Os Guardiões

Senhora, deixe-me passar!

Alguém empurrou delicadamente a minha filha Leonor por trás ou melhor, era eu e não a minha filha, tenho jeito para me atrapalhar! e fui obrigado a dar mais um passo, agarrando com força às pegas do carrinho do meu filho Martim, para não escorregar no passeio molhado. O meu casaco, sempre aberto, voltou a pregar-me uma partida, abanando-se ao vento e a tapar o motivo pelo qual andava devagar e a meio do caminho, dificultando a vida a quem estava com pressa.

Oh, desculpe!

Uma rapariga apressada passou por nós, tropeçou por um instante ao aperceber-se do carrinho do Martim. Ele seguia sereno, com as mãos pousadas no colo, sem fazer menção de ajudar nestes dias de chuva, até atrapalhava mais do que ajudava, tentando manobrar as rodas com aquelas suas mãos pequenas e impacientes.

Suspirei e fiz sinal com a cabeça à jovem, a dar permissão para seguir:

Está tudo bem. Vai descansada!

Observei-a afastar-se, ajeitei o gorro do Martim e agarrei-me outra vez firmemente ao carrinho.

Vamos andando? Ainda temos algum tempo. Mas, como sempre, ele era escasso.

Pai, como é que podíamos arranjar mais tempo para não irmos sempre só à consulta? Martim calculou mentalmente quanto faltava até ao fim do passeio e lá se agarrou finalmente ao aro da roda.

Oh, filho, fica quieto por agora, sim? Eu trato disto. Esta parte é a pior, daqui a pouco o passeio está limpo. Estás a ver? Ali já não há lama. Depois de atravessarmos a rua, fazes tu o caminho, combinado?

Está bem!

Mas afinal, querias o tempo para quê? Explica lá.

Martim hesitou, com aquela típica expressão dele que já conheço de cor.

O Duarte disse-me que na Avenida da Liberdade abriu uma loja nova com modelos. Tem mesmo aquela tinta de que preciso.

Ó Martim, não conseguimos ir até lá hoje. É longe e o tempo está péssimo. Logo à tarde promete-se mais chuva. E descer-te outra vez as escadas

Calei-me, ao reparar no ar abatido do meu filho. Ia ceder claro que ia mas só à custa do desgosto estampado no rosto dele. Olha, faço assim: eu passo lá amanhã e compro-te a tinta. Escreves-me exatamente qual é, eu trago. E tu ficas em casa com a avó Isabel.

Porquê com a avó? Ela disse que ia tratar das plantas hoje! Transplantar os vasos grandes e tudo.

Sim, mas está desejosa de revanche no xadrez contigo! Ganhaste-lhe três vezes da última Ficou de orgulho ferido! Disse até que te ia ensinar poker.

Poker é jogo de cartas, pai!

Ó filho, não é só jogo: é arte, é cabeça! Mais do que xadrez quase.

E tu sabes jogar?

Umas coisinhas. A minha mãe Isabel também me ensinou mas a matemática não é para mim como é para ti. Só faço asneiras e perco sempre! Tens de ser rápido a calcular, pensar nos passos seguintes.

Como no xadrez?

Quase igual!

Está bem! Então fico com a avó. Mas

Já sei, querias mesmo ir à loja tu. Prometo que te levo lá, mas mais para a Primavera, pode ser? Nessa altura, vamos passear contigo todos os dias. O jardim fica logo ao lado, com os teus patos preferidos Está combinado?

Pronto, pode ser

Então agora diz-me: que tinta é que queres?

Vermelha! Mas não da cor dos meus lanceiros, outra diferente

Enquanto ele me explicava a diferença entre encarnado escuro e vermelho fogo, lá seguíamos nós pelo passeio, o Martim já distraído e eu, por dentro, a chamar de cruzada pessoal à nossa maratona diária pelas ruas de Lisboa.

A nossa vida dividiu-se em dois tempos há dois anos.

Naquele dia, recebi um bónus no trabalho. Já fazia contas a um presente especial para o Martim e para a mãe dele, Maria quando alguém entrou, trémula, no escritório: era a minha colega Carla, pálida que nem cal, a sussurrar-me:

Ricardo, estão a tentar ligar-te, não conseguem

O meu sangue gelou-se e o mundo deixou de girar.

O quê?

O Martim Ricardo, não te assustes! Ele está vivo! Levaram-no para o Santa Maria.

Só vi o condutor que atropelou o meu filho no tribunal. Ele não conseguia olhar-me nos olhos nem me interessava. Sei que foi ao hospital, tentou falar comigo, mas naquela fase apenas o Martim me importava.

Que adiantam pedidos de desculpa? Voltava atrás o tempo? Trazia o Martim são e salvo? Permitiria a entrada na UCI para falar e abraçar o meu menino?

Porquê aquela pressa? perguntei eu ao condutor, já depois de tudo.

A minha mãe estava a morrer Nunca me falou do quão grave estava Só avisou nos últimos dias, pediu que fosse depressa dizer-lhe adeus Afinal não cheguei.

E mais nada dissemos. Fui trocado pelo marido na vigília judicial porque o hospital era mais urgente e as sessões de tribunal eram um luxo distante.

É complicado o clínico do serviço folheava papéis sem querer encarar-me.

O que dizer a um pai que só queria ouvir vai correr tudo bem?

Não ia. Senti logo. O médico falava em reabilitações, métodos novos, e eu só ouvia uma sentença: o Martim não voltaria a andar. Nunca. Nenhum especialista ia contrariar aquele impossível. Por uma tristeza imensa, perdida para sempre.

Não pensei em mim, nem no que restava do nosso casamento, que já quase só era dividido nessa altura a Maria aceitou logo o diagnóstico, eu lutei até esbarrar de vez na parede:

Não percebes?! Temos de tentar tudo! eu gritava, sem paciência.

Não há mais nada a fazer, ouves?!

Disparate! Se estes médicos não sabem, encontramos outros!

Está bem. Procura.

Eu trabalho! Como posso tratar disso também?

Olha o que dizes! O Martim é teu filho!

E teu também!

E procurei médicos, clínicas, métodos experimentais. Mas há milagres que se perdem no caminho. Talvez porque o destino, ao carregar a sua cesta, distraia-se e deixe cair uma solução aqui ou ali. Quem sabe?

O que era para o Martim, perdeu-se. E eu percebi que tínhamos de continuar, não da forma ideal, mas possível.

Dizer que foi difícil é pouco.

Deixei o trabalho para estar com o meu filho, vi as discussões com a Maria crescerem até se tornarem gritos que até o Martim ouvia e doíam tanto que dava vontade de fugir dali. O olhar da pessoa que julgava conhecer ficou estranho, distante.

Se fosses tu a buscá-lo à escola, como as outras mães, nada disto teria acontecido!

Estas palavras, lançadas como pedras num momento de zanga, nunca consegui perdoar. Pediu desculpa, mas a trinca ficou. E a casa arrefeceu, as vozes tornaram-se ecos, até, cheios de mágoa, ele me deixou.

Vai-te embora

A segunda grande dor da minha vida veio quando o ouvi a fechar a porta. O Martim acordou:

Pai, o que aconteceu?

Dorme, filho. A tristeza foi-se embora.

Para sempre?

Para sempre. Agora somos só nós os dois. Ninguém mais vai incomodar-nos.

Ficou mais fácil? Não. O vazio foi-se tornando um emaranhado de solidão, difícil de desfazer, e vi o Martim tentar adaptar-se. E foi então que comprei, sem querer, a primeira caixa de soldadinhos.

Vê lá, Martim!

O que é isto?

Soldadinhos de chumbo. Mas estão por acabar. Falta pintá-los.

Para quê?

Para ficarem como verdadeiros soldados.

E porque estão vestidos de maneira estranha?

São lanceiros. Não modernos. De antigamente. Queres que te conte?

E sentávamo-nos juntos a pesquisar nas enciclopédias qual a melhor cor para os uniformes. Via o Martim animar-se, ganhar vida graças àquele hobby. Foi das melhores decisões que tomei.

Passado um ano, tinha ele já um exército inteiro, e à noite fazíamos batalhas, discutindo estratégias, eu e ele, quais generais em campanha.

Pai! Tu és o Napoleão! Toma lá juízo!

Não me dês ordens, cada um com o seu exército!

Mas estás a reescrever a história!

Oxalá fosse possível, filho. Dava-lhe sempre razão nas movimentações e recomendava a retirada do destacamento de Aljubarrota.

O pai do Martim desapareceu mesmo quando, na nova relação, nasceu um bebé. A avó Isabel mãe do ex-marido manteve-se presente e com ela, a lealdade da verdadeira família portuguesa.

Oh, Ricardo, desculpa choramingava ela.

Ai, Isabel, de ti nunca me zango. Fazes mais por mim e pelo Martim do que alguma vez alguém poderia Não saias! Não nos deixes!

Os filhos são de quem os cuida. E a avó Isabel continuou a ser família, apesar das dores. Ela era o apoio onde tudo o resto falhava.

Aos poucos, outros foram-se afastando. Até a minha melhor amiga, a Inês, disse que não conseguia ver o Martim naquele estado.

Aceitei. A vida dela compôs-se, a minha não. Mas fiquei feliz por ela, sinceramente. O tempo, nisto, ajuda a curar a saudade da amizade verdadeira, e a proteger da partilha dos problemas.

O que me ia faltando em força, a Isabel compensava. Foi graças a ela que pude voltar a trabalhar. Ficava com o Martim, preparava as sopas, limpava e ia buscar o neto à escola.

Descer o carrinho do Martim pelos degraus do nosso prédio dos anos 70 era um tormento. Eu desenrascava-me, mas sabia que o dia não tardaria em que seria impossível mantê-lo socialmente ativo.

Procurei todas as soluções junto da Junta de Freguesia para instalar uma rampa. Sem sucesso. Trocar de casa? As novas eram caras demais, mesmo os empréstimos seriam impagáveis. Os agentes imobiliários riam-se da minha pequena e escura T2. Trocar por um rés-do-chão parecia impossível.

Porquê? Perguntava-me vezes sem conta. Porque não podia dar ao Martim um lar digno, com as adaptações que ele precisava? Por que raio a vida tinha de ser tão madrasta?

Mas a sorte, sendo madraça, por vezes esquece os papéis em cima do balcão. E, ao acaso, saiu-me um bilhete vencedor.

Num dia igual a tantos, cruzou-se connosco o senhor Aníbal.

Senhora, precisa de ajuda?

O voz veio de trás enquanto tentava empurrar o carrinho pelo monte de folhas e lama à beira da passagem de peões. Juro, não era novo, aquele senhor.

Não se preocupe, consigo sozinho!

Mas ele, resoluto, já se adiantava, estendendo a mão ao Martim.

Chamo-me Aníbal Ferreira. E tu, campeão, podias ajudar a tua mãe! Vê lá como ela já vai cansada

Eu tentei. Ela bate-me!

Entendido! Ora chega-te para aqui, filha! Dá cá o saco, toma umas tangerinas que adoro se te portares bem, até te dou uma!

Às cavalitas da boa disposição, deixou-nos no passeio, mandando-me agarrar-me bem ao saco das ditas cujas.

A ida ao médico fez-se, e, no dia seguinte, ao almoço, bateu à porta do nosso apartamento.

Boa tarde! Aceitam uma visita?

O Martim, assim que viu o Sr. Aníbal, vibrou:

Vens brincar comigo? Mãe, cumprimenta-o!

E poucos dias depois, eu já nem sabia como era possível aquele homem resolver tantos problemas acumulados há tanto tempo. Falou com os vizinhos do prédio ao lado: tinham T2 igual à nossa, ao rés-do-chão. Disponibilizaram-se para fazer troca, até pagando diferença para obras, porque a nossa tinha um bom estado.

É pedir a compensação, Ricardo! Não lhes facilites, a tua até tem cozinha melhor. O resto resolve-se!

Marquei tudo, combinei detalhes e nunca saberei como o Aníbal conseguiu convencer toda a gente. Só alguém à portuguesa: a falar e a ouvir, perguntando E a família, está bem? Conhece ali o Ricardo, o grande pai solteiro do Martim? E todos, cúmplices, a facilitar em vez de complicar.

O pormenor do novo apartamento? Todos ajudaram na obra: o Aníbal puxou do savoir-faire, amigo soldador tratou do corrimão/da rampa para o Martim, a Isabel a supervisionar lancheiras para todos.

No início pedi desculpa eternamente: Desculpem o incómodo, sei que é um transtorno

Mas todos os vizinhos respondiam: Ricardo, não peça desculpa por cuidar do seu filho com tanto amor! Que Deus lhe ajude! E eu, tão habituado a olhares de de lado, a má vontade nos transportes, dei por mim a perguntar-lhe:

Por que não nos olham com pena, nem de lado, nem com aquele desconforto habitual?

Têm medo, Ricardo. Medo de dar azar. Pensam: Mas e se fosse o meu filho? Preferem afastar-se de quem sofre, mas nem todos. Alguns ainda se lembram de ser gente.

O maior presente do Aníbal foi o contacto de um médico que, sem prometer, explicou: havia uma pequeníssima possibilidade, quase nenhuma, mas não se podia perder.

Tem de ir com o Martim ao Porto. O meu colega Aldinares é mago, opera com alma e mãos de santo. Posso pedir-lhe para avaliar o Martim?

Quero tentar, mas não posso pagar tudo

Não pense nisso! a Isabel interveio logo. Vendo a casa de férias do Alentejo e já falei com o pai do Martim. Ele tem obrigação para com o filho. Não recuso!

E assim seguimos. Meio ano depois, a operar no Porto, vejo o Martim, já nas muletas, a fazer os primeiros passos. A rampa ficou para outra família do nosso bairro que precisava dela. Quando dou o contacto do médico à mãe de uma menina na mesma situação, vejo-lhe luz nova nos olhos.

Como aguentou? perguntou-me aquela senhora. Tantos problemas, tanta dor?

Não, não sou eu. Acho sinceramente que existem anjos na Terra, diferentes e improváveis. Eu tive sorte Cada um deles foi meu guardião.

Mesmo?

Sim! E têm um chefe. Forte, íntegro, inabalável. Chama-se Aníbal Ferreira. O meu e do Martim. Não é, filho?

Martim sorri, despenteado pelo vento, ergue-se devagar do banco de jardim e pergunta:

Pai, posso ir brincar com a Beatriz aqui ao lado? Não vamos longe!

Sorrio, vejo-me a mim próprio a segurar a mão da mãe da Beatriz, e respondo aos olhares ansiosos dela:

Claro. E nós, podemos ir também? Não incomodamos?

Venham! Há gelado para todos!

E naquele núcleo volta a surgir esperança. Pequena, mas teimosa como um rebento novo na Primavera.

Não se deve ter medo da esperança. Dêem-lhe um pouco de espaço e cresce, e cresce, mudando tudo ao seu redor. Nem sempre o sonho vira realidade, mas basta ouvir rir de novo em casa, para a tristeza ir-se embora e só restar um barulho diferente e tão doce o da vida. Com o tempo, esse som transforma-se, tornando-se forte, como a energia do sol em pleno verão.

E nesse momento, a esperança dança ao lado das crianças, as pequenas lutadoras por quem rezei tantas noites. Agora sei: nunca devemos fechar a porta à sorte. E, se ela demorar a chegar, podemos sempre ser guardiões uns dos outros.

Que me custa? Vá lá, destino Ajuda só mais uma vez! A mim já ajudaste…

E assim, ao sabor de um capricho, a vida oferece bilhetes novos a quem mais precisa deles.

Hoje, no final do dia, percebo a lição: todos podemos ser um pouco guardiões uns dos outros; às vezes, basta lembrar-nos que é disso que o mundo precisa.

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