O Parente Noturno e o Preço da Tranquilidade
Só espero que não seja outra vez, murmurou Margarida, olhando para o lavatório cheio de água ensaboada.
O relógio na parede da cozinha marcava implacável as 01h15. A casa mergulhara no silêncio. No quarto ao lado, a pequena Matilde ressonava suavemente. No quarto do fundo, António já devia estar a dormir. A lâmpada de teto desenhava um círculo amarelo sobre a mesa, onde repousava uma chávena morna de chá de cidreira esquecida.
A campainha da porta rasgou o silêncio como uma faca. Longa, insistente, com pausas curtas, suficientemente grandes para nascer um impotente por favor, noutra altura.
Da cama, ouviu-se um sussurro sonolento e reconhecedor de António:
Outra vez ele?
Margarida secou as mãos no roupão, reprimiu um bocejo daquele tipo que se quer converter num sinal de estou a dormir, mundo, deixa-me em paz e foi até à porta. Pelo caminho sentiu uma mistura de emoções: irritação, um leve peso de culpa e uma fadiga densa como cobertor molhado.
No óculo da porta, o perfil familiar. Largueiro, de boné torto, casaco de cabedal desgastado; o sogro, Pedro Dias, encostado meio de lado, com uma mão na parede e na outra uma caixa de cartão volumosa junto ao corpo.
A seus pés, um saco do Pingo Doce logo Margarida sabia: bolachas. Sempre as mesmas.
Abriu a porta.
Margarida! Pedro brilhou, como se fosse meio-dia. Não dormem ainda? Ainda bem. Só venho aqui dez minutos.
Boa noite, Sr. Pedro, tentou sorrir ela. Sabe que é de noite, não sabe?
Ó Margarida, a noite ainda é uma criança! despachou ele, abanando a mão. E eu também, enquanto ainda ando com as minhas pernas. Deixas entrar o velho? Tenho aqui… um tesouro.
Ergueu a caixa. Na tampa, uma etiqueta amarelada: Filme 8 mm. A um canto alguém há muito tinha escrito a esferográfica: 1978. Fim de Ano. Casa. Cheirava a pó, a armários antigos, a um passado que Margarida só imaginava por fotografias.
Imagina que a encontrei! já Pedro se metia no hall, sem esperar o convite. Estava na arrecadação do vizinho. Disse-lhe: É minha!. Ele não acreditava, depois pelo letreiro reconheceu. Letra da Leonor, diz ele.
O nome da falecida Leonor, mulher de Pedro, soou pelo corredor como um fantasma.
António apareceu, semicerrando os olhos por causa da luz. T-shirt e calças de fato de treino.
Pai… tossiu. Já passa da uma e tal.
Ora essa! animou-se Pedro. É o melhor tempo para recordar. Lembras-te, filho, a esta hora é que começavam os bailes!
Cada palavra dele soava na cabeça de Margarida como dor de dentes. Mas mesmo assim, pensava: Ele está sozinho. A casa dele é escura à noite. Deve ter medo.
Vamos para a cozinha, disse ela, engolindo um suspiro fundo. Mas em silêncio, que a Matilde dorme.
Claro, silêncio, prometeu, tirando o casaco a chiar. Eu sou suave como um ratinho.
Ratinho, pensou Margarida, que toca a sirene dos bombeiros à noite.
***
Na cozinha, Pedro sentava-se sempre na mesma cadeira, junto ao radiador. As minhas costas não gostam de correntes de ar, dizia ele. Margarida pôs-lhe uma chávena à frente, verteu-lhe chá de forma automática, em modo de serviço noturno.
António, ainda a bocejar, sentou-se do outro lado e fixou o olhar na caixa.
O que é isso? perguntou.
O nosso filme, Pedro soou como se estivesse no Coliseu. Fita antiga, mas ainda dá. A tua mãe aparece, tu em pequeno, a árvore de Natal, saladas e a tia Catarina com aquele nariz…
Margarida encostou-se à mesa, apoiando a cabeça na mão. O relógio ia marcando os minutos 1h27, 1h28…
Pedro, inversamente, parecia só agora aquecido.
Lembro-me como abrimos a porta nessa noite, contava. Já tarde, veio o Alexandre e mulher. Frio, neve e nós: Entrem! Aqui a casa está sempre aberta! A Leonor disse isto: hesitou, tentando puxar a memória, À noite as portas devem abrir-se a quem precisa mesmo.
Margarida assentiu. As palavras colaram-se-lhe como um rebuçado ao céu da boca.
Pai, António esfregou os olhos. Vamos ver a fita ou ficas só a contar?
Pois, pois, Pedro animou-se. Mas já não tenho projetor. Pensei que cá podiam ter…
No nosso T2, num quarto andar, projetor de 8 mm, está a brincar? ironizou Margarida. Sim, está entre o piano e a prensa na despensa.
Pedro não percebeu o sarcasmo, como de costume.
Pronto, não faz mal. Sempre se pode digitalizar num estúdio. Tu, António, sabes dessas coisas d’informática. Por agora vou contando…
E contou: da compra da primeira máquina fotográfica, das tardes na casa de campo, das risadas da Leonor com a neve no colarinho… As histórias fluíam como chá num bule que nunca se esvazia.
Margarida escutava de longe, mais sentindo do que ouvindo. Na cabeça só pulsava o refrão: Acordar às sete, levar Matilde ao infantário, relatório, os olhos a fechar-se…
***
Um ruído baixinho fê-la despertar.
Na porta da cozinha, uma figura pequena de pijama coberta de estrelas cor-de-rosa. Matilde esfregava os olhos, cabelo desgrenhado.
Mamã… sussurrou, tropeçando.
O que fazes aqui fora, filhota? Margarida correu a agarrá-la para não cair.
Tive sede, disse, ainda meio a dormir. E voltei a sonhar com o avô.
Pedro, ao escutar a palavra avô, abriu o peito:
Está a ver, sentem essa ligação!
Matilde olhou-o com ar enevoado, ainda no mundo dos sonhos.
Sonho contigo todas as noites, disse ela séria. Batas à porta e bates, bates. Não consigo fechar a porta está quente a maçaneta.
Margarida sentiu uma pedra de gelo no estômago. António franziu o sobrolho.
Que sonhos são esses? murmurou.
Não são pesadelos, retorquiu Pedro. É o espírito da criança a buscar o avô.
Ou o silêncio, pensou Margarida, mas disse apenas:
Vamos à cama, Matilde. O avô vem… noutra altura.
À noite? quis saber Matilde.
Margarida trocou olhares com Pedro. O dele era inocente, quase infantil.
Ao dia é que é bom, Matilde. Mesmo melhor.
A menina suspirou e aninhou-se junto à mãe.
Margarida levou-a de volta, ouvindo na cozinha Pedro falar em voz baixa excessivamente desperto para a hora.
Aconchegou a filha, passou-lhe a mão pelo cabelo, cheia do pensamento: Estas dez minutos dele valem por uma hora com bolachas, chá, olhos pesados e as nossas rotinas partidas.
No corredor, o relógio corria para as duas. Margarida respirou fundo. A sua paciência, como um despertador, começava a marcar o limite…
***
Outra vez, à uma da manhã, queixava-se Margarida ao telefone, uma semana antes. Nem vergonha, nem respeito. Parece um café aberto no bairro.
Olga, sua amiga desde a faculdade, suspirava do outro lado.
D. Margarida, disse dramática, os meus sentimentos. A sua casa foi tomada pelo espírito notívago do século passado.
Muito engraçado, resmungou Margarida. Falo a sério. Nem consigo dormir tranquila fico sempre à espera do próximo toque. E ele volta! Sempre dez minutos.
Olha como um escape room, brincava Olga. O teu modo hardcore nocturno: acorda, faz chá, escuta o monólogo. Prémio bolachas.
Margarida esboçou um sorriso.
Traz sempre as mesmas bolachas, confidenciou. Daquelas de aveia em embalagem verde. Já não as posso ver.
Isso já é símbolo, ponderou Olga. Bem podias dar-lhe um despertador de visita.
Como assim?
Telefona-lhe tu, à uma da manhã.
Cruel, bufou Margarida.
Brinco, riu-se Olga. Mas falando a sério: devias impor limites. Ou ele pensa que está tudo certo contigo abrindo sempre.
É meu sogro, Olga. Está sozinho. Ficou viúvo, António é filho único. Como lhe digo: Sr. Pedro, não venha de noite? Ele já tem idade, coração, saudades…
Mas tu também tens coração, lembrou Olga. E tens filha, trabalho. Limites não são maus. Cuidar de ti pode ajudar toda a gente.
Margarida ficou a pensar. Crescera a achar que uma boa nora era paciente, sempre.
***
A primeira visita noturna de Pedro foi meio ano após a morte de Leonor.
Margarida achou que seria exceção. Um luto, uma dor noturna impossível de libertar de dia no meio da azáfama.
Estavam deitados. O quarto escuro, um facho leitoso vindo da janela. O silêncio, quase sono, até que a porta do corredor estremeceu.
Quem será a estas horas? saltou Margarida.
A campainha insistente, quase desesperada. António levantou-se, calçando-se à pressa:
Pode ter acontecido algo.
Pedro, sem casaco, só com camisola de lã, estava à porta. Olhos brilhantes.
Desculpem… murmurou, já entrando antes de ser invitado. Não aguentei… Naquela casa está vazio demais.
Cheirava a tabaco e ar frio. Na mão trazia o saco com as tais bolachas.
Pai, aconteceu alguma coisa? António, tenso.
Não, afastou Pedro, mas o olhar era estranho. Só queria ver-vos.
Margarida recordou o funeral da sogra, a expressão perdida de Pedro quem perdeu o norte.
Prepararam-lhe chá. Pedro não contou piadas, ficou calado, a lançar frases soltas:
Ela gostava de chá à noite…
As mãos tremiam-lhe ao partir as bolachas.
Vi estas bolachas hoje na loja, murmurou. Conhecemo-nos ali, a escolhermos a mesma caixa. Ela disse: Leve, que eu faço dieta. E eu decidi casar com ela.
Margarida, naquele dia, só teve pena.
Venha quando quiser, Sr. Pedro, disse ao despedir-se ao amanhecer. Estamos cá.
E ele veio, sempre que precisava o que, na vida dele, era quase sempre depois da meia-noite.
Com o tempo, já não recordava quando houve mais que uma semana sem aparecer pelas noites.
***
Quando Margarida tentou falar com António, ele só encolheu os ombros:
Ele sempre foi notívago, lembrava. Sempre gostou de estar de madrugada a ler ou mexer em papéis. Mesmo quando era miúdo andava de pé pela noite.
Mas era na casa dele. Agora é na nossa.
Para ele, a nossa casa é uma extensão, justificava António. Deve sentir-se só lá. Até medo deve ter.
Eu também tenho medo, confessou Margarida. Que não durmo. Que Matilde acorda. Que salto a cada toque como se fosse incêndio.
António calava-se. Entre ele e o pai, pairava algo não dito ele próprio parecia suspenso entre irritação e justificações. O é o meu pai ficava sempre de permeio a evitar uma conversa frontal.
Certa noite, Margarida não resistiu: não foi à cozinha.
Fingiu dormir no quarto. António foi abrir. Portas, passos, vozes.
Meia hora depois, Margarida ouviu um murmúrio diferente. A curiosidade venceu o cansaço. Espreitou.
Pedro estava sozinho na mesa António já tinha ido dormir. Fotos antigas espalhadas à frente. Só a luz do candeeiro a criar uma pequena ilha.
Leonor, olha-te aqui… sussurrava ele, vendo as fotografias. Disseste que fugia se engordasses. Que parvo eu, calado. Devia ter dito que eras tudo.
Virou a foto.
António aqui pequenino. A ver filmes ao nosso lado. Lembras-te como o Alexandre vinha à uma da manhã e ficava até às três? Disseste: Deixem vir, enquanto podem. A casa só se fecha depois de morrermos.
Falava sozinho, mas havia um pedido velado: Deixem-me ter uma casa aberta, nem que seja uma vez à noite.
Margarida ficou, apertada por dentro. O sogro não era um monstro era um rapaz velho, perdido na madrugada.
Isso não anulava o cansaço mas a compaixão tornava tudo mais difícil.
***
Um dia, decidiu brincar.
Verão a começar, noite quente, janela aberta. Campainha pontualíssima. Margarida não correu vestir o robe, mas pôs-se de kimono de seda e com máscara de dormir por cima dos olhos presente da Olga. Puxou-a para a testa como adereço.
Que estrela de cinema, comentou António.
Pronto, hoje é a estreia de Em casa de Pedro Dias, ironizou Margarida.
Abriu a porta com pompa.
Boa noite, saudou teatralmente. Bem-vindo à nossa sessão exclusiva noturna chá, bolachas e insónias como brinde.
Pedro partiu-se a rir.
É esta a juventude! exclamou, fascinado. Com humor. Eu pensava que já dormiam às dez e acordavam às seis.
Na cozinha, Margarida abriu uma embalagem de café, tocou no despertador da bancada.
Devíamos instituir tradição: Meia-noite à portuguesa. Chá, bolachas e guitarradas. O despertador é que não se desliga.
O importante é ter histórias para contar! Lembras dos comboios noturnos, António? Noite dentro, chá nos copos. As melhores conversas vêm de noite.
E disse:
Há portas que vale a pena manter abertas. Pode alguém precisar nunca se sabe.
A frase colou-se-lhe como pedra nos sapatos doce mas perigosa.
Às vezes esquecem que por dentro das portas estão pessoas também, pensou. Mas só murmurou:
E janelas que é melhor fechar, senão apanhamos uma constipação.
Pedro sem apanhar o duplo sentido continuava a contar, sem reparar que, nos olhos da nora, se misturava cansaço e irritação crescente.
***
Um dia, Margarida não abriu a porta.
Matilde estava doente, febre, noite intranquila. Por fim, a filha dormiu, e Margarida sentou-se, exausta. Às tantas como sempre a campainha.
Não nesta noite, sussurrou.
António estava no trabalho, era só ela e a filha. Ficou quieta. Mais um toque, depois outro. Depois silêncio.
Contou até cem, até duzentos. O coração aos saltos. Pois, não abriste. E não caiu o mundo.
De manhã, ao abrir a porta para pôr o lixo, viu à soleira o saco verde das bolachas, ligeiramente húmido do sereno. E um bilhete, quase infantil: Adormeceram. Não quis incomodar. Pedro.
Só isso. Sem queixa. Só o saco ali.
Margarida sentiu uma dorzinha, misto de culpa e raiva: Por que é que hei de sentir-me má só por querer dormir?
***
Após outra noite dessas, a casa parecia um cobertor encharcado pesada, fria.
Matilde apanhou uma constipação a correr descalça pela cozinha atrás das histórias do avô. Febre, tosse, noite em branco. Margarida com olhos de panda, no trabalho sobrevivendo a café.
Ao jantar, a mulher pousou a panela no fogão e de repente tudo rebentou.
Não aguento mais, disse sem olhar.
Como assim? António estava a preparar o chá.
Não vivo mais neste horário dele. Não somos um pronto-socorro de chá e bolachas à uma. Temos uma filha, trabalho. Não me sinto dona desta casa.
António ia replicar, mas ela ergueu a mão.
É o teu pai, está sozinho, custa-lhe. E eu? Eu também sou mãe, mulher, gente, com corpo e limites. E ninguém pergunta como estou.
Ele calou-se.
Era preciso falar a sério hoje, os três. Sem dez minutos. Quero a noite só para dormir. Sem visitas.
Vais proibi-lo de vir? perguntou António.
Quero que venha durante o dia. Ou até às nove. Não o expulso; só expulso o hábito noturno.
Ele suspirou.
Pode ficar ressentido…
Eu já fiquei, respondeu Margarida. Por fingir que não custa. E os meus tudo bem viraram pequenas desistências dos meus hábitos.
A clareza das palavras surpreendeu-a. Ele baixou a cabeça.
Vamos tentar. Eu estarei ao teu lado.
***
Quando viu a caixa de fitas nas mãos do sogro naquela noite, foi como completar o puzzle.
Festas de Família 1979 dizia na tampa. Pedro pousou-a sobre a mesa com orgulho.
Vejam só! Uma vida inteira aqui.
Podemos falar antes? arriscou Margarida, enquanto António preparava chá.
Falar de quê, tão tarde? tentou brincar Pedro.
Das noites as suas e as nossas.
Pedro parou de sorrir.
Estou a ouvir, respondeu, a tentar esconder o nervosismo.
Vem cá sempre tão tarde, explicou Margarida de mansinho. Para si, é hora de memória viva. Para nós, de sono. António e eu trabalhamos. A Matilde tem escola. Ficamos exaustos.
Pedro franziu as sobrancelhas.
Estou a incomodar? a voz baixou.
António interveio:
Pai, gostamos sempre da tua companhia. Mas de noite, a sério, é pesado para nós. Especialmente para a Margarida. E para a Matilde.
Ela assentiu.
Até oiço os toques antes de irem, fico ansiosa. E a Matilde, sempre a sonhar com alguém a bater à porta… com a maçaneta quente.
Pedro passou o olhar entre ela, António e a caixa.
Eu achava que estava tudo como antes. Eu e a Leonor adorávamos chá noturno. Portas sempre abertas… Se alguém vem, é porque precisa mesmo.
E nós precisamos mesmo dormir, respondeu Margarida com firmeza, mas ternura. Não porque não gostamos de si é porque também gostamos de nós, da nossa filha.
O silêncio caiu.
Pedro olhou as mãos trémulas.
Então… não querem que venha?
Queremos muito, disse Margarida. Mas não à uma da manhã. Venha de dia, à tarde, até às dez. Avise antes. Preparo o seu chá favorito.
António corroborou:
Bebemos chá felizes só mais cedo.
Pedro demorou. Depois, em voz baixa:
Não fazia ideia do peso que era. Pensei… Se eu não durmo, os outros também.
Margarida sentiu um nó desatar-se.
Ele não era mau. Só alguém que perdeu a noção do tempo, porque o seu tempo parara na noite em que Leonor partiu.
Vamos ver a fita juntos sábado à tarde? propôs Margarida. Fazemos chá, bolachas, como em 1979. Toda a família.
Pedro olhou a caixa, depois para ela.
E se à noite precisar…
Ligue-nos se for urgente, disse Margarida. Estamos cá. Mas só para chá, deixe para a luz do dia.
António acrescentou:
Só assim posso falar contigo de verdade não quando já nem percebo o que contas.
Pedro sorriu, triste.
Velho cabeça dura, murmurou. Achava que dez minutos não doíam.
Esses dez minutos já somaram um ano, lembrou Margarida.
Ele aceitou:
Pronto. Fica o filme para sábado.
Eu acompanho-o até à saída, disse Margarida.
No hall, demorou com o casaco, como se quisesse atrasar-se.
Margarida, se eu tocar sem querer tarde…
Vou preocupar-me consigo. Mas não posso abrir sempre. Também sou humana.
Ele acenou. Nos olhos, talvez, respeito pela sinceridade.
***
O sábado chegou.
Uma sala quase cinema: projetor antigo encontrado por sorte, lençol branco colado à parede, cortinas fechadas.
Pedro sentou-se perto do projetor, a caixa no colo como relíquia. Matilde aninhada no colo da mãe, agarrada a um coelhinho de pelúcia. António a tratar dos cabos.
Enfim, o projetor começou a rodar, um facho de luz rasgou a penumbra e figuras a pularem na parede.
Uma mulher jovem de vestido florido, sorriso solar. Ao lado, Pedro, ainda sem cabelos brancos, braços sobre os ombros dela. Entre eles, António pequenino, rotundinho, olhos confiantes.
Mesa de fim de ano, tangerinas, sardinhas em lata, luzes. A câmara mostra na porta um letreiro: Casa aberta sempre. Mesmo à noite. Para os nossos.
Margarida sentiu o letreiro ao peito.
Pedro engoliu em seco.
Foi ela que escreveu, murmurou. Queria que soubessem.
Na tela, Leonor ria ao abrir a porta para alguém invisível. Luz, vozes, alegria. O relógio no fundo: 01h05. No canto, alguém escreveu: Sempre bem-vindos, portas sempre abertas.
Pedro chorou baixinho, o corpo a tremer.
Matilde adormecera, mão à volta do pescoço da mãe.
O projetor sussurrava: Leonor a secar pratos, Pedro a beijá-la, António de roda da árvore.
Margarida entendeu: as visitas noturnas de Pedro não eram só rotina. Eram uma tentativa desesperada de regressar ao tempo das portas abertas para a gargalhada, não para o cansaço.
***
O projetor parou. O quarto envolvido de sombra. Matilde ressonava. Pedro enxugou a cara.
Desculpem-me, disse de repente. Pensei estar a fazer-vos bem. Que se viesse de noite… não ficava sozinho.
Não está sozinho, mesmo sem raides noturnos, sussurrou Margarida. Agora vamos abrir a porta de dia.
Dias depois, Margarida foi ao supermercado. Além das bolachas de aveia verdes, comprou um termo prateado, com montanhas desenhadas. Mantém quente oito horas, dizia a etiqueta.
Pôs tudo numa caixa, junto com uma pequena chaveiro.
Num cartão: Sr. Pedro, nossa casa está sempre aberta para si. Sobretudo de manhã. O termo para que leve calor consigo. A chave para entrar de dia, quando for esperado. Telefone antes. Abraço da Margarida, António e Matilde.
Ligou-lhe em pleno dia, por iniciativa.
Sr. Pedro, bom dia, disse. Amanhã há chá cá em casa. De manhã. Venha à hora que quiser. Até ao meio-dia, pode ser?
Ele riu, com alívio.
Convite oficial? quis saber.
Tentar criar uma tradição nova, ripostou Margarida. Sem turnos noturnos.
No dia seguinte, Pedro apareceu às dez. Avisou antes: Estou a chegar, estejam prontos. À porta, camisa limpa, um ramo de margaridas brancas na mão.
Para ti, Margarida, envergonhado. Pela paciência.
Debaixo do braço, um urso de peluche com gorro de dormir.
Para a nossa Matilde. O cão de guarda noturno agora só entra nos sonhos para contar histórias.
Margarida sorriu verdadeiramente.
Entre, convidou. O chá já o espera.
Na cozinha, o sol desenhava retângulos dourados na mesa. Chá quente, bolachas estaladiças. Matilde, acordada e fresca, apertava o urso a rir. António partilhava novidades do trabalho; Pedro respondia com piadas do tempo dos comboios noturnos.
O mesmo Pedro, as mesmas histórias. O tempo, esse, era diferente: manhã em vez de noite. Visita desejada, não rompida.
Ao deitar Matilde, Margarida ouviu:
Mamã, hoje não sonhei com o avô.
E gostaste? perguntou.
Sim, refletiu a filha. Dormi só. E de manhã ele veio mesmo.
Margarida sorriu no escuro.
Assim deve ser.
Pela madrugada, quando o relógio marcou 01h15, a casa estava quieta. Ninguém tocou à campainha. Pela primeira vez em muito tempo, Margarida acordou por estar descansada não obrigada.
Foi então que percebeu: aprendeu a falar das suas fronteiras, não aos gritos nem pela culpa, mas pelas palavras. A vida não desabou. O sogro não desapareceu. Só deixou de aparecer à noite.
E isso, num mundo de casas pequenas e grandes cansaços, já era uma enorme vitória sua e de toda a família.
Moral: O amor verdadeiro não apaga os nossos limites ensina-nos a cuidar deles com respeito e sinceridade. Só assim conseguimos cuidar verdadeiramente uns dos outros.






