Inveja no Limite

Inveja no limite

Sim, é mesmo isto que eu preciso! Ele nunca irá perceber que não está com a sua noiva

Aurora permanecia em frente ao espelho, analisando cada detalhe do seu reflexo. Levou devagar a mão ao cabelo, corrigiu uma madeixa rebelde e ajeitou-a atrás da orelha. O coração batia mais depressa o que via superava tudo o que tinha imaginado! Maquilhagem, penteado, expressão tudo copiado ao ínfimo pormenor. Aurora prendeu a respiração só faltava vestir o vestido preferido da irmã e nem a mãe conseguiria distinguir as duas à primeira vista.

A ideia arrancou-lhe um sorriso, mas rapidamente olhou para o relógio da estante: faltavam vinte minutos para Miguel chegar. Uma ligeira ansiedade apertava-lhe o peito. Tudo tinha de correr perfeito sem hesitações, sem falhas na entoação. Se Miguel desconfiasse, todo o plano caía imediatamente por terra e mais uma vez a irmã sairia vencedora, como tantas outras vezes.

Respirou fundo, a tentar controlar o leve tremor das mãos, e dirigiu-se para a porta. Precisamente no momento em que a campainha tocou, Aurora já estava pronta para a sua atuação. Abriu a porta e, ao ver Miguel, a sua expressão iluminou-se com um sorriso caloroso, um brilho descontraído no olhar.

Miguel, olá! disse ela, num tom suave e controlado, escolhendo cada palavra com cuidado.

Sem esperar reação, levantou-se rapidamente a dar-lhe um beijo na face, tal e qual como observara antes. Nada de exageros, tudo conforme o combinado.

Entra, queres um café? convidou, recuando um passo e indicando com um gesto para ele entrar. No tom, aquela naturalidade de quem está numa noite comum, não numa operação planeada ao pormenor.

Ele franziu ligeiramente o sobrolho, intrigado pelo comportamento dela, mas logo deixou escapar um sorriso curioso. Percebera qualquer coisa, mas não resistia à curiosidade. Porque estaria a irmã da noiva a fazer-se passar por Leonor? Decidiu não estragar o jogo, acenou com a cabeça e seguiu Aurora até à cozinha.

Aurora movia-se apressada entre armários. As bochechas já a doíam do sorriso estranho, daqueles que não era bem o seu suave e quase angelical como o da irmã. Os gestos denunciavam um certo nervosismo: dispôs as chávenas, os pires, as colheres, espreitando de vez em quando a garrafa de vinho do Porto vintage, discretamente pousada numa prateleira. Guardara-a a pensar no momento ideal para oferecer a Miguel um copo, que pudesse relaxá-lo.

Sabia bem: Miguel raramente bebia álcool, dava-se muito mal com ele, mas uma taça entre pessoas de confiança, especialmente se o ambiente fosse agradável, aceitava. Precisava que ele se descontraísse, perdesse um pouco da habitual atenção, para dar seguimento ao seu plano.

Enquanto preparava o café, Miguel já se sentara à mesa, braços cruzados, observando atentamente cada movimento dela, intrigado e divertido ao mesmo tempo. Por fim, não resistiu e quebrou o silêncio:

Aurora, afinal porque é isto tudo? E onde está a Leonor? Se isto é uma brincadeira, não é das mais engenhosas

Aurora hesitou, os olhos a procurarem o chão, mas recompondo-se de imediato e respondendo com um sorriso forçado, esforçando-se para soar despreocupada:

Como percebeste? Não é uma partida. É um experimento. A Leonor não sabe de nada.

Miguel ergueu uma sobrancelha, rodando a chávena de café nas mãos, interessado mas sem se expor demasiado. Queria que fosse ela a explicar o resto.

Vocês podem ser gémeas, mas são muito diferentes. É difícil confundir-vos.

Nem esperou resposta e tirou o telemóvel, digitando uma mensagem rápida à noiva a perguntar onde estava. O ecrã iluminou o rosto, logo voltou ao bolso.

Então qual é mesmo o objetivo deste experimento? repetiu, guardando o telemóvel.

Aurora ficou um instante em silêncio. Bebeu um gole de chá, criando coragem, e depois falou com um brilho inusitado:

Vês, toda a gente nos confunde. Tu dizes que somos diferentes, mas até a mãe se engana quando usamos roupas iguais. Vestimos o mesmo, penteados parecidos e somos iguais, como duas gotas de água.

Parou, recordando momentos desagradáveis do passado, depois continuou:

Às vezes é desconfortável. Especialmente por causa de pessoas de quem gostamos. Já houve situações desagradáveis como aquele dia em que o meu namorado marcou encontro comigo e acabou a ir ter com a Leonor, por acaso estava mais perto. Ou aquela vez em que a Leonor queria falar com o teu amigo e ele achou que era eu, contou-lhe coisas que a chatearam.

Então porque não mudam o visual? perguntou Miguel, com expressão pensativa. Lembrava-se bem dos desabafos da noiva: a Leonor já dissera que Aurora recusava a mudar o penteado ou o estilo, até parecia gostar de ser confundida, e a irmã é que se adaptava.

Aurora reagiu logo fez uma careta divertida, como quem saboreava algo azedo.

Não tem piada! Demos a palavra uma à outra de manter tudo igual até acabar a faculdade. Foi um pacto. Além disso hesitou, depois deixou escapar um sorriso malandro às vezes é útil, até os professores não conseguem distinguir-nos.

Riu-se, um riso breve e levezinho, satisfeita com a astúcia delas a contornar as regras.

Pois, percebo murmurou Miguel, fitando-a com atenção. Nesse instante, ouviu o bip do telemóvel. Leu a mensagem: Leonor aguardava-o no café habitual. Não desconfiava de nada.

Miguel olhou Aurora nos olhos, um vislumbre de compaixão evidente.

Fica descansada, não vou contar à Leonor o que fizeste. Sei que te preocupas com ela. Não quero ser motivo de problemas entre vocês.

Aurora soltou finalmente o ar, visivelmente aliviada. Sorriu-lhe com gratidão.

Obrigada, Miguel. És mesmo boa pessoa.

Pronto, vou andando, senão a Leonor fica preocupada disse, levantando-se. Até logo.

A porta fechou-se, deixando Aurora sozinha. O silêncio na casa parecia ensurdecedor, como se o mundo inteiro parasse. Sentou-se à mesa, agarrada à ponta da toalha para não rebentar em lágrimas. Porque falhara? Porque ele resistira? Como é que nem aquele plano, pensado ao pormenor, conseguiu realizar-se?

Os pensamentos atropelavam-se. Voltava à primeira vez que Miguel entrara nas suas vidas. Lembrava-se do sorriso dele, da forma como cativava toda a gente com facilidade e elegância natural. Cada vez que o via, o coração batia mais forte. Imaginava mil conversas com ele, ensaiava frases, sonhava com tardes a passear e rir juntos. Mas o medo impedia-a sempre: medo da rejeição, medo de abalar a relação com a irmã.

Já a Leonor era outra coisa: ousada e direta, chegou um dia a casa com Miguel, apresentando-o à família como se nada fosse. Este é o Miguel, disse, e os pais abriram um sorriso estavam radiantes com o novo namorado.

Aurora recordava aquela noite até aos pormenores ela, parada à entrada da sala, a ver Miguel rir-se dos disparates do pai, responder com educação à mãe. Por dentro tudo fervilhava, mas por fora sorria: a cordialidade era a sua única defesa naquela tempestade interior.

Ele devia ser dela sentia-o de forma quase dolorosa. Fora ela quem o notara primeiro, quem se apaixonara em segredo. Dias e noites imaginando um futuro juntos. E Leonor só precisou de o levar a casa, num gesto natural, sem pensar duas vezes.

Aurora respirava fundo, tentando controlar o tremor nas mãos. Não podia deixar-se consumir pelo ressentimento. Mas como resistir, se tudo ainda doía tanto?

Leonor era sempre o centro das atenções. Era o sol espontânea, divertida, com um sorriso cativante. Adorava festas, jantares, convívio; e, curiosamente, era brilhante na universidade, passando nos exames com facilidade, sem noites em claro.

Aurora não era assim. Fechada, prudente, meticulosa, preferia um livro ou uma conversa calma com as poucas amigas. Sempre recusava convites para festas, dizendo que tinha interesses mais importantes.

Agora, ao olhar para trás, surgia a dúvida: e se tivesse dito sim alguma vez? Talvez Miguel a visse com outros olhos séria, dedicada, concentrada nos objetivos. Mas apaixonou-se pela Leonor impulsiva, doce longe dos planos de Aurora.

No fundo, Aurora percebia que não se tratava só de personalidades. A irmã atraía os outros sem esforço; ela, pelo contrário, pensava demasiado em tudo, demasiado consciente de si mesma, acabava na sombra.

Tentava convencer-se que fazia o que era certo, que um dia lhe dariam valor por ser ponderada. Mas, sozinha no quarto, só conseguia imaginar como podia ser diferente, se fosse mais como Leonor.

O dia em que Leonor anunciou o noivado à mesa de casa foi uma punhalada. Aurora fingiu alegria, deu os parabéns, abraçou a irmã, mas por dentro só ecoava: Isto não pode ser verdade. Fingiu o resto do jantar, mas sentia-se vazia.

Nas noites seguintes, dormiu pouco, sempre a tentar encontrar uma saída. E foi aí que lhe surgiu o plano.

Se o Miguel me vir e não resistir e depois a Leonor entrar e nos apanhar, tudo acabará. Ela nunca me perdoará. Se não for dela, não será de ninguém.

Preparou tudo ao detalhe: o vinho, as falas, os gestos, até a direção da luz na sala. Ensaiou manias e movimentos típicos da irmã aquele sorriso pequeno e descontraído, a pose, o jeito de mexer no cabelo.

No dia D, Aurora estava um farrapo de nervos. Tinha decidido: seria até ao fim. Mas o Miguel, assim que entrou, percebeu logo tudo.

O plano caiu por terra. Ele despistou-se do jogo e foi ter com a verdadeira noiva.

Agora, Aurora fixava um ponto no vazio. Aquilo que lhe parecera perfeito, desfez-se em segundos. Sentia a pressão do tempo: o casamento aproximava-se, e ela não tinha como mudar nada.

Preciso de um plano novo depressa, antes que seja tarde, repetia, os dedos a deformar a toalha. Mas todas as hipóteses lhe pareciam fracas. A próxima tentativa teria de ser infalível. Talvez não houvesse segunda oportunidade.

*******************

Passaram algumas semanas. Num jantar de família, Leonor anunciou reluzente de alegria que estava grávida. Os olhos, brilhantes de felicidade, quase choravam enquanto contava como aquele momento era esperado. Os pais radiantes, cheios de perguntas e planos para o futuro.

Aurora limitou-se a sorrir, a segurar a chávena já fria. Lutava para manter a expressão serena, acenar às palavras entusiastas. Por dentro, cada palavra da irmã, cada olhar radiante dos pais, eram agulhas fininhas a espetar-lhe a alma.

Imaginava como tudo ia mudar. Os jantares de domingo com Miguel a dar a mão à Leonor, felizes, a preparar o quarto do bebé, a família a crescer Aurora desenhava mentalmente todos estes quadros, cada um mais insuportável que o anterior. Não suportava a ideia de presenciar tudo isto.

Uma ideia obstinada repetia-se: tem de agir. Agora, antes de ser irreversível. Um plano desenhava-se na cabeça: o que poderia causar maior dor do que a perda do bebé? Era cruel, impensável, mas parecia-lhe a única solução na sua mente confusa.

O olhar de Leonor pousou nela um olhar terno, cheio de confiança. O coração de Aurora hesitou por uma fração de segundo mas logo se endureceu. Imaginou o plano: bastaria falar com um médico conhecido, para, pelo preço certo, conseguir um comprimido seguro, só o suficiente para provocar complicações

Riu-se para os seus botões um riso mudo, mas carregado de amargura. Leonor sorriu-lhe de volta, convencida que a irmã partilhava da sua felicidade.

O teu paraíso não dura para sempre, pensou Aurora, olhando os futuros pais, já decidida a avançar.

********************

Queres sumo? indagou Aurora num tom leve, esforçando-se por parecer descontraída. Chegou a sorrir com aquele sorriso que tantas vezes treinara ao espelho. Trouxe o teu preferido.

Muito obrigada Leonor respondeu logo, com um sorriso genuíno. Tocou-lhe no braço com carinho. És a melhor irmã do mundo!

Aurora congelou, traída por um breve calor no peito, mas logo recuperou a compostura.

Já trago garantiu, sem vacilar.

Na cozinha, abriu o frigorífico, retirou o sumo, encheu um copo. A mão quase instintivamente foi ao bolso buscar a pequena pastilha. Apertou-a na mão, imobilizada por dentro.

O que estava ela a fazer? Olhou para o sumo, depois para a pílula. Visualizou Leonor, radiante, a falar no bebé. Viu os pais felizes, Miguel ao lado. Seria ela capaz de tal crueldade? Seria capaz de cometer esse crime, de cruzar essa linha impensável?

Não! Aquilo não era ela, era uma sombra, um estado de desespero. Não podia, não queria seguir por esse caminho!

A mão abriu-se sozinha, a pastilha caiu sobre a bancada. Aurora respirou fundo, tentando controlar o tremor.

Aurora? Está tudo bem? a voz de Leonor soou próxima. Já estava à porta da cozinha, preocupada, olhando para ela. Estás tão pálida! Queres que chame um médico?

Aurora encarou a irmã e, de repente, viu algo que sempre evitara um amor sincero, pleno, um laço genuíno e valioso.

Não, só me deu uma tontura sorriu, esforçada. Já passa. Aqui tens o teu sumo. Vou preparar um chá, já venho conversar.

Virou-se para a banca, ligou a chaleira, tentando não dar pela tremura nos movimentos. Cada gesto era difícil, como atravessar nevoeiro.

Por dentro, a confusão era total. Recordou aquele instante com a pastilha na mão tão perto do abismo! O quanto pode uma mente torturada levá-la a perder-se?

Colocou o chá na caneca, deitou água quente e mexeu devagar. O aroma trouxe um leve conforto. Voltou-se para Leonor, ainda a sorrir, já a contar planos para o fim de semana. Era feliz. E isso doía ainda mais.

Como fui capaz? Como sequer pensei nisso? É a minha irmã. A pessoa que me é mais próxima.

Percebeu que aquilo não brotava do nada era um veneno antigo, alimentado por meses, anos. A inveja e a mágoa que alimentara setrançaram-se num nó perigoso e quase a levaram além do aceitável.

Respirou fundo, tentando acalmar-se. Tinha de admitir cruzou limites perigosos. Precisava de ajuda, de falar, de ser sincera consigo e talvez procurar apoio de quem pudesse olhar para ela sem julgamento.

Em que pensas? Leonor inclinou-se com candura, sorrindo-lhe. Estás diferente hoje, tão caladinha.

Tanta coisa por organizar Aurora forçou novo sorriso. Devia falar com alguém, organizar melhor a cabeça.

Meia verdade, mas Leonor ficou satisfeita. Continuou a falar dos planos para a família, e Aurora escutou, acenando pontualmente. Um novo sentimento nascia dentro dela não era alívio, era decisão.

Não deixaria aquela escuridão tomar conta dela! Não voltaria a ceder à inveja. Demasiado estava em jogo o vínculo com a irmã, o equilíbrio interno, o futuro.

O primeiro passo seria admitir: precisava de ajuda. Sem vergonha, sem máscaras. Estou perdida. Estou em dificuldades. Quero mudar isto

************************

Leonor teve uma menina, uma verdadeira alegria para toda a família. Nasceu numa noite calma de junho; de manhã, os pais puderam vê-la pela janela da maternidade. Pequena, com bochechas redondas e pestanas densas, dormia tranquila no aconchego das mantas, arrancando sorrisos a todos.

Os primeiros dias em casa foram de ternura. Leonor e Miguel aprendiam juntos a cuidar, alimentar, adormecer a bebé. Os avós traziam presentes caseiros e brinquedos, a avó tricotava meias minúsculas, o avô orgulhoso falava da neta com entusiasmo à vizinhança.

E especialmente derretida estava a tia Aurora. Depois da reviravolta interior, nunca mais deixou de visitar a sobrinha. No início, só para ajudar Leonor, dar um descanso, preparar um almoço, ir às compras. Com o tempo, ficava horas: reparava nas mãos pequeninas, fascinava-se com as caretas e os sorrisos inocentes da menina.

Aurora aprendeu a segurar a sobrinha, embalar baixinho uma canção inventada, comprar roupa de bebé macacões cor-de-rosa com flores, fatos de ursinho. Vibrava com a evolução da pequena.

Com o passar dos meses, tornou-se mais do que tia, era quase uma segunda mãe: faziam festas de chá com miniaturas, viam livros coloridos, ensinava as primeiras palavras. Quando a pequena deu os primeiros passos, Aurora vibrou de alegria e acompanhou-a sempre, mão na mão.

Leonor via e agradecia. Uma tarde, com a menina já a dormir e Aurora a arrumar brinquedos, Leonor disse baixinho:

Obrigada. Vê-se como a amas. É tão importante para ela ter uma tia assim.

Aurora sorriu, com um ligeiro rubor. Também não contava que cuidar daquela menina lhe trouxesse tanta felicidade. Nos pequenos gestos, nas primeiras palavras, nos abraços espontâneos da sobrinha, encontrou aquilo que lhe faltava: pertença, calor, amor sem condições.

A olhar agora para a sobrinha feliz, Aurora percebeu: às vezes, a vida surpreende-nos. E é a cuidar dos outros que encontramos finalmente a nossa própria paz e felicidade.

Hoje, escrevo este diário já com outro espírito: aprendi que deixar criar raízes à inveja pode transformar-nos naquilo que juramos nunca ser. Hoje dou valor ao perdão, ao afeto, às pequenas vitórias quotidianas e, acima de tudo, ao amor da família, que apesar dos erros, sabe sempre renovar-se.

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