Oito Anos de Peanuts

Oito anos sem importância

O telefone tocou às sete e meia da manhã, quando Leonor estava diante do fogão, observando a água a borbulhar lentamente no pequeno tacho. O fogão era antigo, a gás, com grelhas de ferro fundido gordurentas de outras mãos, uma camada de gordura entranhada, indiferente aos esforços que ela já tinha feito para a remover. Todas as manhãs, aquela gordura lembrava-lhe que aquele apartamento não era dela, que por ali tinham passado vidas alheias, bacalhaus cozinhados noutras panelas, famílias e jantares de domingo que não eram os seus.

Olhou para o visor do telemóvel. Madalena.

Leonor atendeu.

Não respondeste à mensagem dele outra vez disse a filha, sem sequer um «bom dia».

Bom dia, Madalena.

Mãe, é a sério. Ele disse-me ontem à noite. Diz que tu ignoras.

A água levantou fervura. Leonor apagou o lume e atirou para o tacho um saquinho de chá barato, daqueles portugueses, embalados em caixas de cinquenta. Em tempos só bebia chá de folhas, verde, o que Álvaro comprava numa loja algures no Chiado.

Que diga o que quiser retorquiu Leonor.

Mãe, tu tens noção do que fazes? Vives num buraco em Chelas, deves ter lá baratas, estás sozinha, vais fazer sessenta anos…

Tenho cinquenta e oito.

É quase sessenta! E deixaste um homem normal, um apartamento no centro, uma vida normal. Para quê?

Leonor fitou a janela. Do lado de fora via-se um céu cinzento de novembro, uma tília despida, a fachada esburacada da vizinha, amarela e humedecida. No vale, deslizava num estrondo um eléctrico. Os carris eram velhos, o barulho fazia com que nas primeiras duas noites não tivesse pregado olho.

Depois, habituou-se.

Madalena, vou chegar tarde ao trabalho.

Tu nunca queres falar disto como deve ser!

Quero, mas não agora. Podes vir no sábado? Faço sopa.

A essa toca não vou.

Toca. O eco da palavra já tinha chegado a Madalena. Vinha, provavelmente, da Manuela.

Está bem disse Leonor, com calma. Falamos depois.

Mãe…

Madalena, adoro-te. Até logo.

Pousou o telefone na mesa. Pegou no tacho, verteu o chá para um copo de vidro facetado, desses antigos, que encontrara atrás de um armário, num alinhamento de utensílios herdados. O copo era resistente, velho, pesado. Não via destes copos há trinta anos, pelo menos. Bebeu um gole. O chá estava quente, algo áspero, com um sabor a papelão, herdado do saquinho.

Bebeu de pé, olhando a tília pela janela.

Depois vestiu-se e saiu para a rua.

***

O edifício cheirava a humidade e a gatos. Algures no terceiro andar morava um felino que apenas escutava à noite, miando, invisível. Não havia elevador quatro lances de escadas, passando pelas caixas de correio amolgadas, por um par de trenós infantis no canto, restos de outro inverno.

Na rua, estavam uns cinco graus, talvez menos. Leonor fechou o sobretudo e apressou-se para a estação de metro. Não conhecia Chelas assim tão bem meio ano ali e ainda se perdia nos becos. Marvila, Olivais, Vale Formoso. As ruas eram outras, mais largas, mais calmas que no centro. O trânsito avançava, mas sem aquela urgência elétrica da Baixa, uma pressa bem mais silenciosa.

Foi ao minimercado da esquina e comprou um pacote de kefir e meio pão centeio. A caixa, uma rapariga nova com sombras verdes nas pálpebras, não levantou a cabeça. Leonor contou as moedas, guardou as compras e saiu.

No metro havia calor, ruído, um rumor de vozes. Viajava de pé, segurando o varão, com a mente cheia do trabalho. Ontem ela e Duarte tinham terminado o primeiro bloco dos levantamentos, hoje tinham de enfrentar o mistério das vigas da cave algumas pareciam ser mantidas em pé por fé e por um qualquer milagre técnico do século XIX.

A quinta, um casarão nos arredores de Beato. Pequena, final do século XVIII casa principal, dois anexos e uma espécie de cocheira, que alguém transformara e desfigurara até à incerteza. Donos iam e vinham, o Estado converteu-a em armazém, depois abandonou. Mais de vinte anos vazia. Agora havia um financiamento, gente com vontade de fazer dali um centro cultural, e havia uma equipa de projeto. Leonor era a arquiteta de reabilitação. Duarte tratava da parte estrutural.

Era trabalho verdadeiro. Não aqueles projetos pacóvios de alterações em T2 que aceitava enquanto estava com Álvaro, só para não morrer parada, mas obra grande, com memória nas paredes.

***

Quando chegou à obra, Duarte já lá estava. No meio do grande salão, com o inseparável blusão cinzento, fita métrica na mão, olhos postos no teto.

Bom dia cumprimentou Leonor.

Vê isto disse ele, apontando para um canto onde o estuque tinha caído, desnudando o tijolo. Acho que já percebi porque é que o teto desceu ali. Em cima, uma viga rachou de ponta a ponta. Isto não é só reabilitação é quase substituição.

Está aberta ou foi pelas fibras?

Anda, mostro-te.

Subiram ao segundo andar, escadaria já escorada a medo, rangendo a cada passo. Leonor segurava o corrimão, inalada no cheiro agridoce de tábuas velhas e pó, algo mais que não sabia nomear. Cheiro de tempo, talvez. Existências passadas, dissolvidas na caliça.

Adorava aquele cheiro. Sempre adorara.

Duarte indicou a viga. Ela agachou-se, ligou uma lanterna de bolso, alumando a fissura.

Não são fibras disse. Repara no traço. Isto é dano mecânico. Devia estar aqui um peso brutal.

Talvez uma máquina.

Talvez várias. Isto foi armazém.

Duarte sentou-se ao lado. Estavam ambos a olhar a viga, o vento chiando na janela sem vidros.

Mudamos disse ele.

Mudamos, mas pelo mesmo sistema. Ontem vi no arquivo uma ficha técnica da madeira. Aposto que era pinho, mas de boa secagem.

Hoje em dia, encontrar

Eu conheço um fornecedor em Trás-os-Montes. Trabalhei com eles na recuperação de Santa Apolónia. Ligo-lhes.

Duarte anuiu. Levantou-se, limpou os joelhos. Alto, um pouco encurvado, ouvia inclinado para a frente, sempre absorto, parecendo vaguear nos próprios pensamentos. Mas não Leonor já sabia, ouvia tudo, respondia certeiro, nunca cortava os outros. Ao fim de quatro meses, apreciava-lhe isso muito.

Queres chá? Trouxe num termo.

Quero.

No corredor, Duarte abriu um termo, despejou em dois copos de plástico.

Tu hoje estás não acabou a frase, olhando-a de lado.

Estou como?

Não sei. Muito centrada.

Leonor sorriu.

Isso quer dizer que ou a minha filha me ligou, ou a minha irmã.

Ele não perguntou mais. Passou-lhe só o copo.

O chá não era de saqueta.

***

Tinha visto Manuela no domingo. A irmã apareceu de improviso, armada dum bolo salgado. Leonor abriu-lhe a porta.

Manuela, três anos mais velha, vivia no Campo de Ourique com o marido, Joaquim, era contabilista numa empresa de obras. Tinha convicções de pedra, imunes a argumentos. Entrou na casa, vasculhou-a dum olhar e a expressão da sua cara, que Leonor conhecia desde menina: mistura de pena e vaidade.

Valha-nos Deus, isto é uma casa de banho ou uma despensa?

Casa de banho.

Os azulejos estão todos rachados, pá.

Manuela, trouxeste bolo.

Trouxe. A irmã descarregou o bolo, inspeccionando mais uma vez. Leonor, explica-me lá. Apartamento no centro, três quartos, tábua corrida, homem com bom emprego. Ele batia-te, era isso?

Não.

Tinha outra?

Talvez, já não me importava.

Então o quê? És doida? Fugiste, tu dás-te conta?

Leonor começou a pôr pratos.

Deixa-te disso, Manuela.

De quê, Leonor? Sou tua irmã! Era suposto não te dizer nada? Até a Madalena me telefona a chorar, ele também liga, homem de respeito.

Não digo que não, mas para outra pessoa. Serve-te de bolo.

Sempre a escapas assim. Não queres realmente falar.

Já expliquei tudo. Várias vezes.

Disseste foi «sentia-me mal». Todos se sentem mal. Achas que eu sou sempre feliz com o Joaquim? Não vou fugir para uma cave.

Aqui estou sozinha, não é cave.

Sozinha! Manuela levantou as mãos. Cinquenta e oito anos, dormes num quarto gelado, trabalhas por tuta e meia, e dizes que está tudo bem?

Leonor olhou para ela. Ali sentada, grande, calorosa, com o seu eterno casaco de lã bege, o rosto a exibir uma incompreensão sincera. Não conseguia zangar-se com ela.

Tomásia disse Leonor baixinho. Sem mim não te safas, sabes disso?, disse Manuela.

Leonor abanou a cabeça: Posso não me safar, mas ao menos será por pé próprio.

Manuela arregalou os olhos.

Diz-me, estás bem cá dentro?

Estou. Leonor começou a cortar o bolo. O que tem?

É de couve. Manuela olhava desconfiada. Vais a psicólogos ao menos?

Vou.

E então?

Dizem que faço escolhas certas.

Dizem sempre isso. Pagas, é o que querem.

Beberam chá com bolo. Manuela falava de Joaquim, das dores nas costas, dos vizinhos que tinham comprado um cão que nunca se calava. Leonor escutava, a ver o final azul do dia na janela.

Antes de sair, Manuela hesitou à porta.

Deviam falar. Ele preocupa-se.

Está bem disse Leonor.

Sabia que não falaria.

***

Com Álvaro viveu oito anos. Nunca casaram ele detestava burocracias, só soube a razão mais tarde.

Os primeiros dois anos eram outros tempos ou sonhava isso. Ele era carinhoso, levava-a a restaurantes, ao teatro, passaram por Roma, Praga. Dizia que ela era inteligente, de bom gosto. Depois as coisas começaram a fissurar, devagar, silenciosamente, como trincas de estuque antigo.

Vieram as miudezas. Um dia foi a um jantar do trabalho com o vestido verde, o seu preferido. Ele olhou-a, à entrada, e disse: «Tens a certeza?» Só isso. Mudou-se para preto.

Depois, críticas à comida, à maneira como falava com os amigos, como gastava tempo no emprego sem resultados. Sempre num tom calmo, ponderado, quase cortês.

Leonor, sabes que reabilitação não tem futuro, é para gente sem ambições.

Eu tenho ambições.

Sim, és competente. Mediana, mas boa pessoa. Nem toda a gente é brilhante.

Não encontrou resposta. Ficou calada, saiu para outra divisão. Ficou ali uma hora encarando a parede, tentando perceber porque as palavras dele a arrastavam tanto para o fundo, quando ditas com aquela ternura fingida.

Nunca gritou. Nunca bateu. Fazia outra coisa: desenhava lentamente uma linha convencendo-a de que sem ele, era nada. Que a sua profissão era pequena, as suas amigas desinteressantes, os seus gostos de província. Que lhe devia até o facto de ficarem juntos.

Cozinhava bacalhau e duvidava se o sal era o certo. Telefonava às amigas perguntando se chateava. Ia para reuniões a pensar se parecia demasiado confiante. A voz interior a dele duvidava de tudo.

E depois veio aquela noite.

Em casa dos amigos dele, Pedro e Graça, zonas caras de Lisboa. A conversa caiu num novo bloco de apartamentos. Leonor comentou serenamente era anódino, típico do corte de custos dos promotores. Álvaro olhou-a, a sorrir.

Leonor é expert disse para Pedro. Só que há experts que praticam, e outros só falam. Ela já não faz nada de grande.

Silêncio. Graça olhava-a. Pedro sorriu, levantou o copo.

Leonor retribuiu. Terminou o prato, bebeu vinho, manteve a conversa. Pôs-se num táxi. Durante o caminho, Álvaro tagarelava, ela via a noite de Lisboa e tinha apenas este pensamento: não posso mais.

Não «ele é mau». Não «sou infeliz». Só: não posso mais. Uma parede.

Saiu três meses depois. Procurou casa, encontrou um T1 em Chelas. Mudou-se em dois carros. Álvaro estava em Madrid. Deixou as chaves e um bilhete escrito apenas: «Desculpa».

Pensou vezes sem conta no porquê daquela palavra. Não soube responder. Escreveu.

***

O novembro em Chelas era único. O parque por perto à noite, ao regressar, por vezes dava a volta, não ia pelo caminho mais curto, caminhava entre árvores velhas. Folhas caídas, caminhos encharcados, a terra cheirava a húmus. O silêncio. Respirava no ar úmido aquela sensação de beber algo que fazia falta.

Em casa era frio. O aquecimento do prédio vinha aos soluços, os radiadores eram de ferro, ora queimavam, ora estavam gelados. A torneira cuspia gotas infinitas. Ligava ao senhorio, o homem prometia sempre um canalizador. Nunca vinha.

Leonor comprou uma anilha de borracha no Aki e trocou ela própria. Isso levou quarenta minutos, dois cortes e um palavrão, quando a chave inglesa lhe fugiu e acertou-lhe no cotovelo. No fim abriu a torneira: estava bom, sem fugas.

Sentiu uma coisa parecida com orgulho. Parva, mas real.

À noite trabalhava na mesa da cozinha. Espalhava os desenhos, acendia a lâmpada verde de vidro antigo, que trouxera dos anos 90, comprada numa feira. Álvaro odiava a lâmpada, dizia que estragava a decoração antes ficava no armário. Ali, era rainha da mesa.

A reabilitação desdobrava-se devagar, como sempre. Levantamentos, pesquisas, diagnósticos, estudo da intervenção. Leonor adorava esse processo pausado e honesto ou se sustenta, ou não. Ou é matéria viva, ou morta. Ou a memória está, ou foi inventada.

No arquivo de Lisboa, Leonor encontrou papéis sobre a quinta. Mais de cem anos antes, a casa pertencera a um comerciante, Silvestre Louro, depois passara à filha, que lá fundou uma pequena escola caseira. Depois a revolução, depois armazém. A filha chamava-se Alzira. Numa foto antiga, Alzira, uma mulher de cinquenta, de costas direitas, com um olhar que parecia saber o que o fotógrafo não sabia.

Leonor ficou muito tempo a olhar aquela imagem.

Depois voltou aos desenhos.

***

Certa vez Duarte perguntou-lhe como tinha começado na reabilitação.

Estavam no carro dele, estacionados ao frio, à espera de arrancar para o arquivo. Lá fora nevava. Primeira neve improvável em Lisboa.

Nos anos 90, projetava apartamentos, escritórios. Pagavam bem, havia trabalho. E fui, por acaso, ver uma obra de recuperação de uma ermida em Cascais. Fui com uma amiga. E pronto.

Pronto?

Percebi que era aquilo. Que era mais importante.

Duarte calou-se.

Isso é raro disse. Haver quem saiba o que lhe importa.

Tu também?

Levei tempo. Muito tempo a fazer o suposto. Até parar.

Ela olhou-o. Ele fixava o pára-brisas, onde a neve derretia devagar.

Então?

Então agora isto e apontou algures, indicando a quinta invisível. E chega-me bem.

No carro, havia calor. Cheiro a couro e a um café morno do qual ele nunca largava uma caneca pequena.

Arrancaram.

***

Álvaro apareceu numa quarta-feira.

Não estava à espera. Tocou à campainha às oito da noite, enquanto Leonor desenhava à mesa, comendo iogurte à colher. Campainha normal, trémula, como todas as do prédio.

Abriu, achando que era o senhorio ou uma vizinha.

Era Álvaro. No seu casaco de lã, com um ramalhete na mão. Crisântemos. Ela não gostava de crisântemos. Em oito anos, nunca aprendeu.

Olá disse ele.

Ela demorou a responder. Ficou a olhar.

Como soubeste a morada?

Madalena disse-me.

Portanto, Madalena. Leonor guardou mentalmente.

O que queres?

Falar. Entrar não me deixas?

Pensou. Depois saiu da porta.

Ele entrou, olhou à volta. Ela via-o observar o hall pequeno, o papel das paredes desbotado, o cabide inclinado, as botas sua paradas.

Moras aqui disse ele, sem interrogação.

Moro.

Leonor… Apanhou-lhe a mão. Ela afastou-se. Ele não se irritou, apenas mudou o ramo de mão. Ouve. Compreendo que precisavas de tempo. Mas já passou. Meio ano, chega.

Chega de quê?

De estar sozinha. De fazer pausa. Não sei como se diz. Entrou até à cozinha, olhando desenhos, plantas. Trabalhas?

Sim.

Projeto qual?

Recuperação de uma casa no Beato.

Bom. Comentou de modo paternal, aquele tom que ela conhecia. Faz-te bem.

Faz bem a todos. Casa do século dezoito.

Ele pousou os crisântemos em cima dos papéis. Ela afastou-os cuidadosamente.

Leonor disse ele. Tu entendes? Vives… aqui. Acenou.

Eu sei onde estou.

Quero que voltes.

Ela fitou-o calmamente. Álvaro era bonito. Sessenta e cinco, mas bem conservado, alto. O casaco assentava-lhe bem.

Para quê? perguntou.

Ele hesitou. Não esperava a pergunta.

O que é isso de «para quê»?

Queres que volte. Porquê?

Preciso de ti.

De quê exatamente?

Leonor, que conversa é esta?

Normal. Dizes que fazes falta. Quero saber de quê.

Ele olhou-a, o rosto a revelar aquela expressão irritação contida sob paciência.

Preciso de ti. Como pessoa. Foram oito anos.

Eu lembro.

E pronto? Simplesmente foste-te embora?

Não foi simplesmente. Leonor cruzou os braços. Estava de sweater e jeans, nada a ver com o que ele esperava. Demorei oito anos a ir. Tu é que não viste.

Não entendo.

Eu sei.

Explica.

Já expliquei. Voz silenciosa. Seis meses antes teria chorado, falhado nas palavras. Agora não. Lembraste do jantar em casa do Pedro?

Jantar?

Disseste que eu só teorizava, que não fazia nada importante. À frente dos outros.

Ele pensou.

Devo ter brincado. Não me lembro, mas foi piada.

Se calhar. Leonor acenou. Entre muitas. Lembro-me delas todas.

És sensível demais.

Talvez.

Não foi humilhação.

Que seja. Fez-me mal.

Por coisa de nada.

Por oito anos dessas coisas de nada.

Ele calou-se, voltou a olhar em volta. Ficou a olhar para o copo vintage, para a lâmpada verde.

Estás feliz aqui? disse, com um ar quase desconfiado. Mesmo?

Leonor pensou para si, não para ele.

Depende. Há dias difíceis. Às vezes sinto-me só. Os radiadores não aquecem. Mas é melhor do que lá.

É ilusão.

Talvez. Mas é minha.

Ele pegou no casaco. Olhou-a uma última vez. Por um momento pareceu despido de pose, quase sincero.

Não sou estranho para ti.

Não disse Leonor. Mas também já não és casa. Vai, Álvaro.

Ele ficou parado um segundo. Depois caminhou pela entrada, vestiu-se, abriu a porta.

Vais arrepender-te disse.

Não era ameaça. Soava a lamento.

Talvez anuiu ela.

A porta fechou-se. Leonor ficou na entrada, olhando a porta coberta de napa com um olho mágico pequeno. Voltou à cozinha. Meteu os crisântemos num frasco vazio, água por cima. Flores afinal. Custava deitar fora.

Voltou aos desenhos.

Lá fora, o elétrico passou, estrondoso. Uma vez, outra. Depois silêncio.

De repente, Leonor percebeu que já não ouvia aquele som como incómodo.

***

A apresentação do conceito estava marcada para a segunda semana de dezembro. Era uma fase inicial o cliente queria ver métodos, entender o que se preservava, o que se reconstruía, porquê. Leonor preparava-se a sério. Duarte também. Ligavam-se à noite, acertavam detalhes, discutiam.

Uma vez discordaram sobre as vigas da cave e discutiram quarenta minutos no fim, perceberam que ambos estavam certos, cada um da própria perspetiva: ela pensava na aparência, ele na estrutura.

És rija disse ele no fim da discussão, mas sem crítica.

Na profissão.

Na profissão é bom.

E foi só isso. Sem sentimentalismos.

Leonor desligou e percebeu-se a sorrir.

***

Três dias antes da apresentação, Madalena ligou. Não de manhã, mas ao serão.

Mãe disse com um tom diferente, sem a impaciência habitual. Posso ir aí?

Podes.

Madalena veio com uma garrafa de vinho, ar decidido, como se tivesse finalmente percebido qualquer coisa. Era igual à Leonor de outros tempos as maçãs do rosto, as mãos. Trinta e dois anos, designer, vivia com o namorado no Bairro Alto.

Sentaram-se na cozinha. Leonor serviu vinho em copos normais cálices só tinha um.

Ele falou-te depois de te ter visitado? perguntou Madalena.

Não. Só manda SMS.

O que diz?

De tudo. Nem sempre respondo.

Madalena rodou o copo.

Mãe, fui eu que lhe dei a morada. Não te zangas?

Não.

Pensei sei lá. Que podiam falar e…

Falámos.

E?

E nada. Saiu.

Silêncio. Madalena, sem olhar para ela:

Estive sempre do lado dele, percebes?

Percebo.

Convenci-me de que devias voltar à vida normal. Tinha pena dele parecia tão sozinho, tão perdido.

Ele sabe parecer perdido.

Pois. Olhou a mãe pela primeira vez direito em meses, sem a camada de impaciência. Estavas mesmo mal?

Muito.

Porque nunca disseste?

Leonor pensou.

Porque é difícil explicar quando não há gritos, traição ou violência. Quando a filha só conhece a versão festa e cara lavada.

Madalena levantou-se, beijou-lhe o cabelo, um gesto impetuoso, inesperado. Leonor ficou surpreendida, depois correspondeu. O cheiro do cabelo da filha a pera do champô adolescente.

Não és tonta sussurrou-lhe Madalena. A tia Manuela é que não percebe.

Leonor riu-se, baixinho.

Bom ter a certeza.

Terminaram o vinho. Madalena observou os desenhos, perguntou da quinta. Leonor explicou, mostrou a foto da Alzira. «É parecida contigo», disse a filha.

Talvez.

Madalena saiu quase à meia-noite. Prometeu voltar sábado seguinte.

Leonor lavou os copos. Arrumou os desenhos. Ficou à janela.

O elétrico já não rodava, era tarde. Em baixo, o pátio mergulhava num azul parado da luz do candeeiro. Da janela vizinha via-se uma sombra andar de um lado para outro.

Pensou em ligar a Duarte para discutir a viga da cave. Era tarde deixou para a manhã.

***

A defesa foi no auditório do gabinete. Cliente puxado, advogados a postos, um perito de património cortante nas perguntas. Leonor respondeu. Duarte esclareceu as técnicas. Quando perguntaram sobre os prazos das vigas do segundo andar, Leonor foi direta: se arranjassem a madeira, cumpriam, senão, atrasavam três semanas. O perito carregou as sobrancelhas. «Prefiro dizer já a verdade do que explicar atrasos», disse Leonor.

O perito acenou. Isso, curiosamente, foi o que mais gostou.

Ao sair, juntos no corredor, Duarte segurava a pasta.

Acho que vamos avançar disse ele.

Também acho.

Olhou-a. O corredor cheio de desconhecidos e dossiers.

Jantamos? Há um sítio acolhedor aqui perto. Para comemorar.

Ela olhou-o.

Combinado.

Foram pela Lisboa de dezembro, Leste da cidade, candeeiros acesos, neve escoando nos beirais antigos. Duarte andava devagar ao seu ritmo. Falaram pouco do dia. Da madeira. Do perito meticuloso ainda bem. Que anoitecia cedo demais.

O restaurante era pequeno, de cortinados pesados e mesas toscas. Pediram caldo quente e um tinto. A conversa durou, derivaram de Lisboa aos livros. Leonor percebeu-se confortável, sem olhar o relógio.

Ao sair, ele ajudou com o casaco. Gesto simples.

Na rua, Duarte disse:

Gosto de trabalharmos juntos.

Também eu.

Cada um seguiu para o seu metro.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

Oito Anos de Peanuts