Direito ao Silêncio
O cheiro a perfume no carro era quase palpável, denso como lã embaraçada. Leonor abriu o vidro apenas dois dedos, e logo a cabine se encheu do aroma morno e farinhento da estrada nacional, misturado ao asfalto quente a derreter sob o sol. Junho sempre vinha assim, pensou: pegajoso, sedento de chuva, este ano ainda pior.
Estás tão calada outra vez murmurou Duarte, sem desviar os olhos da autoestrada, as mãos austeras a cada curva.
Não estou calada. Estou só a pensar, devolveu Leonor.
Pensar em quê? Está tudo pronto, tudo pago. Descansa, Leonor.
Os dedos de Duarte eram limpos, unhas curtas, cada gesto preciso como se desenhasse casas no papel. Mãos de arquiteto, pensou ela: tão limpas que parecem nunca ter tocado no mundo sujo.
Duarte, a minha mãe… naquele vestido baixou a voz vês, foi comprado no mercado ali em Matosinhos. Ela esmerou-se, mas com os teus convidados
Os meus convidados são pessoas normais.
Pessoas normais sabem olhar, Duarte. E olham para quem não é do círculo.
Ele soltou um sopro pelo nariz, eco curto aprendido em dois anos de convivência. Significava: Cansei-me de explicar o óbvio.
Leonor, vamos ao nosso casamento. Ao nosso! Não podes pelo menos hoje tentar não inventar problemas?
Não invento nada. Sinto que algo não está bem.
Tu sentes sempre coisas.
Soou quase como um defeito.
Fora, deslizou um letreiro: Restaurante Cacho Dourado, 2 km. Leonor ajustou a grinalda de tule branco cravejada de pérolas miúdas escolhida pela Dona Elvira, mãe de Duarte, no salão da Avenida. Leonor não objetara, nem a isso nem a muitas escolhas nos últimos meses, limitando-se a esperar, no segredo, que tudo acabasse bem.
O pai está nervoso sussurrou. Nunca foi a sítios destes.
Leonor.
O quê?
Basta. Por favor.
Ela fechou a boca, virou o rosto para o campo. Os campos ao longo da estrada eram verdes, vivos, cheios. Lá longe, perdida nos seus próprios pensamentos, ficava a aldeia do Vale Verde. Ali, um casebre com portadas azuis, onde cresceu e onde a avó Prazeres murmurava: Leonorzinha, a agulha não é só instrumento. Conversa com o pano, ouve, ela responde.
Duarte parou o carro frente ao restaurante. Saiu e abriu-lhe a porta. Esses gestos sabidos que ele fazia tão bem palavras bonitas, supostamente no tempo certo. Ela sorriu e agarrou-lhe no braço, por não haver mais nada a fazer.
Os pais já estavam dentro. Leonor viu-os mal entrou: Maria Lopes e Joaquim Alves encostados junto à parede, quase encobertos pelos outros convidados, com o ar perdido de pardais caídos numa feira de papagaios.
A mãe trajava um vestido azul-escuro com gola de renda, a saia mais comprida do que se usa agora. Os cabelos bem tratados, ondulados, uns brincos minúsculos de vidro azul prenda das bodas de prata. Segurava a mala junto ao peito, olhos embebidos nas luzes do teto, com um ar de quem aprecia algo bonito, mas que não lhe pertence.
O pai de Leonor vestia um fato antigo, largo e coçado, tão direito como na velha fotografia das bodas. Calças de vinco marcadas a ferro, gravata posta ao acaso.
Leonorzinha! a mãe quis correr, mas parou, temendo amarrotar o vestido. Pegou-lhe nas mãos. Estás linda.
E tu também, mamã.
Maria soltou um riso curto, hesitante o riso de quem diz deixa-te disso.
Joaquim abraçou a filha devagar, só um braço, para não desajustar nada.
Boa miúda, disse. E nada mais, pois nunca gostou de gastar palavras.
A Dona Elvira Elvira Costa entrou dez minutos depois, serpenteando, donairosa, já habituada aos olhares. Vestia seda cor de vinho, três fios de pérolas e cabelo preso por arte de cabeleireira. Tinha cinquenta e cinco anos, aparentava menos.
Leonor beijou o ar junto à face feita para revistas Uma maravilha! Duarte, vê lá bem: uma mulher assim não se larga.
Duarte sorriu a sua cara de reunião, que Leonor conhecia das apresentações do ateliê.
Elvira virou-se para os pais de Leonor, com um olhar que parecia acolhedor, mas tapado por uma cortina de avaliação fria.
Dona Maria, senhor Joaquim. Que prazer, Duarte fala muito de vós.
Maria sorriu e acenou, Joaquim apertou-lhe a mão.
Sentaram os pais de Leonor na ponta afastada, ao lado de um primo de Duarte que falava toda a noite com a esposa sobre remodelações de casas que só eles entendiam.
Leonor ia olhando de soslaio: a mãe cortava cuidadosamente cada garfada, tensa, o pai espreitava o jardim iluminado pela janela. Às vezes trocavam olhares cúmplices, que feriam mais que qualquer palavra.
Os brindes seguiam-se: primeiro o amigo de Duarte, depois a amiga da noiva, e assim por diante. O champanhe era bom e a comida arranjada como nas revistas. Os empregados moviam-se em silêncio, como gaivotas entre mesas.
Por volta das oito e meia, Elvira pediu o microfone. Levantou-se devagar, impondo respeito. A sala calou-se.
Tenho umas palavras a dizer. O brinde da mãe do noivo é especial voz treinada, cheia, de quem manda.
Palminhas e risinhos.
O meu Duarte sempre foi de coração grande pausa, bem marcada. Em criança acolhia gatos, ajudava colegas. Culpa do pai, que Deus tenha, um pouco minha também gargalhada estudada. Quando me apresentou a Leonor… surpreendi-me. O Duarte sempre teve escolhas fáceis. E escolheu uma rapariga de aldeia, de uma família tão digamos simples… E isso, meus caros, é um sinal de generosidade do coração.
Leonor sentiu Duarte enrijecer ao seu lado, imóvel como pedra. Elvira prosseguiu.
Os pais da Leonor olhou para o fundo são gente lutadora. Respeitamos o trabalho. Seja de limpar, conduzir… cada um faz falta. Mas sejam francos: nem todas as mães, como a Dona Maria, teriam coragem de deixar a filha dar este passo. É preciso bravura uma inveja saudável por tanta simplicidade, sabem? Quando se tem menos ambições, vive-se melhor. Não pensam?
Alguns riram nervosos. Outros ficaram em silêncio.
À Leonor e ao Duarte: amor e saúde! E que a Leonor nunca esqueça de onde veio, pois isso a faz especial.
O tilintar dos copos encheu a sala.
Leonor não bebeu. Ficou a olhar o vazio. Cá dentro, sentia-se inverno seco, aquele frio de dezembro antes de nevar. Olhou para a mãe.
Maria sorria. Um sorriso que foi o mais terrível da noite: rígido, cortês, de quem foi ofendido por palavras suaves e não tem direito a resposta.
O pai contemplava o prato. A gravata torta.
Leonor pousou o copo, ergueu-se.
Posso dizer umas palavras? perguntou, baixa, mas todos ouviram.
Duarte virou-se, algo lhe passou nos olhos medo, súplica, talvez.
Leonor pegou no microfone.
Obrigada a todos por virem. Agradeço, sobretudo, aos meus pais voz firme, surpreendendo-se com a calma A minha mãe, Maria Lopes, que há trinta anos limpa casas alheias e mantém a sua como nenhuma outra. O meu pai, Joaquim Alves, que faça chuva ou faça sol pega no carro e vai trabalhar para nada nos faltar. Vieram aqui não porque foram convidados, mas porque são meus pais. Não a rapariga da aldeia. Não a caridade. A filha deles.
A sala ficou muda. Elvira segurava o copo suspenso, com um olhar estranho.
A dignidade, Leonor continuou, não depende de restaurantes nem de carros. Sei-o porque vi todos os dias nas pessoas a quem hoje chamaram simples. Simples como pão, como água, como honestidade.
Pousou o microfone, delicadamente.
Depois retirou a grinalda. O tule, leve como asas, pousou na toalha, ao lado do champanhe intacto.
Duarte, disse. E olhou-o nos olhos.
Ele não respondeu.
Foi suficiente.
Leonor foi à mãe, agarrou-lhe na mão; acenou ao pai. Joaquim pôs-se de pé, endireitou o casaco.
Saíram juntos, devagar, as costas direitas como nunca.
Na rua, o cheiro do jasmim misturava-se ao calor. Dava para ouvir música vinda do pátio de um vizinho, uma melodia singela tocada no acordeão.
Leonor, filha…
Deixa estar, mamã. Está tudo certo.
E agora?
Vamos para casa. Não vamos, pai?
Joaquim ajeitou a gravata, sorriu de lado.
Mais que pronto respondeu.
Entraram no velho Renault do pai, cor de asfalto molhado. O carro tinha a idade da Leonor. O motor tossiu, encheu-se de coragem e pegou.
A viagem até Vale Verde demorava três horas e meia.
A mãe adormeceu no banco detrás. O pai seguia calado. Leonor via os campos, e dentro dela havia apenas silêncio, tão espesso que parecia água funda.
Quase de manhã, o pai perguntou:
Vais arrepender-te?
Ela pensou.
Não sei disse.
Ele acenou. Não voltou a insistir.
A casa cheirava a madeira velha e lilás. A gata Mimi estava no alpendre, olhando-os como quem sabia que haviam de regressar.
Na semana seguinte, Leonor quase não saiu do quarto. Não por vergonha, embora a vergonha vivesse ali, num canto das costelas, quieta. Não sabia o que fazer de si. Cinco anos na cidade e dois com Duarte, tudo sumido numa noite, como um filme apagado abruptamente.
Desligou o telemóvel ao segundo dia. Duarte ligou doze vezes nas primeiras vinte e quatro horas. Depois, provavelmente desistiu. Ela não quis verificar.
A mãe vinha trazer-lhe chá, sem perguntas. Era essa a arte das mães: silenciar com delicadeza suficiente para aliviar.
O pai consertava a cerca das hortas. O martelo soava constante, tranquilizante. Leonor ouvia-o e pensava: É assim pega-se e arranja-se.
Ao oitavo dia, ergueu-se de madrugada e foi ao sótão.
No baú, por baixo de revistas velhas, encontrou os bastidores da avó Prazeres. Madeira boleada e linhas de todas as cores, cuidadosamente dispostas como se a avó tivesse saído só um instante.
Levou tudo para baixo e pôs-se à janela.
A mãe, com o bule na mão, deteve-se à porta.
São da avó, não são?
Sim.
Ensinou-te bem. Lembras-te?
Tudo respondeu Leonor.
Agarrou a agulha, passou o fio. O primeiro ponto saiu torto, a mão tremente. O segundo ajeitou-se. O terceiro já bonito.
Desde muito pequena Leonor bordava. Estava-lhe nos ossos, se tal coisa existe. A avó dizia: bordar é conversar. Cada ponto é palavra, cada cor um sentimento. Não se está calado a bordar. É fala, mesmo num mundo mudo.
Os primeiros dias bordou sem rumo vermelho, depois azul, depois dourado. Surgiram folhas, depois um pássaro, depois uma flor de oito pétalas, a que a avó chamava guarda-vida.
Dona Zélia, vizinha, apareceu a devolver umas tesouras antigas.
Leonor, mostra-me lá isso.
Ela mostrou.
Zélia ficou longos minutos calada, segurando o pano ao sol.
Isto é para se vender, menina. Não escondas isto.
Quem vai querer…
Eu quero. Agora. Quanto pedes por esse pássaro?
Leonor ficou baralhada.
Dona Zélia, não diga disparates
Disparate? Eu dou dinheiro porque quero, não é pena, percebe a diferença?
Aquilo travou-a. Pena e interesse honesto não são o mesmo.
Em setembro tinha seis peças feitas: dois panos de linho com motivos tradicionais, um painel de flores do campo, um quadro do bosque da aldeia que só ela lembrava, e duas toalhas com pássaros.
Zélia levou um pássaro e um pano. Leonor aceitou pouco dinheiro, quase só pelo gesto. Mas aquele dinheiro pesava diferente no bolso: não era salário, não era esmola era o valor do trabalho feito à mão.
Nicolau apareceu no fim do mês.
Leonor estava à janela, com o bastidor, quando a mãe a chamou. À porta, um homem dos seus trinta e tal, de botas e casaco grosso, mãos de trabalhador visivelmente de campo, nunca de escritório.
Bom dia, chamo-me Nicolau. Venho de Santa Cruz, aqui ao lado. A Dona Zélia contou que faz panos bordados.
Faço.
Queria um para a minha mãe, faz anos em novembro. Queria algo genuíno, nada de loja. Ela sempre bordou, percebe a diferença.
Trocaram olhares. Um homem aberto, sem condescendência, só humildade.
Entre, mostro o que há e se quiser, faço personalizado.
Ele entrou, demorou-se a olhar cada peça, passando o dedo nas linhas, pausando nos motivos.
Que bordado é este? apontou para o pano de vermelho e preto.
Beirão, ensinado pela minha avó. Tem símbolos de fertilidade e proteção.
E é daqui?
Sou. Mas morei na cidade uns anos. Agora voltei.
Ele acenou, não perguntou porquê. Leonor agradeceu-o por isso.
Levo este apontou e este. Um para a mãe, outro para casa. Tenho uma filha, adora ver coisas bonitas.
Como se chama ela?
Margarida.
Falaram do preço. Nicolau não regateou nem fingiu ser caro, embora Leonor pedisse pouco.
Antes de sair, perguntou:
Faz só para quem conhece ou pode vir mais gente?
Venha quem quiser.
Então venho. A Margarida gosta de cavalos. Faz um motivo desses?
Sorriu.
Faço, claro.
Ele partiu. A mãe apareceu do lado da cozinha, com ar de quem tudo ouvira, mas perguntou nada.
Bom homem, comentou.
Mãe.
Digo apenas, bom homem.
Duas semanas depois, Nicolau veio buscar o pano da mãe e trouxe Margarida. Menina pequena, cabelo escuro, olhos atentos. Sentou-se em silêncio a ver o pano que Leonor bordava.
É um cavalo? perguntou.
Ainda não. Mas vai ser.
Daqui a quanto tempo?
Mais ou menos uma semana.
Margarida acenou, ponderada.
Nicolau ficou à conversa com Maria na cozinha falaram da colheita, do sol, das folhas a cair cedo.
Depois disse a Leonor:
Tem mesmo jeito. Sente-se a diferença quando há alma nas coisas.
Obrigada.
Nunca pensou vender online? A minha falecida mulher vendia cerâmica e safou-se bem.
Leonor fez silêncio.
Já pensei, mas não sei como começar.
Eu ajudo, se quiser. O meu compadre percebe disso.
Porquê?
Ele sorriu, sereno.
Só porque sim. Coisas boas não se guardam.
Foi dito simplesmente. Leonor agradeceu de novo.
Outubro foi de trabalho duro. Bordava oito horas ao dia ou mais. Margarida vinha de bicicleta ver a evolução. Sentava-se, ficava em silêncio atento e confortante.
Nicolau ajudou a criar uma página online. Leonor fotografou os trabalhos, descreveu-os. Três dias depois teve o primeiro pedido de outra cidade, depois outro. Em outubro fez sete encomendas.
Pensava pouco em Duarte. Quase. Às vezes, à noite, voltava aquela dor amarga dos silêncios. Não palavras, não gestos, o silêncio. Isso doía mais.
Em novembro, na primeira geada, parou em frente à casa um jipe alemão, pesado, demasiado elegante na rua da aldeia.
Leonor avistou-o pela janela.
Pensou: turistas perdidos.
Mas saiu dele Dona Elvira. Casaco comprido, botas de salto (logo presas no barro). A seguir, devagarinho, Duarte, gola levantada.
Leonor não foi abrir. O pai saiu e ficou na soleira, silencioso.
Bom dia disse Elvira. Queremos falar com a Leonor.
Está a casa respondeu o pai.
Chama-a?
Pausa.
Leonor! Têm contigo.
Ela saiu, ficou ao lado do pai. Usava camisola velha, calças, cabelos numa trança, mãos com calos das agulhas.
Leonor, viemos falar, só falar mesmo, com sinceridade
Fale.
Não quer entrar?
Leonor olhou para Duarte, que olhava o muro de rede.
Podem falar aqui.
Elvira hesitou, baralhada.
Sei que aquela noite saiu mal, disse demais. Sabes como é: emoções, palavras a mais. Uma vida não se deita fora por isto.
Que vida?
A vossa com o Duarte. O apartamento está pronto, como sabes. Tem tudo; trabalho para ti num ateliê, não apenas costureira designer, que tens talento. E carro.
Duarte olhou-a finalmente.
Leonor, pensa. Podemos recomeçar.
Tu calaste-te disse ela.
O quê?
No restaurante. Baixaste os olhos e calaste-te.
Ele tentou falar. Não saiu.
Não sabia o que dizer.
Eu sabia. Disse-o. Sozinha.
Silêncio. Do quintal vinha o crocitar de uma gralha. O pai permaneceu ali, quieto, a força de quem sustenta o mundo com uma cerca.
Dona Elvira Leonor soou firme desejo-lhe saúde e ao Duarte. Não volto. Não é orgulho nem mágoa. Sei o que quero.
E o que queres?
Viver a minha maneira.
Elvira fixou-a uns instantes, depois assentiu, menos altiva.
Então, está bem.
Voltaram a entrar no jipe, com dificuldade deram a volta e sumiram.
O pai resmungou:
Deixa-os ir.
Entraram. A mãe ficou à entrada, mão ao batente.
Boa decisão resumiu.
Leonor voltou aos bastidores. Puxou a agulha, retomou o ponto.
Dezembro e janeiro arrastaram-se em trabalho e encomendas. Em fevereiro tinha já vinte e três trabalhos enviados de norte a sul. Uma senhora de Viana escreveu-lhe uma carta a agradecer o pano do casamento foi a melhor prenda dos vinte anos de casados, dizia, pois era vivo.
Nicolau vinha semanalmente. Trazia sempre algo: leite, mel, lenha para o inverno. Conversavam de tudo e de nada: Margarida, saudades da mãe, morta em silêncio na infância da pequena, trabalho, feiras.
Deviam ir à feira em Oliveira sugeria ele ali as tuas coisas vendiam bem.
Dá medo
Medo de quê?
De ser a aldeã bizarra
Nicolau olhou-a com aquela expressão directa.
Quem disser isso é que é ridículo. O teu valor não é coisa para se esconder.
Em fevereiro Leonor foi à feira.
Levou oito peças. Estendeu-as sobre a mesa forrada de linho. Esperou.
A primeira cliente chegou em cinco minutos. Mulher de idade, com saco ao ombro e olhos experientes. Apalpou o pano.
Foi a menina que fez?
Fui sim.
Vê-se. Há vida nisto.
Levou dois panos e um quadro.
À tarde, Leonor só tinha três trabalhos para levar de volta. O dinheiro era real, valor de mãos e alma.
No regresso, Nicolau, no camiãozinho, perguntou:
E então?
Sabe bem riu-se Leonor, surpreendida com a alegria.
Ele também riu-se. Margarida, entre eles, trincava um bolinho da feira.
Leonor, podes ensinar-me a bordar pássaros?
Ensino. Prometo.
Lá fora, nevada miúda e branca, estrada a desaparecer na noite. Leonor olhava os faróis, sentindo dentro algo novo, manso e estável como fogo numa salamandra.
Na primavera, o que não se diz em voz alta por medo foi acontecendo.
Nicolau veio uma noite inesperada. A mãe saiu logo da sala.
Ele sentou-se.
Vou ser claro. Sinto-me bem contigo. Margarida também. Não peço pressa nem grandes planos, só que saibas, é mais que amizade.
Leonor olhou para as mãos dele, repousadas.
Sei.
E?
E eu também gosto.
Acenou, levantou-se.
Amanhã venho cá. Pode ser?
Pode.
Em maio, mudou-se para Santa Cruz.
O casamento foi em junho, um ano após aquele outro junho. Notou, guardou só para si.
Festa junto ao rio, mesas no relvado, toalhas de linho. A mãe fez empadas de couve e tartes de maçã, as vizinhas trouxeram iguarias. A mãe de Nicolau, Dona Idalina, pequenina e vivaz, tomou conta do fogão e dos ânimos.
Foram poucos. Os pais de Leonor, vizinhos, família do Nicolau e Dona Zélia. Margarida de vestido azul carregava um ramo de flores do campo.
O tocador, senhor José, veio da aldeia do lado. Tocou concertina até os pés fugirem por si.
Leonor levava um vestido branco, linho bordado de folhas, aves, flores de oito pétalas. O véu bordado por ela. Não o das lojas caras, mas seu.
Joaquim levou a filha ao rio; a mãe sacou do lenço a meio cerimonial.
Idalina disse-lhe baixinho:
Eles precisam de ti. Mas tu também te precisas a ti. Nunca te esqueças.
Leonor abraçou-a.
O Senhor José tocou um fado lento. Dançaram. Nicolau segurava-a como se não quisera largar. Margarida dançava sozinha, cuidando de não perder o passo.
O rio cintilava, o sol batia em tons de fogo.
Maria ficou de mão dada a Joaquim, cinquenta anos no mesmo compasso. Olhava-a e não chorava, só olhava.
Há histórias que só se vivem.
No outono, Leonor inaugurou a sua oficina.
O anexo tomou luz e cor; janelas rasgadas a sul, mesa longa de trabalho, prateleiras de linhas, iluminação certa. Margarida desenhou um passarinho vermelho na porta torto, mas a sorrir.
Recebeu duas aprendizes: Daniela, filha da vizinha, quinze anos, olhos de faísca pelos bordados; e Dona Helena, professora reformada nunca tocara na agulha, mas sempre quisera.
Criaram uma loja pequena. As encomendas chegavam por internet, turistas paravam com frequência, os locais perguntavam por prendas.
Um dia apareceu a televisão regional; depois foi o canal nacional. Leonor soube por Dona Zélia, que gritou para ela ligar a TV. Mas Leonor estava na oficina, de agulha na mão, e sorriu: depois vejo. Não viu. O trabalho tinha de ser entregue sexta-feira.
Entretanto, a duzentos quilómetros dali, num décimo segundo andar a ver a cidade, uma mulher via televisão.
O apartamento era espaçoso, decorado de catálogo, plantas exóticas mudadas semanalmente. O vinho tinto repousava intacto no copo de cristal.
Elvira estava sentada, robe de caxemira, chinelos de lã. Duarte em viagem, ou não; não perguntava já. Desde Leonor saíra, algo mudara mais calado, evasivo.
Não importa. Passa sempre.
Na TV, falava-se de artesanato português, oficinas, mestras. Elvira ignorava, só não gostava do silêncio.
Então ouviu a voz. Calma, quase a cantar. Levantou os olhos: era Leonor.
Sorria de verdade, de mangas arregaçadas, com duas aprendizes ao lado e Margarida sentada a desenhar. Falavam-lhe:
Quando começou a bordar?
Com a minha avó, sempre foi conversa com a agulha.
A oficina recebe pedidos de todo o país. O que é o mais importante?
Leonor pensou.
Para mim, importa que seja vivo. Cada peça leva algo verdadeiro.
A câmara afastou. Nicolau entrou, mão pousada no ombro dela, Margarida acenava para a câmara. Leonor ria-se, dos olhos.
Elvira ficou imóvel. O vinho não desceu.
A reportagem passou para outros mestres. Elvira não ouviu. Olhava o ecrã, mas não via nada.
Pegou no comando, desligou tudo.
Ficou silêncio. Sempre houvera silêncio naquele apartamento impecável. Pensava que se habituara.
Pôs o copo no aparador, olhou as mãos uma aliança brilhante, comprada para si, no seu aniversário. Porque podia. Porque não havia quem lha desse.
O diamante acendeu uma centelha na parede.
Elvira fitou a faísca.
Pensava em Leonor? Não. Pensava em si jovem, o que queria? Não sabia. Achava que, com dinheiro, teria tudo; com empresa, viria o tempo para aproveitar. Mas o tempo virou um vazio de tardes longas. Amigos? Lembranças de negócios. Hoje só chamadas em datas festivas.
Lembrou-se do brinde no restaurante, do discurso sobre simplicidade e bondade, convencida de ser fina e sábia. Depois, veio a miúda de branco, disse o que pensava de frente, educadamente, e saiu.
Pensara na altura: pateta recusar a felicidade assim!
Agora, pensava… em quê?
Não que estivesse errada isso seria fácil demais. Perguntava-se: há alguma coisa que tenha feito com as próprias mãos? Não comprado. Feito. Com calor.
A empresa era papel, reuniões, dinheiro. Duarte? Criou-o, sim. Mas mais geriu do que sentiu. Quando foi a última vez que sentou com ele em silêncio? Quando a última confiança?
As orquídeas na mesa, frias. Elvira levantou-se, percorreu a casa: tudo limpo, ordenado, certo. Tudo certo, feito como devia.
Foi à janela. A cidade era luz, milhares de vidas. Alguém ali ria, discutia, amava ou aprendia. Lá longe, uma rapariga conversava com a agulha e o pano.
Tonta murmurou Elvira, sem saber a quem, talvez a si.
Sentou-se de novo. Bebeu um gole. Bom vinho. Caro. De quem conhece.
Pousou o copo.
Então? disse ao vazio. Então, e daí?
E daí. Bela pergunta.
Vivera segundo as regras. Ganha. Vence. Não deixes ninguém rebaixar-te. Sê a melhor. Compra o que diga: tiveste sucesso.
Comprou. Tudo.
E agora, de robe, sozinha, olhava o impossível: um televisor desligado.
A aliança brilhou de novo, fria.
O que te alegra? perguntou sem raiva.
A cidade mexia, lá fora vozes alegres.
Pensou na mãe, já morta, mulher do campo, vinda jovem para o Porto, vida de vendedora. Mãos gretadas, sempre escondidas. Lembrava-se das tardes em casa da mãe, mesa posta com o que houvesse, orgulho nos olhos humildes: Tu és uma vencedora, filha. Vais longe.
Foi. Mas e agora?
O que diria a mãe? Talvez nada. Punha chá na mesa, escutava só.
Sentiu algo apertado na garganta. Não lágrimas, não chorava há muito. Só seco. Só vazio.
Pronto, disse ela. Pronto.
Foi pousar o copo, ficou a olhar a face no vidro: cansada, inteligente, só.
Não infeliz.
Mas não feliz.
Simplesmente alguém que conhece o preço de tudo, mas não o valor do que não se compra.
Apagou a luz, foi deitar-se.
Na oficina, a última vela derretia. Leonor arrumava linhas e tecido. Na outra sala, ouvia Nicolau a ler para Margarida, risos baixinhos.
Leonor apagou a vela.
O escuro era calmo, cheiro a linho e mel.
Foi à janela.
Céu de outono, cada estrela no seu lugar. Cada uma a brilhar à sua maneira.
Foi ter com os seus, ao mundo escolhido por si.






