O Meu Lugar
Mãe, estás a brincar comigo?! O que é que estás a fazer? quase chorei, observando a minha mãe a atirar do roupeiro as minhas poucas coisas. O meu vestido favorito, vermelho com pintinhas brancas, caiu no chão, chamando logo a atenção do meu irmão mais novo, o Tiaguinho, que brincava no tapete. Ele agarrou o cinto e tentou pôr na boca. Não, Tiago! Dá cá!
Ai, tem pena do trapo! a minha mãe, Maria Antónia, lançou um par de calças de ganga para cima das outras roupas e fechou a porta do armário num estrondo. Vá, despacha-te!
Mas onde é que queres que eu vá, mãe? Onde vou dormir a estas horas? O que é que te deu?
Faço o que quero, que esta casa é minha! E tu aqui não tens lugar!
O quê? E eu? Isto não é também a minha casa, mãe?
Não, minha querida! Aqui não é nada teu! a minha mãe pegou no Tiaguinho ao colo, limpando-lhe o nariz com a barra do meu vestido vermelho. Nadinha! E chega de me moeres a cabeça! Agora é que estava a começar a arranjar a minha vida, e tu vens estragar tudo? Nem penses!
O que é que te estrago, mãe? Diz-me!
Quem é que dá conversa ao Carlos e se põe toda a rir? Não és tu?
Mãe! gritei tão alto que o Tiaguinho se assustou e começou a chorar. Tu estás a ouvir-te?!
Estou, sim! E já chega! Agora, quero-te fora daqui em cinco minutos!
Bateu com a porta, deixando-me sozinha. Fiquei parada, sem saber o que fazer. Tinha sido posta fora de casa. Senti a cabeça vazia as ideias vinham partidas em mil pedaços, nem sabia por onde começar. Depois, ouvi o choro do Tiago do outro lado da porta e o corpo mexeu-se sozinho, na direção do som. Desde que o Carlos apareceu, o novo marido da minha mãe, a responsabilidade de cuidar do Tiaguinho calhava-me quase sempre a mim. Ele não tinha paciência nenhuma para crianças. A minha mãe, que antes era ternurenta e próxima, agora entregava-me o irmão sem pensar duas vezes, dizendo:
Toma conta dele! Já és crescida, tens obrigação de ajudar!
Crescida Ontem ainda era a filha mimada da minha mãe e do meu pai, hoje sinto-me uma estranha na minha própria casa. Nos últimos dois anos, tudo mudou demasiado depressa.
Tudo começou com a morte do pai, um enfarte do nada. Tão injusto. Se alguém estivesse naquele momento na paragem de autocarro, talvez ainda o salvasse. Não tinha cinquenta anos o meu pai bem vestido, distinto, ninguém diria que era um sem-abrigo. Ficou ali, caído no chão durante mais de uma hora, e as pessoas passaram ao lado, apressadas, sem sequer perguntar se precisava de ajuda. Talvez tivessem pensado que estava bêbado. Quando uma senhora finalmente lhe tocou no ombro, já era tarde demais.
A minha mãe ficou aquilo que se diz em choque: gelada, parada no tempo. Eu chorava-lhe ao ouvido, mas parecia que não me ouvia. Enterrou o meu pai sem uma lágrima e depois fechou-se no quarto. Esqueceu-se de mim.
Não tínhamos família e os antigos amigos dos meus pais eram conhecidos, daqueles que só aparecem de passagem. Os meus pais orgulhavam-se de serem independentes. Diziam sempre que só precisavam um do outro. Eu acreditava nisto, não gostava que viessem convidados pensava sempre: Ninguém nos faz falta.
Isto era até ao primeiro ano, quando a professora me sentou ao lado da Ivonete uma miúda miudinha e cheia de energia, com duas tranças pretas grossas. As minhas caracóis louros pareciam insignificantes ao lado delas, e invejava-a tanto! Todo o trabalho da minha mãe, a tentar domar as minhas caracóis rebeldes, era em vão, e fui logo apelidada de Dente-de-leão na turma.
Toquei nas tranças da Ivonete só ao fim de dois dias, quando ela, aborrecida com o peso do cabelo, resmungou: Estou farta disto! Ainda corto isto, nem que a minha mãe me bata. Eu, sem pensar, passei-lhes a mão e segredei: Nem penses! São lindas!
Foi assim que nasceu a nossa amizade. A Ivonete era a quarta filha dos Santos uma família enorme, cheia de gente, numa casa gigante nos arrabaldes do Barreiro, com tantos anexos que pareciam casas diferentes. Lembro-me da confusão boa do barulho de crianças, primos, avós, tios. Tentei perceber quem era quem, mas desisti. Fui acolhida pela mãe da Ivonete, que sentava todos à mesa, sem perguntas, e enchia-nos tanto de comida que só nos conseguíamos mexer a rastejar.
Os irmãos ajudavam-se nos trabalhos, a irmã mais velha ensinava-nos a cozinhar. Ali, até as mais pequenas sabiam amassar massa e fazer bolos maravilhosos. Eu era proibida de chegar perto do fogão, porque a minha mãe dizia és muito nova.
Fui percebendo que família grande e amigos podiam ser um conforto, um alívio. Com o tempo, claro, aprendi que nem tudo é perfeito familiares também podem tornar-se distantes. Mas, para mim, era tudo novidade. Estranhava ver a Ivonete a receber montes de prendas, não só nos anos mas em todos os pretextos: santos populares, Natal, aniversários de tios… Frequentemente nos calhava alguma coisa.
Porque é que te oferecem prendas se não é o teu dia? perguntava-lhe. Ela, espantada, sem perceber a minha dúvida:
Para quê esperar um motivo para agradar a quem gostamos? Espera só para veres quando for o Natal!
A mãe nunca aprovou esta minha amizade. Achava a família da Ivonete uma balbúrdia. Se soubesse da casa deles, proibia-me de lá ir. Felizmente, trabalhava muito, chegava tarde, e eu conseguia despachar-me de casa a tempo de ir jantar com a família Santos, onde me sentia protegida, querida. Era lá que respirava.
Quando, no funeral do meu pai, a mãe não conseguia sair do quarto, foram os irmãos da Ivonete que apareceram: trouxeram dinheiro, trataram de tudo, obrigaram a minha mãe a despachar-se. Resolviam assuntos práticos, ampararam-nos e nunca pediram nada em troca. A Ivonete chorava comigo, amassando massa dos bolinhos com lágrimas, fez tantos que distribuímos pela vizinhança.
A partir daí, estavam sempre presentes. Com a chegada do segundo pai, o Carlos, senti-me ainda mais afastada. O homem fazia-me sentir desconfortável. Depois do nascimento do Tiaguinho, a minha mãe parecia insuportável. Fechava-me no quarto à noite, mas a minha mãe zangava-se por trancar a porta podia a qualquer momento aparecer e largar-me o irmão para eu o adormecer. Se eu protestava, gritava ainda mais.
Antes de acabar o curso, arranjei trabalho num centro de saúde para estar mais fora de casa: fazia turnos de noite e passava dias sem voltar.
Entretanto, casei a Ivonete um casamento arranjado pelos pais, ainda adolescente. Não conseguia perceber aquilo.
Vais casar só porque os teus pais querem? Nem conheces o rapaz! protestei com ela.
É nosso costume. Os pais escolhem, querem o melhor para nós, vai tudo correr bem respondia, arrumando o véu de noiva.
Eu não sabia o que pensar nem o que responder. Chorei quando ela foi para Lisboa viver com o marido uma casa comprada pelos sogros.
Aqui, a minha vida já estava de pernas para o ar: a minha mãe dependente do Carlos, cada vez mais distante, eu tentava atrasar ao máximo a chegada a casa. Depois uma vizinha fez um comentário sobre mim que era bonita, já uma mulher, e que devia começar a pensar na vida. Isso parece que tocou num nervo da minha mãe e, a partir daí, escureceu de vez o ambiente.
Nessa noite, fui posta fora de casa. Sentada na cama, juntei as minhas coisas à pressa, com a cabeça a mil por hora: se não tinha lugar ali, onde ia eu encontrar o «meu lugar»? Foi por hábito que pensei em ligar à Ivonete, mas ela estava grávida. Não queria preocupar-lhe.
Dei uma última olhada ao quarto. Peguei na fotografia do meu pai, guardei-a na mochila e enxuguei as lágrimas. Talvez fosse melhor assim. Talvez aqui já nem pertencesse.
Na cozinha, a minha mãe fazia barulho, entre panelas e o ruído da televisão. Pensei em passar no corredor e despedir-me, mas calei-me: não havia mais nada a dizer. Para quê magoar-me mais? Já não era a minha casa.
A noite já tinha caído quando saí do prédio, enrolada no meu cachecol largo prenda de Natal da Ivonete e no blusão quente. O Outono chegara tarde a Lisboa mas agora fazia-se sentir, obrigando os apressados a tirarem das gavetas casacos e botas. Não queria nunca mais voltar àquele apartamento. O ressentimento crescia dentro de mim como um bicho pequeno e feroz, mas afastei esses pensamentos.
A paragem do autocarro estava quase deserta. Uma mulher já de certa idade e um cão vadio eram os únicos. Sentei-me no banco frio com a mala. Senti-me perdida.
Quando parou um carro ao meu lado, assustei-me. O vidro baixou:
Leonor?
Afonso?!
Foi um alívio. O irmão mais velho da Ivonete. O mesmo que nos ajudava com matemática e tinha sido fundamental no funeral do meu pai.
O que fazes aqui a estas horas, carregada de malas? Vais trabalhar?
Não Quer dizer Ia para o hospital.
Não estás boa a inventar, Leonor. Que se passa? Porquê estares com as coisas todas?
O olhar dele era tão atento, tão solidário. Nem sei como, mas desabafei tudo: sobre a minha mãe, sobre o Carlos, sobre não ter para onde ir.
Entra no carro. Disse ele, e decidi confiar.
O Afonso conduziu calmamente pelas avenidas de Lisboa. O rádio baixinho, eu em silêncio, a sentir por instantes uma paz frágil, com vontade de congelar o tempo. Só me percebi que não íamos ao hospital quando passámos aquela saída.
Afonso Isto não é o caminho.
Não vais dormir lá hoje! Qual era o teu plano? Ficar no hospital uma noite e depois?
Não sei
Eu sei. Vens comigo.
Paramos num prédio bonito em Campo de Ourique, protegido por um gradeamento alto. O segurança deixou-nos entrar. O Afonso ajudou-me com a mala, entrámos e subimos ao terceiro andar. Tocou à campainha e esperámos longos minutos. A porta abriu-se e surgiu uma senhora gigante, de vestido à solta e postura de montanha.
Afonso! Mas porquê sem avisar? A senhora pareceu acalmar e sorriu ao ver-me. Ora, tu és a amiga da minha Ivonete! Vi-te na boda! Entra, filha, como se fosse tua casa! Não fiques aí a olhar para mim, não sejas acanhada.
Senti o calor daquele apartamento logo à entrada. O chão brilhava de limpo, havia uma daquelas luzes de cristal a piscar. O Afonso sussurrou qualquer coisa à avó e saiu, despedindo-se só com um gesto.
E então, vais ficar aí à entrada para sempre? Anda sentar, temos de conversar! Quero saber porque anda por aí sozinha uma rapariga tão bonita. A tua mãe deixou-te assim?
Acho que sim
Mal me sentei, comecei a chorar tudo: o cansaço, a tristeza, o medo, todos de uma vez. A senhora (que depois soube chamar-se Leonor, como eu para todos era Dona Leninha) sentou-se ao meu lado, passou-me a mão pela cabeça, embalada como se outra vez pequena.
Pronto, filha Todos temos de passar por momentos duros, mas a vida continua. Nada é para sempre, nem as tristezas. Vais ver!
Pôs-me a beber um café forte na cozinha, de bica curta como as avós portuguesas preparavam. Senti o amargo e, de repente, as lágrimas faziam sentido.
A Dona Leninha contou-me da sua infância no Alentejo profundo, das agruras da vida, de dificuldades, de perder família para a guerra e para a emigração, de aprender a fazer das perdas força para proteger quem ficou para trás. Falou de resiliência, de saber perdoar.
Sabes, Leonor, o que me salvou sempre foi ter os outros à minha volta. Agora quero dar-te isso também. A partir de hoje, ficas aqui até estares bem, até encontrares o teu rumo. Vais aprender a cuidar de ti, a cozinhar, a viver.
Riu-se, o vozeirão a encher a cozinha.
Vais ver como ficas ótima a fazer filhoses e broas. Virares mulher a sério! Eu cá ensino!
E cumpriu: dois anos depois, eu cozinhava tão bem como a Ivonete, que vinha de visita com filhos para comer os meus pastéis.
Está melhor que o meu! Disseste-me que meteste na massa? perguntava, entre gargalhadas.
Eu já me sentia parte daquela família, daquela casa que era meu abrigo.
Mas o tempo traz novidades indesejadas. Soube que a minha mãe estava gravemente doente. Tinha acabado por ser internada no hospital onde eu trabalhava, via-a apenas de longe.
A Ivonete pressionou-me:
Leonor, tens de ir!
Não consigo, Ivonete Não sabes o que ela me fez.
E achas que vais conseguir viver com esse peso? Um dia vai ser tarde.
Acabei por ir.
Cuidar da minha mãe foi duro. Os ressentimentos dissolveram-se na doença. Passadas semanas a dormir na cadeira ao lado dela, convencida de que me odiava, ouvi finalmente um pedido de desculpa. Na hora de dizer adeus, lembrei-me de um verão antigo, do carinho, dos beijos doces, do vestido vermelho às bolinhas. Tudo se reconstruiu dentro de mim como pequena peça de felicidade.
Perdoo-te, mãe, perdoo-te
Pouco depois, recuperei o meu irmão Tiago. Passei por processos, batalhas em tribunais, fiz tudo para que viesse viver de novo comigo.
Um dia, ao abrirmos juntos a porta do nosso novo apartamento tão pequenino, mas todo nosso ele olhou-me muito sério:
Agora já é mesmo a nossa casa?
É, Tiago. Este é o nosso lugar. Aqui, ninguém mais nos tira.
E era verdade: só assim, juntos, conseguimos afinal encontrar o nosso porto de abrigo. Onde, por fim, tudo fazia sentido.






