Quando a Paciência se Torna Força
Francisca sentava-se na beira da cama, apertando na mão a camisa que parecia pesar toneladas, como se aquilo não fosse apenas um pedaço de pano, mas uma sentença anunciada. O silêncio soava na cabeça dela aquele silêncio ensurdecedor que sucede um grito. Doía no corpo.
As palavras dele ainda pairavam pelo quarto, entranhadas nas paredes, nos móveis, na própria pele dela.
Gorda desleixada, olha-te ao espelho!
Ele gritara aquilo não em fúria, nem magoado mas com alívio. Como se finalmente se tivesse permitido dizer o que guardava há muito. Depois, o estrondo da porta. Só isso. Saiu. Nem olhou para trás, nem pediu desculpa, nem se lembrou de que, no quarto ao lado, dormia o filho deles.
Francisca levantou-se e dirigiu-se ao espelho, devagar, como se fosse a caminho de um julgamento.
No reflexo, viu uma mulher desgastada, com olhos baços. As bochechas mais cheias, olheiras marcadas, o cabelo apanhado ao acaso, sem o cuidado de outros tempos. Tocou no rosto, como confirmando: será mesmo esta a pessoa em que me tornei?
Quando é que isto aconteceu?.. murmurou.
Recordou-se de outra Francisca. Leve. Divertida. Vestida de vestido justo, que fazia o Manuel não desviar o olhar nem por um segundo. Na altura, ele dizia: Para mim, és a mais bonita. Até quando estás zangada.
Agora
Agora olhava-a com impaciência. Com desdém. Com aquela piedade fria.
Francisca deixou-se deslizar até ao chão. Os joelhos cederam. Não chorava. As lágrimas não vinham parecia tudo seco por dentro. Sentia-se virada do avesso e largada assim, sem que importasse o facto de ainda estar viva.
Da divisão ao lado, ouviu um queixume baixinho.
Tomás Francisca estremeceu e apressou-se.
Entrou no quarto do filho e sentou-se perto dele. O rapazinho dormia agitado, franzindo o cenho, como se pressentisse a tempestade. Passou-lhe a mão pelos cabelos escuros, iguais aos do Manuel.
Desculpa, pequenino sussurrou. Desculpa teres ouvido tudo isto.
Ali, algo quebrou de vez dentro dela.
Percebeu de repente: ele não saiu hoje. Saiu há muito quando deixou de a agarrar pela mão, quando evitava o olhar, quando falava com ela como se fosse uma estranha. Só hoje é que bateu com a porta.
Francisca lembrou-se de como, depois do nascimento de Tomás, Manuel a olhou pela primeira vez rápido, avaliando, como quem inspeciona um produto. Não dera importância. Depois vieram as piadas. Espinhosas. Dolorosas.
Bem te alargaste
Antes eras fogo, agora és uma bata de pano.
Engolia as mágoas, desculpando-o com o cansaço, o trabalho, o stress. Continuava a crer que amor era paciência.
Mas o amor não devia humilhar.
O telemóvel tremeu na mesinha de cabeceira. Mensagem.
Vou ficar fora uns tempos. Ajudo o Tomás. É melhor descansarmos um do outro.
Leu aquilo três vezes. Nem uma palavra sobre amor. Nem arrependimento. Nem culpa.
Francisca pousou o telemóvel virado para baixo.
Descansar soltou um sorriso amargo. Já descansaste bastante. À minha custa.
Levantou-se e foi até à janela. Os candeeiros iluminavam a rua, a cidade continuava, como se nada tivesse acontecido. E, nesse instante, Francisca sentiu algo mais do que dor.
Sentiu raiva.
Silenciosa. Fundo. Perigosa.
Pensas que me destruíste, Manuel murmurou. Não imaginas o erro que cometeste.
Nessa noite, Francisca ainda não sabia como haveria de ser a sua resposta. Mas sabia que não havia volta atrás.
Os primeiros dias sem o Manuel passaram como num nevoeiro. Francisca andava no automático: dava de comer ao Tomás, levava-o à creche, sorria à educadora, fazia sopa. Tudo mecânico. Dormia mal, ficava deitada a olhar para o teto, sentindo o coração aos saltos.
Ele não ligava. Só mensagens curtas:
Vou buscar o Tomás ao sábado
Transferi o dinheiro
Nenhuma pergunta: estás bem? Nenhum desculpa-me.
No sábado, apareceu. Seguro. Cheio de si. Casaco novo. Cheirava a um perfume doce que não conhecia provocante.
Olá, disse sem olhar para ela.
Tomás correu para o pai.
Papá!
Francisca mordeu os lábios. Não podia impedir o filho de ver o pai. Mas vê-lo doía, como alguém pressionando uma ferida aberta.
Emagreceste? observou ele, lançando-lhe um olhar de relance.
Um pouco, respondeu, serena.
Era verdade. Francisca mal comia. Mas na voz dele havia desagrado como se ela mudasse sem o consentimento dele.
Vê lá não exageres, riu-se com sarcasmo. Enfim já não interessa.
Ela não respondeu. Fechou a porta atrás deles.
Sozinha, chorou pela primeira vez. Não de dor. De raiva. De humilhação. Por ter permitido que a tratassem assim.
Ao fim do dia ligou à velha amiga, Teresa. Aquela com quem partilhava gargalhadas no tempo de Universidade.
Francisca ouviu, numa inspiração longa. Não tens de aguentar tudo. És tu própria, lembras-te quem eras? E quem podes voltar a ser?
Já sou outra, murmurou, sem força.
Enganas-te. Só te esqueceste de ti.
Essas palavras ficaram na cabeça.
No dia seguinte, pela primeira vez em anos, Francisca entrou no ginásio lá do bairro. Não pelo Manuel. Por ela. Comprou o passe, com a mão a tremer ao assinar o contrato e sentiu por segundos que dava um passo para uma nova vida.
Depois veio o novo corte de cabelo. Depois, a psicóloga. Depois, o trabalho duro, honesto, de se reconstruir, sem mentiras.
Manuel notava as mudanças. Primeiro de raspão. Depois, com desconcerto.
Estás diferente comentou um dia, a buscar o filho. Mais segura, talvez.
Só deixei de ter medo, respondeu Francisca.
Ele encolheu os ombros, mas nos olhos dançava inquietude.
Enquanto isso, a nova vida dele abanava. A paixão por quem ele trocara Francisca não era musa sensível, mas mulher exigente. Jantares caros. Presentes. Reclamações.
Prometeste-me mais repisava ela. E só falas do teu filho.
O Manuel começou a fazer serões no trabalho. O dinheiro rareava. Pela primeira vez em muito tempo, sentiu o chão a fugir-lhe dos pés.
E então percebeu: Francisca já não esperava. Nem chorava. Nem implorava.
Ela vivia.
Um dia, viu-a à porta do prédio de gabardina leve, costas direitas, sorriso nos lábios. Tomás corria ao lado dela, a rir. Francisca parecia feliz.
Manuel sentiu uma pontada amarga. Ciúme.
Como assim? pensou. Sem mim?
Não sabia que aquilo era só o começo.
E que o verdadeiro preço seria bem maior.
Manuel deu por si a pensar cada vez mais em Francisca. Não na mulher cansada, de olhar vazio. Mas nesta nova. Tranquila. Dono de si. Intocável. Isso doía-lhe sobretudo.
A nova relação dele revelou-se bem diferente do sonhado. A mulher era frontal: não disposta a compreensões, paciências, nem adaptações. Queria um homem com dinheiro, tempo e sem laços.
Andas demasiado agarrado ao puto, disse-lhe, empurrando a chávena para o lado. Somos um casal, ou não somos?
Ia-lhe ao sítio. Tomás não era o puto para Manuel. Mas explicar-lhe tornou-se inútil.
Em casa, ninguém o esperava. No apartamento arrendado, fazia frio e silêncio. Ninguém perguntava pelo seu dia. Ninguém deixava bilhetes, nem preparava o jantar. Aquilo faltava-lhe mais do que esperava.
Começou a procurar pretextos para falar com Francisca. Primeiro pelo filho. Depois, cada vez mais.
Está tudo bem com o Tomás?
Não te esqueceste do casaco dele?
Posso passar lá para falarmos?
Ela respondia de forma educada. Breve. Sem emoção.
Isso assustava-o.
Um dia, apresentou-se sem avisar. Ela abriu a porta e ele ficou parado um segundo. Diante dele estava a mulher de quem um dia gostara mas não reconhecia.
Estás mudada, balbuciou.
Voltei a ser eu, respondeu, calma.
Entrou na casa e sentiu-se hóspede. Tudo arrumado, iluminado, sereno. No ar, só confiança.
Cometi um erro admitiu enfim. Fui cruel. Desculpa.
Francisca olhou-o sério. Sem raiva. Sem lágrimas.
Não foi erro, Manuel. Tu fizeste uma escolha. Eu também.
Ali ele entendeu: perdia-a de vez. Não por ter saído. Mas por ter humilhado. Por ter tentado quebrar. Por achar que era fraca.
Pensei que não fosses aguentar sozinha, murmurou.
E eu temia desaparecer sem ti, respondeu Francisca. Mas foi ao contrário.
Nesse instante, Tomás apareceu correndo ao pé deles.
Mãe, vem ver o meu desenho! exclamou.
Francisca ajoelhou, abraçou o filho e riu. Riu verdadeiramente.
Manuel ficou à parte. Suplente.
E percebeu: não era nos gritos, nem na solidão, nem na ruptura que estava o preço. O preço estava na consciência de ter perdido a mulher que o amava sinceramente. E que não há regresso possível.
Ao sair, Francisca fechou a porta sem hesitar.
Ela dirigiu-se ao espelho e, pela primeira vez em tanto tempo, sorriu ao reflexo.
Obrigada por teres ido embora, murmurou. Senão, nunca teria chegado a mim mesma.
A vida continuava. Não como dantes. Melhor.






