O Preço da Sua Nova Vida

O preço da sua nova vida

Sofia, preciso conversar contigo. Já venho pensando nisto há algum tempo.

Sofia Tavares preparava uma sopa ao lume. Uma sopa simples. Batatas, cenouras e um pouco de alho-francês. Não se virou logo. A voz do marido estava diferente daquela que ele usava quando falava das contas ou dos aborrecimentos do escritório. Havia nela algo firme, estudado.

Estou a ouvir, respondeu, continuando a mexer.

Não, não estás. Por favor, olha para mim.

Sofia desligou o fogão, pousou a colher na bancada e virou-se devagar.

Joaquim Tavares estava à porta da cozinha. Cinquenta e dois anos, alto, com as têmporas já grisalhas, um traço que Sofia antes julgava bonito. Segurava o telemóvel, mas não olhava para ele. Apenas segurava-o.

Vou-me embora, disse.

Sofia sentiu um aperto por baixo das costelas, uma sensação estranha, quase à espera de dor.

Para onde? perguntou. Sabia que era uma pergunta tola, mas não lhe saiu outra.

Para ir embora de vez. Já fiz as malas. Estão no corredor.

Joaquim

Sofia, por favor. Não quero cenas.

Não vou fazer cena nenhuma. Surpreendeu-se pelo tom calmo que conseguiu manter. Ao menos explica-me. Deves-me isso.

Ficou em silêncio, mudando o telemóvel de mão.

Não posso continuar, acabou por dizer. Não consigo viver assim, contigo, depois da operação.

O silêncio instalou-se, quase físico. Da janela ouviu-se passar um carro, um vizinho a entrar no prédio, canos a bater. Na cozinha, escutava-se apenas a respiração de Sofia.

O que disseste? murmurou, a custo.

Sei que soa duro. Mas tu perguntaste. Não posso passar o resto da vida a olhar para a tua cicatriz, para os comprimidos, para os exames. Mudaste, Sofia. Desde que foste operada.

Eu dei-te um rim.

Eu sei.

Dei-te um rim para continuares a viver.

Sei disso. E não desviava o olhar, o que ainda era pior. Sou-te grato, claro. Salvaste-me, nunca esquecerei. Mas não quero ficar por gratidão ao lado de alguém que

que o quê?

Que já não é a mesma.

Sofia aproximou-se da janela. Lá fora o inverno fazia-se sentir: cinzento, chuvoso, as árvores despidas e poças pela rua. Ficou a olhar para o vidro, sem saber como reagir. Chorar? Gritar? Cair?

Há outra pessoa, não é? disse, sem interrogar.

A pausa arrastou-se, longa o suficiente para ser resposta.

Há.

Há quanto tempo?

Alguns meses.

Sofia assentiu. Tudo fazia sentido agora: os atrasos, o perfume novo, o distanciamento.

Vais já?

Sim.

Está bem.

Ouvia-o a atravessar o corredor, o som das rodas da mala a arrastar-se pelo soalho, o clique sereno da porta. Só então se deu conta do silêncio.

Ficou uns minutos parada. Depois voltou ao fogão, ligou de novo o lume e pegou na colher.

A sopa tinha de acabar de cozer.

***

Três anos antes, quando Joaquim foi diagnosticado com uma insuficiência renal grave, Sofia não hesitou. Ofereceu-se para doar-lhe um rim. Os médicos confirmaram a compatibilidade, ela fez os exames todos, e em abril internaram-nos num hospital de Lisboa, em alas vizinhas. Deu-lhe o rim esquerdo. A recuperação foi demorada, o corpo adaptou-se devagar. Ele recuperava mais rápido.

Seguiram-se meses de adaptação: dores, cansaço, dieta rigorosa, análises de três em três meses. A cicatriz doía-lhe todos os dias, tornou-se parte do seu corpo.

Joaquim parecia renascer. Engordou, inscreveu-se num ginásio, comprou fatos novos, colónia nova.

Sofia achava que era alegria de viver. Que agradecia. Estava genuinamente feliz por ele.

No fundo, foi ingénua.

***

As primeiras semanas após a partida, Sofia manteve-se ocupada. Traduções em casa era tradutora de alemão e inglês, especializado em medicina, direito, e às vezes prosa literária. Passava horas no computador, traduzindo palavras dos outros, porque já não tinha as suas.

À noite, jantava o que calhava: pão, queijo, ovos cozidos. Ia cedo para a cama, incapaz de aguentar o silêncio da casa. Acordava pela madrugada, ficava a olhar para o teto, esperando o nascer do dia.

A amiga Rita telefonava-lhe todas as noites.

Sofia, hoje comeste como deve ser?

Sim.

O quê?

Um sandes.

Isso não é comer. Amanhã apareço aí.

Não venhas, Rita.

Apareço na mesma.

Rita Romão era amiga desde a faculdade. Ambas com cinquenta anos, Rita médico de família no centro de saúde local, casada pela segunda vez, avó ao fim de semana, directa e sem rodeios.

No dia seguinte, abriu-lhe o frigorífico.

Credo, Sofia, suspirou, de olhar na prateleira quase vazia. Estás a comer o quê?

O que calha.

Olha para ti, parece que apagaste.

Obrigada.

Não é elogio. Ouve, é normal que te sintas assim. Mas não podes apagar.

Não estou a apagar.

Estás, sim. Senta-te. Conta-me tudo desde o início.

Sofia sentou-se, fitando a mesa.

Disse que não queria viver com uma aleijada. E foi-se embora.

Rita ficou em silêncio.

Que miserável, constatou por fim.

Não digas isso. Não ajuda.

Às vezes precisamos de raiva.

Eu procurei, mas está tudo vazio. Só vazio e frio.

Rita, quieta, pôs água no fogão e vasculhou nos armários. Encontrou arroz carolino, começou a cozinhar, sem pedir licença. Por isso, pela primeira vez em duas semanas, Sofia chorou choro feio, inesperado, soluçado.

Rita não a abraçou, não disse vai ficar tudo bem. Só lhe passou um rolo de papel de cozinha.

Chora. Faz falta.

***

Dezembro passou em neblina. Janeiro foi menos turvo. O trabalho ajudou. O esforço de traduzir não lhe deixava espaço para o vazio.

Em fevereiro, Rita instigou-a a ir ao termalismo.

Precisas de sair daqui.

Para onde?

Uma estadia nas Caldas da Rainha. Águas Claras. Tem um bom programa de reabilitação, banhos, passeios. E o inverno é bonito por lá, tem jardim.

Rita, não sou inválida.

Precisas de descansar. De mudar de ares. Tanto tempo fechada aqui deprime-te.

Já falo com as paredes.

Muito engraçada Já tratei de tudo, sais em março, três semanas, justificamos como necessidade médica após doação.

Inventaste isso.

Não inventei. Pesquisa se quiseres.

Sofia sabia que Rita estava certa. Aquela estagnação era uma morte lenta e silenciosa. Tinha de fazer alguma coisa.

Pronto, vou.

***

As Águas Claras eram como Rita tinha descrito: edifício antigo renovado, rodeado de pinhal. A janela do quarto dava para um lago, ainda gelado em março. De manhã o gelo tingia-se de cor-de-rosa.

Nos primeiros dias, quase não saiu do quarto. Seguia as terapias, almoçava e jantava, lia ou viajava nos pensamentos. Ao terceiro dia decidiu passear.

O jardim estava quase vazio. Apenas alguns idosos nos bancos, duas mulheres de andar acelerado com bastões de marcha nórdica, um homem com cão.

Sofia caminhava devagar, escutando o pisar na areia, ao longe pássaros nas árvores. Não pensava em nada, o que a surpreendeu pelo agrado.

Junto ao lago, sentou-se num banco de madeira.

Posso?

Olhou para trás. Um homem de uns cinquenta anos, baixo, largo de ombros, num casaco azul-escuro. Apontou o banco.

Claro, disse, afastando-se um pouco, embora houvesse espaço.

Sentou-se também, olhando o lago.

Está bonito, comentou, passado um instante. O gelo ainda resiste.

Está.

Março, mas aguenta. Dizem que o ano passado já tinha derretido em fevereiro.

É a minha primeira vez cá, não tenho termo de comparação.

Segunda para mim. Fez pausa. Da última vez foi em outubro. Agora, março.

Sofia não perguntou por que estava ali. Em sítios assim sabia-se, tacitamente, que ninguém estava por bons motivos.

Chegou há muito?

Três dias.

Eu ontem. Esticou a perna esquerda devagar. Ainda não anda bem. Disseram que a fisioterapia era boa.

Observou então que ele se sentava diferente, mais de lado.

Teve um acidente? perguntou sem pensar.

Sim. Em setembro. Fractura na coluna. Disse-o sem pena. Não grave a ponto de eu não andar. Mas ainda a recuperar.

Lamento.

Não precisa. Olhou-a surpreso. Não foi culpa sua.

Só acho difícil.

É. Mas faz-nos pensar. Sorriu pouco. Há quem garanta que faz bem.

Sofia reparou que sorria de volta. Tímida, mas genuína.

Chamo-me Manuel, disse, estendendo a mão.

Sofia.

Aperto de mão curto e cordial.

Vou andando, anunciou, erguendo-se com vagar. Mandaram-me caminhar quarenta minutos por dia. Uma epopeia.

Boa sorte.

Igualmente.

Lá foi, passo atento, sem esconder uma ligeira desigualdade. Mas de cabeça erguida.

Sofia voltou os olhos ao lago. Pela primeira vez em meses, sentiu-se simplesmente leve, sem ser feliz ou infeliz. Simplesmente ali.

***

No dia seguinte, cruzou-se com Manuel ao pequeno-almoço. Sentaram-se juntos num acaso. Ele leu o telemóvel, ela mirava o jardim. Só perguntou, ao fim de algum tempo:

É tradutora?

Porquê?

Ontem ao jantar trazia um dicionário de alemão. Papel. Já raro.

Reparou.

Sou atento. Falava com pragmatismo. É mesmo tradutora?

Sim. Medicina, direito às vezes literatura.

Interessante. Parecia dizer a sério. Eu era arquiteto. Agora, há que ver.

Porquê?

Demoro a recuperar as costas. Veremos.

Não aguenta estar parado?

Não. Não é físico, é cá dentro. Tocou na mesa, apontando o essencial. Trabalho é mais do que ocupação. É modo de pensar.

Com a tradução é igual. A cabeça muda, falta-lhe sempre algo.

Exactamente.

Calaram-se. Foi um silêncio bom.

Fica muito tempo por aqui?

Três semanas.

Eu também. Vamos cruzar-nos.

Pelo visto.

***

Enquanto Sofia falava com Manuel, lá longe Joaquim vivia outra vida. Sentia-se reviver após anos de doença. Bebia vinho ao jantar, viajava, experimentava o que nunca pôde.

A Marta era parte desse novo mundo. Trinta e um anos, cabelo louro, uma energia que Joaquim achava inesgotável. Era gerente de uma agência de viagens; queria novos planos.

Mudaram-se para a casa dele. Marta mudou a decoração, novas cortinas. Joaquim não se importou, gostava da frescura.

Pensava em Sofia, às vezes. Não com saudade, mas com um incómodo difuso, que se esforçava por não chamar culpa. Pensava nela como uma boa pessoa mas viver com alguém doente, para ele, era peso a mais. Ele precisava de leveza, de futuro.

Explicava-se assim. E ansiava, pela primeira vez, viver depressa.

No emprego, notavam-lhe o brilho.

Ó Tavares, estás com nova cara brincava o Pedro, batendo-lhe nas costas.

A vida a compor-se, atalhava Joaquim.

E era isso que sentia. Foram à Croácia na primavera, Islândia em setembro Marta queria ver auroras, ele queria tudo o que lhe fora negado.

Na Islândia gelada, era feliz.

Temia apenas perder aquela velocidade.

***

Enquanto isso, em Caldas, Sofia entregava-se à rotina: tratamentos, passeios, descanso. O corpo readaptava-se. A pequena solidão dos trilhos partilhava-se com Manuel.

Hoje foram trinta e seis minutos celebrava ele ao sentar no banco do lago.

Devia fazer quarenta.

Canso-me.

Não seja ingrato consigo próprio. Recupera uma coluna em cinco meses.

Nota-se que traduz textos médicos comentou, divertido. Fala sem mimos. Gosto disso.

Não podia prometer tudo vai ficar bem. Não sou sua médica.

É raro ouvir honestidade.

Sofia concordou. Era exausta de frases feitas. O que valia era a sinceridade simples.

Como se magoou?

Numa obra. Fui ver os trabalhos, algo correu mal e caí de um terceiro andar.

Sobreviveu.

Sim. Sem drama. É curioso como, primeiro, checamos só se estamos vivos. Depois vem a dor. E assim vai.

Ficou a pensar, ela, naquela honestidade direta.

Pensou sobre o quê, nesses meses?

Sobre o vazio de não ter uma casa construída para mim. Sobre um filho com quem quase não falava. Sobre como estas coisas servem para abanar a vida.

Estranha forma de abanar.

A vida nunca é elegante.

Riu-se. Manuel sorriu.

Há quanto tempo ficou solteira? perguntou ele, sem rodeios.

Desde há quatro meses. Ele foi-se embora.

Pausa.

Doei-lhe o rim. Depois foi-se.

Manuel não respondeu logo. Não disse que horror. Só disse, baixo:

Dói.

Dói.

***

Quando o gelo derreteu em março, o lago ficou azul. Passeavam juntos. Foi acontecendo sem combinar, depois tornou-se hábito aceite. Após o pequeno-almoço, encontravam-se ao portão principal.

O passo deles era o mesmo. Ela abrandava para o ritmo dele e surpreendia-se a apreciar isso.

Conversavam. Sobre trabalho, palavras, espaço, arquitetura, corpo em recuperação. Sofia falou da cicatriz, das primeiras semanas em que não conseguia olhar para ela. Depois tornou-se só parte do corpo.

O corpo é honesto. Habitua-se disse Manuel.

Olha para a sua cicatriz?

Fica nas costas, não vejo. Apenas a sinto.

E o que significa para si?

Que estou cá. Só isso. Bastava-lhe.

Sofia meditava nisto, noites fora: estar cá bastava. Joaquim queria apagar o passado, recomeçar de folha limpa. Manuel aceitava o que a vida mudara, e via isso como suficiente.

Sabia que começava a aprender algo novo.

***

Ao final de tarde, tomavam chá juntos, num canto tranquilo da estalagem. Sofia trazia bolachas (Rita lembrava-se sempre de mandar), Manuel ia buscar chá à máquina.

Fale-me do seu filho.

António. Tem vinte e seis anos, vive no Porto, programador. Casou no ano passado, boa miúda. Vi-a só no casamento. Nunca fomos próximos. Andava sempre a correr.

Falam agora?

Veio visitar-me ao hospital. Estranho, não é? Às vezes é preciso uma urgência para haver conversa.

Eu percebo. Tenho uma filha, Beatriz, vinte e três. Quando soube do fim com o Joaquim quis vir. Não deixei.

Porquê?

Não queria que me visse assim. Sou mãe, não queria passar-lhe a imagem de vítima.

Proteção ou orgulho?

Não sei. Talvez os dois.

Ela sabe que está aqui?

Sabe. Liga-me muito, quer visitar. Estou a ponderar.

Deixe vir.

Porquê?

Porque quer. Por amor, não pena. Eu adiei a visita do António demasiado tempo. Quando veio, foi melhor.

Não teme parecer-lhe fraco?

Teme-se sempre. Mas eles sabem mais do que pensamos.

Sofia assentiu. Telefonou à filha logo no dia seguinte, a convidá-la para o fim de semana.

***

Joaquim, por sua vez, folheava revistas de viagens, desejando subir vulcões ou conquistar mais paisagens, mostrando à Marta imagens de destinos improváveis.

Andava tão ávido de viver que não pensava quase em Sofia. Só rara vez, num comprimido, no ritual das caixas de comprimidos semanais que ela preparava silenciosamente. Agora fazia-o ele.

Era possível organizar a própria vida, afinal.

***

Na verdade, nunca foram ao Guatemala. Fizeram Marrocos em outubro, calor sufocante, mercados, desertos, camelos. Joaquim achou a viagem cansativa, mas não desistiu. Uma dor nas costas apareceu, ele ignorou. Só em Lisboa acalmou.

Mas sentiu, depois, um desconforto persistente não queria chamar-lhe preocupação.

***

Beatriz chegou ao termalismo no sábado. Alta como o pai, rosto da mãe. Abraçou Sofia demoradamente.

Mãe.

Filha.

Tomaram chá, conversaram sobre trabalho, casa nova. Sofia via nela uma adulta, reparava-se agora.

Estás bem?

Melhor respondeu Sofia. E era verdade.

Gente simpática por aqui?

Sim. Há uma pessoa Arquiteto, também a recuperar. Boa pessoa.

Beatriz captou algo no tom.

Fico só feliz se te sentes bem.

Cresceste, filha.

Já era tempo.

Manuel passou por elas no átrio, apresentou-se. Beatriz foi cordial.

Quando ele saiu:

Mãe

Sim?

Nada. Só está tudo certo.

***

A última semana nas Águas Claras corria tranquila. A primavera despontava, as aves no pinhal recantavam novas melodias. Os passeios com Manuel eram diários, ele já caminhava mais firme. Sorria, dizendo que, por hábito, ainda abrandava sem precisar.

Hoje foi uma hora e vinte. Quase sem parar.

Óptimo sinal.

Vou ao Porto, ver o António, sem desculpas. Está na hora.

Está, sim.

Conversaram sobre o valor do tempo, do espaço entre as coisas, do modo como um arquiteto observa a distância, e não apenas o objeto.

Sofia achou isso bonito.

No fim, ele perguntou:

Quando voltar, posso ligar-lhe?

Ela parou de caminhar. Ele também.

Podes.

Avançaram juntos.

***

De volta a casa, Sofia abriu janelas, foi ao supermercado com apetite de cozinhar bem. Ligou a rádio, sentiu-se em paz.

Rita telefonou:

Então, como foi?

Foi bom. Conheci alguém.

Ele vai ligar?

Vai.

Ligou, de facto.

***

Começaram a encontrar-se devagar. Jantaram num restaurante simples em Lisboa. Manuel explicava que não voltaria a correr nem queria:

Tem de ser ao meu ritmo. Só assim consigo.

Ao teu ritmo está perfeito para mim.

E estavam.

Saíam, falavam de tudo. Projetos dele, traduções dela. Iam juntos ao hospital, esperavam um pelo outro. Na primavera, convidou-a para uma exposição de arquitetura. Mostrou-lhe um maquete de casa.

Era o meu projecto antes do acidente.

Vais lá mostrar-me quando acabe?

Levo-te.

Um tu natural, sinal de mudança tranquila.

***

Em julho, Joaquim começou a perceber que algo falhava. No consultório, o nefrologista não gostou dos exames.

Possíveis sinais de rejeição. É precocemente, vamos ajustar a medicação.

Não é possível

É. Foi avisado sobre limites, sol, altitude, mudanças bruscas.

Joaquim calou-se.

Saiu, sentou-se no carro. Viu passar um casal a rir-se.

Algo doeu-lhe no peito, o que não quis nomear.

Marta mostrou-se preocupada ao princípio, mas rapidamente voltou ao ritmo antigo. Os atrasos, ausências, desculpas ele percebia tudo. Discutiram por futilidades. Ela acabou por confessar:

Não esperava isto. Não quero magoar, mas não era o que pensava.

Joaquim pensou em Sofia. Em como ela lidava com tudo em silêncio, como lhe organizava os medicamentos, sem nunca fazer drama. Como conseguia estar presente sem se perder.

Era de alguém assim que precisava.

***

No Natal, Sofia já sabia que era feliz. A sua felicidade era serena, despertava contente cada dia.

Viam-se sempre que podiam. Manuel estava completamente recuperado. Brincava com o próprio andar cauteloso, consequência do passado.

Em outubro, foram ver o tal projeto, uma casa pequena num bairro calmo perto de Lisboa. Ele mostrava janelas, detalhes pensados com precisão.

Gostava que vivesses comigo aqui, um dia. Se quiseres.

Sofia demorou na resposta.

Um dia quem sabe.

É um sim?

É o que posso, honestamente. Não sou pessoa de pressas.

Nem eu.

Encostados ao vidro, juntos, viram o outono cair em dourado sobre as árvores.

***

Em janeiro, Rita telefonou.

Sofia, soubeste do Joaquim?

Sentiu o coração apertar-se velho reflexo.

O que houve?

Está internado. Problemas no rim. A Marta já o deixou.

Sofia ouviu em silêncio.

Obrigada por me dizeres.

E tu?

Estou bem, Rita. Mesmo bem.

Desligou e ficou à janela. Sentiu uma paz madura, não pena nem satisfação. Apenas compreensão tranquila.

Ligou a Manuel.

Olá.

Olá. Tudo bem?

Só queria ouvir a tua voz.

Aqui estou. Hoje posso jantar contigo?

Podes sim. Faço algo de jeito.

***

Joaquim saiu do hospital em fevereiro, mais magro, o rosto diferente.

Vive sozinho. Marta levou as coisas, despediram-se civilizadamente, o que lhe custou ainda mais. As cortinas dela ainda lá estavam e nunca as trocou.

Pensava em Sofia.

Ao princípio, pouco. Depois, sempre.

Compreendia agora que o que nele permanecia era a memória de como Sofia sabia estar perto, sem reclamar, sem desistir, capaz de suportar o que era preciso.

Pegou no número antigo e telefonou.

Ela atendeu ao terceiro toque.

Joaquim.

Sofia. Como estás?

Estou bem. E tu?

Soubeste, calculo.

Sim.

Pausa.

Posso ir falar contigo?

Demorou, ela, mas cedeu:

Podes.

***

Bateu à porta quatro da tarde de domingo. Sofia abriu prontamente, parecendo já esperar.

Estava mudada, mais forte.

Sentaram-se na sala. Ela pousou-lhe o chá na mesa.

Sofia, sei que não tenho direito de pedir.

Joaquim

Deixa-me acabar. Percebi que errei. Quero começar de novo. Sei que mudei, sei o que procuro agora.

Procuras quem, Joaquim? Eu ou quem cuida de ti?

Não respondeu logo.

Não é o mesmo?

Não. Voz estável, sem mágoa. Vieste porque temes estar sozinho doente. Porque recordaste alguém que não fugiu dos teus momentos difíceis.

Deixa-me continuar. Só quero que saibas: hoje entendo que as maiores incapacidades não são físicas, são de carácter. São de quem não sabe dar nada a ninguém. Tu confundiste fragilidade física com inutilidade. Mas não são iguais.

Nunca deveria ter saído

Nem deverias voltar. Porque o respeito não se reconstrói do nada. Há que erguer tudo de novo.

Com outro.

Sim.

Ergueu-se. Já à porta, voltou.

Estás feliz?

Demorou-se, depois respondeu.

Estou. Não como antes. Diferente. Mas feliz.

Assentiu, cabisbaixo.

Ainda bem, disse. E foi.

A porta fechou-se docemente.

***

Sofia ficou um momento no corredor, ouvindo a cidade. Depois, escreveu no telemóvel:

Ele saiu. Tudo bem. Onde estás?

Resposta: Junto ao Tejo, vem ter.

Vestiu o casaco e partiu.

A rua fria acalmava-a. Caminhou sem pressas, por saber já o destino.

Manuel esperava-a junto às grades, a ver o rio.

Demoraste? perguntou ele.

O metro foi rápido.

Como estás?

Sinceramente, bem.

E ele?

Queria recomeçar.

Percebeste-lhe?

Sim.

E achas que ele percebeu?

Talvez. Estava diferente, mais quieto.

A vida muda algumas pessoas.

Só quem quer mudar, Manuel. Outros só partem-se.

Ele concordou.

Ficaram lado a lado, olhando o Tejo: cinzento de fevereiro, mas calmo. O vento cortava, mas não doía.

Lembras-te do que disseste nas Águas Claras? Que estar aqui é suficiente?

Lembro.

Só percebi agora o que é suficiente. Não é pouco. É tudo.

Ele percebeu. Não questionou.

Ali, juntos, no frio do inverno, deixaram o tempo correr segundo o ritmo de quem aprendeu que viver, às vezes, significa apenas estar e saber, afinal, para onde se caminha.

E ela não tirou a mão dele da sua.

O rio seguia o seu curso.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

O Preço da Sua Nova Vida