Livre. Ponto Final.

Livre. Ponto final.

Carminho estava sentada à secretária do pequeno escritório, rodando distraidamente a chávena de café entre as mãos. O seu olhar vagueava pelos longos corredores alinhados de mesas idênticas, pelas paredes baças do call center na periferia de Lisboa, até repousar, inevitavelmente, em Mafalda a rapariga que lhe fazia frente naquela tarde enfadonha.

Mafalda tinha um brilho diferente no olhar, curioso, atento, que não combinava com o ambiente sóbrio à sua volta. Os traços delicados do rosto, o cabelo apanhado num coque perfeito, acrescentavam-lhe aquele ar de educação e subtil refinamento que a diferenciava do resto. Ninguém ali parecia menos talhado para a tarefa ligar a devedores, repetir frases programadas, ouvir desculpas e ameaças. Nada disso condizia com a verdadeira natureza de Mafalda.

Diz-me uma coisa, não sentes que este lugar é pequeno demais para ti? Uma miúda viva, esperta, a lidar com dívidas dos outros? perguntou Carminho, afastando finalmente o olhar da chávena, com uma ponta de inquietação, tentando perceber se na colega havia sequer uma sombra de mágoa.

Mafalda virou ligeiramente a cabeça, demorando uns segundos antes de responder, como se ponderasse se devia revelar algo. Depois, sorriu de leve, serena, encolhendo suavemente os ombros:

É só até ganhar algum pé de meia. Em Lisboa não tenho ninguém. Vim só com duas malas e a esperança de conseguir mudar o rumo da minha vida.

A voz soou calma, sem sombra de mágoa nem arrependimento. Parecia que já se habituara a justificar a sua presença ali e que o fazia sempre com aquele mesmo tom sereno e distante.

Carminho traçou um círculo invisível com o dedo na borda da chávena. Sempre se interrogara sobre o que poderia levar uma rapariga como Mafalda a largar tudo e vir tentar a sorte numa cidade estranha.

Mas o que te fez largar tudo e vir para aqui? perguntou de repente, baixando um pouco a voz.

Logo percebeu que Mafalda se enrijecera, a expressão suavemente contraída, o sorriso menos espontâneo. Carminho arrependeu-se. A pergunta fora demasiado directa, quase intrusiva.

Desculpa, não tens de responder. Não é fácil abrir o coração a alguém que mal conheces apressou-se a dizer, tentando atenuar a invasão. Mas se precisares de ajuda ou de um conselho, podes contar comigo. A sério.

Mafalda ergueu os olhos e acenou com a cabeça, com um agradecimento genuíno. Aquela frase curta, dita sem floreados, conseguiu equilibrar o pouco que restava daquela tarde. Debaixo do ar despachado de Carminho, por detrás do tom por vezes brusco, Mafalda adivinhava a sensibilidade rara que, com o tempo, foi percebendo.

Mas as palavras amigas, embora bem intencionadas, trouxeram-lhe à memória episódios dolorosos. Imagens do passado cintilavam-lhe no espírito a casa acolhedora em Vila Real, as ruas sabidas de cor, os rostos próximos Inspirou fundo, tentando abafar as recordações, e concentrou-se no monitor, onde já surgia o próximo número a marcar.

*************

Mafalda ainda não tinha feito dezoito anos quando tudo se virou do avesso. Sentia-se suspensa entre o fim da escola secundária e o início da vida a sério, onde teria espaço para escolhas e aventura. Sonhava com o curso de Direito em Coimbra, com novos amigos, com a sensação única de escrever cada linha do próprio caminho. Num final de tarde, porém, tudo colapsou.

A mãe mostrava-se inquieta naquele dia, arranjando-se vezes sem conta, vigiando o relógio como se toda a sua existência dependesse daquele momento. Quando alguém tocou à campainha, a mulher correu ao corredor como se esperasse aquela visita há séculos.

Trazia pela mão o jovem Gonçalo. Entrou com ar seguro, queixo elevado, a avaliar a decoração com um misto de cálculo e desdém. O fato escuro, a camisa imaculada e o relógio reluzente transmitiam uma seriedade quase forçada.

Na primeira impressão, Gonçalo até pareceu simpático. Falava sem tropeções, alinhando referências a economistas, citando filósofos, desfiando estudos e números. Parecia querer provar a sua cultura como um diploma pendurado ao peito não só para os presentes, mas possivelmente para toda a cidade.

Com o desenrolar da conversa, porém, Mafalda começou a incomodar-se. Gonçalo fazia comentários ácidos sobre alguns conhecidos da família, tecendo juízos com um tom altivo, como se só ele tivesse o direito à verdade sobre a vida. A cada observação depreciativa, Mafalda recuava um pouco mais. Sentia-se ofendida, incapaz de compreender como se podia julgar assim os outros, desconhecendo as razões de cada escolha.

A mãe, pelo contrário, quase resplandecia. Lançava-lhe olhares subtis, cheios de expectativa, como se dissesse sem palavras: Olha bem, repara como ele é brilhante, que futuro tem este rapaz. Era uma admiração indisfarçável parecia que Gonçalo era a última esperança de felicidade.

A verdade atingiu Mafalda como um murro: Gonçalo não era só um convidado. Para a mãe, ele era o pretendente ideal. Uma onda de pânico subiu-lhe pelo corpo. No peito apertado pulsavam perguntas Porquê ele? Quem te deu o direito de decidir isto por mim?

Tentou focar o olhar na mãe, à espera de algum gesto tranquilizador, um sinal de que tudo era um mero equívoco. Mas ela devolveu-lhe um olhar firme, irredutível. Vai ser assim. Eu sei o que é melhor para ti!

A revolta emergiu. Mafalda queria soltar um grito, exigir o direito a escolher, mas as palavras bloqueavam na garganta. Fechou os punhos sob a mesa, tentando não trair o tumulto interior.

Vira-se habituando desde sempre às imposições maternas: pequenos e grandes nãos, rotas traçadas de antemão, prisão de sonhos. Qualquer infração às regras era reprimida com frieza. A mãe afirmava sempre saber o que era melhor.

Na infância, Mafalda sonhou em inscrever-se na academia de pintura. Adorava misturar tintas, traçar linhas, imaginar-se artista consagrada. Quando ousou falar disso à mãe, recebeu um autoritário:

Pintura? Esquece! Vais antes para ballet isso dá-te postura.

E foi: ponta, pirueta, sorriso forçado. Os passos saíam-lhe bem, mas o coração permanecia alheio.

Mais tarde, fez-se a primeira amizade de verdade: Isabel, explosiva, espontânea, cheia de ideias. Podiam falar horas sem que a mãe interrompesse até ao dia em que veio o veredito:

Essa amizade não te serve. Corta!

Mafalda mal tentou argumentar a decisão estava tomada.

Na hora de escolher o curso, Mafalda apaixonou-se por Direito as leis, os julgamentos, a luta pela justiça cativavam-na. Fez planos, comprou livros, inscreveu-se em explicações. Em vão. Nova sentença:

Direito? Nem pensar. Vais estudar educação de infância sempre foi bom para mulheres.

E assim continuou sempre. Mafalda resignava-se e acatava, sem voz ou protesto. As mágoas e sonhos iam ficando para dentro.

Até que, naquela noite, tudo rebentou. Assim que Gonçalo saiu, Mafalda colapsou.

Porque tens de decidir por mim? Nunca queres saber o que eu penso!

A mãe, friamente, cruzou os braços:

Só quero o teu bem. Tu não entendes o quanto isto é importante.

Aquelas palavras lançaram gasolina na fogueira. Mafalda gritou, chorou, atirou a chávena ao chão. A porcelana estilhaçou-se, mas a mãe nem pestanejou:

Um dia vais ver que eu só quero o melhor para ti.

Mafalda ficou ali, imóvel, perante os cacos. Tudo parecia inútil protestos, lágrimas, até a fúria súbita. Nada perfurava aquela fortaleza.

No dia seguinte, veio a punição. Mafalda acordou numa casa estranhamente silenciosa. O telemóvel sumira. O portátil já lá não estava. Ao sair do quarto, encontrou a mãe impassível.

Onde estão as minhas coisas? perguntou, sentindo a ansiedade a crescer.

Levei-as. Só as devolvo quando perceberes o que é melhor para ti.

Sem lhe dar tempo de responder, a mãe empurrou-a de novo para o quarto e fechou-lhe a porta à chave pelo lado de fora. Mafalda tentou rodar a maçaneta estava trancada. Parecia uma fábula cruel.

No quarto não restava senão o essencial: roupa, cama, secretária. Sem telemóvel, sem rádio, sem qualquer contacto. Tentou forçar a janela, mas também estava trancada. Gritou, mas em vão.

Os dias sucediam-se iguais. Trazia-lhe um tabuleiro com comida duas vezes por dia. Mafalda tentava marcar o tempo mentalmente, mas tudo se dissolvia em monotonia.

Ao fim de uma semana, estava exausta. Não tanto pela fome, mas pela rasteira do desespero. Já não gritava. Sentava-se à janela, a ver o céu por entre os telhados, imaginando uma vida diferente.

Quando, por fim, a mãe abriu a porta, Mafalda nem ergueu os olhos.

Então, já pensaste melhor? Estás pronta para aceitar?

Mafalda assentiu, vazia de forças. Queria paz, mesmo à custa da liberdade.

Mais tarde, quando já pedia ajuda a psicólogos, questionava-se: porque não tentou fugir? Porque não procurou ajuda? Não sabia dizer. Talvez fosse o peso do hábito, ou o medo de destruir o pouco mundo que conhecia.

A preparação para o casamento com Gonçalo começou. Vestidos, listas, discussões de menu. Mafalda movia-se como um autómato. Inventava desculpas para adiar primeiro por causa das aulas, depois por causa do estágio, por fim culpava o inverno e o verão.

Mas a mãe e Gonçalo perderam a paciência.

Já basta de indecisão. Está na hora! determinou a mãe.

Colocaram Mafalda e Gonçalo num T1 alugado num bairro de classe média da Amadora para se irem habituando. Casar não é nada só uma formalidade!, diziam.

Foi nessa altura que Mafalda descobriu estar grávida. A notícia caiu-lhe como um banho gelado. Sentada na borda da banheira, observava a tira do teste e sentia o chão a fugir-lhe debaixo dos pés. Porquê agora?

A ideia de uma vida partilhada com Gonçalo era insuportável. Tão pouco gosto por ele, nenhuma afinidade. Até o cheiro dele a incomodava. Era impossível imaginar envelhecer ao seu lado, criar filhos naquela prisão de indiferença.

Demorou-se antes de lhe contar a gravidez. Quando finalmente o fez, Gonçalo limitou-se a um aceno, como se lhe tivessem anunciado uma troca de olarias. Está bem, disse. E continuou a comer.

A partir daí, Mafalda procurou, desesperada, uma saída. Evitou confrontos directos, mas insistiu subtilmente com a mãe: A Ana casou com um empresário, já têm casa na Lapa; a Marta com um médico do privado, ganham balúrdios…. Eram histórias inventadas só para adiar o casamento.

Inventou até um admirador um tal de Rui, empresário de sucesso, um contacto vago, distante, que não queria pressas. Aos poucos a mãe aparentou ceder já não insistia tanto na urgência. Mafalda quase acreditou que poderia escapar. Mas o anúncio da gravidez mudou tudo. Sabia que não teria qualquer tolerância nem prazos. Iam arrastá-la ao registo sem mais demora.

Era preciso agir rápido, sem dar nas vistas. Procurou uma clínica privada em Odivelas, longe do bairro. Evitava qualquer laço ou contacto. Sentada à frente da médica, Mafalda foi assertiva:

Quero interromper a gravidez. É uma decisão firme.

A médica nada disse, apenas fez perguntas técnicas, passou exames, marcou datas. Era o que Mafalda precisava nada de julgamentos.

Ao sair da clínica, o coração acelerou de súbito reconheceu a voz da médica: era alguém com ligações à mãe, uma conhecida de vista no supermercado. Gelou. E se a médica desse com a língua nos dentes, num momento de amizade ou preocupação? O segredo podia ruir a qualquer momento.

A mente disparou. Tinha de desaparecer, imediatamente, antes que a mãe percebesse. Entrou em casa numa correria: agarrou roupa, dois pares de calças, camisolas, cuecas, tudo atirado para uma mala surrada. Pôs pasta de dentes, escova, uns euros que tinha poupado. Agarrou no cartão do multibanco, olhou em volta à procura de qualquer coisa essencial. Fitou uma fotografia antiga a turma do secundário. Hesitou, mas largou-a. Não era tempo para nostalgia.

Abriu a porta pé ante pé. O coração batia tão alto que mal conseguia ouvir o resto. Rodou a chave, saiu para o átrio, e só então correu escadas abaixo.

No táxi, gaguejou o destino: Aeroporto de Lisboa. Só pensava em sumir, ganhar distância antes que alguém desse pela falta.

No aeroporto agiu mecanicamente: procurou o primeiro voo para fora. Havia avião para o Porto dali a duas horas. Chegou ao balcão, as mãos a tremer:

Um bilhete para o Porto, faz favor.

Durante a espera, fixou os olhos nos ecrãs de partidas, agarrada à mala. À volta, famílias riam, casais entusiasmados arrastavam bagagens, a vida seguia. Para Mafalda, era o apogeu de um tumulto.

No avião, colou o rosto ao vidro. Lisboa afastava-se, transformando-se em pontos de luz, e com ela a última paisagem da prisão.

Ao desembarcar, consultou o telemóvel. Dezena de chamadas da mãe, mensagens desde o apelo (Onde estás?!) até à fúria (Vais arrepender-te disto!). Por fim, uma última mensagem, enviada meia hora antes:

Já tratei dos papéis do casamento no registo. O Gonçalo está de acordo. A cerimónia é daqui a duas semanas. Não tentes fugir és obrigada!

Mafalda leu, e um sorriso estranho desenhou-se-lhe nos lábios. Não era alegria, era pura libertação. Escreveu apenas:

Nunca! Agora sou livre!

Enviou, desligou o telemóvel, e inspirou fundo. À sua volta, o Porto cheirava a chuva e castanhas assadas. A vida estava ali, crua, sem planos mas, pela primeira vez, pertencia-lhe.

Mafalda ficou a mirar o telemóvel apagado. Depois tirou o cartão SIM, hesitou, atirou-o ao caixote no átrio. Sentiu que, com esse gesto, deixava mesmo o passado para trás.

Levou uns segundos a localizar-se. O frenesim do aeroporto fazia-a tremer, mas não podia parar. Procurou o balcão de informações. Uma funcionária indicou-lhe uma pensão modesta, a poucos minutos a pé.

Na pensão, pagou adiantado três noites em dinheiro. O quarto era mínimo mas limpo: cama, mesa-de-cabeceira, janela para a rua. Sentou-se na beira da cama, a inspiração pesada finalmente, estava em segurança, pelos menos por agora.

No dia seguinte, agiu em força. Bateu a portas de agências imobiliárias, até conseguir alugar, sem grandes perguntas, um pequeno T0 em Campanhã. A senhora proprietária, simpática mas despachada, aceitou o valor de um mês como caução, sem burocracias.

O problema seguinte eram os euros. Correu cafés, mercearias, centros comerciais. Recusaram-lhe aqui e ali; noutros sítios, o ordenado era miserável. Acabou por conseguir emprego num call center não era a carreira de sonho, mas pagava o suficiente.

Passados uns dias, entendeu que precisava de regularizar a situação. Foi à esquadra mais próxima e explicou tudo a um jovem agente:

Tenho receio de que a minha mãe me denuncie como desaparecida. Não desapareci, vim voluntariamente. Ela controlava todos os meus passos. Queria que casasse à força. Só quero viver a minha vida.

O polícia escutou, registou dados, pediu o cartão de cidadão e comprovativo de trabalho.

Se a sua mãe reclamar, confirmamos que está bem e por vontade própria. Mas convém avisá-la.

Mafalda assentiu, sabendo que não o faria.

Assim começou a nova vida. Acordava cedo, tomava pequeno-almoço simples, ia trabalhar. Ao final do dia fazia compras, preparava o jantar, via séries na televisão pequena ou lia algum livro antigo encontrado na prateleira. Ao fim-de-semana andava pelo Porto, cruzando ruas velhas, jardins, cafés.

A pouco e pouco, ganhou gosto à liberdade. Já não precisava pedir licença para nada, nem dar justificações, nem ouvir sermões sobre escolhas certas e erradas. Podia vestir o que quisesse, comer como lhe apetecesse, sair sem destino. Espantava-a a simplicidade de ser ela mesma.

Havia dias duros. A saudade apertava dos amigos antigos, dos rituais conhecidos, das pequenas certezas. Nesses instantes, fazia um chá, sentava-se à janela, olhando a rua. Relembrava apenas: É a minha escolha. E, por muito modesto que seja, isto agora é finalmente! a minha vida.Certa noite, quando regressava ao pequeno apartamento depois de um turno exaustivo, Mafalda cruzou-se com uma rapariga sentada no passeio, olhos vermelhos e mãos trémulas à volta de um saco de viagem. Por instinto, parou.

Precisas de ajuda? arriscou, devagar.

A rapariga hesitou, mas acabou por acenar afirmativamente. Entre soluços, partilhou uma história estranhamente familiar: imposições em casa, sonhos silenciados, uma fuga feita às pressas. Mafalda escutou sem interromper, coração a bater depressa, como se visse o seu próprio reflexo uns meses antes.

No final, sorriu, frágil mas firme:

Pode não parecer agora, mas daqui a algum tempo isto deixa de doer assim. Há vida depois da fuga, acredita.

A rapariga ergueu o olhar, surpresa com a certeza suave de Mafalda. E nesse instante, Mafalda percebeu que, embora a liberdade tivesse chegado de mansinho, o mais valioso era aquilo que agora podia dar de volta: uma palavra, um abrigo, a promessa de recomeço.

Entrou em casa mais leve do que nunca. Abriu a janela, deixou entrar o cheiro a terra molhada, as vozes do Porto, a música longínqua de uma guitarra perdida na rua. No silêncio, sussurrou para si: Livre. Livre, e inteira.

E assim, depois de tantas portas fechadas, Mafalda descobriu que era possível não só construir a sua própria casa mas também abrir uma janela para o mundo.

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Livre. Ponto Final.