Quando a Paciência se Transforma em Força

Quando a Paciência se Torna Força

Beatriz sentou-se na beira da cama, apertando entre os dedos uma velha camisa, como se segurasse ali não tecido mas a própria sentença anunciada em tribunal de sonhos. O quarto dançava em silêncio aquele silêncio gelado que só chega depois de um grito, pesado, ecoando até os ossos, ficando tudo leve e impossível de tocar.

As palavras de Tiago ainda pairavam no ar, enredando-se nas paredes, na mobília, na própria pele dela.

Vaca gorda, vai ver-te ao espelho!

Não era um grito de raiva ou dor. Era um grito satisfeito, libertador como quem descarrega há muito guardado fardo. Logo depois, o estampido onírico da porta. E pronto. Fugiu do quarto, da casa, do Portugal da vida deles. Não olhou para trás. Não pediu desculpa. Nem se lembrou de que, no quarto ao lado, dormia o filho de ambos.

Beatriz levantou-se, caminhando aos tropeços em direção ao espelho, como quem percorre um corredor de tribunal. No reflexo, encontrava uma mulher cansada, os olhos sumidos sem luz. As faces arredondadas, as olheiras fundas como cavernas da Arrábida, cabelos presos à pressa, sem o antigo cuidado nem poesia. Passou os dedos pelo rosto, testando: sou mesmo eu?

Quando é que isto aconteceu?… sussurrou, com voz de papel.

Recordou-se outra, leve e solta, a rir alto pelas ruas de Sintra, vestindo aquele vestido justo onde Tiago só tinha olhos para ela. Ele dizia então: És a mais bonita de todas, mesmo quando te zangas.

Agora

Agora, ele olhava para ela com um desprezo gélido, impaciência, e aquela piedade que congela tudo por dentro.

Beatriz deixou-se descer até ao chão lamacento do sonho, joelhos a ceder. Não chorava. Não havia lágrimas parecia que tudo por dentro já era terra seca. Sentia-se do avesso, esquecida, esquecida de si e do mundo.

No quarto do filho, uma sombra de soluço.

Tomás estremeceu, logo de pé, a correr para perto dele.

Chegou-se ao berço e sentou-se devagarinho. O pequeno dormia remexido, testa franzida, como quem pressente naufrágios da alma. Beatriz passou a mão pelo cabelo escuro, igual ao de Tiago.

Desculpa, bebé sussurrou. Desculpa ouvires isto tudo.

Qualquer coisa partiu-se-lhe então para sempre.

Com súbita clareza, percebeu: ele não se despedira hoje. A sua ausência era antiga. Desde que deixou de lhe dar a mão, de trocar olhares, de lhe falar como mulher da sua cidade. Hoje, apenas fechou a porta.

Viu-se depois, no sonho, ao acordar do parto: Tiago lançou-lhe um olhar de cálculo, de vendedor do Mercado da Ribeira a avaliar batatas. Nem notou, não ligou. Depois vieram as piadas, venenosas, agudas.

Estás tão rodada…
Antes eras fogo, agora só bata e chinelos.

Engolia as farpas, desculpando-as com o ritmo árduo do trabalho, o stress, a cidade a correr. Beatriz acreditava que amor era paciência.

Mas o amor não era feita de humilhação.

O telemóvel a rodopiar na mesa de cabeceira. Uma mensagem.

Vou ficar noutro lado. Ajudo o Tomás. Precisamos de descansar um do outro.

Leu três vezes, tacteando o sentido. Nada de amor. Nenhum pedido de desculpas. Nenhum olhar para trás.

Beatriz pousa o telefone com a tela virada para baixo.

Descansar ironizou, amarga Já descansaste. À minha custa.

Caminhou trôpega até à janela. As luzes da rua destacavam sombras estranhas, carros flutuavam ondulantes pela Alameda. O mundo prosseguia, insensível, em direção ao Atlântico. E nesse instante Beatriz sentiu algo diferente da dor.

Sentiu raiva.

Calma. Profunda. De sombras grossas.

Julgas que me quebraste, Tiago sussurrou. Não imaginas o erro que cometeste.

Não sabia ainda como lhe cairia o pagamento por tudo isto.
Mas não havia regresso.

Os primeiros dias sem Tiago pareciam de algodão: Beatriz existia sem existir dava de comer ao Tomás, levava-o ao infantário, sorria à educadora, fazia a sopa. Era funcionar, nada mais. À noite, olhava o teto e ouvia o próprio coração galopar pelas ruas do sonho de Lisboa.

Tiago não ligava. Só enviava mensagens frias:
Levo o Tomás no sábado.
Mandei o dinheiro.

Nem Como estás?, nem Desculpa-me.

Ao sábado ele apareceu. Postura direita. Camisa nova. Cheiro de perfume estranho, doce, exagerado.

Olá, disse, olhando para o lado, para o chão.

Tomás correu, rindo.
Papá!

Beatriz trincou os lábios. Direito não tinha de lhe tirar o filho, mas vê-lo era morder o próprio peito.

Estás mais magra? comentou ele, lançando um olhar de relance.

Um pouco, respondeu ela, tranquila.

Era verdade. Quase não comia. Mas naquele tom havia irritação como se não tivesse autorização d’ele para mudar.

Olha que ainda te dá para o torto, riu-se. Enfim… tarde demais.

Ela nada disse. Só fechou a porta atrás deles.

Sozinha, desabou a chorar, pela primeira vez. Não pelo sofrimento, mas pela raiva, pela humilhação, por ter permitido tanta nuvem na alma.

Nessa noite ligou à velha amiga, Filipa. Aquela com quem brindava nas noites de discoteca em Coimbra.

Bia desabafou Filipa do outro lado. Não tens de aceitar isto. Sabes quem eras? Sabes quem podes ser?

Já não sou essa, suspirou Beatriz, cansada.

Enganas-te. Só te esqueceste.

Essas palavras ficaram-lhe ancoradas.

No dia seguinte, atravessou o bairro e entrou, pela primeira vez em anos, no ginásio da esquina. Não por Tiago. Por ela. Tremendo, comprou o cartão mensal, assinando como quem assina a liberdade. Sentiu-se, de súbito, alguém nova.

Veio depois a mudança de cabelo. Uma consulta com uma psicóloga. Um exercício de reconstrução, duro, honesto, sem esconderijo.

Tiago reparou nas mudanças. Ao início, só de relance. Depois, franzindo o sobrolho.

Estás diferente, comentou um dia, ao buscar o filho. Mais segura.

Só deixei de ter medo, respondeu Beatriz.

Ele bufou. Mas nos olhos apareceu uma sombra de alarme.

Entretanto, a sua nova vida desfazia-se. A mulher com quem partira revelou-se exigente. Queria presentes. Jantares caros. Queixas constantes.

Prometeste mais, cuspia. E só falas no teu filho.

Começou a chegar mais tarde do trabalho. O dinheiro evaporava-se tão leve quanto névoa do Douro. E, pela primeira vez, Tiago sentiu o chão a fugir.

Percebeu, então: Beatriz já não esperava. Não chorava. Não pedia.

Vivia.

Um dia viu-a na praceta, num sobretudo claro, costas direitas, sorriso leve. Tomás ao lado, gargalhando. Beatriz parecia… feliz.

Tiago foi trespassado por ciúme, amargo e húmido.

Como é possível? pensou. Sem mim?

Não sabia: era só o princípio.
A verdadeira dor estava a caminho.

Tiago começava a pensar nela. Não na mulher cansada de pantufas, mas naquela nova: calma, contida, brilhante. Isso doía ainda mais.

A vida dele era tudo menos festa. A paixão por quem trocara Beatriz mostrou logo as garras. Não tinha paciência para filhos e recusava-se a compreender ou esperar compreensiva.

Passas demasiado tempo com esse puto, atirou secamente um dia. Somos um casal, ou não?

Aquilo cortou-lhe as entranhas. Tomás nunca fora um puto. Mas agora, argumentar era, no sonho, impossível.

Em casa, já ninguém o esperava. O estúdio alugado era de betão e frio. Não havia bilhetes no frigorífico nem chá feito na chaleira. E era disso que ele mais carecia.

Procurava desculpas para falar com Beatriz. Ao início por causa do filho. Depois, cada vez mais.

Como está o Tomás?
Não te esqueceste do casaco?
Posso passar aí, precisamos de falar?

Ela respondia, mas distante. Seca, tranquila. Inacessível.

Isso aterrava-o.

Um dia apareceu-lhe à porta, sem avisar. Beatriz abriu e um instante de estranheza: à sua frente, a mulher que amara… e que já não conhecia.

Mudaste, murmurou.

Voltei a mim mesma, anuiu ela.

Entrou, e a casa respirava ordem, luz, tranquilidade. Não havia tensão; só certeza pairava no ar.

Errei, confessou, finalmente. Fui duro contigo. Desculpa.

Beatriz olhou-o firme. Sem lágrimas, sem ressentimento.

Não erraste, Tiago. Fizeste uma escolha. E eu fiz outra.

Foi ali que Tiago percebeu a perdia de vez. Não pela partida, mas porque a tinha humilhado. Porque a tentara partir. Porque a julgara fraca.

Acreditei que não resistirias sem mim, murmurou.

E eu temi desaparecer sem ti, respondeu-lhe Beatriz. Mas afinal…

Nesse momento, Tomás saltou da sala.

Mamã, olha o meu desenho! gargalhou com brilho.

Beatriz ajoelhou-se ao lado dele, abraçou-o, rios de riso e vida.

Tiago espreitava da porta, figura deslocada.

Só aí entendeu: a verdadeira paga não era o escândalo, a solidão, ou o adeus. Era perceber que perdeu quem o amou. E que nada, nem no sonho mais estranho, lhe devolveria isso.

Ao sair, Beatriz fechou a porta com mãos firmes.

Foi ao espelho e, pela primeira vez em muitos meses, sorriu ao seu reflexo.

Obrigada por teres partido, sussurrou. Se tivesses ficado, nunca teria voltado a ser eu.

A vida avançava. Nunca igual. Melhor.

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