Graça Portuguesa

Brincadeira

Inês! Inêsinha! Deixa-me copiar!
O sussurro da Leonor ecoou pela sala, fazendo com que a professora Filipa largasse o registo de presenças e erguesse os olhos.

Leonor Teixeira! Descansa um bocadinho, sim? Escreve por ti!

Oh professora Filipa, isto é mesmo difícil! Leonor nem sabia o que era filtrar uma resposta.

E quem disse que tinha de ser fácil, Leonor? E mais, a Inês tem uma versão diferente da tua. Portanto, pedir não te vai valer de nada.

Como assim?! Ela está mesmo aqui à frente!

Assim mesmo! sorriu Filipa, imitando o tom dramático de Leonor. Dei-lhe outro enunciado.

Olhe assim não é justo! Leonor afundou-se na mesa, mas rapidamente começou a espreitar à volta à procura de outros salvadores.

Ninguém notou como a Inês encolheu-se atrás da sua carteira, com medo de levantar os olhos do caderno ou de virar a cabeça.

Todos os professores sabiam que ela era a salvadora da turma nascia-lhe o talento à custa do próprio peso. E claro, aproveitavam-se disso sempre que podiam. E tentar dizer não, então? Era de imediato alvo de mágoa ou exclusão.

Inês, contudo, não era maldosa. Deixava copiar, mas seguindo o conselho da mãe tentava camuflar isso de forma a não meter-se em apuros.

Inêsinha, sei que és uma menina muito boa. Mas também tens de pensar em ti. Para entrares onde queres, precisas de um bom diploma. Não o estragues por causa da preguiça dos outros, que nem umas regras conseguem decorar.

O conselho da mãe fazia sentido, mas Inês suspirava por dentro. Se a mãe soubesse a dificuldade de ser a melhor aluna numa escola onde ninguém quer saber de nada

A mãe tinha-a mudado para aquele colégio em Lisboa depois do divórcio. Razões não faltavam. Entre elas, o irmão mais novo de Inês, filho do novo casamento do pai tudo enquanto os pais ainda estavam juntos.

Ninguém lhe explicara nada adultos com os seus problemas, enquanto Inês ficava no quarto com o bloco e os lápis de cor. E folha após folha, pintava tudo de negro, sem deixar escapar sequer um fio de luz.

A primeira a aperceber-se foi a avó paterna.

Mas o que é isto que vocês andam a fazer? Olhem o que fizeram à miúda!

Por estranho que parecesse, a avó ficou do lado da nora e não do filho.

Sai ao pai Ele também me traiu toda a vida. Era esse o feitio Terrível Iguais como duas gotas de água, infelizmente. A única diferença é que o meu ao menos voltava sempre e sem filhos.

E perdoava-lhe?

Que remédio, Olívia Amava-o, e também sabia que ele gostava de mim. Senão, não voltava sempre para casa.

Custou-lhe esquecer?

Nem imaginas. Aliás, nunca esqueci de verdade. Não vivi, apenas aguentei. Agora penso para quê? Para quem? Mas não há volta. Por estranho que te possa parecer, agradece à vida por o teu marido ter tido um filho fora. Eu já te vi, Olívia. Farias como eu, aceitavas. Certo?

Não sei Dói tanto

Pois dói. Mas a minha neta está agora entre a espada e a parede. Tem pena da miúda, ao menos! O meu filho não me ouve, mas tu foste sempre inteligente. Que pena me dá que se estejam a separar Olha para ela, coitada.

Sim, tem razão. Só nós adultos é que temos culpa aqui

E a mãe de Inês fez o impensável. Sentou-se à frente da filha, apenas com seis anos, e explicou-lhe tudo.

Inês, o pai e eu não vamos continuar juntos na mesma casa.

Porquê?

Vamos divorciar-nos. Ficamos só as duas, mas continuarás a ver o pai aos fins de semana ou quando houver tempo. Não chores! Olha para mim O teu pai vai continuar a ser teu pai! Eu prometo

E tu? Inês limpava as lágrimas, zangada. Os adultos sempre a fazerem tudo à sua maneira!

Eu nunca vou embora

Só aí Olívia percebeu realmente o medo da filha, o motivo de tanto negro nas folhas.

Foram precisos meses de conversas para lhe explicar o que estava a acontecer e afastar o terror. Custou, mas a pouco e pouco a vida ajeitou-se. Inês via o pai, não tanto quanto gostaria, mas o suficiente para perceber: tinha deixado a mãe, não a ela. O pai continuava a estragá-la com mimos e arranjou com Olívia e a nova madrasta uma convivência cordial. Irina era um amor, gostava dela e a relação era pacífica.

Ainda assim, o que se passou marcou Inês. Por vezes pensava: terá o pai saído porque ela não era boa filha? Com o irmão era diferente, e queria ter mais filhos E ela? Porquê não a quis?

A mãe e a avó repetiam sempre que não era nada disso, que era amada, mas a dúvida instalava-se naquele cantinho do peito que nunca a largava. Era uma sensação irritante, que aparecia em momentos decisivos, quando precisava de confiança a 100%.

No início, parecia apenas nervosismo. Só faltava ver as pernas a tremer sempre que era chamada para ler poesia no primeiro ano.

Toda a semana decorou a poesia com a mãe. Contou-a ao espelho, com sentimento, achando que ia arrasar. No jardim de infância entregavam-lhe os papéis mais difíceis, pois nunca falhava.

Mas naquele dia, assim que segurou no microfone e tentou encontrar a mãe e a avó na multidão, as palavras desapareceram. As lágrimas caíram, não conseguiu dizer nada.

A subdiretora, ao seu lado, ajoelhou-se e limpou-lhe as lágrimas com um carinho que Inês guardaria para sempre:

Dizes-me depois? sussurrou.

Ela acenou, a custo.

Felizmente, a professora Filipa não esqueceu. Esperou por Inês à saída da escola depois das aulas.

Então, contas-me o teu poema? Quero muito ouvir.

Para qualquer um, contar um poema à professora parecia insignificante, mas para Inês aquilo foi tudo. Endireitou as costas, largou a mão da mãe e afirmou cada verso, arrancando aplausos dos adultos.

Muito bem! Eu sabia que conseguias!

Mas não consegui na apresentação olhos cheios de lágrimas outra vez.

Como não?! Então e agora? Olha quem te ouviu! É o que importa, Inês. Foste uma campeã! Sabes?

Acho que sim

Guardou aquele momento para sempre. E quando Filipa passou a ser a sua diretora de turma no secundário, ficou contente. Sabia que ali tinha alguém do seu lado.

Filipa cuidava de Inês.

A tua filha é sensível, inteligente, mas muito frágil dizia à mãe de Inês. Já pensaste trocá-la para uma escola de ciências? Aqui tem talento, mas o nosso agrupamento é normalucho. A maioria só tem interesse em ir passando. Para a Inês é difícil. Ela tenta camuflar, mas está-se a magoar. Compreende?

Olívia percebia, mas não podia fazer nada por enquanto. A escola sugerida era longe, noutro bairro, e não tinha quem a levasse. O pai ia ter outro filho, a avó estava doente, Olívia com dois empregos para suar pela renda de um T2 que fossem. Na divisão herdada do divórcio, já mal cabiam.

Aguenta só mais um pouco, filha. Quando estabilizarmos, tratamos da tua escola. Combinado? murmurava Olívia no sofá, abraçando-a.

Não te preocupes, mãe! Eu aguento

E a escola, como vai?

Vai-se andando! respondia Inês, forçando um sorriso. E engolia o resto.

Na sala ninguém goza dela diretamente, mas há sempre comentários:

Lá está a Inês a armar-se! Ouviram-na na História? Com respostas como aquelas, nunca apanhamos um Excelente. Não podia responder com menos?!

Nunca em cara, mas o dia chegou.

Inês! Dez minutos, não sei nada! Leonor sussurrava e Inês empurrou o seu papel das contas na direção dela.

Filipa, distraída com uma mensagem qualquer, não viu nada.

Vasco, o colega do lado, discretamente inclinou a sua sebenta para ela ver o enunciado do teste de Leonor.

Obrigada! murmurou ela, indicando o erro com o dedo, sem precisar de palavras.

Conheciam-se desde a primária.

O rascunho passou de mão em mão. E silêncio até ao final.

Quando tocou a campainha começou o inferno.

És esperta, não?! Ficas praí, feita múmia! Fim de período e nem a tua melhor amiga ajudas! Alguma vez viste, Vasco?! Leonor batia na sua mesa.

Leonor, estás errada disse Inês calma, mas incandescente por dentro.

Mas porquê é que tinha de ser sempre ela a dar tudo?

O porquê raio era a avó Lina. Sempre que se irritava substituía asneiras por expressões mais leves, proibindo Inês de as usar.

Tu és menina, não estivador! Comporta-te!

Mas avó, tu também dizes disparates! Eu ouço!

Eu já sou relíquia! Posso largar um palavrão e dar um trago na cigarrilha. Tu não! Fica feio. A idade é charme, mas tu confia, não combina! Uma rapariga tem de ser diferente!

Mas os rapazes dizem!

Não é a mesma coisa. Demoro uma vida a explicar, mas acredita: um dia vais perceber. Ninguém se casa com uma gaja porreira. Amiga sim, mulher não. Certo?

Talvez Avó, foi assim com a mãe e o pai?

Mais ou menos. Mas pergunta a eles. Fica o mistério entre vocês, como nos teus poemas favoritos. O segredo, a delicadeza Isso sim é especial

E agora, à beira de explodir por dentro, Inês controlou-se.

Deixa a Inês! Vasco meteu os livros na mochila de rompante. A culpa é tua, Leonor! Queres tudo feito à tua maneira!

Porque amigos não fazem isso! berrou Leonor, batendo uma última vez.

Não é verdade! Inês perdeu a calma. O Vasco resolve tudo sozinho! Quando posso, explico-lhe o que falhou. Chega! Queres ajuda, tens ajuda. O resto, Leonor, resolve comigo fora da sala.

Pegou na mochila e saiu, engolindo as lágrimas antes que toda a turma visse.

Leonor ficou sentada, murmurando para si:

Já percebi quem tu és, Inês! Vais ver o que é bom. Devias ser mais modesta

Nesse dia não falaram. Nem no seguinte. Nem na semana seguinte.

Leonor deixou mesmo de falar com Inês, e a turma esperou em suspense pelo próximo passo da antiga amiga.

Leonor tinha imaginação para dar e vender sabia bem transformar a vida de alguém num autêntico calvário.

Inês temia a represália mas, inesperadamente, Leonor surpreendeu-a.

Inês! Já chega. Duas semanas sem nos falarmos Pazes? Leonor sorria de orelha a orelha.

Não estou zangada.

Pois, vê-se logo! Pronto, esquece. Vai, conta antes: vais passar o Ano Novo em casa ou fora?

Nada nas palavras de Leonor trazia a sombra da semana anterior. Inês relaxou um pouco.

Grande erro.

Uns dias depois, encontrou um bilhete estranho na mochila.

Inês! Adoro-te! Vasco.

O caligrafia era igual à do parceiro de carteira. Nunca lhe ocorreria que podia ser brincadeira.

Como saber que Leonor passara quase uma semana a ajudar a professora de Português, D. Margarida, a carregar ensaios, até encontrar alguém noutra turma com uma letra igualzinha à do Vasco? E depois, com a colaboração das amigas, colocaram o bilhete na mochila de Inês.

Agora vais chorar, Inêsinha! Não sou só eu a sofrer! sorriu Leonor, colocando o bilhete cuidadosamente.

No balneário, preparavam-se para Educação Física. Enquanto Inês treinava passes de voleibol, as aliadas de Leonor distraíam-na.

Bora Inês, mais força! Rebate com vontade!

Ninguém se atreveu a rir quando Inês tirou o bilhete.

O que é isso, Inês?! Ahhh! Até parece tímida meninas, vejam! Afinal, o Vasco está caidinho pela Inês! Leonor roubou-lhe o papel e dançou no balneário. Temos de arranjar estratégia!

Dá cá isso, Leonor!

Deixa-te de coisas! Ou melhor nem é preciso estratégia! Vasquinho! Oh, Vasco! Leonor saiu a correr e esmurrou o balneário dos rapazes.

Pálida como cal, Inês gelou.

Só o diário dela sabia que gostava do Vasco. Só a mãe.

É mau, mãe?

Porquê?

É cedo

Pode alguém amar cedo demais, Inês?

Não sei se é amor.

Ainda não é. É o que se chama encantamento. Uma espécie de antessala do amor.

Como assim?

Imagina-te ao pé de uma porta. Espreitas pela greta. Por trás, há tudo alegria e dor, até desilusão. O amor é intenso, Inês. É mistura de tudo. Apaixonar-se é a antecâmara da vida. E viver sem amor não é viver. Até porque nasceu em nós o desejo de não caminhar sozinhas neste mundo. Talvez seja isso

Então achas bom?

É maravilhoso, desde que tenhas juízo.

Mãe

Eu confio em ti. Conta-me desse rapaz. Conheço-o?

Sim

O segredo era precioso para Inês e dava-lhe felicidade.

Mas agora!

Leonor percebeu tudo. Pelo gesto de dobrar o papel, pelo olhar para a porta não fazia sentido, o Vasco estava a jogar vólei com ela, nem podia ter posto o bilhete.

Os rapazes saíram do balneário a rir, Leonor a rodopiar com o papel, Inês encostada à parede, branca de medo.

O que se passa aqui?

A professora Filipa surgiu do nada e a turma calou-se.

Professora, temos novidade! Leonor beijou o bilhete teatralmente, erguendo-o. Tili-lili-tés-ta! Temos casal!

Leonor, estás de cabeça feita? O que é isso?

Um bilhete! O Vasco escreveu à Inês! Diz que gosta dela!

O riso foi abafado pelo olhar da Filipa.

Silêncio! voltou-se para Inês. Então, Inês?

Nesse momento, Inês lembrou-se daquele setembro longínquo, o poema engolido pelas lágrimas, o incentivo da professora:

Não tenhas medo! Eu acredito em ti! Vais conseguir!

E de repente, Inês endireitou-se, passou entre os colegas e parou em frente à professora, que a olhava como a mãe preocupada e carinhosa.

A Leonor tirou-me um bilhete. Não queria que ninguém visse.

Percebo. Vasco? Filipa dirigiu-se aos rapazes e, inesperadamente:

Sim! Fui eu!

Vasco afastou os colegas do caminho, foi direto à Leonor e tirou-lhe o papel da mão.

É feio ler cartas que não são tuas, Leonor.

Estás a mentir! guinchou Leonor, desfazendo-se.

Já não haveria gozo, nem humilhações. A Inês continuaria de cabeça erguida.

E Leonor não percebia: a altivez de Inês era puro medo. Medo de ser julgada, recusada, castigada por algum erro.

Mas nesse minuto, tudo pareceu diferente. O queixo subiu, o corpo ficou tenso, mas não de medo.

Seriam asas? Claro que não. Que disparate! As pessoas não voam!

Mas por que sentia aquela leveza, quase a acreditar que podia flutuar acima do soalho velho da escola?

Leonor? Filipa franziu o sobrolho.

Que foi? Estava só na brincadeira! Ele mente, mente Leonor já chorava.

Dá cá! Vasco enrolou o papelito e deu-o à Inês. Guarda isto. E não mostres a mais ninguém o que te escrevo, combinado? Professora Filipa, hoje temos redação? A Margarida disse que sim. Não preparei nada!

Ao menos admites! Claro que temos! Mas vão escrever sobre outra coisa: o que é uma boa brincadeira?. Agora toca a mexerem-se, já deviam estar prontos para a aula! Vamos lá, malta!

A turma do sétimo B levantou-se, já pouco ligando à Leonor corada de raiva, ao sorriso cúmplice entre Inês e Vasco, ao pequeno papel dobrado no punho dela.

Esse papel seria colado religiosamente no diário. Guardado como um diamante até ao dia em que, no seu próprio casamento, o entregasse ao Vasco.

Toma, marido!

O que é isto, mulher?

O nosso começo

E confias mesmo em mim para lá ler?

Já sabes tudo!

Tudo? O que é que falta saber? Inês aninha-se ao Vasco, ignorando o barulho à volta, os gritos de Beijinho! que ecoam.

Lembras-te do que te disse sobre a paixão? Sobre a porta?

Claro!

Passaste a porta?

O olhar de Inês brilha e sussurra, mesmo por entre a música e vozes:

E fechei atrás de mim! Já não estou apaixonada por ti.

Como assim? Vasco surpreende-se.

Assim! Amo-te. Percebeste?

Agora percebi! Beijinho, Inês!

Beijinho!

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