Inocente Sem Culpa

Levas a tua filha e vão embora daqui. Entre nós dois já não há mais nada!

Mas, Alexandre…

Já disse tudo! E não quero mais ver-te!

A porta bateu com força e Leonor cambaleou. Tudo rodopiou à sua volta, um zumbido cortou-lhe os ouvidos. Ouviu, como se viesse de longe, um grito que se parecia com a voz da mãe: Nem penses nisso!

Aquele grito salvou-a. Leonor respirou fundo e, com cuidado, avançou até à cadeira, sentando-se com força, as unhas enterradas nas palmas das mãos. A dor fê-la acordar; expulsou o nevoeiro que ameaçava engolir-lhe a alma.

Não pode! Não se pode ir abaixo! Não se pode largar-se no fundo do desespero! Mas apetecia-lhe tanto…

Não, não pode! A Catarina existe! E… Não, melhor ainda não pensar nisso. Primeiro, é preciso recompor-se e tentar perceber o que raio aconteceu.

O que podia ter afastado assim Alexandre? Porquê expulsá-la? Se no dia anterior tudo estava bem…

Ou estaria mesmo?

Por fim, a cabeça começou a funcionar. Leonor pousou as mãos abertas sobre a mesa.

Como é? Como dizia a mãe? Quando não souberes o que fazer pensa! Analisa as coisas uma a uma. Ou melhor, agarra num lápis e escreve!

Mas os lápis estavam longe, no quarto ao lado. E lá dormia Catarina…

A filha sempre dormira com sono leve e Leonor não queria acordá-la. A menina tornava-se rabugenta, chorava e depois não havia cabeça para se concentrar.

Teria de se arranjar com o que tinha à mão.

Ela olhou para as próprias mãos cerraram-se automaticamente. Unhas descuidadas, pele áspera e sardas nas costas das mãos, lembrança das horas à sol e à terra, cuidando do jardim e da pequena horta. Quem diria que se ia apaixonar tanto por estas tarefas domésticas, que esquecesse tudo o que a mãe lhe ensinara?

Leonor, tu és uma mulher!

Não, sou uma menina!

Agora és menina. Mas daqui a pouco serás mulher. Como eu. E mulher não pode andar desleixada! Nunca! Manicura, pedicura, cabelo arranjado! Mãos bem cuidadas! Isso diz mais de ti do que roupas caras. Não ponhas colares de ouro ao pescoço se ele nem limpo está! Percebeste?

Sim, mãe pequena Leonor, de oito anos, lambuzada com o baton da mãe, frente ao espelho.

Isso agora não, princesinha! ria a mãe, tirando-lhe o baton. Nem te fica bem essa cor! E és muito nova para te pintares. Ainda não precisas. És linda assim mesmo! Tudo tem o seu tempo. Mais tarde escolhemos maquilhagem para ti.

Oh, mãe…

Já está!

Leonor nunca ouvia aquela frase desnecessariamente. Mas quando ouvia, sabia nem valia a pena argumentar. A mãe era mulher de palavra.

Em tudo.

Leonor, vou ter de ir embora. Ficas a viver com a avó durante um tempo. Tem de ser.

Mãe, vai demorar muito? Leonor, que fizera dez anos no dia anterior, retorcia o vestido entre os dedos, mordendo o lábio para não chorar.

Uns meses. Arranjei um trabalho óptimo, mas é no Norte. Não te posso levar. Vais ficar melhor aqui com a avó. Cuida de ti e eu telefono e escrevo-te cartas.

Não vás, mãe…

Mas Leonor desabava, e a mãe, incapaz de atenuar-lhe as lágrimas, perdia a paciência.

Basta! Não tenho alternativa! Se não aceitar agora, nunca vamos sair de casa da avó! Quero que tenhas o teu quarto. Que possamos ir ao Algarve. Se o teu pai estivesse vivo, não teria pensado nisto. Mas agora estou por todos nós! Por ti e pela avó!

E a tia Teresa? Leonor abanava a cabeça, tapando os ouvidos.

A tua tia também tem os seus problemas. Precisa de ajuda.

Fica comigo! Fica… escapou-se à Leonor, e viu então pela primeira vez um frio especial nos olhos da mãe.

Leonor! o tom era gélido e a menina encolheu-se Não podes pensar só em ti! Não está certo! Se nunca pensares nos outros, no dia de amanhã ninguém vai pensar em ti quando precisares. Percebeste? Agora penso primeiro em ti! E quero que nunca te falte nada! a voz da mãe suavizou e abraçou a filha. Prometo-te, isto é só desta vez! Aguenta, pequenina. Só assim é que tem de ser.

Não restava a Leonor senão aquiescer, mesmo com a alma arranhada de dor.

Escrevia cartas à mãe, segurava o telefone com ambas as mãos ao fim-de-semana e gritava-lhe que a esperava, chorava tanto que chegava a recusar até o gelado preferido. O tempo parecia não andar. E quando a avó anunciou ida ao aeroporto para buscar a mãe, o choro foi tão grande que apanharam um táxi acalmá-la demorou uma eternidade.

Mas a mãe cumpriu. Nunca mais partiu durante tanto tempo. Houve deslocações de trabalho, breves. Não foi mais a mesma distância.

Passaram para um apartamento maior finalmente, Leonor teve o tão desejado quarto. Mas quase nunca estava lá; levava cadernos e livros para a cozinha, esperando, ansiosa, que a mãe chegasse e partilhavam ambas o serão. Mesmo sem dizer palavra.

Era bom assim, só isso.

As crises da adolescência passaram ao lado delas. Raramente discutiam: a mãe tinha uma paciência e uma ternura imensas. Mais tarde Leonor admirou-se da quantidade de amor que havia naquela mulher frágil, sem qualquer apoio. Já não havia a avó ficara só com a mãe.

A mãe deixou de falar com a irmã.

Leonor só perguntou uma vez. E a mãe respondeu de frente.

Pode perdoar-se tudo. Menos a traição.

O que fez a tia Teresa?

Traiu a nossa mãe, a tua avó. Não apareceu no hospital para lhe dizer adeus. Não quis ajudar.

Porquê?

Não queria ouvir-me pedir para ficar, ajudar a cuidar. Também era dever dela. Não queria ver a mãe naquele estado… alimentar, lavar, como se fosse um bebé… Ver o espírito a fugir de quem sempre foi a nossa força…

E tu conseguiste?! Leonor indignou-se.

Não consegui. Não queria, mas não tive escolha, Leonor. Era a minha mãe! Tinha de fazer tudo para que partisse em paz, rodeada de quem amava. Mesmo que já não nos reconhecesse.

Por isso não me deixavas estar com ela mais do que uns minutos?

Sim. Não queria que recordasses a avó assim.

Pois, não recordo… Não me lembro de como estava. Mas lembro-me de quando me ensinava a fazer compota e tirar a espuma com a colherzinha. Era melhor assim…

Eu e a Teresa fazíamos o mesmo em crianças…

Não percebo. A avó criou-vos igual! Porque são tão diferentes?!

A vida é assim, Leonorzinha. A mãe sempre protegeu muito a Teresa porque ela era doente. Se calhar achava que devia protegê-la de tudo, não só das doenças. Não sei…

Conseguiu?

O quê?

Proteger?

Não. Tu sabes como a vida da tua tia Teresa foi difícil. Dois casamentos, três filhos, sempre aos trambolhões… Se calhar, se a tua avó tivesse deixado que ela se magoasse um pouco, talvez tudo tivesse sido diferente. Não sei… Só sei que aprendi como não ser contigo. Sempre te apoiarei. Mas não me peças para resolver os teus problemas por ti. Quando a vida te bater, pensa. Se não conseguires sozinha, eu estou ao teu lado. Sempre.

Sim, mãe…

Agora Leonor sentava-se ali, desesperada. Dobrava os dedos, tentava perceber o que falhou e quando foi.

No dia anterior, tinham celebrado o aniversário de Alexandre. Nada de especial, só família chegada. Felizmente era verão, a casa estava pronta, havia espaço para todos.

Veio a mãe de Leonor, a sogra e a irmã de Alexandre com o marido e filhos.

Catarina, radiante por ter companhia, corria pelo jardim, inundava a mãe de perguntas.

Eles vêm já, mãe? Quando chegam? Vamos poder ir à piscina?

As perguntas não tinham fim. Leonor acabou por se calar. Catarina respondia sozinha enquanto arrumava o quarto para os convidados. Não se pode receber as pessoas com tudo desarrumado!

Alexandre foi ao mercado. Na cozinha, o trabalho acelerou. A mãe ajudava Leonor e preocupava-se com ela.

Porquê, mãe? Que se passa?

Nada, filha! sorriu a mãe De quantas semanas estás?

Leonor ficou em choque. O segredo, tão guardado que nem ela mesma o queria ver, já não era só seu. Mas sentiu-se estranhamente bem: sorriu e abraçou a mãe.

Poucas semanas, três só… Ainda não contei ao Alexandre. Como soubeste?

Estás… a brilhar. Exatamente como estiveste quando esperavas a Catarina.

Mãe, tenho medo…

Medo de quê, tolinha? Está tudo bem com vocês!

Não sei… Sinto-me inquieta. Alexandre anda estranho. Não percebo o que se passa…

Já perguntaste?

Ele não responde!

Então não perguntas direito!

Oh, mãe…

Não tenho razão? Se o teu marido anda carrancudo sem motivo, prende-o contra a parede e exige saber! Ensinei-te mal, filha… Não se pode afrouxar os laços dos que nos são queridos. Nem por um meio passo! Se largares, eles vão acabar a falar com quem não devem… e depois nunca se sabe o que pode acontecer.

Leonor dobrou outro dedo ali estava. Tudo começara com esta conversa! Os sinais andavam por ali, mas não lhes dera atenção, até a mãe insistir em conversar com o marido.

Não chegou a tempo. Primeiro a festa, depois a limpeza. Não houve tempo para falar com Alexandre.

E então ele disse aquela frase absurda.

“Leva a tua filha!”

O que era aquilo?!

Leonor cerrou os punhos. Não! Desta vez iria agir bem. Como a mãe ensinara. Primeiro: conversar!

Alexandre já arrancava com o carro quando Leonor, desvairada, correu até à porta, assustando até os pardais que saltavam no quintal.

Espera!

Ela saltou o degrau e correu até ao portão.

Alexandre olhou-a surpreso, ela apoiou as mãos no capot.

Sai daí… a voz dele era apagada, mas Leonor viu o que queria.

Ele não queria ir, não queria deixar a família. Não se enganara.

Sai do carro! Precisamos de conversar já, enquanto a Catarina dorme! O que está a passar-se contigo?! Para onde vais?! Que conversa é essa?! Sou tua mulher ou alguma estranha?!

O tom dela subia, Alexandre sentia-se apertado por dentro.

Se ela fosse assim tão indiferente como lhe disseram, por que gritava? Se estivesse à espera que ele se fosse embora, por que insistia? Então não queria ele que Catarina vivesse com o pai?

Saiu do carro, resmungando.

Como se tu não soubesses bem por que faço isto!

Se soubesse, perguntava?! Alexandre, o que se passa? Andas estranho há semanas! E hoje parecias fora de ti! O que disseste agora? Porque chamas Catarina de tua filha? E para ti, o que é ela?!

Não sei! atirou Alexandre, olhando finalmente Leonor de frente Diz-me tu! De quem é afinal a Catarina? Porque é que o pai dela a encontra às escondidas?!

Mas que disparate é esse? Leonor ficou boquiaberta. Perdeste o juízo?

Com quem te encontras na cidade quando levas a Catarina às aulas?

Leonor quase se engasgou de indignação, mas conteve-se.

Então era isso! Quem te encheu a cabeça? A tua mãe? Ou a tua irmã?

A mãe não tem culpa!

Ah, então foi a Sílvia!

E não devia ela contar-me o que viu? Sou o irmão dela!

E eu sou a tua mulher! Leonor sentiu a fúria crescer como uma onda gigante Acreditas em toda a gente menos em mim?! É isso?!

Mentiste-me!

Eu?! Alexandre, ouve-te! Mentir em quê?!

Quem é aquele homem com quem andas a passear com a Catarina, duas vezes por semana? Quem é?!

Leonor estremeceu e suspirou.

Já te contei, Alexandre! Só que não me ouviste!

Quando foi? O que foste tu a contar?

Ias ver o jogo de futebol Champions, ou lá o que era. Cheguei com a Catarina das aulas e disse-te que tinha encontrado um antigo colega, o Sérgio. Viveu anos no Porto e voltou agora. A mãe dele está doente. E ao saber que a minha avó teve o mesmo, pediu-me contactos de médicos e cuidadoras. E sim, encontrámo-nos algumas vezes se a tua irmã tivesse reparado, via que íamos com a minha mãe! A minha mãe! Achas que, se estivesse a trair-te, o fazia na frente dela? Como pensas?! Ela nunca me perdoaria se fizesse tal coisa! Às vezes até sinto que ela gosta mais de ti do que de mim! Sempre te respeitou! E tu…

Leonor calou-se e enxugou as lágrimas rapidamente.

Não choraria. Hoje, não.

Espera! Tu queres dizer então que…

Já disse tudo! e olhou Alexandre com tal firmeza que ele recuou um passo Acreditaste em más-línguas. Simplesmente esqueceste tudo o que vivemos! Sujaste o meu amor e o nome da tua filha! Percebes o que fizeste? Não sei porque Sílvia arranjou este disparate, e sinceramente, não quero saber! Ela veio a nossa casa, trouxe discórdia e sorriu toda a noite, sabendo bem o que fazia. Mas tudo isso é fácil de resolver. O difícil é o que tu fizeste, Alexandre! O que queres agora? Um teste de paternidade? Vamos fazê-lo! Vou provar-te que a miúda que te olha com os teus próprios olhos, é tua filha!

Leonor escutou o silêncio da casa. Suspirou.

Acordou.

Virou costas e entrou, deixando o marido perdido no pátio.

E passados minutos, ouviu o carro a afastar-se.

Catarina falava-lhe baixinho, exigindo atenção. A Leonor apetecia chorar.

Como foi possível? O que fizera de errado? O que devia fazer agora? Ligar à mãe? Contar tudo? Ou esperar dar tempo para pensar?

Não me contes discussões tuas com o Alexandre. Só quando souberes de certeza que acabou, que já não há volta! Até lá, silêncio! Vocês discutem e acabam por fazer as pazes, mas eu não perdoarei. Nunca mais confiarei nele. Porque ele magoou a minha filha!

Leonor mexia no telefone, mas pousou-o. Ainda não era o tempo. Alexandre tinha de saber que ia ser pai de novo. Depois pensaria no que fazer.

Com isso serenou. E quando o carro do marido entrou a ranger pelo portão, já estava mais composta.

Estava a dar jantar à filha, quando ele entrou e, puxando a irmã, entrou de rompante.

Anda! Leonor, onde estás?

Aqui… Leonor olhou para a filha e decidiu.

Não era altura para Catarina ver um escândalo.

Querida, acabaste? Vai para o meu quarto e vê desenhos animados, sim? Consegues?

Sim! Catarina saiu disparada, deixando os legumes na mesa. Olá, pai! Olá, tia Sílvia! A mãe deixou!

A vozinha dela acalmou os adultos. Alexandre largou a irmã, Leonor tomou a dianteira.

Vai, Catarina! Já lá vou!

Não vás já, mãe! Catarina subiu, contente, as escadas em salto para o quarto dos pais.

A discussão foi dura. Sílvia chorou, Alexandre irritou-se, Leonor ficou sem reação.

Achei mesmo que o enganavas! Percebes? Há tantos casais assim! Deixei-me contagiar pelo que ouvia das amigas, já não acredito em ninguém!

Sílvia, pensaste que eu era igual às tuas amigas? E tu, traíste o teu marido? E os teus filhos?

Sílvia engoliu em seco, emudecida.

Que disparate!

E tu?! Leonor não deixou Percebes o que podias ter feito com a tua parvoíce? Alexandre esteve mal, claro. Mas aproveitaste a confiança dele. Para quê, Sílvia?

Nem sei… sentou-se e chorou Parecia-me que o estava a proteger…

De mim?! E serviu de quê?

Leonor olhou o marido.

Pronto, está tudo esclarecido? Não tens mais perguntas para mim?

Leonor…

Não, Alexandre! Chega! Agora, sou eu que estou magoada. Preciso de tempo. Sílvia, por agora não te quero em minha casa. Acho que percebes porquê.

Leonor, perdoa-me…

Vou pensar. Agora, peço que saiam. Leonor levantou-se e abriu a porta Tu também. Vai.

Com Alexandre, iria reconciliar-se. Mas não logo, e só nas suas condições. Mais ninguém saberia o que se passou. Porque, às vezes, não se deve lavar roupa suja fora de casa. E por essa lição, Leonor estaria para sempre grata à mãe.

A mãe irá pegar no neto recém-nascido, suspirar de felicidade, comentar com a sogra de Alexandre as semelhanças com o pai, e sorrir de soslaio para Lenor.

Cresceste sábia, minha filha. Uma boa esposa, uma mãe excelente…

Achas?

Mentiria alguma vez?

Mãe, o que significa ser sábia? Dizes isso, mas não me sinto assim…

A sabedoria duma mulher está em guardar o que a vida lhe dá. Filhos, família, casa, amigos… Unir, cuidar, aquecer. Isso é difícil! Temos de distinguir sempre o que vale a pena guardar e o que se pode largar sem desgosto, para não estragar o resto. Acho que tu aprendeste essa arte…

Sim?

Tenho a certeza! E a propósito, o Sérgio telefonou. Casa-se no próximo mês. Mandou convite para ti e para o Alexandre.

Mãe…

Nada de protestos. Fico com as crianças! Mas, por favor, faz-me um favor, sim?

O quê, mamã?

Vai fazer as mãos!

Está prometido!

Leonor abraçará a mãe, acenará ao marido e à cunhada, que estará a um canto, e piscando o olho à filha:

Vem cá, ajuda-me a pôr o teu mano a dormir.

Posso? ilumina-se Catarina, acariciando o punho do bebé.

Deves, filha! Deves…

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