Hóspede de Inverno
Na aldeia, o inverno cai cedo, e quando o vento sopra forte, mais cedo ainda. Às sete da noite, o que se via pela janela era só neve e o rumor abafado de branco grudando no vidro, escorregando preguiçoso por ele abaixo.
Eu, fiel ao meu ofício, estava sentada na mesa, a revisar um manuscrito.
O trabalho não tinha urgência o prazo era para dois de janeiro mas sou portuguesa, e procrastinar não é tradição por cá. E, francamente, o que mais faz uma mulher sozinha na véspera de Ano Novo, a setenta quilómetros de qualquer cidade e sem televisão há uma década?
A casa em Malhada do Rio comprei-a há vinte anos com o meu marido. Achámos que era para o verão, para os fins-de-semana, para respirar. Mas depois o António partiu de repente e Lisboa deixou de fazer sentido. Mudei-me de armas e bagagens, incluindo manuscritos, portátil e a minha gata Balbina, que dorme sobre o radiador e nem desconfia da ventania lá fora.
Os vizinhos? Só comentaram nos dois primeiros anos. Depois habituaram-se. Nádia Oliveira, editora, mora naquela casa das portadas azuis, sai para ir aos Correios e ao minimercado de três em três dias. Não chateia ninguém, também não espera visitas. Boa vizinha.
Na mesa, uma montanha de folhas impressas. No topo lia-se: E. Tavares. Passei oito meses a lidar com aquele romance. Oito meses a remodelar, debater com a editora, receber respostas com notas de aprovado ou volte a insistir, e a voltar ao texto. O autor era anónimo: só o apelido, só a inicial, só a história de uma vida toda a ir na direção errada até perceber que podia ir noutra.
Bom romance.
Já revi de tudo e reconheço qualidade à distância. Este tinha mesmo voz nada artificial, nada ensaiado. Ou há, ou não há, e a pessoa nota. O autor notava e, sintomaticamente, tinha medo disso.
O telemóvel tocou às sete e meia.
Nádia, desculpa, ainda vais entregar antes do prazo? era a Catarina, da editora. Voz de quem sabe que está a ligar em dia de festa.
No dia 2.
A sério, mulher? Pode ser depois do dia 10, são festas!
Diz lá à chefe: segundo dia do ano. Nem mais, nem menos.
A Catarina riu-se, despedimo-nos. Voltei à papelada página 117, terceiro parágrafo de cima. Havia uma frase que me inquietava há três dias. Estava fora do lugar, mas não entendia porquê. Não era as palavras, nem o sentido era o ritmo, olha. A frase era longa, afundava o texto. Já tinha experimentado cinco versões e cinco vezes apaguei.
À sexta, ficou.
Anotei, reli, dei-me satisfeita e fechei o portátil. Faltavam duas horas para o inevitável toque.
O toque chegou às nove e meia.
Não foi na janela foi na porta.
Primeiro pensei: vento. Mas vento não bate, prensa e geme. Aquele era bater três vezes, depois mais duas.
A Balbina abriu um olho e voltou a dormir.
Levantei-me, fui à janela, puxei a cortina. Estava lá um homem. Sozinho, sem carro só neve a perder de vista e ele, no meio do nada, de sobretudo que claramente já não estava para invernos rigorosos. O candeeiro da rua balançava no vento e dava para ver: não era ameaça, estava era congelado.
Num povoado português, não abrir porta é quase heresia. Ainda por cima numa noite destas.
Puxei o casaco e fui destrancar.
Boa noite disse ele, ainda da soleira. Voz baixa, rouca. Desculpe o incómodo. Fiquei com o carro atolado, fiquei sem bateria no telemóvel. Vi luz.
Era alto, quase batia com a cabeça na ombreira. Sobretudo aos quadrados, encharcado. Num mão, óculos; noutra, nem mala, nem mochila. As lentes embaciadas, por isso segurava assim.
Entre, faz favor convidei.
Entrou devagar, cuidadoso, à moda de quem agradece hospitalidade a desconhecidos.
O carro ficou longe? perguntei enquanto tirava o cachecol.
Uns duzentos metros pela estrada. Disse o GPS siga por aqui, mas não era, atolou logo. Pausou. E deixei o carregador em casa. Logo hoje…
Percebo.
Enquanto ele se livrava do sobretudo no hall, pus água ao lume. Quando voltei, ainda segurava os óculos na mão, lentes turvas. Só os pôs quando os aqueceu na palma da mão.
Pendure aí. Apontei para o cabide junto ao espelho.
Obrigado. Pendura o casaco, finalmente calça os óculos. Eugénio.
Nádia. Indiquei a cozinha. Sente-se, à vontade.
Aqui todos se conhecem. A aldeia mais próxima é Vale dos Pardais, seis quilómetros a campo aberto. Casas dispersas, alguns veraneantes, mas de inverno quase ninguém. Entre nós, só um pinhal antigo e uma má estrada.
É de Vale dos Pardais? perguntei enquanto ele se instalava à mesa.
Comprei lá casa este outono, foi a estreia no inverno. Riu-se de si mesmo. Não previa estas aventuras.
Não viu a meteorologia?
Vi. Dizia queda moderada de neve.
Moderado entre Lisboa e Trás-os-Montes não é a mesma coisa.
Fiquei a saber.
Pus-lhe a chávena na frente. Chá quente, sem burocracias. Ele agarra com as duas mãos e fica ali, um tempo, calado.
O carro não me preocupa disse ele. Chama-se um reboque, resolvido. Só preciso de ligar.
Trago-lhe o carregador. Apontei para a tomada junto ao frigorífico. Está lá o fio.
Ligou o aparelho. Voltou ao chá.
E vive aqui há muito? perguntou.
Quase cinco anos a tempo inteiro. Antes era só fim-de-semana.
E não sente falta da cidade?
Não.
Não puxou o tema. E agradeci.
O telemóvel dele era um daqueles que já são relíquias. Pequenino, os cantos todos gastos. A carregar dos 0% aos 5%, eram quarenta minutos sabia porque tenho um igual na gaveta.
Portanto, ia ficar uns tempos.
Peguei na minha chávena:
Já jantou?
Pequeno-almoço.
Pequeno-almoço?
Pensei que vinha cá num salto, olhar para a casa e voltar.
Havia sopa da véspera, sopa de feijão com couve. Pus a aquecer. Não me veio com não se incomode, não precisa. Só esperou. E isso soube-me bem.
Enquanto a sopa borbulhava, estivemos apenas em silêncio. Não era mau, só silêncio. Cá fora o vento afinava, a Balbina soprava ar pelo focinho no radiador, e a luz era amarela e paciente. É estranho ter alguém estranho na cozinha e sentires calma. Normalmente dá nervos.
Meia hora depois, nova rodada de chá.
A tempestade não abrandou. Fomos bebericando caldo e nem demos à conversa. Não por falta de temas só porque não se sentia pressa nenhuma.
Aqui é sossegado disse ele.
Sempre. Tirando o vento.
Não falo do barulho apontou para a sala. Não há TV, nem rádio a bombar.
Há rádio. Pequeno, no parapeito. Uso às vezes.
Ah. Pausou. Na cidade, nem paro para ouvir a própria cabeça sem auscultadores. Oiço tudo: vizinhos, elevador, obras. Enerva.
Trabalha com?
Escrita. Pegou na chávena. Dois anos num romance só. Parece muito?
Por cá, até pouco.
Entreguei-o este outono. Agora não sei o que fazer da vida.
Conhecia bem essa sensação. Não em mim, mas nos autores: depois de terminar, fica um vazio, e a coisa incomoda. Uns escrevem logo outra coisa, outros vagueiam às aranhas, outros mudam de profissão. Cada um no seu compasso.
Passa disse-lhe.
Sei. Mas enquanto não passa…
A Balbina saltou do radiador, cheirou-lhe a mão, e voltou ao seu poiso. Ele reparou.
Isso é bom sinal?
Assim-assim. Se ficasse, era excelente.
Hei de merecer melhores notas da próxima.
Ri-me.
Posso perguntar? disse ele, depois de um silêncio.
Força.
Porquê no dia dois?
Não apanhei logo.
O prazo, explicou. Ouvi-a ao telefone dizer no dia dois. Hoje é trinta e um, podia deixar para depois. Porquê insistir agora?
Era uma pergunta certeira. Demasiado certeira para alguém que mal tinha acabado de entrar, encharcado do nada.
Hábito, respondi.
Qual?
Não deixar coisas quase acabadas por terminar.
Olhou-me, desconfiado, como se quisesse ver se era toda a resposta.
E também não faz sentido esperar. Não celebro o ano novo especialmente. Prefiro trabalhar do que ficar a contar os segundos.
Aceito, disse. Levou aquilo a sério.
Isso também era bom.
Nova pausa. A tempestade agitava as portadas da casa ao lado os Oliveira foram para o Algarve em novembro e só voltam na Páscoa. Já estava habituada ao barulho, mas naquela noite fazia-se notar.
Estava a trabalhar quando bati à porta, comentou ele. Não era uma pergunta.
Estava.
E faz exactamente o quê?
Edito manuscritos de ficção.
Interessante.
Olhou para mim mais detidamente.
Gosta de mexer no texto dos outros? Não pesa?
Pensei.
Se o texto é mau, pesa. Se é bom, não. Dá vontade de polir ainda mais. É como restauro: já lá está tudo, só tiras os excessos.
Ele voltou a acenar. Quieto, pensativo.
E não se importa que lhe toquem no texto?
Só se cortam o que é essencial.
Como distingue o que é essencial?
Se dói cortar, é porque era.
Boa definição. Tão escritor, pensei eu. A pensar à base de cortes e do que fica caro ao coração.
Já lhe mexeram mal nos textos?
De tudo um pouco. Pensou. Editaram-me o primeiro livro de tal modo que ficou irreconhecível. Era sobre o mar, ficou sobre o escritório e o chefe. Exagero, mas percebe a ideia.
E consentiu?
Tinha vinte e nove anos. Achava que sabiam sempre mais.
Depois percebeu?
Depois, sim. Saber mais não é o mesmo que ter razão.
Não podia concordar mais. O editor pode ser perito sem ouvir a alma do autor. E isso é pior.
***
Lá fora, era noite cerrada nem fachos de luz, só vento e neve grossa, e do candeeiro já só restava um halo.
Eugénio no segundo chá. A Balbina passou por ele sem cerimónia, inspecção feita, voltou a dormir. Ele respeitou; ela aborrece-se se a chamam.
Posso? Acenou para a estante junto à janela.
Claro.
Levantou-se, olhou sem tocar, só a ler lombadas. Muito romance policial para descontrair, expliquei; ali resolve-se tudo, ao contrário da vida.
Pegou na chávena.
Conte-me do romance, pediu.
Demorei a perceber.
Que está a editar.
E quer saber porquê?
Interessa-me saber como vê o trabalho. A restauração.
Conversar com um desconhecido sobre trabalho, enquanto o chá aquece as mãos, parecia improvável. E naquele instante era tão simples.
História de um homem que demorou a perceber que tinha medo de mudar. A certa altura, percebe que viver de hábito não é escolher.
E ele, no fim?
Vai-se embora. Não das pessoas, mas do eu antigo. É, sinceramente, o melhor desfecho possível.
Eugénio pensou.
E gosta daquele final?
Gosto. O autor quis outro.
Qual era?
Um regresso. O herói voltava ao que tinha deixado.
Conseguiu convencê-lo?
Dei a minha sugestão. Decidiu ele. Como deve ser.
Baixou o olhar, com uma gravidade recatada.
Por que acha o ir embora um melhor fim?
Porque regressar responde a onde. Sair responde a quem.
Isso é seu ou do romance?
Meu. Escrevi como observação ao texto.
Outra pausa, sem pressa.
Sempre pensa assim dos finais?
Só quando sinto verdade. Uma história falsa pode acabar de mil formas; nenhuma convence. Uma verdadeira só tem um caminho, e o editor só tem de não estragar.
Olhou pela janela, por muito tempo.
Deve ser difícil.
O quê?
Ler o que é do outro. Ler mesmo.
Pensei.
Às vezes. Se o autor resiste, não se vê, faz birra. Este não.
O de agora?
Sim.
Em quê?
Ponderei um pouco. Não sobre enredo já o resumira. Noutro sentido, aquilo que me prendeu alí.
Há uma frase disse. Cortei-a e ele aceitou. Mas ainda penso se fiz bem.
O original?
Era sobre a tempestade. O autor escreveu com detalhe, mas deprimia o ritmo. Encurtei ficou mais limpo, talvez perdi algo.
Perdeu o quê?
Sabe Deus. Qualquer coisa de vivo.
Leia como ficou.
Olhei para ele, pedido estranho, mas justo.
A tempestade não escolhe. Só fica, quando tudo o resto já partiu.
Eugénio ficou calado.
Nem um segundo nem dois; muito mais. Senti que algo mudara nele, não na sala. Olhava para o tampo da mesa, segurando a chávena com disciplina, demasiado quieto, e percebi: reconhecia aquilo.
Algum problema? perguntei.
Não. Pausa. Eu escrevi diferente. A tempestade não escolhe caminho, apenas sabe que só fica quem não teme o frio.
Pousei a chávena, devagar. Tinha de o fazer tudo com calma.
Essa frase era a da página 117, terceiro parágrafo de cima. Passei três dias em cima dela a aparar. Da revisão só eu, o autor e a editora sabiam. O original, só ele e eu.
Não estava publicado. Não andava por aí.
Você é E. Tavares disse.
Nem perguntei.
Ele acenou.
Eugénio Tavares.
Não soube o que dizer. Parecia improvável e, de repente, tão óbvio. Dois desconhecidos, duas horas à mesa, a falar de finais e vazios, quando já tínhamos oito meses de conversa só que por e-mail. Eu reescrevia-lhe os parágrafos, ele cortava os meus. Nós já tínhamos discutido tudo sem nunca tomar chá juntos.
Percebi que o conhecia, mas como texto não como pessoa. Sabia os truques, sabia como pensava, quando cortava, quando hesitava. Ele, só sabia o meu initial.
Era, de facto, injusto.
E então, numa ventania, veio bater à minha porta.
***
Porque não disse logo? perguntei.
Não sabia que era a minha editora. Só disse escrevo.
Eu só disse editora.
Pois. Falhamos ambos.
E tinha razão. Ninguém mencionou nomes concretos; ambos preferimos a discrição. E deu nisto.
A sua frase disse eu , cortei-a porque era longa. Perdia-se o ritmo.
Eu aceitei.
Mas a sua, honestamente, é melhor.
Olhou-me.
Acha mesmo?
A minha é mais certinha, a sua mais verdadeira. A verdade, às vezes, é mais importante do que estar certinho.
Ele ficou perdido no silêncio.
Pode voltar ao original? perguntou.
Já está na editora. Mas se pedir, eles devolvem-me, eu ponho.
Não, deixe estar. O ritmo é importante, tem razão.
Nem discuti. Importava-me que tivesse perguntado.
O telemóvel piou quinze por cento. Podia já telefonar, mas não se mexeu.
Leu o romance inteiro? perguntou ele.
Três vezes. O editor lê três: uma para perceber, outra para sentir, terceira para trabalhar.
E no sentir?
Olhei-o.
Que quem escreveu passou muito tempo a tentar entender alguma coisa. E conseguiu.
Baixou o olhar.
Aproximadamente, sim.
O seu romance é bom, acrescentei. Não costumo dizê-lo alto. É mesmo verdadeiro.
Não respondeu. Só acenou, e percebi que lhe dizia muito, mesmo sem o confessar.
O silêncio voltou, mas agora era confortável. Depois de se dizer coisas importantes, fica-se em paz.
Sempre esteve sozinha? perguntou.
Sabia ao que se referia. Não àquela noite à vida.
Não. O António faleceu há cinco anos.
Sinto muito.
Não precisa. Agora só dói diferente.
Não me disse “eu sei”. A maior parte das pessoas diz, quase sempre mentira. Perguntou:
Porque a Malhada do Rio?
Porque é sossegado. E porque aqui ainda está um bocadinho dele.
Eugénio acenou. Com peso.
E você, porquê Vale dos Pardais?
Divorciei-me há dois anos. Fiquei com um apartamento vazio em Lisboa. Pausa. Comprei a casa para que a solidão fosse de outra qualidade.
Ri-me. Ele disse, em palavras, o que eu nunca conseguira explicar.
Exactamente.
Percebe-me, então?
Óptima compreensão.
Sorriso discreto, mas real. Desta vez percebi-lhe o gesto.
Cortou o monólogo do herói na quarta parte comentou.
Cortei.
Porquê?
Porque não dizia nada ao leitor que não se soubesse já. Era desnecessário.
Custou-me.
Sei. Escreveu isso nas notas.
E respondeu percebo, mas não.
Porque percebia, só que mesmo assim, não. Pesar no texto não é argumento.
Pausa.
Tem razão. Sem o monólogo ficou melhor. Depois percebi.
Só depois é que todos veem.
Não lhe custa que só agradeçam no fim?
Pensei.
Não. O que interessa é que fique um texto bom. Quando sair, digo a mim mesma aprovado. Chega.
Olhou-me mais tempo do que um estranho costuma olhar.
Achava que os editores eram anónimos.
Deveriam ser. O trabalho não é sobre nós.
Mas não é anónima.
É um problema.
Não é disse ele. Não é mesmo.
***
Faltavam quinze para a meia-noite.
Ano Novo em quinze minutos, assinalou ele.
Pois é.
A ventania, agora, parecia dormir. Só neve grossa no vidro, sem vento, e o candeeiro imóvel. Caía neve, mas suavemente, parecia cansada de dançar.
Não tem nada além de chá? perguntou.
Tenho vinho. Abri no Natal.
Está bom?
Ainda está.
Branco.
Peguei na garrafa, dois copos vulgares. Enchi poucochinho.
Brindamos ao quê? perguntou.
Ao ano novo.
Muito vago.
Então, à honestidade. Que às vezes vale mais do que estar certinho.
Olhou-me directo nos olhos. Pela primeira vez, não desviei.
Concordo.
O rádio velho, oferta do António, ainda murmurava vozes da cidade, como sempre na passagem do ano.
Desta era diferente.
Brindámos em silêncio. A Balbina mexeu-se, espreguiçou-se e ficou de novo a dormir. Lá fora, a neve assentava serenamente.
O telemóvel tocou trinta por cento.
Eugénio olhou para o aparelho, para a janela, e finalmente para mim.
O reboque não vem esta noite.
Não. Só amanhã.
Tem onde dormir?
Acenei.
Divã no escritório. O manuscrito ainda lá está, mas tiro-o para o lado.
Não tire. Não quero incomodar.
Não quero incomodar. Bem dito não era fico sossegado nem prometo não dar trabalho. Não se mete onde não é chamado. Como se percebesse o valor da confidencialidade.
Está bem disse.
Levantei-me para ir por água ao lume outra vez. Só porque sim.
Nádia chamou ele.
Virei-me.
Ainda bem que o carro enterrou no caminho.
Olhei para ele só dizia o que pensava, sem rodeios.
Ainda não sei se concordo.
Eu sei. Pausou. É normal.
A água borbulhou.
Enchi as chávenas. Pus-lhe uma à frente.
Lá fora, a neve caía devagar. E a tempestade, essa, já tinha passado.
Mas ele não.
E eu não perguntei quando ia.
O manuscrito estava no escritório ao lado página 117, terceiro parágrafo de cima. Lá, a frase dele na minha versão; na cabeça dele, talvez, a sua. Ambas a dizer o mesmo. Sobre o que resta, quando tudo o resto se vai.
Talvez essa fosse a verdade.
Eu sentei-me, mão na chávena, ele à minha frente, lá fora já sem tempestade só neve serena e um ano novo que se iniciava.






