Eu Já Não Existo

Eu já não estou

Compraste outra vez essa porcaria? Joaquim pousa o saco na mesa com força, um tilintar vindo de dentro denuncia algo frágil. Já te disse: nada de “Veludo”. Caro e inútil.

Idalina Maria está junto à janela, a olhar para o pátio. Lá fora, a filha dos vizinhos, com uns sete anos, corre atrás dos pombos, que esvoaçam em nuvem, espalham-se, mas depois voltam ao alcatrão como se nada tivesse acontecido. Idalina observa e pensa que não se recorda da última vez que comprou algo para si, sem razão, só porque lhe apeteceu.

É creme para as mãos, Quim. Três euros e oitenta.

Três euros e oitenta são três euros e oitenta. Já não sabes contas?

Ela não responde. Vira-se, pega no saco, tira um frasco pequeno com tampa dourada, coloca-o no parapeito, ao lado dos vasos de gerânios. Os gerânios já não florescem há tempos. Idalina sempre pondera ver o que lhes falta, mas nunca chega a fazê-lo.

Idalina, estou a falar contigo.

Estou a ouvir, Quim.

Sai para a cozinha, abre o frigorífico, pensa no jantar. Atrás de si, o som dos passos dele, pesados, depois a porta do escritório a bater. Suspira.

Tem cinquenta e oito anos. Vive em Vila Nova de Gaia, num T3 na Rua da Liberdade, casada com Joaquim Manuel Tavares há vinte e nove anos. Têm um filho já crescido, Tiago, mora em Aveiro e liga aos domingos, às vezes nem isso. Têm um quintal fora da cidade, a uns quarenta quilómetros, um carro que só Joaquim conduz, e Idalina trabalha há dezoito anos como bibliotecária na biblioteca municipal.

A vida tem sido isto. Ninguém lhe tirou isso.

Tira peito de frango, coloca sobre a tábua, pega na faca. A menina lá fora já foi embora, e os pombos esvaneceram-se. O pátio está vazio, cinzento, umas ervas do ano passado rompem o alcatrão nas fendas.

Idalina percebe que está parada, faca na mão, sem cortar. Fica simplesmente assim.

Pousa a faca, vai ao parapeito, destapa o frasco do creme. O cheiro é leve, com um fundo florido. Passa um pouco nas costas das mãos. A pele absorve rápido, fica a sensação de mãos seguradas por alguém.

Fecha o frasco e volta ao frango.

Essa noite é igual às outras. Joaquim janta em silêncio, vê o telejornal, deita-se cedo. Idalina fica na cozinha com uma chávena de chá frio, folheia uma revista velha de jardins e hortas. Folheia apenas, não lê. Só está.

No dia seguinte, chega à biblioteca e encontra Leonor Dias a chorar atrás do armário das revistas.

Leonor, o que se passa?

Leonor já tem mais três anos que Idalina, trabalha ali há mais tempo do que ninguém, sabe de memória o lugar de cada livro, Idalina nunca a tinha visto assim.

Nada, nada Leonor acena, tira o lenço do bolso. Desculpa. É pessoal.

Se quiseres, podes contar.

Nem vale a pena. Ela assoa-se, esconde o lenço. Falei ontem com a minha filha. Disse-me: Mãe, estás ultrapassada. Assim mesmo. Ultrapassada.

Em que sentido?

Literalmente. Andei a dar-lhe conselhos sobre o marido, ao meu jeito, como sempre fiz. Ela responde: Mãe, os teus conselhos são do século passado, não tens noção de como as coisas são hoje. Leonor fecha a pilha de revistas com cuidado. Se calhar ela tem razão.

Não tem diz Idalina.

Como sabes?

Idalina não encontrou resposta. Ficam um pouco em silêncio, onde cheira a papel e a madeira antiga das estantes, depois vão cada uma para o seu lugar.

À hora de almoço, Idalina sai à rua. Abril está fresco mas solarengo. Vai até ao jardim pequeno, senta-se num banco ao sol, fecha os olhos. Pelas pálpebras passa a luz laranja. Pensa em Leonor, na filha dela, naquela palavra: ultrapassada.

Depois pensa nela própria.

Idalina Maria Tavares, de solteira Pinto, nascida no Porto em 1966. Formou-se na Faculdade de Letras em Português e Literaturas. Casou-se com vinte e nove, tarde para os padrões de então. Joaquim era engenheiro, sério, parecia seguro. Um ano depois nasceu Tiago. Idalina ficou em casa, trabalhou meio tempo, depois trouxe a mãe para junto dela, cuidou até a mãe partir, voltou ao trabalho. A vida foi-se compondo, sem excessos.

Em algum lado desse compor, alguma coisa perdeu-se. Idalina sente que havia, mas já não existe.

Abre os olhos. Do outro lado do banco, uma ameixeira silvestre floresce em milhes de pétalas brancas, macias de tão frágeis. Idalina olha e recorda: já não desenha há trinta anos. Na faculdade desenhava, só para si. A pastel. Depois faltou tempo, depois ficou ridículo, depois esqueceu.

Tira o telemóvel e liga para o filho. Tiago atende ao terceiro toque, pela voz nota-se que está ocupado.

Olá mãe. Está tudo bem?

Tudo. Liguei só porque sim.

Olha, estou quase numa reunião, posso ligar-te ao fim do dia?

Claro, liga.

Ele não liga. Também não estranha.

Idalina volta à biblioteca, trabalha até às seis, compra pão na padaria, regressa a casa pelo mesmo caminho há dezoito anos, todos os dias úteis, conhece cada buraco na calçada, cada curva.

Em casa, Joaquim já lá está. Senta-se ao computador, lendo qualquer coisa. Idalina despe-se, vai para a cozinha.

Vens jantar?

Mais tarde.

Põe água ao lume, encontra no frigorífico restos de sopa. Enquanto aquece, olha para o creme no parapeito. O frasco pequeno, bonito. Joaquim tem razão, pensa: três euros e oitenta, para quê?

Mas o aroma era tão bom.

Deixa o frasco onde está.

Passam-se duas semanas. Nada de novo, a rotina mantém-se. Depois, entra na biblioteca uma nova utente: Catarina.

Idalina vê-a logo. Mulher de cerca de quarenta e cinco, casaco cor de cereja madura, cabelo curto, postura firme. Dirige-se ao balcão e diz que quer inscrever-se e procura livros de psicologia e, se possível, algo sobre pintura em aguarela.

Aguarela? repete Idalina.

Sim. Pintei em menina, gostava de tentar outra vez.

Idalina faz-lhe o cartão, indica-lhe as prateleiras. Catarina anda entre os livros com à-vontade, folheia, escolhe, devolve, volta a pegar noutro. Idalina observa pelo canto do olho: há nela uma auto-suficiência invulgar, como se bastasse a si.

Meia hora depois, Catarina aproxima-se com dois livros:

Costuma ler disto? pergunta, apontando à psicologia.

Às vezes.

Trabalha cá há muito?

Dezoito anos.

Catarina olha-a atentamente, não de forma julgadora, mas aberta.

É muito tempo.

É.

Gosta?

Idalina hesita. A pergunta é simples, mas a resposta não.

Gosto, responde. E acrescenta: Gosto dos livros. Gosto das pessoas. O sítio é familiar.

Familiar, repete Catarina, saboreando a palavra. Compreendo.

Vai-se embora.

Na semana seguinte volta, devolve um livro, pede outro sobre aguarela. Idalina encontra um álbum com reproduções, oferece-lho. Catarina aceita e pergunta subitamente:

Porque não experimenta?

Experimentar o quê?

Pintar. Faço um workshop de aguarela aos sábados. É uma coisa simples, grupo pequeno. Venha.

Idalina pensa dizer logo que não. Até abre a boca. Mas sai-lhe:

Onde é?

Catarina escreve a morada num papel: Espaço “Luz Branca”, Rua de Sá da Bandeira, sábado, onze da manhã.

A noite toda Idalina olha o papel, primeiro no bolso do avental, depois ao lado do creme. Joaquim não pergunta pelo papel. Raramente pergunta pelo que não seja contas ou tarefas.

Na sexta ao jantar, Idalina diz-lhe:

Amanhã vou a um workshop de pintura.

Joaquim levanta os olhos do prato.

Aonde?

À Sá da Bandeira, aguarela. Uma amiga convida.

Que amiga?

Da biblioteca. Nova leitora.

Ele mastiga, põe o garfo de lado.

E quanto custa?

Ainda não perguntei.

Pois. Pega no pão. Vai, se não tens mais nada para fazer.

Idalina observa-o. Já nem a olha. Ela pensa que ouve aquilo se não tens mais nada para fazer há vinte e nove anos. Outra vez. Para quê. Quanto custa. Se não tens nada para fazer.

Pronto, diz ela. Vou.

No sábado, levanta-se às oito, lava-se, veste um camisola cinzenta e calças azul-escuras. Olha-se ao espelho. Percebe que há muito não se vê mesmo, só de passagem. Agora olha. O rosto já não é jovem, mas não é mau. Olhos cinzentos, vivos. O cabelo já com muito branco, mas ainda denso. Passa-lhe a mão, prende diferente. Abre o creme, põe nas mãos, um pouco no pescoço.

Sai às nove, para não ter pressa.

O Espaço Luz Branca fica no segundo andar de um edifício antigo, por fora normal, por dentro renovado: paredes brancas, soalhos em madeira, janelas grandes. Sobe as escadas, empurra a porta.

Catarina já está lá. E mais quatro mulheres, idades variadas, e um homem de uns cinquenta anos, robusto, camisa de xadrez. Sentam-se todos a uma mesa longa. Em frente, copos de água e folhas brancas.

Idalina! Catarina acena. Veio!

Idalina senta-se ao lado. A formadora chama-se Vera, jovem, apresenta o tema do dia: pintar um raminho de lilás. Idalina agarra o pincel, a mão treme um pouco não de nervos, mas de falta de hábito.

Não se preocupem com o bonito, diz Vera. Pensem na água e na cor. Só.

Idalina traça a primeira mancha. O roxo mistura-se com o azul. Traça segunda, terceira. Observa a tinta avançar livre, sem bem seguir o que planeou, e isso tem graça. Ao lado Catarina franze o sobrolho atenta, o homem traça com um pincel minúsculo e não esconde o desagrado.

Uma hora depois, olha para a folha. Não parece um raminho de lilás, parece algo difuso, manchado de azul e roxo. Mas há ali qualquer coisa viva, coisa feita por si.

Bonito, diz a senhora idosa à sua frente, Fátima.

Não acho, diz Idalina.

Eu acho! Tem emoção.

Olha outra vez. Talvez tenha.

Depois do workshop, Catarina convida-a para um café, num espaço pequenino da mesma rua. Sentam-se, Catarina pergunta sem rodeios:

Gostou?

Gostei. Não esperava.

Eu sabia. Ela segura a chávena nas duas mãos. Tem um olhar curioso, como se visse tudo mas hesitasse em olhar de frente.

Idalina não responde logo. Depois diz:

Há muito em Gaia?

Três anos. Vim de Coimbra. Depois do divórcio.

Entendo.

No início custou. Depois ficou melhor. Depois começou a ser interessante.

Interessante?

Viver só. Descobri muito sobre mim. Sorriso quente, sem ironia. E é casada?

Vinte e nove anos.

Corre bem?

Idalina mexe o café, sem necessidade.

Depende dos dias.

Catarina não insiste, e Idalina agradece.

Volta a casa à uma e meia. Joaquim vê futebol, nem pergunta como correu. Idalina aquece sopa, almoça sozinha. Pega na folha do raminho lilás, que Vera lhe deu, encosta à parede, junto do gerânio.

O gerânio parece um pouco mais vivo do que há uma semana. Idalina repara: num dos caules há um pequeno botão vermelho que antes não vira.

No sábado seguinte vai outra vez ao workshop. E no seguinte. Catarina aparece sempre. Conversam cada vez mais, meia hora, uma hora depois da aula. Idalina fala da biblioteca, dos leitores, dos livros que gosta. Catarina conta da vida em Coimbra, do trabalho de contabilista, da filha que ficou no continente com o pai e está a aprender inglês.

Numa dessas conversas, Idalina pergunta:

Não se sente sozinha?

Às vezes. Mas é diferente de antes.

Diferente como?

Catarina pensa, junta as mãos na mesa.

Antes, era sozinha ao lado de alguém. Isso pesa, sabe? Agora, sozinha de verdade, mas não solitária. Percebe a diferença?

Idalina percebe. Não diz em voz alta, mas por dentro sente as coisas a mexer, como gelo a romper num rio.

Em maio, na biblioteca anunciam um concurso: a junta pede uma iniciativa cultural. A diretora reúne as funcionárias:

Precisamos de ideias. Quem tem sugestões?

Todas ficam caladas. Idalina também, mas na cabeça uma faísca acende.

Um serão literário, sugere Leonor. Leituras, como sempre.

Fazemos todos os anos. Queria outra coisa.

E se fosse sobre mulheres? diz Idalina.

Todos olham.

Mulheres, como assim? pergunta a diretora, Dona Margarida.

Histórias reais. Convidamos mulheres da freguesia, várias idades, para contar o que viveram, o que mudou, como foi. Sem floreados. Se quiserem, mostramos também o que fazem pintura, croché, olaria.

Fica silêncio.

É original, diz a Dona Margarida.

Mas é genuíno.

Quem organiza?

Eu, responde Idalina. E surpreende-se consigo.

Dona Margarida olha-a.

Muito bem, Idalina Maria. Vamos experimentar.

Sai da reunião e liga de imediato a Catarina, que se ri:

A sério? Tu?

Eu. Nem sei bem porquê. Saltou-me.

Isso é que é honestidade. Estou dentro. E pergunto à Fátima, lembras do grupo? Faz cerâmica.

Fátima Martins tem sessenta e dois, reformada há três anos, faz pássaros de barro, vende nas feiras. Aceita logo, só pede: Desde que não me ponham a falar muito.

Idalina começa a planear. Fá-lo à noite, quando Joaquim se fecha no escritório. Sentada na cozinha, escreve, rasura, volta a escrever. Sente algo novo que está a criar. Não a manter, não a apoiar; criar mesmo.

Uma noite, Joaquim vê-a à mesa de caderno aberto:

O que estás a fazer?

Trabalho. A preparar um evento.

Outra vez da biblioteca.

Sim, da biblioteca.

Ele bebe água, hesita.

O jantar hoje estava frio.

Desculpa. Da próxima aqueço melhor.

Ele sai. Idalina observa-o, pensa que só se queixa do jantar frio. Nunca nota que ela está viva, que faz diferente, só nota o jantar frio.

Volta ao caderno.

Markam o serão para o terceiro sábado de junho. Idalina combina com quatro mulheres, incluindo Catarina e Fátima. Convida também Dona Maria João, ex-professora de geografia aposentada, que escreve poesia, mas nunca leu para gente. Sexta, a formadora Vera, a mais nova.

Faz um cartaz, põe anúncios pela freguesia, coloca no jornal local. Teme que ninguém apareça, porém a sala enche, mais de trinta pessoas, quase todas mulheres, de vinte e cinco a oitenta e tal, uma delas tão idosa que vem com a filha.

Idalina apresenta a noite, sem discursos grandes; diz só que estão ali para se ouvirem, e que isso basta. Dá a palavra a Fátima.

Fátima fala de como, depois da reforma, andava perdida por casa, sentia-se invisível. Até que foi parar à cerâmica Reparei que tinha mãos, riu-se, e a sala acompanhou, mas rindo de verdade, acolhedor.

Catarina conta do recomeço aos quarenta e seis, do medo inicial, e depois conclui: Eu tinha medo não do novo, mas do que já conhecia. Idalina ouve ao lado e pensa: quer guardar aquilo.

Maria João lê dois poemas. A voz treme, mas firma. Uma mulher da terceira fila aplaude, todos seguem.

No fim, Idalina e Leonor arrumam cadeiras, recolhem chávenas.

Correu tão bem, diz Leonor. Mesmo.

Não estava à espera.

Eu estava. Tu és boa com pessoas. Sempre foste, só não te deixavas.

Idalina olha para ela.

Achas mesmo?

Tenho a certeza. Dezoito anos juntas.

Idalina apanha um cachecol esquecido, pendura no cabide. Sente que Leonor tem razão. É bom, mas dói um pouco: por que levou dezoito anos até aqui?

Em casa, Joaquim já dorme. Idalina despe-se em silêncio, vai beber água à cozinha. Olha para o creme, para o desenho do ramo lilás. O gerânio tem agora quatro flores vermelhas, em pleno.

Passa o creme nas mãos devagar, olha o gerânio, pensa na frase de Catarina: Tinha medo não do novo, mas do costume.

De manhã, Joaquim pergunta:

Como foi, o serão?

Bem. Muita gente.

Comeste ao menos?

Houve chá.

Chá não é comida. Ele volta ao telemóvel.

Idalina serve-se de café e vai para a varanda. Amanhece, o forno está vazio, cheira a tílias. Pensa que Joaquim perguntou se comeu. Deve ser preocupação. A sua maneira. Levou vinte e nove anos a confundir a forma com o conteúdo, sem reparar que o conteúdo já não está ali, ou mudou.

Não sabe ainda. Apenas começa a olhar de frente.

Em julho, Tiago liga. Não é domingo, mas quarta-feira.

Oh mãe, tudo bem?

Tudo, filho. Está tudo bem?

Sim, sim. Olha, a Catarina escreveu-me.

Idalina prende-se junto ao frigorífico.

Que Catarina?

A tua amiga da biblioteca. Encontrou-me nas redes, contou-me do evento que organizaste. Eu nem sabia.

Tu nunca perguntaste.

Silêncio.

Desculpa, mãe. Não perguntei mesmo. Conta-me.

Idalina conta. Do workshop, de Fátima e os pássaros, de Maria João, dos poemas, da sala cheia. Tiago ouve, sem interromper.

Gosto de te ouvir, diz, no fim, És mesmo incrível.

Obrigada.

Já fazes isso há muito?

Não. Foi o primeiro.

Deviam ter sido mais.

Deviam, concorda.

Há silêncio, depois Tiago:

O pai… está tudo bem convosco?

Idalina aproxima-se da janela. O pátio lá em baixo cheio de sol, dois rapazes jogam à bola.

O habitual, diz.

Isso é bom ou mau?

Ainda estou a descobrir.

Tiago já não pergunta mais. Diz que vem em agosto, combinam. Idalina pousa o telemóvel, fica muito tempo de pé à janela.

Em agosto, Tiago vem passar quatro dias. Fisicamente parecido com o pai, no resto sai a ela, sensível à volta. Traz queijos e frutos secos, ouve-a de verdade.

Uma manhã, enquanto Joaquim vai ao quintal, sentam-se na cozinha; Tiago diz:

Estás diferente.

Como assim?

Não sei explicar. Como se fosses maior. Ri-se. Parece confuso.

Não é. Percebo.

Estás feliz?

Idalina envolve a chávena quente.

Estou. Mas um bocadinho com medo.

Medo de quê?

Quando vês melhor quem és, também vês melhor o que te cerca. Nem sempre é confortável.

Tiago acena, pensa.

O pai percebe?

O pai percebe o jantar frio. Diz, antes de se controlar. Desculpa, não é justo.

É, sim. Falaste nisso com ele?

Sobre o quê?

O que precisas.

Idalina olha a rua. Agosto vai a meio, a relva seca nas bermas.

Não sei como se faz, murmura.

Tenta.

Tiago vai embora. Idalina arruma os lençóis e pensa no “tenta”. Vinte e nove anos sem tentar de verdade. Falando à volta, mas nunca do fundamental. Era mais fácil assim. Seguro. Joaquim sabia olhar de maneira a que a conversa nunca começasse.

Em setembro, Dona Margarida chama-a: a junta quer repetir o serão, formato maior, envolver toda a rede de bibliotecas. Querem Idalina à frente.

Isto vai ser trabalho sério, Idalina Maria. Mais trabalho, mas podemos rever o contrato.

Aceito.

Dona Margarida sorri leve.

Mudaste este verão. Se não te importas que diga.

Não me importo.

Para melhor. Mais viva.

Idalina volta à recepção, cumprimenta um leitor de policiais, regista, entrega livros. Depois olha a sala. Prateleiras, mesas de leitura, grandes janelas por onde entra a luz de setembro.

Dezoito anos. Só agora olha como se o sítio lhe pertencesse. Não onde está, simplesmente, mas aquilo que é.

No outono, algo muda em casa. Não sabe dizer o quê. Tudo de forma lenta, misturada.

Joaquim nota que chega cada vez mais tarde. Que sai de manhãs de sábado. Que anda com mulheres que ele não conhece.

Quem é a Catarina?

Uma amiga.

Desde quando tens amigas?

Desde fevereiro. Da biblioteca.

Vês-te todas as semanas?

Quase.

Joaquim olha-a. Nos olhos, algo novo. Não é irritação, nem desprezo. Não conhece aquilo. Tenta perceber, ferve: confusão.

Não te proíbo, diz. Só não estou habituado.

A quê?

A tu teres tanta coisa.

Idalina senta-se em frente. Pela primeira vez olha-o sem muralha, como um estranho com quem viveu trinta anos.

Quim, tens orgulho de eu fazer mais? Além de casa e trabalho?

Ele pensa.

Não sei. Talvez.

Talvez?

É esquisito, é o que digo. Levanta-se, vai à janela. Antes estavas sempre aqui. Agora, sempre ocupada.

Não fui a lado nenhum. Só mudei.

Estás diferente.

Idalina olha as costas largas, já encurvadas. Sessenta e um anos. Ele envelheceu e ela nem notou.

Quim, quando falámos de outra coisa senão jantar ou carros? Uma conversa normal.

Ele vira-se.

Falamos, não falamos?

Sobre o quê?

Ele não responde. Olha para longe.

Pois, diz Idalina baixinho.

Em novembro, chega uma grande noite na biblioteca. Idalina prepara três semanas. Agora são oito mulheres, há exposição de pintura. Catarina ajuda, vêm-se quase todos os dias, cafés, passeios à beira-Douro nos dias bons.

Um desses dias, Idalina diz:

Não percebo como vivia antes.

Vivia e pronto responde Catarina.

Não é isso. Era como se me tivesse trancado tão fundo que já não vinha cá fora. Para quê?

Não é para quê. É como foi.

Mas podia ter sido diferente.

Podia. Catarina para, olha o rio, o Douro, cinzento de novembro, belo na sua dureza. Só muda quando tem de mudar. Não antes.

Já tenho cinquenta e oito.

E então?

É muito.

Idalina, Catarina vira-se dizes isso mesmo a sério?

Sério.

Então respondo a sério. Conheço mulheres que, aos trinta e cinco, já se fecharam. Decidiram-se feitas, completas, vida arrumada, e vivem como peças num museu. Tu, aos cinquenta e oito, começas vida nova. Não é muito. É tempo certo.

Idalina olha o Douro. Ao longe uma barca avança, devagar.

Catarina, eu pinto todas as semanas há nove meses.

Sei.

E hoje de manhã escrevi um texto para o serão. Usei palavras minhas, não copiei modelos.

Leste-me.

E ficou bom.

Está vivo. É melhor que bom.

A noite corre. Mais de setenta pessoas, sala cheia, alguns de pé. Idalina lê o texto, voz firme, mãos quase não tremem. Fala das mulheres, de como cada uma guarda algo à espera que lhe deem atenção. Da idade, que não fecha portas, às vezes abre janelas nunca sonhadas. Fala sem dramas, apenas como quem acabou de perceber tudo aquilo.

No fim, aproxima-se a mulher mais velha daquele dia, leva a filha pelo braço. Chama-se Olívia, oitenta e três anos.

Filha, diz, estava a falar de mim?

De todas, responde Idalina.

Não, era de mim. Eu sentia isso. Eu, em nova, bordava. Depois deixei. Tolas. E hoje apeteceu-me voltar. Oitenta e três anos, cómico, não?

Nada cómico.

Acha mesmo?

A sério.

Olívia vaise embora, devagar, apoiada na filha. Não saem iguais.

Dezembro chega suave. Idalina orienta agora o seu próprio grupo literário às quartas. Seis, sete pessoas fixas, leem, debatem, às vezes riem tanto que ela mal consegue intervir.

Em casa, o ambiente aumenta de tensão não zangas, mas silêncio. Joaquim cala-se muito, Idalina sente que algo hesita em ser dito. Já não espera que ele puxe o assunto.

A meio de dezembro, domingo à noite, entra no escritório, Joaquim lê, ela senta-se mesmo junto.

Joaquim, preciso conversar.

Fala então.

Não é assim. Fecha-lhe o livro, puxa o banco. É a sério.

Ele olha-a, apreensivo.

O que se passa?

Nada, precisamente. Mãos cruzadas no colo. Só quero dizer uma coisa que nunca disse, ou há muito tempo.

Joaquim aguarda.

Vivi tanto tempo como se quase não estivesse aqui começa ela. Vim, fiz sopa, fui ao trabalho, fui ao quintal da sogra, tudo o que era preciso. Mas cá dentro, havia uma ausência. Isso é culpa minha, deixei. Mas é dos dois, de como nos fomos deixando ao lado.

Ele olha para a mesa.

Queres divorciar-te?

Nem sei o que quero. Mas sei que precisamos falar. A sério. Quero que me vejas. Não a sopa, não a camisa passada. A mim.

O silêncio dura, a neve cai lá fora.

Não sei fazer isso, Ida diz, no fim, sem defensiva. Ninguém me ensinou.

Eu sei. Não te culpo. Só quero tentar. De verdade. Quero saber se tu também queres.

Fica sem resposta. Olha o nevão, depois para ela, e aparece de novo a confusão.

Mudaste muito este ano, diz.

Mudei.

Nem sempre te entendo.

Eu sei.

Mas não quero… procura o termo Não quero que te vás embora. Daqui. Gesticula para a casa. Nem de mim.

Idalina olha-o. Sessenta e um, ombros curvos, cara perdida de quem não sabe o que fazer ao novo.

Então tentamos. Não prometo que seja fácil. Mas tentamos.

Janeiro entra frio e luminoso. Idalina continua na biblioteca, coordena o grupo literário, pinta aos sábados. Já pintou dezenas, alguns trabalhos Catarina levou, outros decoram a cozinha ao lado dos gerânios. Resolveu mesmo o problema das plantas: já mudaram de vaso e florescem.

Vê Catarina com menos frequência, agora há problemas no trabalho. Falam pelo telefone.

Num dia, Catarina diz:

Já pensaste em fazer mais iniciativas na primavera?

Sim, queria algo maior, talvez um festival. Vários dias.

É trabalho!

É. Idalina para. Mas apetece-me trabalho grande.

Catarina ri.

Quem te ouvira há um ano.

Quem me visse.

Com Joaquim continua difícil. Falam mais, é verdade. Às vezes corre bem, outras fecha-se, e Idalina já não força. Espera. Ou simplesmente ocupa-se do seu.

Em fevereiro, durante um jantar banal, ele diz:

Fui ao médico a semana passada. Check-up.

Sentiste-te mal?

Nada especial. Tensões. Mexe o garfo. Não é grave. Deram-me comprimidos.

Fizeste bem em ir.

Não perguntas porque não disse nada?

Idalina pousa a colher.

Porquê?

Não queria preocupar-te. Olha para ela. É o hábito.

Tens o hábito de não me preocupar?

Sim. Tu agora andas sempre ocupada.

Idalina olha-o. Há ali algo importante.

Quim, quero saber quando não estás bem. Quero saber dos médicos. Quero saber. Percebes?

Percebo. Acena. Vou dizer.

E eu também.

Ficam um pouco calados. Fevereiro leva a neve e o vento pela janela, a cozinha está quente, cheira a sopa. No parapeito, o creme e um desenho novo: raminho de marmeleiro, branco, delicado.

Bonito, diz Joaquim. Pintaste tu?

Fui eu.

Olha outra vez.

Tens jeito.

Estou a aprender.

No fim de fevereiro, Leonor Dias telefona, tarde.

Desculpa a hora. A minha filha veio.

Correu bem?

Muito. Fizemos as pazes. O sorriso sente-se no telefone. Pediu-me desculpa pelo ultrapassada.

Estás feliz?

Muito. Ida, posso experimentar o teu workshop? Aguarela?

Claro. Sábado, onze.

Tenho medo de não ter jeito nenhum.

Leonor, ninguém tem ao início. É esse o ponto.

No sábado, Leonor aparece. Agarra no pincel à caneta, Vera corrige. A primeira mancha vem escura demais, a segunda é aguada demais. Leonor desanima:

Ida, isto é horrível.

Eu gosto.

Não está parecido com ramo nenhum.

É um começo.

Não sentes vergonha de me animar?

Falo a sério. Quando pegares outra vez, sai diferente.

Leonor olha o papel e ri-se.

Pronto. Próxima vez.

Março traz o calor. Idalina requisita o festival de primavera. Toda a direção apoia. Tiago avisa que vem em abril, quer ir ao evento.

Uma noite, Joaquim já dorme, Idalina na cozinha com o caderno a escrever ideias. Lá fora pinga dos telhados, a neve desaparece, sente-se a primavera. O gerânio verde, rijo, três flores abertas, um botão prestes a rebentar.

Idalina olha para o frasco do creme. Já acabou há semanas, mas deixou ali. Já comprou outro igual, Veludo, três euros e oitenta. Joaquim não comenta.

Abre o caderno numa página em branco e escreve: O que sei agora que não sabia há um ano. Olha para o título. Pensa. Fecha o caderno. Já não é preciso escrever. Vive lá dentro.

O telefone toca tarde, quase onze. Idalina olha: Catarina.

Está tudo bem? pergunta logo.

Está ótimo. Melhor até. O tom de Catarina é animado, leve. Ida, tenho de te contar. Ofereceram-me vaga em Coimbra, salário bom. A minha filha lá está. Estou a pensar.

Idalina fica um instante silenciosa.

Queres ir?

Não sei. Por isso ligo. Diz-me tu.

O que te posso dizer?

O que achas.

Idalina observa pela janela: lá fora, abril molhado, noite viva.

Acho que tu já sabes. Já escolheste, só não disseste em voz alta.

A pausa dura pouco.

Talvez, responde Catarina. Sim.

Então, do que tens medo?

Fico com saudades daqui. Do grupo. De ti. Da Fátima e os pássaros. Da Maria João e os poemas.

Não desaparecemos.

Gaia está longe de Coimbra.

Catarina, Idalina brinca com a tampa do creme, lembras o que disseste em novembro, à beira-rio?

O quê?

O diferente começa quando começa.

Catarina ri baixinho.

Olha-me, que sábia.

E ainda és!

Ida, posso perguntar uma coisa? Mas a sério.

Pergunta.

És feliz?

Idalina olha o gerânio, o creme, desenhos. O caderno por escrever.

Tornei-me eu, diz. Acho que é melhor.

Isso é resposta?

Acho que sim.

Catarina fica calada.

Fico feliz por ti.

Eu também por ti.

Ida…

Sim?

O que fazes se eu for embora?

Idalina olha o caderno, as folhas em branco.

Continuo diz.

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