O Laço Vermelho

Fita encarnada

Hoje, ao final da tarde, encostei-me à porta do velho frigorífico Philips enquanto o arroz malandro fervilhava na panela, com um fio ténue de vapor a subir. Não era arroz Carolino, desses que enchem a boca e o orçamento, mas sim o mais barato do supermercado, o pacote de 0,69 da marca branca, com mais fé do que sabor. Mexi com a colher de pau, baixei o lume e aproveitei o cheiro acolhedor, um conforto modesto de quem aprendeu a dar valor ao pouco.

Pela janela via a Avenida 25 de Abril, ladeada de prédios de quatro andares cobertos de azulejos desbotados, com tílias cujos pólens, todas as primaveras, se colavam às cortinas. Do outro lado, o quiosque da Dona Fátima, sempre aberto, vendia flores durante todo o anopobres mas resistentes, como a maioria de nós por aqui. Já cá moro há doze anos; esta rua, com o seu rangido típico no terceiro degrau do prédio e o cheiro a sopa a atravessar as paredes, é minha como as calosidades nos pés ou o sei que a segunda gaveta nunca fecha bem.

Manuel entrou na cozinha sem bater, sorrateiro, o corpo largo a encher a ombreira da porta. Vestia uma camisa cinza-clara que não me era familiar. Só passado uns segundos repareiporque o perfume também não era. Suave, floral, com um travo adocicado, diferente do cheiro a couro do carro ou do aftershave barato que gastava quando chegou ao bairro.

Então, minha galega de Braga? Manuel espreitou a panela e fez uma careta carinhosa. Sempre a pão e água?

Arroz malandro, com cebola disse-lhe, sem grande humor.

Dá-se por agradecida, que cebola é já luxo. E bateu-me de leve no ombro. Aguenta só mais um bocadinho. Quando tivermos a casa na Sobreda, vais ver, vida nova.

Assenti, naquele gesto adormecido, que serve de resposta e de sinal de cansaço. A cabeça rodopiava, era o terceiro dia seguido de tonturas leves, como se o mundo estivesse um pouco inclinado. Sei a razão: comer menos, poupar mais. E calo-me.

Alguém já te deu de comer hoje? perguntou ele, a sorrir.

Almocei em casa, como sempre.

Eu tive direito a almoço executivo na empresa. Aguentável.

Pegou no copo, encheu-o de água da torneira, bebeu ali mesmo, pousou o copo e desapareceu para a sala. Fiquei a olhar para o copo como se aquilo dissesse alguma coisa. Desliguei o fogão, servi o arroz no prato fundo, como de costume.

Três anos de poupança já deram para me habituar. O queijo fresco foi substituído pelo iogurte natural do mini-preço e o casaco acolchoado, há cinco estações a sobreviver, já tem remendos que eu própria costurei. Não volto ao cabeleireiro desde Novembro de há dois anos. Se for, é para cortar as pontas eu mesma, ao espelho minúsculo da casa de banho, tentando não olhar demasiado. Às vezes consigo, outras vezes só apetece rir.

Quando Manuel me mostrou as fotos, há três anos, foi como vislumbrar um parêntese no tecto baixo da vida. Casa pequena em banda na Sobreda, meia hora de comboio, paredes em tijolo, um poço antigo, não funcional, mas bonito, e árvores de maçã no quintal. Um alpendre de madeira com banco debaixo de um jacarandá.

É para isto que temos de poupar disse ele, colocando o portátil no meu colo.

Eu, que nunca tive mais do que as chaves do T2 arrendado em Benfica, olhei para as árvores no ecrã e senti um calor silencioso no peitonão era alegria, mas algo próximo, esperança talvez.

Vamos demorar uns três anos, mas se tu cortares nas tuas despesas… explicou ele.

E quanto custa?

Quando disse o valor, silêncio. Era mais do que eu alguma vez tinha tido na conta. Mas acabei por aceitar, não de impulso, mas porque acreditar tinha sido sempre o meu remédio para a vida. Formámos uma conta conjunta, onde eu depositava metade da reforma e o que ganhava nas limpezas que fazia umas horas por semana. Manuel dizia-me que, do seu lado, triplicava o valor. Acreditei nele.

Sempre soube acreditar. Não por ingenuidade, mas porque é mais fácil. Desconfiar cansa, desgasta até bater noutra fímbria do corpo.

Naquele ano, economizar era quase brincadeira. Trocava refeições por sopas, inventava receitas de revistas e sorria ao encontrar promoções nos folhetos. Parecia leve. No segundo, começou a pesaro corpo a dizer que não lhe chega. Perna fraca, sono, buzinas do autocarro a confundir-me no caminho para o trabalho. Não fui ao médiconão havia dinheiro, e as filas no centro de saúde assustavam.

Devia fazer análises disse-lhe, uma noite.

Mas isso é caro, Rosa. Mais vale esperares, não é grave.

Acabei por ir ao centro de saúde. Hemoglobina baixa. Suplementos baratos da farmácia, carne vermelha fora de questão.

No terceiro ano já não me pesava ao entrar para o banho. O espelho falava. O rosto perdia cor, os olhos afundavam-se, o cabelo sem brilho. Comprei, na feira da Soares dos Reis, um casaco azul-escuro, quase novo. A mulher da banca sorriu, cansada.

Isto é bom para aguentar o frio do Porto disse ela, sincera.

Eu sei respondi-lhe.

Somos todas assim, mulher completou, sem pena.

Na sobriedade dos dias, Manuel sabia animar. Dizia que já faltava pouco, dava-me sempre palmadinhas nas costas ao jantar.

És uma resistente a sério. Admiro-te.

Aprendi a sorrir com o rosto mecânico, o interior em silêncio.

Às vezes ligava à Laura, minha filha. Vive em Évora, com marido e dois filhostelefonemas cada vez mais espaçados, atarefada, sem tempo para paragens.

Estás bem, mãe?

Estou. Temos quase tudo para a casa.

Ainda estão nisso?

Está quase.

Força, então.

E conversávamos dos netos, do tempo, dos jantares rápidos. Desligava e ficava a olhar para a panela ao lume.

Na terceira primavera da poupança, os cheiros ficaram mais aguçados. Talvez, pensei um dia, é o corpo a relembrar o que é fome disfarçada. Comecei a notar perfumes nos autocarros, na roupa, onde antes passavam despercebidos.

O odor do perfume na camisa nova de Manuel tornou-se notório em outubro. Ignorei. Talvez colado dos bancos ou dos corredores do escritório. Em novembro voltou, mais intenso, quando chegou mais tarde do que o costume. Disse que ficou preso numa reunião. Enquanto pendurava a gabardina, o cheiro ficou no ar. Não era meu, nem dele.

Cansado? perguntei-lhe.

Muito respondeu, já a bocejar.

Pendurei a gabardina. Parei ali um instante. Depois fui aquecer o arroz.

Aprendi a não pensar no que não quero pensar. Medo não do marido, mas daquilo que teria de fazer, se enfrentasse de frente.

O saldo da conta crescia devagar. Manuel mostrava-me os extractos. Eu sorria e sentia esperança cautelosa.

Estamos quase lá garantia, apontando para o ecrã. Na primavera negociamos com o senhorio.

Eu acenava: ele nos documentos, eu nas economias.

Em dezembro, começou a chegar tarde quase todos os dias. Dizia que era dos jantares da empresa, espírito natalício, impossível faltar.

Mas um dia, em plena madrugada, entrou leve, animado, fresco. Não tinha o cansaço de beber em grupo, mas sim aquela excitação camuflada.

Boa vida, essa brinquei, sem esperar resposta.

Na Sobreda não vai haver disto. Sossego.

Beijou-me no cabelo e foi dormir. Eu fiquei na cozinha, a ouvir o frigorífico enquanto a noite caía lá fora.

Em janeiro, por acaso, encontrei um talão no bolso do seu fato escuro, o tal usado só em festas: Restaurante Sete Mares, data: 28 de dezembro. A quantia era enorme. Esperei, esperei, decorei os números.

Observava pela janela. Do outro lado da rua, passava uma senhora com um cão pequeno, em passo calmo. Reparei que o valor era igual ao nosso orçamento mensal da casa. Aquele dinheiro esticado ao cêntimo, com que comprava arroz, ovos, chá comum. Aquilo em que me fui tornando pequena.

Voltei a pôr o talão no bolso. Continuei.

Manuel estava a trabalhar. Eu, a tratar de papéis em casa. Pensei quem vai ao Sete Mares no fim de dezembro. Sabia apenas que ali passam carros de luxo, luzes fracas, guardanapos brancos.

Naquela noite, Manuel disse que esteve com uns amigos da faculdade. O cheiro ao perfume continuava ali, doce, estranho.

Eu não tirei conclusões. Habituara-me a empurrar os pensamentos com o cotovelo.

Mas passou a ser diferente. Perguntei-lhe, casual, enquanto limpava a mesa:

O Sete Mares é caro?

Não faço ideia. Nunca lá fui.

Ah. Vi numa publicidade.

Ele assentiu, sem levantar o olhar do telemóvel.

Fevereiro foi frio e silencioso, com o Porto sempre húmido, o aquecimento dos autocarros a trabalhar a meio gás. As tonturas pioraram. Voltei ao centro de saúde. O médico mandou reforçar comida, mas não havia como. São vitaminas baratas, doutor. Não dá para melhores.

Manuel andava, nessa altura, particularmente bem-disposto. Comprou cinto novo, sapatos castanho-escuro, quase reluzentes. Notava-se que não vieram do feirão.

Sapatos novos?

Promoção. Os outros estavam gastos.

Acreditei.

Em março, vi uma notificação no telemóvel dele, deixado na mesa: AutoAlmada. O seu Caravela está pronto para levantamento. Fita encarnada conforme pedido. Caravela é um SUV novo, caríssimo. Nada nosso. A ficha caiu, aos poucos. Em standes de carros, usam fitas encarnadas quando é prenda.

Só mais tarde lembrei que, por vezes, ao comprar um carro para alguém especial, há aqueles laçarotes gigantes, como nos anúncios das jóias.

Deitada ao lado de Manuel, ouvindo-o a respirar, lembrei-me do arroz, das vitaminas, do casaco usado, da última ida ao cabeleireiro. Pensei na conta conjunta.

Na manhã seguinte, fui ao multibanco. Pedi saldo. O número era metade do que devia ser, dado o combinado entre nós.

Fiquei sentada à mesa da cozinha, a olhar para a toalha de plástico manchada de café, uma nódoa teimosa. Nada de especial, mas pensei no quanto tentei apagá-la.

Rosa! gritou Manuel lá do fundo. Já puseste o chá?

Está quase.

Levantei-me, pus água na chaleira.

O peso nas pernas estava pior.

Não comecei logo a procurar por rastos. Seguir era palavra feia para mim, humilhante. Mas numa quinta-feira qualquer, quando ele saiu para mais uma reunião, esperei meia hora e saí atrás. Disse a mim mesma que era só apanhar ar.

O carro dele, já velho, estava na zona comercial do Fórum Almada, não perto do escritório nem de um restaurante. Entrei no centro comercial. Encontrei-o junto à ourivesaria, acompanhado por uma mulher elegante, uns 35, 40 anos, cabelo claro, trench-coat bege. Estavam próximos como quem se conhece bem.

Fiquei atrás de uma coluna, a fazer de conta que enviava mensagens. Vi quando o vendedor mostrou uma caixa de veludo, pulseira ou colar, não sei. Ele pagou com cartão. Saíram juntos, rindo-se.

Fiquei mais um bocado ali. Depois caminhei para a rua. Sentei-me numa esplanada sem pedir nada, a olhar para as poças de chuva na estrada. Não chorei. Por dentro, uma terra dura, escondida ainda debaixo do frio.

Fui para casa.

Os dias seguintes continuei igual. Cozinhei, trabalhei, falámos de casas na Sobreda. Ele dizia que em breve íamos visitar, talvez já negociando.

Se conseguirmos uma entrada e o resto a prestações, nem precisamos de esperar tanto lançou, entusiasmado.

Perguntei quanto havia na conta. Hesitou, pediu para ver mais tarde.

De noite, liguei à Laura.

Mãe, está tudo bem?

Só um cansaço. O resto fala-se depois.

Não compres guerras, mãe. Não ficas mais confortável num apartamento? Esse senhor Manuel quer muito a casa, mas tu?

Hesitei.

Gosto das macieiras, Laura. Gosto daquela imagem toda.

Ela suspirou, paciente. Está bem. Sê feliz.

Depois da chamada, perguntei a mim mesma se alguma vez aquelas macieiras foram reais. Se havia mesmo um banco sob jacarandá, ou era só uma imagem bonita de internet.

Dias depois, liguei para a AutoAlmada, inventando querer comprar um Caravela.

Está uma procura incrível respondeu a funcionária. Ainda ontem entregámos um com laço encarnado, oferta de um senhor à sua… acompanhada. Lindíssimo.

Uma prenda, pois comentei.

Sim, com todos os extras. Um momento emocionante.

Agradeci, desliguei. Fui fazer chá. Por dentro, tudo igualdenso.

Nessa noite fui ao site do banco e confirmei: os meus depósitos certinhos, os dele menos frequentes. Levantamentos em quantias grandes, regulares, não todos fáceis de explicar.

Peguei no caderno onde anoto os gastos, abri numa nova folha, comecei a somar. As peças do puzzle convergiam lentamente, até não haver dúvidas.

Eu, três anos a afinar a vida como uma corda apertada, arroz barato, roupa de feira, médico só em último caso, cortes de cabelo improvisados. Dinheiro a sair. Na ourivesaria, a mulher do trench-coat recebia presentes com toda a segurança de quem não era nova nestas andanças.

E a fita encarnada andava por aí.

À noite entrei na sala. Manuel via televisão, absorto.

Queres jantar?

Não, obrigado. Já é tarde.

Saí. Fiquei deitada, sentada, a olhar para o teto. Ouvi-o entrar, deitar-se. Demorou a adormecer, mas eu nem pestanejei. Pensei em mim. Quando foi a última vez que pensei em mim a sério? Não por sobrevivência, mas prazer genuíno?

Café. Amava bom café, mas já só comprava solúvel. Queijo azul, há anos que não provava. Ostras eram memória de juventude. Talvez, pensei, chegou a altura de me dar algo a sério, nem que fosse só uma vez.

Decidi sem pressa. Levei dias a compor a coragem.

Numa quinta-feira, segui-o até ao fim. Queria confirmação, mas sobretudo ver, tornar real.

Fui atrás dele e da mulher do trench-coat para o jardim da cidade. Vi, de longe, a caixa de veludo, o abraço, o beijo. Mãos geladas, mas tranquilas.

Voltei para casa, ainda serena. Preparei uma malaapenas o essencial: a roupa, documentos, uns trocos que fui juntando escondida nos calcanhares dos chinelos. Pus o velho casaco azul no braço, vesti o blazer bordô, guardado para emergências, saí.

Deixei um bilhete: Obrigado pelo Sete Mares e pela fita encarnada. Que te saiba bem.

Fiz saudação silenciosa ao frigorífico, que gemeu como sempre, e fechei a porta.

Na rua, vida normal: gente a regressar do trabalho, miúdo com cão, quiosque aceso.

Caminhei até ao Continente Bom Dia, perto da estação, uma loja que evito por ser cara. As prateleiras eram belas, com fruta farta, boa luz, pão fresco.

Peguei numa cesta. Escolhi atum dos Açores, bom queijo azul, uma caixa de ostras, pão rústico, café Delta molido Origem Etiópiaaroma a mirtilos, dizia a embalagem. Com tempo, até sorri para a funcionária da caixa.

Fui para uma residencial perto da Sé. Quarto quente, rádio baixo, luz suave. Sentei-me, abri as ostras com jeito, trinquei o atum, provei o queijo, deitei o pão no azeite, fiz café forte.

Enquanto comia, pensava só em mim: no sabor a mar das ostras, na untuosidade macia do queijo, no café. Esto era eu. Não a resistente de sempre, mas a mulher que lembra distinguir o bom do suficiente.

Nunca saberia o amanhãse Manuel vinha, se a minha filha aceitaria, se teria casa, se encontraria macieiras reais. Mas de momento, naquele quarto estranho, sabia que ali estava eu. Sabe-se lá se basta, mas é.

No fim, senti o saborsimplesmente isso.

***

Acordei antes do despertador, abri os olhos, olhei o teto. Fui ao espelho, vi o rosto exausto mas outro.

Desci ao café da residencial, pedi pequeno-almoço: ovos estrelados, pão torrado, café tirado à pressão. Ao lado, uma senhora lia um romance, sentada sozinha. Parecia dona do seu tempo, da sua solidão serena.

Depois, enviei mensagem à minha amiga Teresa: Posso ir aí hoje? Preciso conversar..

Vem, preparo chá, respondeu logo.

Vesti o blazer, agarrei a mala e saí. Na Baixa, o cheiro mudava. Já se notava a promessa de primavera, humidade curiosa no ar.

Na paragem, observei uma gralha num plátano, altiva, indiferente. Ri-me.

Entrou o autocarro, sentei à janela, Lisboa a passarprédios, lojas, árvores nuas, painéis de publicidade. Três anos sem ver o que passava nas ruas. Agora via.

Ao lado, uma mulher mais velha cantarolava, indiferente.

Verde. Avançámos.

O telemóvel calado. Manuel talvez nem desse conta. Isso era com ele.

Eu tinha agora chá, conversa com Teresa, um dia atrás do outro. Não seria fácil, mas saberia o gosto do café de mirtilo, da ostra, do pão bom. Quando olhasse o espelho, reconheceria quem sou.

E nisso, ao menos, há qualquer coisa.

E, quem sabe, há-de haver macieiras. Não as da internet, mas mais tarde, em caminho próprio, eu encontrarei.

Por agora, há apenas uma manhã de março a cheirar a futuro possível. E não é pouco.

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