Chaves

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Eu amo-o! E tu só falas de disparates! Não quero ouvir nada! Estás cheia de inveja, por isso te metes onde não és chamada! Deixa-me em paz! Vai cuidar da tua vida!

Teresa não gritava, berrava mesmo, tão alto que até o velho vizinho Domingos, que estava a arranjar o carro na garagem, parou e espreitou. Curioso, nunca tinha sido, por isso era sinal de que a Teresa estava mesmo fora de si.

Razões para aquilo Havia, dizia ela.

Porque para Teresa, estar apaixonada era um estado da alma. As pausas, quando aconteciam, eram tão curtas que só quem a conhecia profundamente se apercebia. Só duas pessoas conseguiam: a mãe e a irmã, Filomena. Mas a mãe já partira, e Filomena recusava-se a entender Teresa.

Sem aquela magia, Teresa sentia-se vazia, a vida perdia brilho, a cabeça andava cheia de pensamentos dispersos e até as colegas de trabalho se afastavam:

Não queres um calmante, Teresinha? Está tudo tão difícil contigo…

Teresinha encolhia os lábios, cerrava os dentes e só pensava mal das donas certinhas.

Elas sim, tudo em ordem! O marido à espera, os filhos bem comportados… E ela? Nem marido, nem casa. E sem perspetivas de mudar. Tem o filho, sim, mas também ele fica sempre aquém dos primos. A Filomena, essa, tem miúdos fantásticos. O mais velho, o Tomás, brilha no futebol e tira só boas notas, calando quem acha que desporto e estudos não combinam. A Rita, a mais nova, canta e dança no grupo cultural, anda sempre em concursos e festivais. Por dez anos de vida já viu mais do que a tia Teresa no dobro.

Dói-lhe. Porquê? Teresa também fez mil atividades em miúda, mas não ficou em nenhuma tempo suficiente para se distinguir. Não era capaz; o coração ansiava mudanças constantes. E não se arrependia: para ela, só se vive realmente ouvindo a voz interior. Esperar que a felicidade caísse do céu, servida num prato? Não, ninguém lhe traria alegrias.

Isto, Teresa percebeu cedo, enquanto via a irmã estudar e se ria antes de ir dançar com a turma:

Olha bem, Menina Filipa, se souberes tudo, quem te vai querer para casar? Lembras-te do que a avó dizia: mulher não deve ser mais inteligente que o homem! Os rapazes nem olham para ti!

Pois não, mas não faz mal! Porque quereria eu um agora? E a avó não dizia isso assim…

Dizia sim, que eu bem me lembro!

Não ouviste bem. Ela só dizia que mulher inteligente não faz questão de mostrar superioridade ao homem, se o ama. Outra coisa, entende?

Não me baralhes, vá! Ajuda-me a escolher o penteado, o Rodrigo está à minha espera!

Teresa fugia do tédio para encontros, Filomena recostava-se com um livro. Duas horas de silêncio lá em casa era uma bênção rara.

Filomena gostava da irmã, claro era a única que tinha. E conhecia-lhe os pedaços, tristes, sonhadores e inseguros, mas não maus. Teresa era feita de ternura, simpática ao ponto de arrastar para casa animais da rua, chorando para salvá-los. Dois gatos e um cão sobreviveram muitos anos graças aos cuidados dela. Os pais, percebendo que Teresa não desistiria, impuseram regras nada de transformar a casa em zoológico. Teresa aceitou a condição, nunca obrigou Filomena a ajudar e cumpriu o prometido. Às vezes até parecia que gostava mais dos bichos do que das pessoas.

Teresa, a mãe pediu para ires à avó ajudar na limpeza.

Vai tu. Tenho coisas importantes a fazer.

Que coisas?

Que importa? O Tobias está coxo, precisa do veterinário.

Já anda assim há uma semana.

E então? Achas que se pode trocar problemas do gato por os da avó? Ela desenrasca-se bem! O Tobias não se cuida sozinho.

As irmãs discutiam, Filomena ia à avó, Teresa pegava na roupa melhor e fugia para o encontro com o Rodrigo. O Tobias era desculpa.

Chegadas ao fim da escola, Filomena terminou com distinção, Teresa assim-assim. Normal, como tanta gente. Para Teresa não houve dilema: queria ser pasteleira, custasse o que custasse. Adorava bolos desde pequena. Encostava-se à montra, fazia birra até os pais comprarem um doce; mas raramente os comia gostava mesmo era de olhar, decorava e depois modelava flores de plasticina em casa, feita artista.

Os caminhos das irmãs separaram-se. Filomena foi viver com a avó doente, perto do instituto. Todos acharam bem: a avó recebia companhia, Filomena ganhava sossego e mais tempo pela manhã. Viviam em sintonia. Filomena, sempre preocupada pela avó, apresentou-lhe cedo o namorado, Mário.

Vivam, meus filhos! Para todos há espaço!

O casamento foi simples, alegre, e o jovem casal ficou com o apartamento da avó, que não fez segredo quanto à herança:

É só justo, Filipa. À Teresa dou o quarto do avô, o da casa partilhada. A vocês fica o apartamento pena não ver os vossos filhos…

A avó ainda conheceu o bisneto Tomás, teve-o nos braços. Partiu quando ele fez dois anos, depois de luta dura contra o AVC. Filomena chorou a perda desse abraço de quem a aqueceu tanto.

Os pais de Filomena não discordaram das últimas vontades da avó a filha merecia. Teresa nem protestou. Estava perdida num novo romance, alheada de heranças. Tinha amor, pensava ela!

Amor? Talvez não bem isso. Ardor, sim. O escolhido olhava pouco para ela, mas achava cômodo que Teresa limpasse, cozinhasse, lavasse roupa, mas nunca ficasse a dormir.

Sou um solteirão velho, Teresinha. É difícil para mim.

O artista, de olhos sonhadores, despachava Teresa de volta para si próprio:

A arte exige sacrifício, Teresa. Peço-te espaço, entendes? Há tanta responsabilidade… o amor, a vida, o cansaço!

Teresa assentia, aceitando a arte: um retrato seu, torto, encostado num canto da sala, era prova de que podia inspirar um homem. Mas mal soube da gravidez, tudo ruiu.

Naquele dia, caminhava sob o sol, sonhadora, sentindo-se invencível. A notícia da nova vida parecia milagre. Mas o namorado, logo que a ouviu, foi brusco:

Que filho? Estás louca?!

A conversa ficou vazia e fria, como um poço sem fundo. Os sonhos quebraram-se em mil pedaços, que nem o melhor restaurador juntaria. Teresa nunca mais tentou recuperar o orgulho. Pediu o retrato para memória foi-lhe dado, e ela, ao chegar a casa, rasgou-o em pedaços:

A mim, a felicidade vai chegar, já a ti

Nunca soube o que foi feito do ex-namorado, nem quis saber. O filho nasceu, mas não trouxe o que ela imaginava. Procurava nele traços do pai, um génio, ficava dececionada. Paulo era tranquilo, gostava de futebol no bairro e jogava xadrez. Ele foi sozinho ao clube, depois das aulas, e a mãe perguntava-lhe:

O que gostas tanto no xadrez? Não é aborrecido?

Paulo achava a beleza do jogo como uma dança, movia-se em silêncio no quarto, a imaginar a música das peças. Só quando estava sozinho. A mãe não aprovava, assustava-se.

Dançar é para raparigas! Para já com isso!

Só a prima Rita o entendia. Não percebia o porquê dos desentendimentos das mães, mas a avó dizia que família era família, nunca se descartava ninguém. Paulo gravou aquilo. Com o Tomás, era cordial, mas pela Rita sentia verdadeira ligação ela escutava-o falar dos sonhos e do fascínio da música lógica do xadrez.

Consegues ouvi-la? Rita, de olhos brilhantes.

Sim. Baixinha, mas bonita.

Eu também acho… Danço-a! Vê!

Ela dançava e Paulo sentia-se compreendido.

As crianças não decidem de quem gostam são os adultos. E Teresa era inconstante demais. Quando se desentendia com Filomena, proibía Paulo de ver os primos.

Paulo pouco podia fazer. Fazia greve de fome, birras; sabia que um dia a mãe iria dizer:

Faz o que quiseres, já chega das tuas lamúrias!

Não sabia as razões das brigas, não percebia que Filomena ajudava depois do parto, mas Teresa a afastara ao saber da herança decidida pela avó.

Isso é injusto! Sou tão neta como tu!

Nunca pedi nada! Vendemos a casa, dividimos em dois. Não quero zangas!

Não! Não preciso da tua migalha! A avó gostava mais de ti! Deixou-te tudo! A mim, ninguém me amou de verdade!

Teresa, não digas isso! E eu? E os pais?

Que amor é esse, se nem me entendem? Achas que quero o apartamento? Só queria sentir-me amada!

Teresa…

Chega! Não quero ouvir mais nada!

A mágoa cresceu entre elas, vasculhando memórias e pequenas injustiças: a boneca da Filomena que veio de vestido rosa quando a da Teresa era verde; a maquilhagem dada à irmã mesmo com o protesto da Teresa; o apartamento, os filhos, tudo era matéria para alimentar o rancor, tornando-se paredes toscas da casa da esperança da Teresa. Tudo o que a poderia endireitar caía para o lado da irmã. Mas Filomena não guardava tantas pedras. O ninho do rancor, do lado da Teresa, era firme; do lado da Filomena, uns ramos soltos. Bastava soprar um pouco, e voltava a tentativa de união, mesmo diante dos gritos “Não és minha irmã! Que maneira de tratar a família é essa?!”. Filomena sentia-se peixe fora de água: tão perto e não podia tocar.

Os pais partiram, um a seguir ao outro, como combinados, e as irmãs ficaram orfãs de vez.

Menina Filipa, como foi possível?! Ainda eram novos! Teresa chorava.

Teresa, a saúde é frágil, fizemos o que podíamos. O resto escapa-nos. Filomena amparava a irmã aflita.

Não é justo!

Olha que a vida não é justas para todos. Parece, mas não é…

Pois, tinhas razão.

Renuncia à herança acalmou temporariamente os ânimos. Teresa ficou com o apartamento dos pais, com algum ressentimento mal disfarçado:

Pensei que ias ficar também com esta.

Teresa largou a frase, ajeitando o capucho do casaco, sem encarar Filomena, à porta do notário enquanto esperavam pelo Mário.

Porque dizes isso, Teresa? Não somos irmãs?

Não sei, Filomena. Somos, acho. Mas nunca me compreendeste.

E tu a mim, mas isso importa assim tanto?

Muito! Teresa indignou-se Se as pessoas não se entendem, para quê estarem juntas?

Talvez para tentar perceber melhor. Nada vem de graça! Devias saber isso!

Pois! Disso sei eu, bem melhor do que tu! Na tua vida é tudo fácil. Marido, casa, filhos. Eu sozinha! Sempre sozinha!

Teresa, não é bem assim E o Paulo?

O Paulo passa melhor contigo do que comigo em casa!

Está feliz. Sente-se em paz.

Lá está! Filomena, és insuportável! Estás sempre a dar a entender que sou má mãe!

Teresa, não grites! Nunca te chamei isso! Que disparates inventas?!

És a perfeita! Os teus filhos são lindos! Eu é que não presto! E o Paulo é igual! Preferia estar aí contigo do que aqui!

Mas ouve-te, Teresa!

Mário chegou e encontrou Filomena a chorar sozinha.

O que foi desta vez?

Abraçando-a, Mário tentava consolar a esposa.

É o feitio dela, Mário. Custa-me tanto, tenho pena dela…

Isso é bom!

O quê?

Mesmo sofrendo, continuas a amá-la.

Não conheço outra maneira. Ela é minha irmã, não posso deixar de a amar! disse Filomena, limpando as lágrimas. Tem mesmo de ser eu, mais ninguém. O Paulo ainda é pequeno.

Mais vale uma paz podre do que uma zanga boa, pensou Filomena, fazendo tudo para manter o fio de ligação. Por mais delgado que estivesse, não o poderia rebentar.

Os homens entravam e saíam da vida da Teresa, deixando mágoa, mas ela continuava a tentar entregar as chaves do seu coração a alguém. Mas ninguém parecia querer ficar.

Paulo, durante esses relacionamentos, passava semanas em casa da tia. Para Filomena e Mário, Paulo era já quase um filho; tinha cama no quarto do Tomás, jogavam nos computadores que o Mário arranjou, sempre aos gritos animados:

Rita! Assim não vale! Joga connosco em equipa! É impossível ganhar-te sozinha!

Filomena, ao informar a irmã dos progressos do Paulo, suspirava:

É tão esperto, Teresa! Devia tentar uma escola especializada para ele.

Está bem assim, comigo é mais fácil, ele e o Tomás juntos. Tu supervisionas!

Mas o Paulo acorda cedo demais quando dorme em tua casa.

Fica por aí uma temporada. A situação aqui só agora acalma.

Está bem. Fica o tempo que for preciso.

Obrigada! O Renato é incrível! Quer que sejamos todos uma família!

Já te pediu em casamento?

Ainda não, mas vamos lá chegar! Só peço que não se ponham no meu caminho! Ajudem! É a minha oportunidade!

Teresa, claro que sim.

Mas Filomena torcia o nariz ao namorado novo da irmã: arrogante, trocista, com piadas dúbias. E não era só ela. Paulo afastava-se cada vez mais da mãe, procurando refúgio em casa dos tios.

Filomena protegia o sobrinho, evitava discussões com a irmã, mas a verdade veio ao de cima. Descobriu, por acaso, que Renato pressionava Teresa a vender o apartamento herdado.

Chegando a casa, viu sapatos dos miúdos espalhados, sujos de lama.

Rapazes! Quem está em casa?! O que é isto?

Rita apareceu à porta dos quartos.

Oh, mãe…

Que se passa, filha?! Conta já! O que aconteceu?

Mãe, não te assustes… O Paulo caíu. Já pusemos gelo mas não passou…

Filomena correu. Paulo estava na cama de cima, virado para a parede, a pressionar um saco de gelo na bochecha inchada.

Paulinho, o que foi?

Nada respondeu abafado, entristecido. Isso era grave. Com Filomena, Paulo nunca guardava segredos.

Filomena subiu ao beliche, deitou-se ao lado e abraçou o sobrinho, afagando o futuro hematoma:

Foi o Renato?

Paulo desfez-se em lágrimas silenciosas no peito da tia. Sabia que ali não tinha de esconder nada. Ninguém seria justo quando se quer defender a mãe, mas um homem adulto lhe bate na cara, dizendo:

Vais ensinar-me a mim? Tu és quem afinal? Enxuga essas lágrimas!

Nunca o tinha visto assim. Toda a pose simpática desaparecera quando ele se virou para a mãe, torcendo-lhe o braço e ameaçando. Paulo percebeu: aquele homem não amava a Teresa, só queria tirar proveito. Como dizia a Rita:

Quando se ama, nota-se. Não é assim tão difícil, Paulo?

É muito…

É estranho. Tu vês a música, sabes bem. E amor é como música: ouve-se e logo sabes dançar o passo certo…

Parece que nem todos percebem…

Achas que a tua mãe não sente isso?

Nem sente, nem vê. Gostava, mas nunca consegue.

Tenho pena dela…

Eu também!

Paulo atirou-se a Renato, a tentar defender a mãe. Seguraram-no sem dó. Só via o olhar assustado da mãe e ouvia o sussurro:

Paulinho, porquê?

Depois, trancou-se no quarto e chorou sozinho. Homem não devia chorar, dizia o Renato.

Calmamente, Paulo arrumou livros, um casaco novo oferecido pela tia, e fugiu para casa da Filomena, onde era compreendido.

Filomena, ouvindo-o, pegou no telefone e tentou chamar Teresa. Sem resposta, chamou o Mário:

Onde estás? Não subas, leva-me à Teresa. Vou já descer.

Mandou os filhos para junto do Paulo, pediu-lhes para não o deixarem sozinho e saiu a correr.

O que aconteceu? Mário já preocupado.

Explico no caminho. Vai!

O diálogo foi penoso. Teresa, de rastos, chorava no meio do pátio Renato saíra de vez, deixando insultos.

Tu não entendes! Eu amo-o! gritava, sem responder às perguntas da irmã, incapaz de explicar o que sentia.

Quem, Teresa?! O homem que bateu no teu filho?! Já pensaste bem? Procuras a felicidade tão desesperadamente, e nem vês que ela está aí, contigo! E o Paulo? Não pensas nele? É teu filho!

Já não é meu, é teu! Levaste-o! Ele nem ao menos fala comigo! Só tens problemas por causa dele! Tu ficaste com tudo!

O que te tirei eu?

A minha vida! As minhas chaves!

Que chaves?

Filomena hesitou, de súbito vendo-se de fora. Duas irmãs, no meio do bairro, a discutir alto… Seria isto que os pais queriam? O que a avó ensinara? Onde estava tudo o que as unia? Quase sentia o fio a rebentar.

Calmamente, perguntou:

Que chaves, Teresa? O que queres dizer?

As chaves da felicidade… respondeu Teresa, baixando o tom e limpando as lágrimas. Tens-nas tu! E eu?

Filomena entendeu. Respirou fundo, abraçou Teresa, tal como a mãe lhe fazia.

Anda cá! Oh Teresa, és tão…

Tonta?! É isso, não é? Teresa tenta soltar-se, mas Filomena não larga.

Não! Não digas disparates. És sensível, delicada… e carente de amor. Posso entender. Mas não peças que aceite trocar um filho por outra pessoa. Isso sim é errado, e sabes disso. E eu nunca te tirei chave nenhuma! Mal consigo desenrascar-me com as minhas. Mas, sim, temos algo diferente.

O quê?

Tu sempre tentas entregar as tuas chaves a alguém. Eu guardo as minhas comigo.

Qual está certo?

Não sei. O tempo há de mostrar.

Já mostrou…. Como vou viver agora? Não sirvo para ninguém!

Mentira. Serves para mim. Chega? E para o Paulo! Não basta?

Não sei…

Começa por aí. O resto vem depois.

E se não vier?

Então as chaves não são da porta certa. E ela nunca abrirá. Ficarás sempre no corredor, sem entrar. Queres isso?

Não!

Sabia que eras esperta! Vais ver o Paulo?

Não me vai perdoar…

Teresa, o Paulo já sabe mais da vida que a mãe. Isto digo-te eu. Mas não será fácil. Ele está muito magoado.

Imagino…

Então, mexe-te! És mãe ou só a tia de passagem?

Filomena!

Então?! Vamos! Mário, dá-lhe lenços! Tem no tablier, eu vi. Arranja-te, os miúdos estão à espera!

No final, Paulo ganhou um novo padrasto mas muito mais tarde, quando Teresa já estava diferente. E Teresa conseguiu aquilo por que tanto esperara. O filho, esse, ficou pela vida da Filomena, pela paz e amor daquele lar, mesmo quando nasceu a irmãzinha na nova casa da mãe. Teresa esforçou-se, finalmente, para mostrar a Paulo que era amado e esperado. O homem com quem ficou sabia esperar, ganhou o rapaz com confiança e, com o tempo, uma ligação verdadeiramente forte nasceu entre eles.

Na despedida, na estação, quando Paulo partiu para a universidade, abraçou a família e pediu ao padrasto:

Cuida da mãe!

E o homem alto, com cabelos já grisalhos, respondeu firme ao aperto de mão:

E tu de ti, filho! Cá te esperamos!

Eu sei!

Afinal, a chave certa nunca se perde só temos de aprender onde guardá-la e a quem entregar.

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