A chuva outonal pingava devagarinho, fazendo um som de eternidade, sem nunca se decidir entre ficar ou partir. Júlía, de olhos atentos por detrás do vidro embaciado do autocarro, via o mundo a dissolver-se em gotas que deslizavam como memórias esquecidas. Ia em direcção a casa. Ou melhor, para Lisboa, que ela já chamava de lar: o seu T0 no oitavo andar de um prédio gigante, onde o trânsito parecia rezar para o Tejo e as buzinas substituíam qualquer saudade do campo.
Mas “casa”, aquela verdadeira, ficava numa vila entre as serras de Sintra, onde os pais moravam no mesmo velho chalé, onde ela nasceu e terminou a escola antes de fugir para estudar, para se tornar citadina, acelerada com a pressa dos dias lisboetas.
Ela sentia orgulho do caminho: com vinte e sete anos, diplomada em medicina, trabalhando num conceituado salão de beleza na Avenida da Liberdade cursos, formações, sempre correndo atrás do mais. Não ia visitar a vila se não fossem os silêncios dos pais: a mãe, Emília, mais ausente ao telefone; o pai, Jorge, sumido sem explicações.
Mãe, o que se passa convosco aí?
Mas a resposta de Emília vinha suave, enrolada como lençóis de linho antigo: Nada, filha, tudo bem por aqui.
Do aeroporto de Lisboa até à vila eram só duas horas, e as estradas ondulavam como sonhos. Quando chegou à estação, sentiu-se pequena: conhecia cada buraco no asfalto, mas a tabuleta sobre a mercearia mudara e as árvores, antigas, elevavam-se como velhos amigos.
Havia sossego. Um táxi, velho e amarelado, surgiu na praça, conduzido por um José gorducho que parecia sempre meio adormecido.
Para onde, menina?
Rua da Assunção, 17.
O chalé dos pais olhava-a com as portadas azuis abertas de par em par, perfumado pela glicínia da avó e sombreado por três oliveiras plantadas em seu nome. Emília, a mãe, de avental e lágrimas nos olhos, abraçou-lhe com o desejo de engolir o tempo.
Julinha! Finalmente! Três anos já, minha filha!
Mãe, não chores, não faz sentido…
Emília ria e chorava, pegando a mão da filha. Sentaram-se juntas no velho sofá, o cheiro do campo e das tardes de infância enchia a sala. Júlía notou detalhes novos: uma toalha fresca na mesa, loiça de flores minúsculas que nunca vira, embora muita coisa continuasse igual. As almôndegas da mãe, fofas, o arroz de legumes, as rabanadas mesmo fora do Natal, multiplicavam-se na mesa.
Mãe, e o pai, anda por onde? insistiu Júlía, a voz hesitante de quem tenta remendar sonhos desfeitos.
Agora está numa viagem de trabalho Emília pousou os talheres , queria muito falar contigo e o teu pai também. Mas, filha, confesso, ao telefone não dá… E tu sempre ocupada
O silêncio quase engolia a sala. Por fim, a mãe confessou:
Filha, eu e o teu pai… terminámos. Já não estamos juntos.
O mundo estremeceu. Júlia, até então filha única mimada mas esforçada, sentiu o chão fugir-lhe sob os pés. Levantou-se, abriu o roupeiro: as camisas do pai tinham desaparecido.
Onde está ele agora?
Foi para a casa dos teus avós, ali ao lado.
O sangue queimava-lhe as faces.
É uma brincadeira? Mãe, tantos anos juntos! Ele teve outra mulher, não foi?
A mãe suspirou, resignada.
Teve, sim. Mais nova. Do povoado ali ao lado. Vive com ele na casa dos teus avós.
Júlía sentiu o nó apertar-lhe a cabeça, o peito. Desabafou amargurada sobre justiça e traição, prometendo a si mesma que não perdoaria o pai, como quem tenta remendar os cacos de orgulho ferido.
De tarde, ainda enfurecida, vestiu o fato de treino, o capuz a tapar-lhe parte do rosto, e saiu de casa como se fugisse de um incêndio invisível. A vila estava embebida em cheiro a terra molhada. Ouviu a mãe gritar:
Vais para onde?
Até ao ribeiro.
Cuidado filha, lá vêm nuvens.
Mas o mundo não espera. E a velha casa dos avós, de janelas pequenas e telhado inclinado, chamava-a como em sonhos. No alpendre, viu uma mulher de quarenta, mexendo algo numa panela ao lume os olhos cansados, o corpo de quem veio de longe.
É a nova dona da casa dos meus avós? perguntou Júlía, gelada.
A estranha respondeu, calma mas ansiosa:
Deve ser a Júlia, não é? O Jorge mostrou-me a tua fotografia…
Mas Júlia não entrou. Disse que apenas viera “à própria casa”, e não à dela, pediu ou melhor, ordenou que a mulher, Ana, arrumasse as coisas e partisse dali. A mulher apenas encolheu os ombros:
Não posso sair assim, Jorge trouxe-me… O menino também…
Nisto, um rapazito de doze saiu dos fundos, olhos claros como água da ribeira ficou a olhar para Júlia com espanto, como se ela fosse um fantasma. A mãe despachou-o para brincar.
Não vais ficar aqui! prometeu Júlia com voz de trovão, saindo antes de a raiva lhe rebentar no peito.
De volta ao chalé, agitada como a chuva contra o vidro, queria gritar ao pai tudo o que guardava, convencida ainda de que podia corrigir histórias de amor. No fundo, sentia-se deslocada: cidade, carreiras, agendas cheias mas aquela casa era a raiz e o rasgo.
À noite, contou à mãe o que fizera.
Encontrei-a, mãe. E há um miúdo… Vais ver o pai criando um filho que não é teu…
A mãe palideceu, mão no pescoço.
Porquê, filha? Para quê remexer no que dói? Eu e o teu pai casámos por tua causa, mantivemo-nos juntos por ti, e agora… pronto, acabou e há que seguir…
A conversa escorreu como vinho derramado: a mãe, mais sincera do que nunca, falou de ausências, de como se sentia só, de como a vida no campo é diferente, de como, já cansada de querer apenas ser amada, se resignou a viver como as sardinhas, muito perto mas sem se tocarem verdadeiramente.
E se eu agora encontrar outra pessoa? E se me apaixonar, filha?
Pode apaixonar-se respondeu Júlia, impaciente. Faça o que quiser…
Então, talvez já tenha encontrado. Lembras-te da tua colega Beatriz Palma?
O nome soube-lhe a casa quente. Fora amiga de infância, vizinha de descidas à festa da terra, memórias doces. Júlia sorriu, quebrando enfim o gelo, mas a noite terminou entre silêncios e lençóis pesados.
O pai regressou dias depois, cansado, mais velho, cabelos já a rarear. Queria abraçá-la, mas Júlia apenas lhe disse:
Adeus, pai. Agora tem outra família.
O resto dos dias flutuou em cansaço e mágoa. Na véspera da viagem de volta, Júlia decidiu visitar o ribeiro, de onde tudo parecia mais distante, menos real. Viu rapazes em bicicletas. Um deles o filho de Ana caiu em cima de uma pilha de tábuas, gritando de dor. Júlia correu, prestou-lhe os primeiros socorros, improvisou tranquilidade, chamou o pai.
No hospital da vila, o tempo parou. Ana, a mulher do pai, chorava em silêncio; Jorge agradeceu com o olhar, e Júlia percebeu que alguma coisa quebrara nela. Afinal, também eram família, numa estranha rede de raízes e ramos.
No dia da partida, o céu carregava nuvens ainda, mas havia luz espalhada na praça da camioneta. De um Renault branco desceu Beatriz, agora mulher e mãe, acompanhada do marido e filho pequeno. Abraçaram-se, prometeram escrever, prometeram voltar.
Na despedida, todos estavam ali, fechados dentro das próprias memórias: Emília, segurando fluentemente as lágrimas; Jorge, esperando por um sinal. O coração de Júlia, antes rochoso, amoleceu e quando o pai a puxou para o colo, sentiu-se pequena de novo, e talvez, secretamente, perdoasse tudo, como nos sonhos mais fundos.
A camioneta partiu devagar, levando Júlia de regresso à vida de Lisboa. Debruçada à janela, acenou, prometendo a si mesma e aos outros voltar. Lá fora, o sol abriu-se finalmente entre as nuvens, e parecia abraçar cada um deles, dando-lhes abrigo, pelo menos naquele instante, estranho e verdadeiro como só nos sonhos acontece.







