A Esposa que Não se Encaixa

Esposa desconcertante

Lentamente fui emergindo da névoa da dor e dos sons, como se tivesse subido do fundo de um poço profundo.

Dona Beatriz, está a ouvir? Os sensores mostram resposta. Tente abrir os olhos a voz de um estranho soava abafada e distante.

Tentei obedecer, mas as pálpebras pareciam de chumbo. O corpo não respondia, e cada fibra me doía. Era uma dor surda, espessa, espalhada por todos os músculos. Um zumbido fino martelava nos ouvidos.

O cheiro de hospital aquele aroma implacável a desinfetante e remédio amargo não admitia engano.

Isso Assim está bem a voz aproximou-se. Está a respirar sozinha, é bom sinal.

Com grande esforço, forcei as pálpebras, que se abriram por milímetros. A luz magoou, obrigando-me a fechá-las novamente. O mundo estava desfocado, lavado de branco como tinta corrida pela chuva: teto branco, paredes brancas, um tubo preso ao braço.

Debruçado sobre mim, um homem de idade no rosto vincado de rugas. Olhos austeros, sob sobrancelhas grisalhas, mediam-me com atenção. Gorro branco, máscara caída no queixo.

Onde onde estou? o murmúrio saiu quase seco, anêmico como folhas secas.

Está nos Cuidados Intensivos respondeu, calmo, ajustando um aparelho junto à cama. Hospital Central de Lisboa.

Acidente sussurrei, o eco de uma lembrança faiscando e sumindo: sol a bater no vidro da frente do carro, estrada Ia a caminho mas para onde?

Sim, teve um acidente grave. Lembra-se de alguma coisa?

Ia à clínica para um check-up de rotina Eu e o meu marido estávamos a pensar recorrer à fertilização. Nunca conseguíamos ter filhos

Exatamente o estranho anuiu. Sou o seu médico, Dr. Manuel Oliveira. Foi um acidente muito sério.

A lucidez começava, aos poucos, a regressar, e com ela, o medo.

O meu marido ele sabe? Ele está bem?

Sabe sim a voz de Manuel tornou-se mais seca. Não sofreu nada. Na verdade, nem estava consigo no carro.

Franzi o sobrolho, unindo os vestígios soltos da memória. Era verdade. O Ricardo só iria à clínica depois, a sair do trabalho. Eu ia sozinha.

Há quanto tempo estou aqui? sentia o frio viscoso do receio a aproximar-se do meu peito.

O médico desviou o olhar e suspirou pesado. O suspiro soou ensurdecedor sobre o som dos aparelhos.

Tem de ser forte. O que lhe vou contar será um choque.

Diga sussurrei.

O acidente aconteceu há muito tempo. Ficou muito tempo inconsciente.

Muito quanto? Uma semana? Duas?

Três anos. Esteve em coma durante três anos.

O meu mundo desabou de novo para o abismo de onde mal saíra.

Não murmurei, os lábios a tremer. Não pode ser

Três anos repetiu o médico, firme. Teve um traumatismo cranioencefálico grave e múltiplas fraturas. Lutámos muito por si. Sinceramente, já não tínhamos esperança. A sua vida dependia de um fio.

Três anos.

Olhei para a minha mão pálida sobre a manta do hospital. Fraca mas minha. Viva.

Teve sorte a voz do médico suavizou-se um pouco. O seu grupo sanguíneo é raro. Precisava de uma transfusão massiva urgente e o banco de sangue não tinha o adequado.

Pousou momentaneamente a mão sobre o colchão e continuou:

O seu marido salvou-a. Tinha o grupo compatível. Tornou-se dador e deu tanto quanto foi possível ainda mais. Um verdadeiro herói. O sangue dele, literalmente, deu-lhe vida.

As palavras pairavam pesadas. Ricardo dador salvador

Por alguma razão, aquilo só me provocou um frio estranho no fundo do peito. Eu sempre soube o meu tipo sanguíneo e tinha quase a certeza que o dele era diferente.

Sem forças para discutir, deixei-me afundar de novo num torpor induzido.

Quando voltei a abrir os olhos, a enfermaria estava silenciosa. O bip dos aparelhos soava confortável, familiar. Alguém estava parado junto à cama.

Um cheiro conhecido de perfume amargo. O odor do meu marido.

Ricardo. Reconheci-o antes mesmo de ver-lhe o rosto.

Aproximou-se devagar; percebi as feições de sempre: o perfil perfeito, o queixo rígido, cabelo escuro sempre impecável. Mas havia algo de diferente.

O rosto dele, normalmente neutro e impenetrável, estava agora traído por uma expressão de fria e quase desprezível dureza.

Uma enfermeira mulher robusta, cerca dos cinquenta, olhos bondosos e cansados trocava o soro. Lembrei-me do nome: Dona Margarida.

Ricardo inclinou-se até sentir o seu hálito gelado na minha face.

Querida a voz era baixa, sibilante, claramente reservada para mim. Que bom ver-te acordada.

Esboçou um sorriso cortante.

Enquanto andaste estes três anos a descansar deitada, eu já tratei da herança.

Demorei a perceber.

Herança? Não percebo

Da papelada, Beatriz. Daquela que assinaste antes de ires para esse teu passeio prolongado encolheu os ombros com indiferença. Esqueceste? Nunca lias nada. Passaste procuração para tudo.

Mas eu eu

Obrigado pela assinatura continuou no mesmo tom venenoso. Não imaginava que a tua ingenuidade me seria tão útil.

Em flash, recordei: a urgência do hospital, a dor, Ricardo sobre a maca.

Assina só aqui, querida. É só uma autorização para a cirurgia. Formalidade.

A minha mão trémula assinava papéis, sem ler.

O negócio do teu falecido pai explicou Ricardo, notando agora a minha confusão. Lembras-te do Manuel Teixeira? Deixou-te a transportadora. Nunca te interessaste, paciência. Em três anos, transformei-a num império.

Sorriu, triunfante.

E agora é tudo meu. Completamente.

Olhei para ele, gelada de terror. Aquele não era o Ricardo por quem me apaixonara. Não era o meu marido.

Não podes balbuciei.

Posso sim, e fi-lo respondeu, displicente.

Endireitou os punhos da camisa branca e acenou à enfermeira:

Cuide dela, Margarida.

Fechei os olhos a fingir dormir. Não suportava ver aquele rosto. As lágrimas caíram, queimando as têmporas.

Ouvi ao longe os passos de Ricardo, ressoando no chão frio de mármore. E foi-se embora, deixando-me sozinha neste pesadelo.

Uma mão quente limpou-me as lágrimas.

Pronto, minha querida, não chores murmurou a enfermeira. Poupa as forças. Não merece.

Obrigada sussurrei, sufocando o choro.

Mais tarde, enquanto ela mudava o penso, aproximou-se do meu ouvido:

Aguenta. Se foste capaz de sobreviver a tudo, consegues também isto. O teu marido não és a primeira nem a última a ser enganada. O importante: recupera. Depois tudo se resolve.

Aquelas frases singelas foram o primeiro raio de esperança na minha escuridão.

Chamei baixinho:

Margarida

Sim, filha?

O doutor disse que o Ricardo foi meu dador.

O rosto dela endureceu.

Quem disse?

O Dr. Manuel.

Margarida abanou a cabeça, franzindo os lábios.

Ouve bem: o teu Ricardo não deu gota nenhuma. Nem sabe o próprio grupo sanguíneo. Eu estava de serviço. Perguntei-lhe três vezes, ele só se esquivou.

Mas o doutor

O doutor enganou-se. Ou fizeram-no enganar-se, percebes? O teu marido gosta muito de parecer herói, de se exibir. Andou a contar a toda a gente que te salvou. E como o Dr. Manuel é distraído com papéis, se lhe disseram isso, ficou registado.

Então de onde veio o sangue?

De um dador anónimo do banco. Trouxeram mesmo na última hora. Foi pura sorte.

Ela tocou-me no ombro:

Portanto, não deves a vida a ninguém, muito menos a ele. Entendeste?

Acenei. Tudo era mentira. O heroísmo dele, tão falso como o amor antigo.

À noite, quando o bip dos aparelhos soava insuportável, fiquei a olhar o teto, tentando perceber como errei tanto na escolha. Como pôde Ricardo transformar-se assim?

Quase como brincadeira, lembrei-me do dia em que nos conhecemos.

Quatro anos antes parecia outra vida.

Corria pelas escadas rolantes do Metro do Marquês. Frio, chuva, hora de ponta. Ia atrasada para uma entrevista numa agência de traduções. O salto do sapato quebrou-se no meio da confusão.

Ora bolas soltei, agarrando o corrimão.

Um pé descalço, chapéu encharcado, cabelo desgrenhado que figura.

Parece que a Cinderela perdeu o sapato e a paciência ouvi uma voz divertida.

Ergui o olhar. Ao meu lado, um homem num casaco caro, cheiro intenso a perfume e sucesso. Não era bonito no sentido clássico, mas a imponência e autoconfiança deixaram-me sem fala.

Por pouco não desato a chorar admiti, tentando sorrir. Tenho uma entrevista em quinze minutos. Assim

Analizou-me, não crítico, mas curioso.

Não a vão escolher declarou, seco.

Obrigada pelo incentivo resmunguei.

Não sou simpático. Sou prático estendeu-me a mão. Ricardo.

Beatriz respondi, por reflexo.

Venha. Não deve continuar de Metro.

Como?

Eu levo-a. E resolvemos a questão dos sapatos pelo caminho.

Não posso Não o conheço

Já conhece e um sorriso desarmante Considere um investimento no futuro. Traduções, certo? Acertei?

Sim, mas

Nada de mas. Tem pouco tempo para tomar a decisão certa.

Ricardo era assim dominador, incisivo, resolvendo problemas num instante. Nesse dia, levou-me à loja de sapatos e comprou-me um par caro.

Isto é uma fortuna murmurei.

É o preço do seu futuro emprego retorquiu.

Fiquei com o trabalho. À noite, ligou-me:

E então, trouxeram-lhe sorte?

Como tem o meu número? perguntei, mais intrigada.

Eu sei tudo, Beatriz riu. Jantamos juntos?

Pausa. Fui eu que quebrei o silêncio:

Sim.

Esse jantar deu início a uma sucessão de encontros. O romance acelerou: flores raras, jantares caros, fins de semana surpresa.

Cercou-me de tanta atenção, que derreti. A minha irmã Teresa, cética, assistia de fora, interpretando o provérbio: O amor é cego.

Conheci então os pais de Ricardo.

O pai, António, distante, seco, de outro tempo. Observava-me diretamente.

Tradutora? bufou ao jantar. Coisa pouca. Mulheres deviam era cuidar da casa, ter filhos.

Pai cortou Ricardo. Estamos a tratar disso.

No nosso tempo, não se tratava ele murmurou. Simplesmente vivíamos.

A mãe, Maria Augusta, ex-professora de Literatura Portuguesa, olhou-me com doçura:

Fui quase sua colega sorriu. Vivi para as letras.

Ensinou? fiquei surpreendida.

Nada de especial António cortou. Andava pelos liceus, salário baixo.

Era feliz, sim ela contrapôs. Sinto empatia por si, Beatriz. Tem olhos vivos, gosta mesmo das palavras.

Muito admiti, relaxando.

Falámos de livros a noite toda. Maria Augusta viu em mim gente sua. O sogro, frio.

Vazia ouvi baixinho quando saía da cozinha. Bonita, mas vazia.

Mas Ricardo pressionou; tive de deixar o emprego.

Tu nasceste para mais insistia ele, beijando-me. És demasiado brilhante para seres secretária de outros. Decora a casa, faz arte, pensa em ajudar os outros.

Mas eu adoro trabalhar

Vais adorar ainda mais esta nova vida.

Acreditei. Tornei-me a anfitriã do nosso solar, organizando festas e brilhando nos eventos.

Depois quisemos filhos.

Um ano de fracassos. Dois. Finalmente: diagnóstico de infertilidade.

Por minha culpa chorava eu.

Patetice Ricardo consolava-me, mas já só era formalidade. O dinheiro resolve tudo. Procuramos a melhor clínica; teremos um herdeiro.

Queria aquele filho com tanto desespero, que já nem notava a frieza do olhar dele, as viagens de negócios, o crescente distanciamento.

Nessa altura, o meu pai, Manuel Teixeira, adoeceu seriamente.

Eu e Teresa revezávamos a cabeceira. A nossa mãe morreu connosco ainda crianças uma infeção a partir de cogumelos que evoluiu para pneumonia dupla.

Manuel, antigo engenheiro da Siderurgia, tornou-se empresário. Nunca foi rico, mas sempre livre.

Morreu três dias antes dos cinquenta anos, planeando grande festa.

Depois do funeral, andei em piloto automático. Ricardo transbordava de cortesia, mas tudo girava em torno das minúcias da herança.

Obcecada com a dor, deixei andar. Erro irreparável agora via-o, deitada na enfermaria.

No fundo, o sogro tinha razão: era um bibelô bonito e passivo na prateleira do marido.

Dois dias passaram apressados; Ricardo não voltou. Assim que puderam, transferiram-me para uma enfermaria comum. Aqui, o bulício e os odores de sopa afastavam pensamentos negros.

Logo no primeiro dia, Teresa apareceu.

Ao entrar, quase não a reconheci. Em vez da estudante de há três anos, vi uma mulher adulta e cansada.

Beatriz caiu-me nos braços, a chorar.

Calma afaguei-lhe o cabelo. O que foi? Estás tão diferente

Três anos, Beatriz soluçou. Tive tanto medo de te perder!

Sentou-se à beira da cama.

Tenho más notícias, mana.

Piores ainda? forcei um sorriso.

Ele o teu marido

Diz, Teresa. Aguento tudo.

Pôs-me fora de casa balbuciou. Da casa do pai.

Fiquei paralisada.

Como fora também é tua casa!

Ricardo disse que passaste a tua parte para ele, três anos atrás. Mostrou documentos. Mudou as fechaduras. Cheguei do instituto, as minhas coisas à porta.

Documentos. Sempre os papéis.

E não é tudo Teresa tirou um envelope amarrotado. Ele pediu o divórcio.

Peguei-lhe, as mãos a tremer.

O que diz?

Acusa-te de incapacidade moral e ingratidão. Depois de se ter feito herói salvador. Anda a espalhar que te salvou a vida

Que surpresa aninhei a voz. E tu, onde estás?

No quarto da minha colega, no instituto suspirou. Ficámos sem nada.

Isso a ver vamos sussurrei, crescendo uma teimosia nova em mim. O importante é ter forças.

Ela encolheu os ombros, receosa do efeito que tudo isto teria sobre mim.

Lentamente, fui melhorando. Com saúde a regressar, a indignação tornava-me determinada.

Com o Ricardo, não voltei a falar. Ele sabia tudo do meu estado pela médica, evitando-me sempre.

A verdade, percebi, é que ele esperou todo esse tempo pela linha reta no monitor.

Duas semanas depois fui dada alta.

Fiquei à porta do hospital, mala pequena que a Margarida me trouxe a escondidas. Devolvi os chinelos e robe, respirei fundo e liguei ao Ricardo.

Ah, já sais? soou quase folgazão. Ótimo.

Ricardo não tenho dinheiro, os meus cartões

Estão todos bloqueados respondeu, divertido. Foram cancelados ao fim de três anos sem uso.

E, friamente:

Olha, prepara-te para o divórcio. Três anos à espera foi tempo a mais. O advogado liga-te. Não tornes a telefonar-me.

E desligou.

Sentei-me num banco. Estávamos em maio. Três anos, três primaveras apagadas.

Pouco depois, Teresa trouxe-me um par de jeans velhos e uma t-shirt.

Vens cá para casa, para o quarto de hóspedes sugeriu, sem muito por onde escolher.

Sai do hospital sentindo-me perdida, insegura quase como uma criança.

O quarto minúsculo, dividido com a Teresa, estava coberto de esboços e tecidos. Ela estudava design.

Pálida e ainda fraca, sentei-me na cama, olhando a janela. Toda a vida anterior mulher de empresário, casa grande, roupas, festas agora era apenas um cenário oco.

Tenho de arranjar trabalho disse à noite.

Deixa-te disso, mal te aguentas nas pernas interrompeu ela.

O médico disse que podia trabalhar. E precisamos do dinheiro. Falo três línguas.

Sentei-me diante do velho portátil dela, abriu um site de tradução em inglês. Li um texto e percebi tudo.

Pronto, vês? Lembro-me de tudo.

Mas, ao tentar traduzir um parágrafo, bloqueei.

Sabia as palavras, mas não as conseguia alinhar em português. Fugiam, baralhavam-se, como asas de pássaro espantado.

O que se passa comigo? murmurei, tentando o francês.

O mesmo. Compreender, sim; exprimir em português, impossível. Era como uma parede de vidro entre o pensamento e as mãos.

No dia seguinte, voltei ao hospital.

O Dr. Manuel ouviu-me, fêz alguns testes e concluiu:

São sequelas do trauma. O centro da fala foi afetado. Uma forma de afasia.

Fiquei inválida?

Nada disso. Pelo que vejo, será temporário. O dano não é permanente. Com prática, tempo e paciência, recupera.

Mas preciso de trabalhar repliquei. Agora!

O importante é não se precipitar. Recupere. O resto virá.

À noite, perguntei à irmã:

E se já não conseguir traduzir, o que posso fazer?

Gerias tão bem a casa lembrou ela baixinho. E cozinhavas divinamente Sabes criar conforto do nada.

Experiência de dona de casa expirei. Também é uma aptidão.

No dia seguinte fui a uma agência de emprego doméstico.

A responsável lançou-me um olhar cético:

Experiência profissional?

Organizei uma casa grande respondi.

Então registo doméstica. Que mais?

Notou uma cicatriz sob o cabelo:

O que é isso?

Saí há pouco do hospital, acidente respondi.

Humm não parece robusta. Aqui precisamos de gente dinâmica. Vamos ver e depois ligamos.

Por favor insisti. Preciso muito deste trabalho. Ponho tudo limpo, cozinho, trato de crianças.

Ela suspirou, tocada pelo meu desespero.

Há uma vaga temporária. Mas complicada avisou. É para a casa do Dr. Henrique Correia, cirurgião. Precisa de ama para a filha de nove anos.

Aceito.

Não tenha pressa é difícil. As últimas fugiram ao fim de um dia. A esposa dele faleceu, acidente também, há dois anos. Desde aí, o Dr. Correia só trabalha e a miúda fechou-se num mutismo. Não fala quase nada. Veja por si se ficar

O apartamento luxuoso junto ao Tejo impressionava: caro, moderno mas frio.

Henrique era alto, fechado, de olhos profundos e cinzentos, um rosto marcado pela fadiga e mágoa.

A senhora é a Beatriz nem perguntou. A agência falou. O quarto é ao fundo, a Inês está lá. Veja se se entende.

Desapareceu no gabinete.

Bati ao de leve.

Inês?

Nada. Abri a porta devagar.

A menina franzina de tranças sentava-se no chão, colada ao tablet. Nem levantou o olhar.

Olá, Inês. Eu sou a Beatriz. Vim ajudar-te com os trabalhos.

Silêncio absoluto. Nem um gesto. Só um ligeiro enrijecer do corpo.

Suspirei. Ia ser ainda mais difícil.

Os primeiros dias foram prova de ferro.

Henrique saía cedo, voltava tarde e nunca falava comigo. Inês ignorava tudo, comia mecanicamente, lavava-se, fazia os trabalhos e voltava para o tablet no quarto.

Tendo passado por perda e traição, sentia profundamente a dor daquela criança.

Ao terceiro dia, deixei a cerimónia e entrei sem bater.

Inês, chega de tablet, sim? disse, suave mas firme.

Ela lançou-me um olhar rápido, desconfiado, quase de animal assustado.

Sabes continuei, ignorando em pequena adorava moldar barro. Acho que tens aí massa de modelar.

E lá estava, na prateleira, uma caixa de plasticina e barro. Peguei num pedaço e sentei-me no chão.

Vamos fazer um castelo de princesa? Com torres!

Comecei a amassar o barro. Os dedos, vacilantes, logo ganharam ritmo. As palavras falhavam-me, mas as mãos sabiam o que faziam.

Inês espiava-me debaixo da franja.

Assim não está certo disse, enfim, num fio de voz.

O que não está certo?

A torre. Tem de ser maior.

Com destreza, ela acrescentou o barro, elevando a torre.

Ficámos ali, caladas, a modelar, por uma hora.

À noite, a arrumar brinquedos, vi um álbum antigo, esconso debaixo da cama.

Olha, isto o que é? perguntei.

Não mexa! agarrou-o, colando-o ao peito. É da mamã.

Da tua mãe? Ela desenhava?

Inês acenou, abrindo a primeira página com imensa ternura.

Não era álbum de fotos; eram esboços vivos: seres de conto, puzzles de madeira, bonecos de pano, todos de um traço afetuoso.

Tão bonito murmurei, genuinamente.

Folheando, percebi: não eram só desenhos, eram projetos completos de brinquedos pedagógicos para crianças especiais. Na última página, um logotipo: uma andorinha com um cubo no bico, Oficina Sofia. Brinquedos inteligentes para crianças especiais.

Especiais?

A mamã queria abrir uma oficina para meninos como o Miguel.

Quem é o Miguel?

Um amigo. Da mãe. Não fala; é diferente. A mãe dizia que para essas crianças é preciso brinquedos que ajudem. O pai achava que era tolice.

Afaguei-lhe o cabelo, olhando os esboços. Naqueles desenhos, havia verdadeira vocação bela e real.

Passei a noite em claro a pensar na Sofia, a mãe ausente, e na Inês, que tanto lhe sentia a falta.

Decidi então: a oficina teria de existir.

Na noite seguinte, esperei o Henrique regressar. Ele entrou na cozinha, esfregando os olhos cansados.

Inês está a dormir? perguntou por hábito.

Está sim. Precisava de lhe mostrar isto.

Empurrei o álbum para a frente.

Ele ficou imóvel, o copo suspenso.

Onde o encontrou? voz dura.

Estava debaixo da cama. Isto é brilhante, doutor Henrique

Pouso já isso. Não tem direito. É pessoal.

Aqui é que não tem razão surpreendi-me firme. É o sonho da sua mulher. E da sua filha.

Não fale dela! Nada sabe da Sofia!

Talvez não, mas conheço a sua filha. Brilha só de tocar nestes desenhos.

Nesse instante, Inês apareceu na porta, de pijama.

Papá, porquê que está a zangar-se com a senhora Beatriz?

A fúria de Henrique transformou-se em confusão.

Inês, vai dormir

É o álbum da mamã ela pegou nele, apertando-o. Vamos fazer brinquedos, eu e a senhora Beatriz.

O olhar dela ardia. Nunca o vira assim.

Henrique oscilou o olhar de mim para a filha. Respirou fundo e cedeu:

Façam o que quiserem. Não me peçam é dinheiro.

E voltou ao gabinete.

Mas eu não desisti.

Nessa noite, liguei à Teresa.

És tu que percebes destas coisas, certo?

Destas quais?

Vamos precisar de ti. Temos um projeto em mãos.

Começámos as duas.

Teresa levava ao quarto o portátil e o tablet gráfico; comprámos madeira, feltro, tecidos. Eu, jeitosa com as mãos e bom gosto, ela com o talento de designer, inventámos protótipos.

Henrique ignorou, mas ouvi-o ao telefone:

Olá Fátima, é o Correia. A minha ama anda com um projeto estranho brinquedos para crianças especiais. Como a Sofia queria. Passa cá, vê.

No outro dia, apareceu uma mulher de quarenta anos, olhar esperto e doce. Um rapazinho de sete escondia-se atrás dela.

Boa tarde, sou a Fátima, psicóloga, colega do Henrique. Ele disse para vir.

É o Miguel explicou, afagando o miúdo. Está no espectro do autismo.

Acenei, mostrando-lhe um puzzle de madeira acabado no dia anterior.

Miguel, que normalmente ignorava tudo, ficou parado. Parou os balançar, pegou numa peça, rodou-a e encaixou-a correto.

Fátima ficou boquiaberta, lágrimas a correrem-lhe pelo rosto.

Nunca nunca tocaria sussurrou. Nunca.

Miguel, absorto no puzzle, nem nos deu atenção.

Beatriz, precisamos mesmo destes brinquedos exclamou Fátima. Vou falar a todos os pais.

Para ela foi um milagre, para mim a prova.

Fátima tornou-se a maior entusiasta. Vieram mais mães. O negócio começava.

Teresa, temos de abrir empresa ri.

Finalmente! e os seus olhos brilharam.

Nesse dia, Henrique chegou ao trabalho e viu-nos a mim, Teresa e Inês na sala transformada em oficina, a embalar o nosso primeiro pedido.

Parou na porta; levantei o olhar. Já não havia medo em mim, só serenidade. E ele, por fim, não desviou o olhar.

Naquele quotidiano duro, rodeada de sonhos reconstruídos, aprendi a lição da minha vida: não é o título, o casamento nem a riqueza que definem quem somos. É aquilo que somos capazes de recriar, com as próprias mãos, quando tudo o resto desaba.

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