Vida Adiada
– Mãe, posso tirar um rebuçado da caixa? Só um, vá lá! a Leonor serpenteava perto do armário onde a mãe, Teresa, tinha guardado com tanto zelo as guloseimas compradas à custa de muitos sacrifícios.
– Não! É para a mesa. Se comeres agora, não vai sobrar nada para o Natal.
A Leonor fez beicinho. Que diferença faz comer o rebuçado agora ou depois? E nem pediu muitos, foi só um! Porque é que a mãe é sempre assim? Se é algo saboroso, é para guardar; se é algo bonito, é para dias de festa. E a Leonor só queria tanto vestir o vestido novo que o pai trouxe de Lisboa, em vez de o deixar no armário, e ir a casa da Carminho. Pelos vistos, à Carminho a mãe não lhe proíbe nada, nem mesmo levar coisas novas para o jardim de infância. Bem, ouviu dizer que a mãe da Carminho costurava as roupas, não comprava. Mas que importa? A Carminho é sempre a mais elegante do grupo. E ela lá ia com o seu vestido de bolinhas, já gasto e deslavado.
Naquela altura, Leonor não fazia ideia o quanto custava comprar aquelas guloseimas e roupas aos pais. A mãe era bibliotecária, o pai engenheiro em Setúbal. Desde pequena, Leonor ouvia a palavra arranjar. Isso queria dizer que ia aparecer algo novo, que não se comprava nas lojas. Assim vieram umas sabrinas, uns sapatos de salto para a mãe. Mas depois de comprá-los, quase um mês inteiro comeram só massa e batatas. Só que a mãe andava radiantemente feliz e nos primeiros dias nem calçava as botas, só as olhava. Talvez por isso estas botas ficassem gravadas na sua memória, tanto que mesmo adulta ainda se lembrava de cada risco, de cada sola desfeita.
O tempo passou e tudo mudou à volta. As lojas, de repente, tinham tudo. Comprar roupa e rebuçados infantis deixou de ser questão; o problema passou a ser o dinheiro. Leonor estava no 8º ano, quando o pai chegou, pela primeira vez em muito tempo, com um sorriso contagiante.
– Fui aceite!
Não fazia ideia do que significava, mas pela alegria dos pais, seria excelente. E foi. O pai começara numa empresa de eletrónica, moderna e dinâmica, onde finalmente os seus talentos eram reconhecidos. Leonor notou como algo mudara no pai; já não parecia sempre preocupado e cabisbaixo.
A vida ficou mais leve. A mãe deixou de passar as noites com cadernos, a fazer malabarismos para esticar o orçamento e comprar-lhe um casaco novo. Vieram os primeiros jeans, ténis da moda, e etc. Leonor largou a ideia de ir trabalhar cedo e decidiu ir para a universidade. Os pais apoiaram-na sem reservas. Dois anos fechada em casa a estudar, dispensou festas e amigas, e saiu-se brilhantemente nos exames: estudante universitária! Podia descansar, merecia, mas ela decidiu continuar: primeiro os estudos, depois o emprego certo, e o resto viria depois. E cumpriu tudo: diploma de excelência, trabalho conseguido através das novas amizades do pai parecia que a vida finalmente correspondia ao sonho. Podia agora pensar nela, talvez numa família. Mas Leonor adiou de novo. Carreira! Para nunca mais se preocupar em ter o que vestir, onde viver. E resultou. Os pais orgulhosos: inteligente, independente, carro e casa comprados, viagens ao estrangeiro. Só faltava não estar sozinha.
Mas isso não a assustava. Nunca foi santinha e pretendentes não lhe faltavam. Só que não fazia intenção de arranjar compromisso sério: para quê? Ainda era nova, havia tanto por fazer. Depois vêm os filhos e acaba-se o tempo para tudo.
Os primeiros sentimentos profundos vieram apenas aos 35. Ela e o Vítor eram colegas, gabinetes lado a lado, mas pouco trocavam para além de trabalho. Leonor nunca imaginou que ele gostasse dela. Vítor era marcante: inteligente, bonito tudo o que Leonor admirava num homem. Também ele, por fim, arranjou coragem numa festa da empresa, quando Leonor, um pouco alegre, dançou encostada a ele.
– Casa comigo. Os dois somos realizados e a idade já aperta. É tempo de família. Gosto tanto de ti, Leonor, amo-te!
Ela riu:
– Ó Vítor, és tolo. Temos tempo. Tudo se faz.
Mas de manhã, olhando nos olhos dele, Leonor ouviu-se, surpreendendo-se a si própria:
– Aceito.
Casamento alegre, lágrimas de felicidade da mãe Teresa que já desesperava de ser avó. E nos três anos seguintes, Leonor percebeu finalmente: todos os feitos dela não valiam nada face ao que ganhou, depois de adiar o essencial.
– Não há… O meu futuro já não existe, mãe Leonor não conseguia sequer chorar, com os resultados dos exames nas mãos. Porque fui tão parva?
– Filha, espera. Foi só uma clínica. A medicina avança sempre, nunca se sabe.
– Quando? Leonor atirou os papéis ao ar, espalhando-os pelo chão da sala.
Na casa dos pais, quase tudo se mantinha igual ao seu tempo de menina. Recusavam dinheiro para obras ou mobília nova, apesar do pai estar reformado e doente, e a mãe não conseguia deixá-lo sozinho. Leonor insistia em ajudar, abastecendo o frigorífico, restaurando móveis antigos vintage, pronto. Só fez mesmo obras dez anos antes. Agora, olhando sem ver para as paredes, pensava: dava jeito mudar o papel de parede, polir o parquet. Estranho, donde surgem estas inutilidades quando o mundo desmorona…
– Mãe, não entendes? O tempo é precisamente o que não tenho
Ali ficaram sentadas até ao lusco-fusco, alheias ao telefone. Leonor chorava, acalmava-se, mas já não queria falar. Por fim, ergueu o rosto quase na penumbra e disse:
– Obrigada, mãe.
– Pelo quê, Leonor?
– Por me ouvires. Não tenho mais a quem recorrer. Quem é que agora precisa de mim?
– Filha, não digas disparates! Teresa tapou a boca dela com a mão. Eu preciso, o teu pai precisa, o Vítor precisa
– O Vítor já não.
– Não digas isso, filha.
– É sim, mãe. Isto é um problema meu, não dele. Ele também não tem tempo. Pode ainda ter filhos. Eu não.
Levantou-se, abraçou a mãe e, sem querer ouvir mais, saiu para casa.
– Eu não me vou perder, mãe, descansa. Mandou-lhe um beijo pelo ar e fechou a porta atrás de si. Teresa afundou-se na cadeira do corredor. Porquê, meu Deus? Porquê esta provação logo para a Leonor?
Sem vontade de ir para casa, Leonor desceu à marginal. O tempo já corria frio e quase não havia gente dois ou três donos de cães, e um casal idoso acelerando o passo contra o vento húmido do Tejo, abrigando-se nas gabardinas.
Leonor olhou-os partir e, de repente, desabou em lágrimas. Sempre sonhara envelhecer assim: juntos até ao fim, a entender-se com um olhar, partilhar o mundo… e agora, nada disso seria possível. Percebeu, de súbito, que sempre amou o Vítor, mas adiou admiti-lo. Como tudo na vida Só que agora já de nada isso valia. Porque se amas alguém, importam os sonhos dele, não os teus.
Olhando o rio frio, tão distante, lembrou-se de passeios de domingo com os pais. O gelado comprado sempre, em qualquer estação; e a garganta nunca doía, nem no inverno. Com os próprios filhos, nunca teria dias assim…
Ergueu a cabeça, sacudiu as lágrimas. Chega! Lamentar-se não resolve nada. Tinha de encontrar outro rumo. Agora, aquilo tudo carreira, estatuto parecia-lhe nada. Perdera o mais importante e nada o podia substituir. Havia de descobrir outra razão. Mas qual? Isso ela ainda não sabia. Mas uma coisa urgente tinha: o tempo dela ainda era dela, o do Vítor, já não.
Chegou ao carro e ficou imóvel. Vários jovens surgiram do nada à volta do carro. Olhou à volta: ninguém. E pensou… que diferença fazia agora o que lhe acontecesse? Que interesse tem?
Enfiou as mãos nos bolsos e avançou.
– Então, o que se passa aqui?
Os rapazes, talvez seis, dezasseis anos no máximo, olharam-na.
– O carro é seu, senhora?
– É.
– Ali, debaixo do capô! Dê para abrir! Tem de sair! começaram todos a falar ao mesmo tempo, e Leonor percebeu que não era o alvo deles. Havia outra razão.
– Calma! Não percebo nada. Falem um de cada vez. O que está debaixo do capô?
O mais pequeno avançou. O líder, notou ela.
– Está lá um gatinho. Vimos um gatito trepar para debaixo do carro, e depois subiu mais. Pode ter ficado preso, às vezes ficam a aquecer-se.
– Tens a certeza?
– Tenho sim, senhora! Eles agora procuram o calor dos carros por causa do frio.
Leonor destrancou as portas e abriu o capô.
– Ai, valha-me Deus! exclamou ao ver o grupo sacar dali, a custo, um gato preto como carvão, a miar e a tentar fugir.
– Este é tramado! riu o líder, passando-lhe agora o gato para os braços. Fique com ele, senhora!
– Mas eu? Eu nunca tive gatos! E faço o quê agora?
– Aprende! O importante é dar-lhe boa comida.
Riram e seguiam caminho, mas Leonor lembrou-se de algo:
– Esperem lá! Vasculhou no bolso, tirou uma nota de dez euros e deu-lha. Diz a minha mãe que não se dá nada sem dar dinheiro por trás.
– Obrigado! E foram embora, contentes.
Dentro do carro, Leonor ficou a olhar para aquele achado inesperado.
– E agora, contigo faço o quê?
O gato, já a assentar-se em cima do casaco claro dela, começou a ronronar satisfeito.
– Pronto, ficámos apresentados: uma quarentona e um gato. Tudo como manda a lei… pôs o cinto. Casa, vamos!
Decidiu adiar a conversa com o Vítor para a manhã seguinte, e o resto do serão foi passado a cuidar do gato.
– Onde arranjaste tanto bicho, peste? Que horror! És um monstro! Como me deixei levar nisto? lavava o gato na banheira quando Vítor apareceu com a toalha.
– Estranho…
– O quê?
– Gatos fogem da água, e este está… bem-disposto.
– Ainda por cima ronrona. Sentes o motor? Parece um secador nas minhas mãos.
Enrolou o gato, agora metade em tamanho, na toalha.
– Pronto, alimentar!
Ao vê-lo adormecer a seu lado no sofá, Vítor perguntou finalmente:
– Então, notícias?
Leonor respirou fundo. Melhor teria sido deixar para a manhã, mas o inevitável era inevitável.
– Vamos divorciar-nos, Vítor.
– Quê?! E porque carga dágua?
– Porque não terei filhos. E a culpa foi minha: adiei tudo. Tu ainda podes ser pai. O teu tempo ainda cá está.
Vítor olhou para ela como se a via pela primeira vez.
– Achas mesmo que sou um autómato? Escolho uma, escolho outra? Leonor, tu nunca pensaste… Eu amo-te! Filhos podem ser importantes, mas estar contigo é o que importa! Só tu, não uma outra qualquer. Mas tu já decidiste…
Vítor saiu, levando o gato, meio despenteado, e atirou:
– Durmo no escritório hoje. Boa noite.
Ela só acenou e esperou que ele saísse para desabar em soluços. Devia pensar mesmo assim? Mas e se, com o tempo, ele se arrependesse? Esse pensamento corria-lhe o peito.
A noite foi passada em luta consigo própria. Reviu toda a vida com o Vítor, mas concluía que não haveria alternativa. Generosidade passava, arrependimentos eram eternos. E ele nunca lho diria. Porque era boa pessoa.
Adormeceu ao amanhecer, encolhida numa poltrona, com o corpo dormente. Não ouviu o Vítor sair, alimentar o gato, sair para o trabalho. Só acordou perto do meio-dia, tapada com um xaile quentinho. Em cima da mesa, um bilhete: Volto logo à noite temos que conversar. Nem penses em sair da minha vida. Amo-te.
O gato olhava para ela com uns olhos verdes enormes.
– O que foi? levantou-se, gemeu de dores nos músculos. Quero café. E tu, vens?
Sorriu, pela primeira vez em muitos dias, ao ver o gato seguir apressado até à cozinha.
– Já te ambientaste bem…
Pôs a cafeteira ao lume, e pensou: hoje sinto-me menos pesada. Se foi o bilhete do Vítor, se é o tempo a sarar feridas, não sabia. Mas, finalmente, algo mudara; sentia vontade de seguir em frente.
Ligou para a empresa, disse que precisava de dia para si. Marcou cabeleireiro e manicure e saiu.
A chuva engolia Lisboa. Os carros nadavam nas ruas, o céu escuro pesava. Ao chegar ao carro, já ia encharcada esquecera o guarda-chuva. Mas não voltou atrás. Precisava de fazer qualquer coisa, senão tudo voltava à tristeza de antes.
O atraso prolongou a espera no salão. Leonor folheava uma revista ao acaso: anúncios, artigos sobre maternidade e infância Sorriu amargamente ao ver a capa. Era preciso escolher logo esta! Como terá aparecido ali? Saltou páginas, parou num miúdo com olhos tão verdes quanto os do gato. Sentiu como se o conhecesse de algum lado. Algo a chamava ali. Leu o texto sob a fotografia.
A cabeleireira olhou à volta, espantada, à procura da cliente desaparecida. O banco e a revista ficaram vazios.
Vítor estranhou vê-la a entrar de rompante no escritório, mas não teve tempo de falar. Ela pôs-lhe a revista nas mãos e apontou:
– Vê isto!
– Quem é, Leonor?
– Não sei, Vítor. Só tem o nome e a idade. Mas olha bem
Agarrando-o pelos ombros, levou-o ao espelho, encostando a fotografia ao rosto dele.
– Não te lembra ninguém?
Vítor viu a imagem do rapaz na foto e, de repente, reconheceu traços semelhantes no seu próprio rosto refletido.
– É incrível, não é? Leonor aguardava em suspense. Sentiu falta de ar; era como se tudo dependesse do que ele ia dizer.
– Inacreditável leu o que dizia debaixo da fotografia e ergueu as sobrancelhas. Tens a certeza?
– Nenhuma. Não sei de nada. A revista nem é do dia. Se calhar, já foi adotado. Só sei o que sinto que nada quero mais deixar para amanhã!
Seis meses depois, Leonor e Vítor saíam do lar de crianças com o Alexandre. E, dois anos depois, voltava a acontecer: numa revista, encontrou o rosto de uma menina que viria a ser a filha deles. A Mariana tinha ano e meio, nunca conheceu outra mãe. Leonor tornou-se para ela tudo. Cinco anos mais tarde, a Leonor, pensando que sintomas estranhos eram da menopausa, deixou cair tudo no consultório ao ouvir o médico:
– Impossível! Não pode ser!
A Yara nasceu de parto marcado, surpreendendo toda a família, agora tão grande.
A Teresa conheceu a neta; faleceu um ano depois, vencida pela doença. Mas resistiu até ao fim, rodeada pelos netos.
– Vocês são a minha alegria, a minha vida…
Quando Leonor, a arrumar a casa dos pais, preparava o velho para ir viver com ela, encontrou uma caixa no fundo do guarda-roupa. Abriu e soltou um grito convulso; as crianças assustaram-se.
– Mãe! O que é? o Alexandre correu para ela, sem compreender.
Leonor tirou umas botas velhas, agarrou-as ao peito e chorou, finalmente libertando a dor guardada. Aguentou na despedida da mãe, nos funerais, mas agora rebentou.
– Mamã, porque choras? a Mariana ajoelhou-se à frente dela e tentou olhar-lhe nos olhos. Incapaz de o fazer, abraçou-a com força, chorando também.
A Yara, sem hesitar, juntou-se. Foi o Vítor que apareceu e, com um olhar ao Alexandre, foi capaz de sossegar o coro de lágrimas.
– Então, silêncio! Leonor, o que se passa?
As duas miúdas secaram as lágrimas e voltaram-se para o pai. Agora sim, tudo ia ficar bem.
– Ó Vítor Eram as dela Guardou sempre, imagina Todos estes anos guardou…
Pousou as botas, abriu novamente o armário. Nas prateleiras tudo estava dobradinho: o enxoval dela. Recusara-o ao casar não combinava com a casa nova. Agora, ao mexer naqueles panos de linho, percebeu o amor guardado ali. Saquinhos de lavanda perfumavam ainda o enxoval. Estava ali também a roupa de cama comprada para si, mas nunca usada. Rendas amarelecidas, bordado já discreto…
– Vítor Leonor fixou o marido. Como é possível? As pessoas partem, só as coisas ficam. Mas porquê? Porque adiamos sempre tudo? Porque não vivemos já, aqui? O tal dia talvez nunca venha Não é justo!
Vítor só a abraçou. Palavras não havia.
A Yara enrolou-se na perna da mãe, levantou uns olhos verdes, iguais aos do pai e irmão:
– Mamã!
Leonor estacou, incrédula. Vítor sorriu-lhe e ela ajoelhou-se.
– Diz outra vez…
– Ma-mã! Yara atirou-se para o colo dela. Mamã
O Alexandre e a Mariana bateram palmas:
– Disse mamã! O Alexandre piscou o olho ao pai. Ganhaste, pai.
– Então, toca a ir ao Jardim Zoológico!
– Quando? a Mariana já aos pulos. Ao fim de semana?
– Para quê esperar? Leonor beijou a mais nova e esfregou o nariz no dela. Não se adie para amanhã o que se pode viver hoje. Vamos!
Olhou de relance os lençóis, prendados, espalhados no chão. Isso podia, isso sim, ser deixado para mais tarde.
No carro, enquanto as gargalhadas enchiam o banco de trás, Leonor pensava: talvez nunca descubra como tornar os filhos absolutamente felizes. Ninguém sabe. Mas uma coisa ela queria ensinar: não se adia a vida. O amanhã é eternamente caprichoso. E quando nos convencemos de que o momento está à mão, ele já fugiu.
– E gelado?
– Agora? O Alexandre espantou-se. Mãe, ainda não almoçámos!
– Há tempo. Então?
– Sim! as crianças a bater palmas; Vítor, um sorriso rasgado.
– A estragar, mamã?
– Então, papá! Se não for agora, quando será?







