Gotas
Ela não é nada assustadora! É linda! Tiago, diz-lhes!
A Martinha apertava contra o peito uma gata magricela, de pêlo despenteado e olhos vivos, e chorava tão alto que os vizinhos à volta tapavam os ouvidos.
Martinha, voz grave e determinada como todos na sua família numerosa, sabia fazer-se entender. Não importava se com jeito, mas certamente com estrondo. Aos cinco anos ninguém se equiparava a ela na arte de gritar ao ponto dos vidros dos prédios vibrarem.
Os vizinhos estavam mais do que habituados à Martinha e à sua trupe de irmãos e irmãs. Já ninguém se incomodava com as tropelias deles, todos conscientes de que a Teresa, mãe da prole, pouco poderia fazer para manter ordem numa casa tão cheia. Trabalhava com tal rigor que qualquer outra, no lugar dela, já teria ficado exausta e acabado desmaiada em cima do portão.
Este, elegante e trabalhado em ferro forjado, separava a antiga casa senhorial agora repartida em apartamentos da rua e era motivo de orgulho de todos. Cada ano, na primavera, a Teresa pintava-o, lado a lado com os vizinhos, garantindo assim o direito de lá se encostar sempre que quisesse.
Mas de tal repouso, ainda assim, abdicava, suspirando:
Somos todos cavalos de carga! Bonitos, inteligentes, mas sempre a puxar. O que é nosso, ninguém nos vai buscar nem carregar. Tudo em cima de nós! E eu, minhas queridas, sou o pónei imortal: corro à volta do mesmo, sem saber para onde. O porquê já entendi há muito. Agora o caminho alguém nos empurra, colamos o nariz à cauda do cavalo da frente e sonhamos que chegue logo a noite. Sinto só paz quando todos estão lavados, alimentados e felizes nas camas. E o lavatório vazio, sem uma tigela suja… Porque alguém já lavou. E é estranho, mas justamente esse vazio chama-se felicidade
A Teresa sempre foi de espírito filosófico, vistosa e cativante. Mas quem repara numa mulher com seis filhos, todos pequenos, sem quase ajuda nenhuma? Serviço, vida pessoal disso já pouco restava, não havia tempo para paixões.
Ser mãe de seis filhos não é tarefa leve!
Ninguém lhe apontava nada, porque todos conheciam a história da sua família.
Tal como mais três dos filhos de Teresa, a Martinha era adotada.
Mas não foi de orfanato, de instituição, de impulso heroico. Teresa, nesse momento, tinha outros planos para a vida ser mãe solteira de seis era, naqueles dias, sonho nem que fosse de pesadelo.
A vida, porém, gosta de mexer o destino, e atira provas de fé, coragem e carinho sem pedir permissão.
Toma, agora! Decide que pessoa queres ser!
E Teresa assim fez. E a decisão era clara desde o início.
Todas as crianças que criava eram heranças.
E a herança, ou aceita-se, ou não. No caso dela, recusar era impossível. Ela não foi abandonada por que deveria abandonar quem a vida desamparou? Ainda para mais, sendo mesmo da família!
Razão não lhe faltava fortes ou não, a ela bastava que fossem suas.
A minha infância foi nos anos noventa.
A minha mãe era rainha de beleza, inveja da terra onde nascemos. Mal fez dezoito, já casava em vestido tão bonito que se suspirava só em olhar. O marido, homem de negócios tão enigmáticos, que nem se queria saber deles.
Não guardo recordação dos meus pais.
Vivia com a avó. As visitas ao cemitério local eram quase solenes. Lá, diante de uma bela lápide com fotografias, tocava-lhes o rosto com o dedo em segredo e, baixinho, contava à avó sobre o que se passava comigo o desenho elogiado na escola, o cachecol vermelho de riscas brancas que a avó tinha tricotado.
Soube o que realmente acontecera aos pais quando fiz dezasseis anos.
O teu pai era bandido, querida. Partiu cedo, e arrastou minha filha consigo. Não posso falar mal dele mas também nunca perdoei por me ter tirado a tua mãe. Chorei tanto! Implorei que não se envolvesse com ele, mas não serviu de nada! O amor da minha pomba era cego Dizem que ele tentou salvá-la, protegendo-a quando vieram atrás. Talvez tenha mesmo amado Quem o sabe? Amaram-te muito. Tu és a maior alegria que ficou da minha filha.
Só então percebi quem eram aqueles homens que, às vezes, apareciam lá em casa. Sentavam-se na cozinha, ouvindo a avó contar sobre o conservatório, a escola, e deixavam envelopes cheios de dinheiro, indo embora sem nada explicar.
A avó nunca recusou os envelopes, mas guardava tudo. Quando terminei o secundário, comprou-me um apartamento espaçoso no centro de Lisboa.
Aqui tens, querida. Herança dos teus pais
Não quis viver ali. Fiquei com a avó.
Porquê, Tânia? A casa é bonita! Central, perto da tua escola, do trabalho. Dá para ir a pé. Porque és teimosa?
Quero estar contigo! Ou vens comigo, ou ficamos aqui!
A avó hesitou em deixar o apartamento pequeno, impregnado de recordações da filha. Só cedeu quando apareceu a prima, Carolina.
Tânia, deixa-nos ficar na tua casa, está bem? São só uns tempos, tenho duas crianças, e tu nem vives lá. E assim ajudas-nos e também nos facilitas a inscrição deles na escola.
Carolina era desenrascada, persistente, e minha avó tinha a impressão certeira de que era daquelas que conseguem o que querem, de qualquer um.
Não lhe ligues, Tânia! É minha sobrinha, mas é finória! Manda-a embora!
Mas ela tem crianças
E então? Eles são dela, não teus. Preocupa-te contigo!
Eu ouvia a avó, claro, mas não conseguia afastar o pequeno Tiago e a Ana, que me procuravam a cada oportunidade. Aninhavam-se a mim sempre que a mãe os ia buscar:
Vá lá, limpem o ranho! A Tânia não é vossa ama!
Eu dava-lhes carinho, e pensava se seria justo aquela casa ficar vazia quando havia gente a precisar. Carolina não se cansava de apelar ao vínculo familiar.
Esse argumento perseguiu-me a vida toda. A avó sempre dizia, se o meu pai tivesse tido juízo, a minha mãe ainda viveria.
Sofria muito com isso, e fazia de tudo para ouvir dela um simples:
Está bem, Tânia assim é que se faz. Tenho orgulho em ti.
Essa era a melhor bênção possível. Por isso, fiz o mesmo com a Carolina, mas, nessa altura, a avó surpreendeu-me.
Não é o mesmo, filha! De todo!
Porquê? Não é injusto deixá-la na rua?
Talvez. Mas quem garante que é Carolina, e não a raposa da fábula que vai tomar conta da tua casa? Eu bem lembro!
Avó
Cala-te! Não discutas! Carolina não vai viver na tua casa. Ponto final! Vivemos nós duas.
Mas não querias sair da tua casa!
Agora tem de ser. Dás-lhe a mão, ela agarra o braço. Dá apoio, mas não cedas tudo de uma vez! Carolina vai conseguir de pé, hábil como é. Precisa é de tempo e duma cana de pesca nunca do peixe pronto, entendes?
Talvez É feio pensar assim das pessoas?
Não sei. Talvez seja. Mas pensa: é melhor agir antes das coisas correrem mal do que depois, já sob a sombra do ressentimento. Afasta-te. Eu trato disso. Faz isso pelos filhos dela para terem uma tia que os ama, e isso é precioso.
O tempo deu razão à avó.
Ao ouvir o “não” dela, Carolina apenas suspirou.
Sempre soube que não iam deixar que prejudicassem a Tânia.
Então ias fazer-lhe mal?
Nunca! Não tenho ninguém da família, só vocês!
Agarra-te a nós, então. Ajudamos e apoiamos.
Sei disso
Rapariga, compreendo tudo, mas a Tânia é órfã. E órfã não se abandona. Tenho a filha à minha espera noutro mundo não posso falhar com a neta! E não faças má cara! Vão viver na minha casa pequena, é boa, zona espetacular, perto da escola e jardim de infância.
Obrigada. Pela verdade, e por um teto para mim e os meus filhos.
Não és estranha, Carolina. Não te esqueças!
Mudámo-nos, eu e a avó, e pusemos a casa à nossa maneira.
Mas o tempo não pára. Passou, sem esperar por ninguém.
Eu sonhava ver a avó tranquila, aproveitando a vida, mas a vida quis outra coisa.
A clínica estava no prédio ao lado. Ela era cliente habitual.
É o meu emprego! brincava enquanto arrumava as receitas do médico.
A saúde já não era boa.
Eu preocupava-me, queria acompanhá-la, mas ela refilava.
Não sou inválida! É ao virar da esquina! Trata da tua vida, querida!
Por vezes arrependo-me de não ter insistido
Foi um inverno normal. O frio, a geada. E basta um descuido num passeio escorregadio e tudo muda…
A minha avó caiu junto à clínica. Bateu com a cabeça, perdeu sentido. E as pessoas passavam apressadas, sem notar a idosa caída junto ao lancil, encostada ao jardim.
Um taxista, que deixara passageiros ali perto, viu a cena, procurou um bilhete com a minha morada e contactos na mala da avó, chamou a ambulância e ligou-me. Mas era tarde demais
A minha avó partiu no dia seguinte. Passei esse tempo todo sentada no corredor do hospital, abraçada à Carolina, que largou logo tudo para me vir apoiar.
O que faço agora, Carolina? Sem ela
Nunca estás sem ela! Não digas asneiras! Temos esperança! tentava animar-me, mas percebia que já não havia esperança.
Os médicos tinham o olhar triste, e a Carolina percebeu logo que o desfecho não seria bom.
A avó não ia gostar de te ver assim!
Do quê?
De te veres a chorar assim! Sempre foi forte, educou-te assim, não foi?
Foi
Então limpa as lágrimas! Aguenta-te por ela.
Eu tento
Ao fim desse dia soube que a vida mudava de novo. Agora era eu, sozinha, responsável por tudo.
Veio o António, com quem vivi quase cinco anos. Quando terminou, foi sem dramas, fiquei com dois filhos, mas sem rancor. O António era sempre direto e, ao apaixonar-se de novo, pediu-me a separação, mas prometeu ajudar sempre.
Somos amigos, Tânia, não somos? enquanto arrumava a mala sem me olhar de frente.
Pois somos António, tu ouves-te a ti próprio?
Não me saía indignação. E porquê? Por ser honesto? Por sair para outra? É assim a vida! A dificuldade era para as crianças gostavam muito do pai.
Quando tudo acabou, ajudei-o a arrumar as coisas e depois fui junto dos miúdos, liguei à Carolina e pedi:
Vem cá
Carolina morava agora no meu antigo apartamento, trabalhava no hospital como enfermeira-chefe e mal tinha acabado de ajudar a filha mais nova com os trabalhos da escola quando recebeu o meu pedido. Ia refilar, mas, percebendo o tom aflito, respondeu:
Já aí estou!
Meia hora depois embalava-me no colo, praguejando contra o António e todos os parentes dele.
Não chores, olha para ele! Deixa-o ir! Tânia, ele ia abandonar-te de qualquer forma!
Mas porquê? Que fiz eu?
Oh pá, há homens assim. Sempre vão embora. O principal é que não se afastou dos filhos! Olha, podia ser pior. O meu já sumiu, paga uma ninharia de pensão, nunca liga. Eu sou mãe e pai E agora, com o Tiago, ainda precisava mais dele
E agora, Carolina? O que faço?
Não chores! Aguarda tudo se acalma. O tempo resolve pelo menos, alivia um bocado.
Agora vais dizer que cura tudo?
Não! Não cura nada. Mas aparecem coisas novas, outras ocupações.
Como sabes tudo isso?
Agradece à tua avó! Era ela que tinha sabedoria para a vida. Ainda a ouço cá dentro
Obrigada, avó agarrei um pano de cozinha seco, deixando o encharcado para trás. Mas por que dói tanto?
Isso é o normal! Se não doesse nada, aí é que era estranho!
A Carolina tinha razão. O tempo corri, aos poucos acalmei-me. Não havia tempo para lamentações.
O António continuava presente, ficava com os filhos aos fins de semana, esforçava-se para que não lhes faltasse nada.
Quando disse que ia ter outro filho, com outra mulher, já não doeu.
Ainda bem
Tânia, obrigado!
Porquê?
Pela tua reação! És uma mulher extraordinária!
Não precisas de me lembrar! consegui sorrir.
E pouco depois, uma notícia da Carolina.
Ena, Carolina! exclamei.
Foi como sempre é Precisas de detalhes? tentava sorrir, mas os olhos estavam cansados.
Já percebi! Carolina, e o pai?
Que importa? Logo que soube que estava grávida, desapareceu. Não tive tempo de lhe mostrar que vinha dois!
Ai, caramba Carolina, e agora?
Abanou a cabeça, foi lavar o rosto, e eu fiquei com o Tiago e a Ana, comendo guloseimas na sala.
Oh miúdos, devagarinho! Dividam para todos! Tia Tânia, queres um doce? Faz bem!
Olhando para o Tiago, decidi o que muitos chamariam loucura.
És doida, Tânia! Carolina abanava a cabeça ao receber a escritura. Não consigo
Tu consegues tudo! sorri ao olhar para o notário. Assim é que está certo, Carolina. A avó aprovaria. Os teus filhos merecem uma casa. E um lar para eles.
O apartamento da avó passou para a Carolina toda a família aguardava os gémeos.
Martinha e Matilde nasceram à hora certa. Pequenas, mas cheias de voz.
Raparigas de pulmão! E nomes, mãe?
Uma, Alexandra, como a minha mãe. A outra, Maria, em homenagem à minha tia.
Uma mulher admirável, senhora tua tia?
Sem ela, estes bebés não existiam!
À saída da maternidade, os filhos e a Tânia aguardavam a Carolina.
Pronto, somos mais um bocadinho! murmurou a Tânia, mostrando o recém-nascido à Martinha.
Que sejam felizes a Carolina abraçava-os, escondendo as inquietações.
Se tivesse partilhado as inquietações com a Tânia, tido mais cuidado com a saúde, podia ter sido diferente.
Mas mãe, quando tem bebés, esquece-se de si.
Uma semana depois de sair da maternidade, Carolina sentiu-se mal. Chamou o Tiago antes de ele sair para a escola:
Fica de olho nas irmãs. Já chamei uma ambulância. Liga à Tânia. Não assustes a Ana, está bem?
Carolina não resistiu.
O coração, do qual nunca se queixou, falhou de repente.
E a Tânia teve de tomar outra decisão. Havia escolha possível?
És a única parente, sim Mas são quatro crianças! E já tens dois! Temos de pensar É muita responsabilidade.
Tânia não discutiu.
Era, de facto, a maior responsabilidade. Mas jamais poderia colocar o Tiago, a Ana e as gémeas num lar ou separá-los. Para ela só havia uma opção: ficarem juntos.
O António ajudou. Conseguiu um bom advogado, tratou de papéis, ficou com as crianças enquanto Tânia corria as repartições.
A tua mulher não se importa?
Não. Ela também é mãe. E mais: já percebeu que nunca voltarei para ti.
Pois.
Então, para que se preocupar? António deu de ombros. Estás mesmo decidida?
Quem tem a certeza? Estou cheia de medo. Mas não podia fazer de outra forma. São todos meus! Como dividir? Como entregar?
De que tens medo?
Achas que não é normal? E se falho? Estou sozinha
Não estás. Se permitires, ajudo. Fico em dívida contigo, lembras-te? enxugou-me as lágrimas. Não chores. Vamos conseguir. Tânia, nunca conheci pessoa como tu! Tu vais dar conta. Tenho a certeza!
Esperemos que Deus te oiça, António!
Ele ouve e a tua avó também, nunca duvides.
Tânia sorriu pela primeira vez desde a tragédia.
O resto foi difícil.
Tânia aguentava, mas à noite deixava sair as lágrimas. Chorava, dando socos na almofada, trincava o canto para que os filhos não a ouvissem.
Avó, o que faço agora? Ajudas sempre Diz-me como me desenrasco!
E sempre recordava uma dica, uma frase antiga. E isso bastava, mesmo que ficasse só a dica, não o caminho todo; o lamento cedia, e Tânia adormecia, encontrando a coragem para mais um dia. E mesmo quando errava, os filhos cresciam felizes. E todos sabiam se algo acontecesse, era à Tânia que corriam. Ela ia entender, ajudar, perdoar. Nunca seria fonte de dor.
E hoje, a Martinha agarrava a gata perdida e respondia ao vizinho:
A Tânia vai expulsar-te de casa com ela! Vê como está suja. E tem sarna! Deixa-a!
Não! Martinha olhou desesperada para o irmão e para a porta do prédio.
Nesse dia, Tânia tinha planeado levar os miúdos ao Jardim Zoológico. Acordou cedo, preparou o pequeno-almoço, orientou a família toda numa hora, despachando os mais novos para a rua, sob a vigilância de Tiago.
Leva-os ao baloiço, Tiago! Dou-me só dois minutos! Onde meti os ténis velhos?
Vê no armário da Ana, ela andou a arrumar! Já vamos para a rua! Tiago despachou as irmãs e acrescentou: Mãe, pinta o outro olho também, que está esquisito. Não tenhas pressa! Eu tomo conta delas.
Tânia procurou pelos sapatos, acabou por pintar os olhos e até passou baton, coisa que não fazia aos fins de semana. Uma coisa era ir arranjada para o trabalho; outra era o sábado com a família.
Mas, naquele dia, ao olhar-se ao espelho, pensou que não fazia sentido andar sempre descuidada. Tanta responsabilidade, tantos filhos, preocupações, mas porquê esconder-se? Havia de se arranjar sim, para si mesma, para aproveitar o dia.
Aprendera há pouco tempo esse truque.
Pode passar-se o passeio a reprimir os filhos, aborrecer-se com as camisolas manchadas de gelado.
Ou então
Comprar algodão doce, dar mais um gelado às crianças e anunciar:
Eu vou ver o elefante! Quem vem comigo?
E lembrar-se de quando ia ao jardim zoológico com a avó. Do compota caseira e da sandes, sentadas no banco junto ao pavimento dos elefantes. Da mão dela, quente, a segurar a minha. E sonhar que aquele dia nunca acabasse.
Agora era eu que cozinhava a compota. E levava sandes para o piquenique. E os meus filhos iriam lembrar-se e fazer igual algum dia. E isso era justo.
Olhou ao espelho mais uma vez, pegou na mochila e saiu.
A vizinha subia as escadas, com um sorriso maroto.
Força, Tânia! Lá fora tens uma surpresa!
A Martinha correu até ela, de braços estendidos com a gata.
Mãe! Olha! Não é linda?
E o que podia responder a Tânia?
Nada.
Pegou a gata pela pele da nuca, examinou-a e suspirou.
O jardim zoológico fica para outro dia. Agora temos uma tigresa! Tiago, onde é a clínica veterinária mais próxima? Vamos!
E aquele ia ser um bom dia. Mesmo sem passeio ao jardim zoológico, todos encontrariam o que fazer nessa tarde.
A gata, desleixada e magra, que a Martinha orgulhosamente arrastava à vista de todo o bairro, em poucos meses seria uma bela, elegante e carinhosa felina e traria, àquela casa, mais uma gota de alegria, um oceano de felicidade.
E ninguém se espantaria. Não a Tânia nem os miúdos. Para eles tudo era claro: onde há amor, nunca é demais.







