontrou Rosalina, semi-morta.
Rosalina assistia, falava, trazia sopa e pão. Filipa, a enfermeira, tratava das feridas, passava pomadas cheirosas, media-lhe a febre, e Mafalda, obediente, fazia tudo o que mandavam. Mas depois, ficava sozinha e perdia-se num teto vazio, escutando só o som longínquo de crianças a brincar na rua, cães a ladrar, ou da velha Amália a cantar a saudade. Por vezes adormecia e, ao acordar, já era manhã, ou noite outra vez, sempre com a mesma frase a martelar-lhe a mente: Ai Senhor, quando será a minha vez? Morrer, é só o que peço
Desde menina aprendera que a vida era ladeira a pique, coberta de lodo e silvas, onde tudo se desce, nunca se sobe. E ali, no Portugal esquecido da infância, ninguém aparecia pra acudir, não havia ombro, nunca mão estendida. Era assim que todos à sua volta viviam e ela resignara-se. A vida era queda longa, lenta, cheia de arranhões. Só restava aguentar, de dentes cerrados, para não soluçar alto demais.
Naquele ano, a primavera foi tardiamente cruel. Não trouxera calor manso, mas ventos frios e chuva sem fim, transformando ruas de Lisboa e barracas da Amadora num lamaçal. Só em maio o Sol espantou as nuvens e a terra reapareceu, gasta, cansada, com cheiro a mala velha. Até os limoeiros ficaram secos, como dedos de velhos esquecidos.
Mafalda, ajeitando com as mãos um lenço empapado na cabeça, levava baldes de água de um poço que só existia nos sonhos. Pela rua, homens encostados ao muro, cigarros molhados, conversavam baixo. Olhavam-na enquanto ela passava, mas Mafalda não levantava os olhos. Era invisível, uma sombra dentro do cinzento.
Da esquina, ouvia-se o grito da dona Rita, velha criada das cozinhas do Palácio de São Bento:
Mafalda! Corre à mercearia e diz ao Anselmo que traga chita para a menina. Daquela bonita, com flores! E depressa! Hoje vêm visitas, há de se pôr mesa bonita.
Mafalda largava os baldes, ajeitava o avental sujo e lá ia, sem vontade nem pressa, vinte e dois anos gastos à custa de servir, muitos deles depois de perder pais, sonhos e dentes. A patroa, viúva azeda como fado antigo, acolhera-a para dar uma ajuda, em troca de cama e um naco de pão. Mafalda era forte, robusta, mas sempre cabisbaixa; mão calejada, costas largas, olhos de cinza que não brilhavam jamais.
Trabalhava desde a alvorada até ao lusco-fusco. Partia lenha ao relento, tirava leite da cabra em noites gélidas, moldava barro para fornos onde o pão nunca era seu. Lavava roupa no tanque até os dedos ficarem duros de frio. No verão, carpia hortas, mas nunca podia trincar uma só fava nem provar morango. A senhora contava cada fruto, tal cães a roer ossos, e berra-lhe: Não é para ti, lambona!.
E ao sábado, aquecia o banho, transportando bacias de água, esfregando o corpo largo e flácido da patroa até a vista escurecer. Dona Rita resmungava, dava-lhe beliscões ou, se bem-disposta, dava-lhe uma palmada: Que rapazada não tens, rapariga!. Mafalda não se queixava porque não sonhava já com outra vida. Os rapazes da vizinhança habituaram-se a sua indiferença quieta; não havia corte nem brincadeira.
Um dia, enquanto limpava o espelho pendurada num banco, a patroa vira-se:
Mafalda, ainda te havemos de casar, ou ficas praí encalhada?
Como quiser.
Ou então mulheres solteironas, boa vida… Não tens filhos, não tens trabalho a dobrar!
E, ficando pensativa, desaparecia sala fora, esquecendo de imediato o assunto.
Mafalda não se magoava, não sonhava. Era como um móvel da casa sempre no mesmo sítio, entre cansaços e silêncios. O velho Simão, tratador dos cavalos, confidenciava: Esta mulher nasceu para freira, não para o mundo dos homens. Só que um dia, a rotina quebrou-se, e Mafalda pôde espreitar por um instante o outro lado.
Tudo mudou num junho impregnado de sol. Na quinta esperavam visitas: a menina, doentia e pálida, ia ser apresentada a um rapaz da cidade. Mafalda foi à Tapada buscar flores para enfeitar a casa. Descia a encosta, pés na erva molhada, quando, de repente, um estranho cruzou-lhe o caminho. Era Neto, moço do campo, elegante de colete e botas, olhos verdes de quem conhece Lisboa e Porto. Parou à sua frente, riu-se com descaramento.
Boas tardes, formosa!
Mafalda desviou-se, sem o olhar. Ele atalhou-lhe o caminho.
Como te chamas?
Quem me chamou já sabe, tu não precisas de saber! respondeu, secamente.
Desde então, Neto passou a aparecer vezes sem conta, sempre com uma piada, uma piada brejeira, uma tentativa de beliscar, e Mafalda sempre a afastá-lo como quem sacode farinha da roupa. Um dia, ele apanhou-a no celeiro, encurralando-a junto aos fardos. Mafalda empurrou-o com tanta força que foi parar ao chão. Olhou-o de cima:
Tens queda, rapaz?
E saiu, sacudindo a saia, indiferente.
Neto ficou intrigado: gostava de raparigas submissas, Mafalda era muralha, força escura. Ela, por sua vez, não sabia o que se passava, nunca pensava nele; mas uma luz, um impulso novo, crescia de dentro.
Começou a sorrir. Olhava o sol, os campos, sentia a juventude no corpo como se fosse laranjas na árvore. Mas logo se lembrava dos deveres e corria cumprir o trabalho. Assim passou um mês.
Os avanços de Neto não deram frutos, à exceção de um beijo arrancado à força e logo pago com uma palmada tão sonora que lhe tirou a vontade de repetir. Dali por diante, quando Mafalda lhe sorria pela primeira vez, Neto encheu-se de esperança. Mas, pouco depois, a história acabou.
Neto, um dia, interferiu quando estavam a chicotear um miúdo acusado de roubo. Mafalda tentou proteger o rapaz, mas foi afastada. O velho Simão ergueu o chicote Neto arrancou-lhe da mão e enfrentou-o:
Basta! Eu falo à senhora, chega de injustiça!
O miúdo chorava: A minha mãe morreu morreu ontem! Mafalda, ao ouvir estas palavras, sentiu o mundo a desabar. Correu para a sua minúscula divisão e chorou como nunca antes pela sua infância, pelo desgosto, pela ausência de tudo que alguma vez sonhara.
Neto sentou-se a seu lado, nada disse, apenas a abraçou. Pela primeira vez, ela não o afastou. Sentiu o calor dele, escutou-o respirar. Sussurrou:
O que há para além daquele monte?
A cidade respondeu Neto, admirado. E mais além, outra cidade, depois o mar.
Mafalda nunca vira o mar, e nem sabia atravessar um rio, mas naquele instante desejou ir, fugir, ser alguém. Olhou Neto de frente, pediu-lhe em voz baixa:
Levas-me contigo? Casas comigo?
Neto hesitou, murmurou desculpas que precisava de tempo, de dinheiro Mas Mafalda já era outra: ousada, faminta pelo impossível. Agarrou-o, beijou-o, confessou que não se importava com o que diriam, só queria fugir. Nessa noite perdeu o crucifixo de cobre, fio partido, e deixou-o ir. Que assim seja, murmurou, com resignação estranhamente solene.
Neto apareceu mais duas vezes. Encontraram-se em segredo, no palheiro, no quintal, atrás das sebes. Mafalda floresceu, caminhava ereta, o olhar rasava todos como sol na calçada. Parecia outra pessoa.
De repente, tudo terminou. A boda da menina foi grandiosa, o noivo partiu levando Neto com a família. Ninguém avisou Mafalda. Soube pela cozinheira: A tua esperança foi-se, Mafalda. Perdeste a vez.
Mafalda esperava. Todas as tardes ia à estrada, olhos na poeira, mãos no peito. Passavam horas, esquecia a comida, o sono. O rosto emagreceu até parecer vidro. Dona Rita zangava-se, atirava-lhe o prato, mas Mafalda só sorria serena, certa de que Neto voltaria.
O verão abafou, veio outono de brumas, folhas molhadas. Mafalda passou a gostar de fitar o horizonte, crente de que, mais cedo ou mais tarde, Neto regressaria. Não perguntava noticias, nem ligava ao que lhe diziam. Estava certa: era impossível ele não querer voltar. Quem é que não quer ser feliz? Só era preciso esperar.
Certa tarde, já no fim do outubro, viu ao longe um vulto. O coração trocou de compasso; era Neto, só podia ser. Correu, saltou poças, gritou:
Espera! Volta!
O homem não ouviu. Mafalda correu até ao ribeiro, incapaz de nadar. Ficou na margem, olhos abertos, olhando o eco do passado. Viu o vulto desaparecer, confundindo-se com o nevoeiro. Sentou-se, embalada pelo ruído das folhas.
Veio a Ti Ana, vizinha de sempre:
Que fazes sentada? Andaste a fugir porquê?
Era o Neto, disse Mafalda, sem se virar.
Qual Neto? Aquele que era moço do couto?
O mesmo. Espero por ele.
Sua tonta! Ele casou-se, tem filhos pelo menos há vinte anos. Vive em Setúbal, ouvia dizer. Já nem caminha, ficou magoado pela carroça. Diz que está quase a morrer. Que risota é essa?
Ahahah! explodia Mafalda, cabelos ao vento, joelhos brancos, gargalhada desfeita.
Maluca! murmurou Ana, cruzando-se, afastando-se. Deus te acuda, que já nem de ti te lembras
A partir desse dia, todos lhe chamaram a santa, a benta, a doida. Mafalda já não rezava, nem chorava trabalhava, furiosa e calada, como quem tenta esmagar a dor. Às vezes sentava-se à porta, olhos fixos além da serra, para lá do mar que nunca conheceu. E naqueles olhos crescia um vazio tão profundo que metia medo; o povo benzia-se e desviava o passo.
Ainda com forças, ao meio-dia, vestia camisa branca, penteava os cabelos compridos e aparecia nos campos. Ficava de pé, imóvel, à espera de alguém ou alguma coisa. Quem lhe perguntava, respondia com um sorriso límpido:
Espero o meu destino. Está para além do mar. Neto prometeu que vinha esta noite.
Coitada pobrezinha
Só o vento sussurrava entre as árvores, o Tejo corria paciente, e a maresia, invisível, contava-lhe histórias de um mundo nunca visto, de um oceano que era só promessa.
A porta range Rosalina entra para acender o lume. Mafalda fita-a com olhos de vidro, cheios de bruma.
Então? As pernas, como estão?
Mafalda balbucia. Rosalina encosta o ouvido.
O quê? Repete lá, mulher!
morrer, já era tempo Ele não vem mais. Só resta morrerRosalina não soube o que responder. Ficou ali, imóvel, sentindo o peso de todas as palavras guardadas, todos os invernos passados. Depois, com um gesto brusco, cobriu Mafalda com o xale grosso, ajeitou-lhe o cabelo molhado de sonho e apagou devagar a luz do candeeiro.
Naquela noite, Mafalda fechou os olhos e, pela primeira vez, não rezou; apenas escutou o silêncio a encher o quarto como maré cheia. No fundo do sono, ouviu passos leves passos que vinham não da rua, mas do outro lado do tempo. Ao abrir os olhos em sonhos, viu uma estrada de trigo dourado e alguém à sua espera, sorrindo, braços abertos como verão antigo.
De madrugada, quando Filipa chegou, encontrou-a serena, com a mão quieta sobre o peito, um sorriso esmaecido nos lábios. Rosalina, de luto no olhar, segurou o rosto frio da amiga e murmurou baixinho:
Foste pelo teu mar, Mafalda Encontraste, afinal, o caminho.
Lá fora, Lisboa despertava de mansinho, e uma chuva miúda lavava os telhados. No quintal, entre as ervas, uns pés de avenca balançavam ao vento, e ninguém reparou que, naquele instante, o Tejo parecia menos pesado e a vida, por um momento, mais leve.






