Parente da Noite e o Preço da Tranquilidade

Parente da Noite e o Preço da Paz

Outra vez, não, murmurei, fitando o lava-loiça cheio de água com espuma.

O relógio de parede na cozinha marcava 1:15. A casa estava mergulhada em silêncio. No quarto ao lado, a pequena Brígida já devia sonhar. No nosso quarto, suponho que a Leonor já adormecera. A luz amarela da lâmpada refletia um círculo tímido sobre a mesa, onde repousava, abandonada, uma chavena de chá de lúcia-lima, já frio.

O toque da campainha cortou o silêncio, incisivo como uma lâmina. Demorado, insistente, com pausas curtas, provocando em mim aquele desejo impotente: Por favor, que seja noutra noite

Do quarto chegou o sussurrar sonolento e reconhecedor de Leonor:

É outra vez ele?

Esfreguei as mãos no robe, a esconder o bocejo bem aquele, que me apetecia transformar num aviso: Estou a dormir, mundo, não me incomodes e caminhei até à porta. Pelo caminho, sentia uma mistura de irritação, remorso por esse mesmo sentimento, e um cansaço que pesava como cobertor molhado.

O olho-mágico mostrava a silhueta familiar. Forte, envolto num casaco de pele já antigo, boina recuada na cabeça. Era o meu sogro, Sr. Manuel Rodrigues. Como sempre, meio de lado, uma mão na parede e a outra a segurar uma caixa de cartão volumosa.

Aos seus pés, um saco do Pingo Doce já sabia que lá dentro havia bolachas. Sempre as mesmas.

Abri a porta.

Diogo! sorriu ele, como se fosse meio-dia. Não dormes? Melhor assim. Não vou ocupar mais de dez minutos.

Boa noite, Sr. Manuel, forcei um sorriso. São horas já sabes.

Ora, a noite ainda é um miúdo! desvalorizou ele. E eu também, enquanto as pernas mexem. Vais-me deixar à porta? Mesmo tendo comigo um tesouro?

Levantou a caixa. A tampa exibia uma etiqueta desbotada Filme 8 mm. Num canto, garatujado a esferográfica: 1978. Passagem do Ano. Casa. Tresandava a pó, armários antigos e algo de um tempo que só conhecia por fotografias.

Imagina, encontrei isto! exclamou, já a entrar no hall, sem esperar convite. Estava no sótão do meu vizinho. Disse-lhe logo: Isto é meu!. Primeiro não acreditou, mas depois, ao ver a letra, disse: É a Elsa, conheço o traço.

O nome da esposa falecida, Elsa, ecoou no corredor como um pequeno fantasma.

Do quarto surgiu Leonor, olhos semicerrados pela luz, de t-shirt desbotada e calças de fato de treino.

Pai tossiu. Já passa da uma.

Ah, pois! animou-se Manuel. A melhor hora para recordar. Queixaste-te do quê, filho? Com a tua idade, isto era altura de bailaricos.

Cada palavra entusiasta de Manuel retinia-me na cabeça. Ainda assim, surgia-me, involuntário, o pensamento: Mas está sozinho. Ali no escuro da casa dele. E se tem medo?

Venha para a cozinha, sugeri, abafando um suspiro. Baixinho, por favor. A Brígida dorme.

Claro, claro, prometeu, sacudindo o casaco enquanto tirava Sou leve como um rato.

Um rato, pensei, que toca à campainha como uma sirene dos bombeiros.

***

Na cozinha, Manuel tomava sempre o mesmo lugar junto ao radiador. As minhas costas odeiam correntes de ar, justificava. Peguei numa chávena, servi-lhe chá instintivamente, em modo automático de turno noturno.

Leonor, ainda a bocejar, sentou-se à frente do pai e olhou a caixa.

O que é isto? perguntou.

O nosso cinema! rufou Manuel, quase solene. Filme. Velhinho, mas vivo. Aqui tens a tua mãe, tu em miúdo. E a árvore, as saladas, a prima Célia com aquele nariz de…

Riu-se. E prosseguiu, enchendo a cozinha de memórias e calor. Manuel parecia ganhar vida à medida que as horas caíam.

Ouvi-lhe histórias de chegar gente mesmo depois da meia-noite, de portas abertas por simpatia, de Elsa a dizer: À noite, as portas servem verdadeiramente a quem precisa.

Fiz que sim com a cabeça. As palavras agarraram-se-me.

Pai, Leonor esfregou os olhos. E vens mostrar o filme ou é só para contar?

Sim, sim, disse Manuel, impaciente. O problema é não ter o aparelho.

Pois, numa casa T2 ao cimo da Rua da Alegria, guarda-se um projetor de 8 mm entre o piano e a prensa, ironizei.

Manuel ignorou o sarcasmo.

Arranja-se, disse, otimista. Podem digitalizar numa loja. E tu, Diogo, que és engenheiro, safas isso. Por ora, conto eu.

E lançou-se. Das máquinas fotográficas aos Invernos passados no campo. Elsa rindo-se, a neve-lhe a cair-lhe no pescoço. As palavras corriam, intermináveis, como chá do velho bule. Era como se Manuel não vivesse pelo relógio, mas pelas histórias não contadas.

Ia ouvindo sem realmente prestar atenção, sentindo aquela batida persistente na cabeça: Amanhã acordo às sete, levo a Brígida ao Jardim de Infância, tenho de fechar aquele relatório… estou a cair de sono…

***

Um leve ruído trouxe-me de volta.

À porta da cozinha, apareceu uma figura pequena, de pijama cor-de-rosa com estrelas. Brígida esfregava os olhos, cabelos em desalinho total.

Papá… sussurrou, tropeçando no limiar.

O que tens, pequena? deitei-me a ela para evitar que caísse.

Tenho sede… murmurou a miúda. E sonhei… com o avô outra vez.

Manuel, ouvindo a palavra avô, inflacionou-se:

Vês? endireitou-se. As crianças sentem o sangue a chamar.

Brígida lançou-lhe um olhar turvo, perdida entre dois mundos.

Apareces-me todas as noites disse, grave. Bates e bates, e eu não consigo fechar a porta porque a maçaneta está quente.

Um calafrio percorreu-me. Leonor franziu o sobrolho.

Que sonhos são esses? perguntou, baixando o tom.

Não são sonhos maus, garantiu Manuel. A alma da neta sente a do avô.

Ou então sente falta de silêncio, pensei, mas só respondi:

Vá, Brí, deita-te. O avô há-de vir… noutra altura.

Mas vem à noite? insistiu.

Encontrei o olhar de Manuel. Estava sincero, quase inocente.

De dia também pode ser, Princesa. Até melhor.

Brígida suspirou e aninhou-se no meu ombro.

Levei-a de volta para o quarto, a pensar: É sempre assim. Os dez minutos do Manuel viram horas de chá, bolachas, olhos pesados e o nosso horário aos cacos.

No corredor, ouviam-se só os tic-tacs do relógio. Era quase duas da manhã. Inspirei fundo. A minha paciência, como o despertador, já só tinha poucos minutos de tolerância.

***

E sempre à uma da manhã, queixava-me, há dias, ao telefone com a minha amiga Vera. Não tem vergonha ou juízo nenhum. Acha que isto é uma tasca vinte e quatro horas, Café do Genro.

Vera ria e acompanhava-me no lamento.

Aceite as minhas condolências, Diogo, disse ela, dramática. A tua casa foi tomada pelo espírito dos patriarcas noturnos.

Muito engraçado, resmunguei. Falo a sério. Já nem durmo direito, passo a noite a pensar e se toca desta vez outra vez. E toca! Sempre a prometer que são só dez minutos.

Toma como um desafio, ironizou Vera. Tens o modo noite hardcore: acorda, enche a chaleira, ouve o monólogo. Prémio: bolachas.

Não contive o riso.

Traz sempre as mesmas expliquei. Daquelas de aveia, embaladas de verde. Já não as posso ver.

Isso já é símbolo, divagou ela. Devias ajustar-lhe um alarme de convidado.

Como assim?

Ligar-lhe tu às duas da manhã.

Isso é crueldade, gozei.

Vera riu alto.

Estou a brincar! Mas, a sério, as regras precisam de ser ditas. Senão ele acha que está tudo bem. Se continuas a abrir…

É o meu sogro, Vera… Está sozinho, ficou viúvo, a Leonor é filha única. Como lhe digo: Sr. Manuel, não venha durante a noite? Ele tem a tensão alta, muitos fantasmas…

Tu também tens coração e tens uma filha. Os teus limites são legítimos. Só assim te cuidas e ajuda toda a gente.

Fiquei calado. A palavra limites picava-me por dentro. Sempre achei que ser bom genro ou nora, era aguentar.

***

A primeira visita noturna do Manuel foi seis meses depois da morte da Elsa.

Pensei que fosse só aquela vez. Luto partilhado à noite porque de dia dói mais aceitar a solidão.

Estávamos já a deitar, o quarto escuro, a luz da rua a fazer um quadrado na parede. O silêncio quase era sono, quando a campainha descreveu uma alarma.

Quem será a estas horas?! exclamou Leonor.

Toque insistente, desesperado quase. Levantei-me, a calçar as calças à pressa:

Algum problema…

Abri a porta e ali estava o Sr. Manuel desalinhado, sem casaco, numas calças de fato de treino. Os olhos húmidos.

Desculpa… balbuciou, entrando sem esperar convite. Não consegui… ficar lá. Sozinho. Sítio vazio…

Cheirava a tabaco e ao ar frio da rua. Na mão, o saquinho das bolachas de sempre.

Sentes-te mal, pai? Tensão?

Não, não. desvalorizou. Só quis ver-vos.

Fizemos-lhe um chá na cozinha. Dessa vez não contou anedotas só ficou calado, a soltar frases soltas:

Ela adorava… beber chá à noite…

A mão tremia ao partir as bolachas.

Hoje vi estas bolachas no supermercado… Conhecemo-nos frente àquelas prateleiras. Ambos pegámos na mesma caixa. Disse: Leve você, eu tenho de controlar a linha. E decidi que ia casar com ela.

Naquela noite, não senti raiva só pena.

Venha sempre que precisar, Sr. Manuel, disse-lhe, despedindo-me ao amanhecer. Estamos cá.

Tomou as palavras por literais. Passou a vir… sempre que precisava. Mas precisar coincidia geralmente com a madrugada.

A segunda vez foi na semana seguinte. Depois uma terceira. E já não me lembro de grandes pausas entre visitas.

***

Quando tentei falar sobre isso com Leonor, ela encolheu os ombros.

Sempre foi notívago, sabes bem, disse. Ficava noites a ler, a trabalhar. Mesmo eu, miúda, acordava e lá estava ele, às três da manhã, na cozinha com um livro aberto.

Mas nessa altura era na casa dele… agora é aqui.

Para ele, esta também é casa. Está sozinho. E mais de noite sente-se pior.

Eu também tenho medo, confessei. Porque não durmo. A Brígida acorda. Eu salto à porta como se fosse incêndio.

Leonor remeteu-se ao habitual silêncio cúmplice de filhos e pais. Entre eles, tudo ficava por dizer. E pairava esse mas é o pai, tropeço eterno.

Uma vez não me levantei. Fiquei ali, olhos fechados, a fingir que dormia. Leonor levantou-se. Ouvia-lhes o sussurrar da porta, passos e pequenas trocas.

Passada meia hora, ouvi um murmúrio estranho. Fui espreitar à cozinha.

Manuel estava sozinho, Leonor já regressara ao quarto. Espalhava fotografias antigas pela mesa, apenas iluminado pelo candeeiro, como ator num palco privado.

Elsa, olha aqui… sussurrava ele às fotos. Neste vestido querias saber se eu deixava de gostar se engordasses… Eu, tonto, nem soube responder.

Virou a foto.

Aqui está o Vítor, traquina ainda. E ali o televisor velho onde víamos filmes juntos… Lembras-te daquela noite que apareceu o Manel e só foi embora de manhã? Disseste: Deixem-nos vir, enquanto podem. Fechar portas só quando formos embora.

Falava consigo próprio, mas naqueles sussurros pedia: Deixem só um cantinho da vossa casa aberto à noite para mim.

Fiquei parado, o peito apertado. Não era nenhum monstro. Era só um homem, adulto-vazio, perdido na noite dos outros.

A irritação não desapareceu, mas ganhou tons de tristeza difícil de gerir.

***

Uma noite decidi brincar com a cena.

Era início de verão, uma noite morna. Vinha aí a visita habitual. Vesti sobre o pijama o robe mais berrante e, para incluir a Leonor, pus-lhe a máscara de dormir da praxe, empoleirada na testa.

Estás pronta para o festival? gozou ela.

Hoje sou eu a estrela da noite: Espectáculo do Sr. Manuel.

Abri a porta, fazendo pose teatral.

Bem-vindo ao serão especial cá de casa, anunciei. Em cartaz: chá, bolachas e olheiras nacionais.

Manuel riu-se, encantado.

Isto é que é juventude! aplaudiu. E eu, já vos tinha posto na categoria dos reformados.

Na cozinha, peguei numa nova caixa de café do armário, bati no velho despertador que costumamos pôr para desligar o forno.

Podíamos lançar um ritual: Meia-noite à moda italiana. Chá, bolachas, música! Só que o despertador das seis não se apaga…

Que importa? Manuel fez graça. Ao menos há histórias para contar! Lembras-te, filha, das viagens de comboio à noite? O chá nos copos de metal, gente como se fossem família. De noite é quando se fala melhor.

E saiu-lhe:

Na vida há portas que têm mesmo de se manter abertas. Um dia alguém precisa mesmo.

A frase ficou-me a gravar o espírito. Era ao mesmo tempo bonita e perigosa.

Mas esquecem-se que dentro das portas também há pessoas…, pensei. Mas só disse:

E há janelas que têm de estar fechadas para não arrefecer a casa.

Como sempre, Manuel ignorou a ironia. Continuou a despejar histórias, alheio à tempestade de sono nos meus olhos.

***

Certa vez, decidi não abrir.

Brígida estava doente, febre em cima. Finalmente consegui pô-la a dormir. E logo, com aquela precisão, a campainha disparou.

Agora não, murmurei.

Leonor estava de turno noturno. Só eu e a pequena em casa. Fiquei parado. Novo toque. Mais um. Depois, silêncio.

Fiquei a contar até cem, duzentos. Senti o coração às marteladas. Pronto resmungava para mim próprio desta vez não abri. E cá estamos, o mundo não acabou.

No dia seguinte, ao abrir a porta para levar o lixo, dei com o saco do Pingo Doce à soleira. Molhado do sereno da noite. Bolachas. Ao lado, um papelinho rabiscado: Adormeceram, não quis incomodar. M.

Nada de queixa, só este gesto. E eu a sentir, em simultâneo, culpa e stresse: Por que razão me sinto mau só por querer dormir?

***

Depois de mais uma dessas noites, a casa era um cobertor húmido sobre mim. A Brígida, gripada levantou-se algumas vezes, pés descalços pela cozinha enquanto Manuel contava a enésima graça. Febre, tosse pela noite. De manhã, eu parecia um panda.

Ao final do dia, enquanto mexia na panela de sopa, olhei para a Leonor e senti-me desabar.

Já não aguento, confessei, sem encará-la.

Como assim? ela punha água à fervura.

Não posso viver ao ritmo dele. Não sou turno de chá de serviço. Temos filha, trabalho. Não me sinto dono da casa.

Leonor ensaiava o típico mas é o nosso pai….

Levantei a mão.

Basta. Só oiço que é o pai, que está sozinho, que sofre. E eu? Sou marido, sou pai, e pessoa com direito ao meu corpo e aos meus limites! Eu por dentro, a fazer de conta há um ano.

Ela calou-se.

Acho que devíamos falar os três. Sem mais dez minutos. Digo-lhe que preciso dormir, ter noites de verdade, sem chamarizes noturnos.

Queres… proibi-lo de vir? arriscou Leonor.

Quero que venha de dia. Ou, pelo menos, antes das dez. Não é expulsá-lo da vida, é expulsá-lo do nosso horário.

Ela suspirou fundo.

Pode ficar magoado…

Eu já estou, suspirei. Por fazer de conta. Os meus está bem são rendições pequenas. Chega.

Como era óbvio, ao dizer isto, emancipei-me. Ela baixou os olhos.

Pronto, vamos tentar. Eu apoio-te.

***

Naquela noite, ao ver a caixa do filme nas mãos do Manuel, tudo começou a alinhar-se.

Natal de Família 1979 lia na caixa. Pousou-a na mesa com aquela reverência dos tesouros.

Quer ver primeiro? arrisquei, enquanto Leonor punha chá.

O quê? ele, espantado. Tristezas depois. Primeiro relembrar!

Troquei um olhar com Leonor. Ela fez sinal: Agora.

Pus a chávena diante dele, sentei-me à frente e senti o coração a saltar.

Sr. Manuel, respirei fundo. Ficamos contentes por si, por encontrar memórias, por nos visitar. Mas precisamos de falar…

Que tema tão grave que me obriga a conversar à noite? brincou.

Sobre as noites, afirmei com seriedade. As suas e as nossas.

Deixou de sorrir.

Diga lá, pediu, tentando esconder preocupação.

Vem cá sempre tarde. Para si é o tempo bom dos sonhos. Para nós, é de dormir. Amanhã há creche, trabalho. Fica duríssimo, acordar a qualquer hora.

Ficou sério.

Estou a incomodar?

Leonor interveio:

Pai, não incomodas. Amamos-te. Mas pesa muito à noite. Especialmente ao Diogo e à Brígida.

Acenei. Fui sincero:

Tenho medo de cada toque depois das dez. Parece que o coração foge. A Brígida sonha que alguém bate constantemente à porta. Não temos descanso.

Manuel olhou-nos, olhou para a caixa.

Pensei que… bem, antigamente, as portas sempre estiveram abertas. A Elsa dizia: Quem bate à noite é mesmo porque precisa.

Agora, nós precisamos é de dormir, disse com firmeza. Não por falta de carinho, mas porque, para amar os outros, também nos amamos a nós próprios.

O silêncio adensou-se.

Manuel olhava as mãos, um tremor subtil.

Então… não querem que eu venha?

Queremos muito. Mas de dia, ou até às dez. Telefona antes, combinamos o teu chá favorito.

Leonor acrescentou:

Pai, preferimos estar contigo acordados do que cair para o lado sem conseguir ouvir as tuas histórias.

Demorou a responder. Depois, baixo, disse:

Não me apercebi do quanto vos peso. Achei que, se não durmo, os outros também não…

Senti um alívio quase físico.

Ele não era mau. Só ficou com o tempo parado numa noite, há dez anos.

Podemos ver o filme juntos… sábado, de dia. Vens tu, eu, Leonor e a Brígida. Pomo-nos a reviver o Natal, mas mais cedo.

Manuel olhou para a caixa, depois para nós.

E se à noite for duro…?

Ligue, disse, tranquilo. Se for urgente, estamos cá. Mas chá, agora só nas horas certas.

Leonor concordou.

Pai, assim ainda pomos em dia conversas. Agora, nem me lembro do que contas de tão cansado que estou.

Manuel esboçou um sorriso triste.

Tonto velho, murmurou. Sempre pensei que dez minutos fossem de leve.

Já vão em ano inteiro, rematei, com delicadeza.

Ele acenou.

Está decidido: o filme espera por sábado. Vou andando.

Eu acompanho, ofereci-me.

Demorou a vestir o casaco, a estender o tempo.

Diogo, disse à saída, se tocar tarde por engano…

Vou pensar que precisa de ajuda. Preocupo-me. Mas não prometo abrir sempre. Também sou gente.

Acenou. Havia nos olhos dele, talvez, respeito.

***

O prometido sábado chegou.

Sobre a mesa, um projetor antigo, emprestado de um colega. A sala parecia um mini-cinema improvisado: cortinas corridas, lençol branco como écran. Manuel sentava-se na dianteira, feliz como um puto. Brígida no meu colo, coelha de peluche à mão. Leonor às voltas com cabos e tomadas.

Enfim, o projetor ganhou vida, o facho de luz rasgou a sala e na parede nasceram figuras a sépia.

Mulher jovem de vestido de chita sorriso a iluminar a sala. Ao lado, Manuel jovem, farto de cabelo e sem rugas, os braços na Elsa. O pequeno Leonor, rechonchuda, a saltitar.

Tábuas preparadas de Natal: tangerinas, sardinha, electricidade mágica. Em dado momento, a câmara foca um cartão colado na porta: Casa aberta sempre. Até de noite. Família entra sem pedir.

Senti aquilo a bater-me dentro.

Manuel fungou, metade lágrima.

Foi ela quem escreveu, segredou. A Elsa. Tinha orgulho nisso.

Na fita, Elsa abria a porta a quem não víamos e ria: Entrem! Risos, confusão, e um relógio de parede: 1:05. Em baixo, alguém escrevera: Cá, todos são bem-vindos. Porta aberta, sempre.

Manuel chorou baixinho, só os ombros a abanar.

Brígida adormeceu no colo, quente, rendida à calma que nunca tinha antes.

O projetor calou-se, a sala ficou à penumbra. Manuel passou as mãos pelo rosto.

Desculpem, murmurou. Juro que achava bem. Achei que, entrando às escuras, não era um peso.

Respondi:

Continua a ter companhia. Só… agora abrimos a porta de dia.

Dois dias depois, fui ao supermercado. Peguei as bolachas de aveia e, de impulso, um pequeno termo prateado de montanha Mantém quente até 8h.

Fiz um embrulho bonito, pus a chave extra e um papelinho:

Sr. Manuel, bem-vindo à nossa casa, sempre. Especialmente de manhã. O termo, para guardar o calor; a chave, para entrares em dias claros. Liga antes. Gostamos de ti. Diogo, Leonor, Brígida.

Liguei-lhe. Pela primeira vez em muito, de dia.

Sr. Manuel, queres vir amanhã para um chá? À hora que quiseres mas antes do meio-dia.

Riu-se. No riso, o alívio.

Isto é convite oficial?

Tentativa de começar tradição nova. Sem turnos de madrugada.

No dia seguinte, apareceu às dez. Telefonou antes: Já saí, estejam preparados. Na porta, camisa engomada, ramo de malmequeres na mão.

Isto é para ti, Diogo. Pela paciência.

Debaixo do braço, levava um urso de peluche de barrete de dormir.

Para a Brígida, disse. Guarda-noite: o avô entra só nos sonhos bons.

Sorri, de coração leve.

Entre, o chá está à mesa.

Na cozinha, o sol desenhava quadrados. O chá aromático, as bolachas estaladiças. Brígida abraçava o urso; Leonor conversava sobre trabalho, o avô respondia com piadas do tempo do comboio da meia-noite.

Era o mesmo Manuel, as mesmas histórias. Mudara a hora; era manhã, planeada, não invasora.

Nesse dia, ao deitar a minha filha, ouvi:

Papá, o avô hoje não veio ao meu sonho.

E gostaste?

Gostei. Dormi só… E de manhã ele era de verdade.

Sorri, no escuro.

Que fique assim.

Pela primeira vez, acordei sozinha antes do despertador; dormi toda a noite, simplesmente, porque pude.

Aprendi devagar, quase sem querer a dizer os meus limites com palavras, não com raiva nem vergonha. E vi que o mundo não desabou. O meu sogro continuou a existir na nossa vida só passou a respeitar o nosso sono.

E isso, para mim e para todos nesta casa, foi uma vitória.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

Parente da Noite e o Preço da Tranquilidade