O Seu Cantinho Especial na Cozinha

O meu lugar na cozinha

Ó Mariana, estás aí a dormir ou quê? Os convidados estão à mesa, olha que não é só para ti!

A voz da minha sogra cortou o bulício da cozinha como uma faca pelo pão. Mariana Sofia Alves não estremeceu. Estava habituada àquele tom. Àquele olha que, como tantas vezes.

Já vou, Dona Amélia, mais um minuto.

Mais um minuto? Já passaram quarenta!

Calada, virei os bifes na frigideira. Chiou, o aroma da cebola e do alho a espalhar-se pela casa. Fechei a tampa, baixei o lume, olhei para o relógio. Faltavam exatamente oito minutos para servir o quente. Como sempre, estava tudo mais que calculado.

Por trás da parede, as vozes ecoavam. Era dia especial: os trinta e cinco anos de casamento da Dona Amélia e do Sr. José António Alves. Vieram os dois filhos, as noras, quatro netos, e ainda os vizinhos, Dona Glória e o marido. Desde as cinco da manhã estive eu na cozinha. Gelatina de carne primeiro. Saladas: russa, de bacalhau, de atum. Rissóis de camarão porque o Sr. José António não admitia outros. Depois sopa, depois os bifes caseiros, daqueles com pão embebido em leite e salsa. E o bolo, que fiz na véspera: pão-de-ló húmido com doze camadas, porque Dona Amélia só gostava desse.

Retirei o avental, pendurei no gancho, ajeitei o cabelo. Peguei no prato com os bifes e entrei na sala.

Até que enfim! disse a Dona Amélia, não para mim, mas para o resto da mesa.

Os outros aplaudiram. Dona Glória estendeu logo a mão ao prato.

Mariana, e as batatas? perguntou o meu marido, Duarte, sem levantar os olhos do telemóvel.

Já vou buscar.

Voltei para a cozinha. Enchi uma tigela grande de batatas cozidas, com natas e salsa. Como gostam. Como gosta o sogro, como gosta Duarte.

Quando cheguei à sala já se riam de mais uma piada. Das deles. Não das minhas.

Tinha cinquenta e dois anos.

Vinte e sete deles passados nesta família. Primeiro eu e Duarte alugámos um T2 pequeno em Benfica, depois mudámo-nos para este apartamento grande dos Alves, na Avenida da Liberdade, quando nasceu o João. Disseram: assim é melhor, os pais dele ajudam. Eu nunca vi muita ajuda. Mas ajudei sempre. Todos os dias. Todos os almoços. Todos os domingos.

Mariana, vê se trazes mais pão pediu Dona Amélia.

Fui buscar.

E mostarda também, não te esqueças.

Trouxe a mostarda.

Comi em pé, ao balcão da cozinha. Porque o meu lugar era à ponta da mesa, sempre a levantar-me. Mais valeu não sentar.

Depois foi o bolo.

Dona Amélia cortou-o ela, devagar, toda orgulhosa, enquanto o Sr. José António lhe segurava na mão. Todos tiraram fotos. Suspiros altos pelas camadas.

Compraste isto na Confeitaria Nacional? perguntou Dona Glória.

Que disparate, foi a Mariana que fez respondeu Dona Amélia.

Ela. Não eu. Não a Mariana fez. Peguei na chávena de chá. Bebi. Calada.

Depois o Sr. José António brindou à mesa. Falou de família, de fidelidade, disse que o maior tesouro eram os filhos. Chamou Dona Amélia de dona de casa, guardiã. Ela sorriu modestamente e os convidados bateram palmas.

Eu também bati palmas.

Depois fui arrumar. Lavei louça, guardei restinhos, limpei a mesa, lavei fogão, deitei o lixo fora. O fecho habitual de cada festa.

O Duarte apareceu na cozinha já passava das onze.

Está tudo bem?

Está.

Estás cansada?

Um bocadinho.

Acenou com a cabeça, serviu-se de água, foi ver futebol para a sala.

Uma noite igual às outras. Nada se passou. Ou talvez tenha passado qualquer coisa, pequena. Como aquelas rachas no vidro, invisíveis até ao dia em que o vidro se desfaz.

Desliguei a luz. Fiquei parada na penumbra. Cheirava ainda a bifes. Cheiro do meu dia.

Deitei-me e dormi.

As três semanas seguintes passaram iguais: pequenos-almoços, almoços, jantares. Lavava roupa, passava a ferro, ia ao mercado. Comprava tudo, fazia listas de menus porque Duarte detestava feijão, o sogro não podia ver peixe durante a semana, a sogra estava sempre de dieta, menos quando lhe apetecia. Guardava tudo isto na cabeça. Sempre. Sem ser preciso apontar.

Trabalhava como contabilista numa empresa pequena. Três dias por semana. O resto era a casa.

Naquela sexta-feira, tudo começou por uma coisa mínima.

Fiz frango com natas, receita antiga, nunca falhava. Mas nesse dia, Dona Amélia apareceu como de costume, sem avisar e entrou de saco de maçãs do quintal.

Ah, frango… outra vez natas? O Duarte fica mal disposto, não sabias?

Sei, Dona Amélia. Estas são magras, quinze por cento. Ele pediu para variar.

Pois, eu prefiro só guisar sem natas.

Está bem, Dona Amélia.

Sentou-se à mesa, a mexer no telemóvel.

Olha, falei ontem com a Dona Teresa, aquela vizinha nossa. A nora dela é cozinheira num restaurante. Diz que a Dona Teresa lá em casa come comida fresca, tudo sempre feito. Eu esperei.

Era bom arranjares um trabalho a sério, não achas? Três dias por semana não é nada. Sempre a meio-gás. Se calhar, rendia-se mais.

Virei o frango na panela. Fitei-a.

Eu trabalho, Dona Amélia.

Pronto, só estou a dizer.

Só estava a dizer. Sempre com aquele ar, sem raiva, sem gritar, só… como uma pedrada leve.

Fechei a tampa da panela. Baixei o lume. Senti-me a encolher por dentro, como em tantas outras vezes. Só que agora mais apertado.

No dia seguinte liguei à minha amiga de sempre. Filipa Barbosa. Conhecemo-nos desde a escola, desde os vinte anos. Ela agora vive noutra zona da cidade, trabalha numa biblioteca, divorciada faz mais de quinze e dizia-se feliz.

Filipa, tudo bem?

Tudo. E tu? Ouço pelo tom…

Vai-se andando.

Mariana…

Hesitei.

Estou cansada, Filipa. Só isso. Não do trabalho. Do resto.

Ela não ficou a dar conselhos. Só perguntou:

Vens cá?

Um dia destes.

Quando quiseres, o chá é sempre quente e há conversa.

Sorri. O primeiro sorriso em vários dias.

Depois veio aquele sábado.

O Duarte convidou, à última hora, o irmão Gonçalo e a mulher, Inês. Na sexta à noite:

Achas bem se o Gonçalo e a Inês vierem jantar amanhã?

A que horas?

Sete, mais ou menos.

Está bem.

Não reclamei mais. No sábado acordei às oito, mercado, carne, legumes, batatas, beringelas. Inventei o menu: lombo assado, salada fresca, creme de abóbora e crepes de queijo fresco para o chá.

À uma, já tudo começava a compor-se. O lombo no forno, a sopa ao lume, massa dos crepes no frigorífico.

Às três apareceu Dona Amélia, mais uma vez sem avisar.

Então hoje é jantarada? Não me disseram nada.

Vem o Gonçalo com a Inês respondeu o Duarte.

Ah… foi espreitar o forno. Mariana, usaste aquele tempero?

Usei.

Qual?

Alecrim, tomilho, alho.

Olha que o José António detesta alecrim.

O José António hoje não vem jantar.

Silêncio. Breve. Depois Dona Amélia, devagarinho:

Perdão?

Virei-me da bancada, encarei-a nos olhos.

Hoje o jantar é para o Gonçalo e a Inês. O Sr. José António não está cá. Vai com alecrim fica mais saboroso.

Ficou a olhar para mim como quem olha alguém pela primeira vez. Depois virou costas.

Percebi. E saiu.

Ouvi-a a murmurar qualquer coisa ao Duarte na sala. Ele veio ter comigo à cozinha.

Mariana, era preciso?

O quê? Não disse nada de mal.

Pronto, mas ficou aborrecida.

Porquê?

Ficou sem resposta. Mas olhava para mim como se a culpa viesse sempre do mesmo lado. Era mais cómodo.

O Gonçalo e a Inês chegaram animados, com vinho e uns bombons duma loja chique Belmonte. O jantar correu bem. O lombo estava tenro, o creme de abóbora ficou sedoso, todos quiseram repetir.

Mariana, tu tens mesmo mão para isto elogiou a Inês.

Aprende-se.

Não tenho paciência! riu-se ela. Vivemos de take-away.

Isso é que é vida! disse o Gonçalo.

Vida é isto, rebateu Inês, olhando à mesa a Mariana faz tudo tão bem!

Faz tudo tão bem. Eu servi chá, trouxe crepes, sentei por fim.

Mariana, senta-te, faz favor! disse a Inês. Também tens direito a descansar.

Sentei-me, pus um crepe no prato.

Gonçalo, diz-me começou ele para o irmão é verdade que querem fazer obras na cozinha? Mariana, tu queres mesmo?

Falamos disso, sim.

Mãe disse que estás sempre com vontade de mexer nisto tudo e ela prefere como está.

Dona Amélia tem a cozinha dela, eu cozinho aqui.

Justo disse Gonçalo.

Não é bem assim cortou o Duarte. Este é o apartamento dela, construíram tudo do zero.

Vivemos aqui há vinte anos.

Pois, mas continua a ser dela.

Um silêncio instalou-se. Inês fitava a chávena, Gonçalo pinçou novo crepe.

São bons, estes crepes disse ele.

O assunto morreu ali.

Nessa noite, fiquei horas a olhar o teto. O Duarte roncava, respirando regular. Eu pensava naquela frase: continua a ser dela. Dela. Não nosso. Não teu. Dela nunca meu.

Vinte anos. Vinte anos de comida, roupa, chávenas, bandejas… E era tudo dela.

De manhã levantei-me igual. Fiz café, pus as papas.

Tudo igual por duas semanas.

Daí a mais um jantar: o aniversário de casamento, 35 anos.

Comecei a preparar tudo dois dias antes. Combinei lista de pratos com Dona Amélia. Ela quis de tudo: gelatina de carne, pratos quentes, dois tipos de salada, empadas, e claro, o seu bolo especial. Anotei tudo.

Na sexta, liga ela à noite: afinal, eram dezassete à mesa.

Voltei ao mercado, comprei o dobro.

No sábado levantei-me às quatro.

Gelatina ficou desde sexta à noite. De manhã cedo já gelificada, retirei o excesso de gordura estava no ponto.

Fiz massa das empadas. Sempre me vieram à ideia as mãos da minha mãe, toca na massa, sente: ela responde quando está pronta.

A mãe já partiu há oito anos.

Amassar pão faz-me pensar nela. De bata, com farinha nos braços, cantarolando fados antigos, quase esquecidos.

Às dez já havia empadas prontas. Ao meio-dia, as saladas. Às duas, o prato quente a assar.

Vieram os convidados às três.

Recebi, levei casacos, pus entradas, ia vigiando o forno, a água para o chá, saltando entre sala e cozinha.

Mariana, já se pode trazer as empadas? perguntei a mim mesma. Falava sozinha ninguém mais perguntava.

Levei-as. A mesa animou-se.

São caseiras, não? perguntou Dona Glória.

Foi a Mariana informou Gonçalo.

Muito prendada elogiou Dona Glória e virou logo para Dona Amélia: Tens sorte numa nora assim!

Nada de especial, vai fazendo o que pode respondeu Dona Amélia.

Fui buscar o prato quente, enorme, pesado.

Finalmente! exclamou Dona Amélia alto, para todos ouvirem. Pensámos que já não vinha!

Alguns riram-se.

Pousei o prato. Endireitei as costas.

Que beleza disse o Sr. José António. Um elogio.

Mariana, as batatas são à parte, ou juntas? perguntou Duarte.

Trago já à parte.

Foi então que ouvi. Já saía, e apanhei.

Dona Glória perguntou baixinho:

E a Mariana, é o quê de profissão?

Contabilista resumiu Dona Amélia. Três dias por semana, sabe como é… Mas o seu lugar é na cozinha. Sempre foi. Sempre será.

O seu lugar é na cozinha. Sempre será.

Fiquei parada. De costas para a sala, de frente ao fogão.

Dona Glória riu-se baixinho.

Alguém tem de cozinhar.

Justamente assentiu a sogra.

Fiquei ali um minuto. Depois levei as batatas. Sorri, aquiesci, sentei-me na ponta. Sirvo água para mim própria. Não vinho: água.

Comi em silêncio. Respondi quando perguntavam. Sorri no tempo certo. Arrumei pratos. Fatiei o bolo.

O seu lugar é na cozinha. Sempre será.

À noite dormi mal outra vez.

Ficava a rodar aquelas palavras dentro de mim. Sem raiva especial. Vinte e sete anos na cozinha. Mãos cheias de farinha e de água quente. Pratos para dezassete pessoas. Mãos que quase ninguém via. Só o resultado.

O lugar na cozinha. Sempre será. Vinte e sete anos ali.

O Duarte dormia. Estudei-lhe o rosto. Homem bom, no fundo. Mas cego. De tão habituado, não precisava ver mais.

Levantei-me. Vesti o roupão. Fui à cozinha.

Acendi a luz. Liguei o fervedor.

A cozinha estava imaculada. Limpa, toda arrumada. Tudo pelas minhas mãos.

Fiz chá. Tirei o telemóvel. Abri o WhatsApp da Filipa.

Filipa, estás acordada?

Ela respondeu cinco minutos depois.

Sim. Estava a ler. Passa-se?

Olhei para o ecrã. Escrevi: Nada, só apetecia-me ir amanhã. Posso?

Ela respondeu logo: Claro! Vem, preciso de companhia.

No dia seguinte, fiz o pequeno-almoço: ovos mexidos, torradas, tomates. Pus a mesa. O Duarte veio, meio a dormir.

Bom dia.

Bom dia respondi.

Servi-lhe café, pus-lhe o prato.

Duarte, preciso de falar contigo.

Hm? já com o garfo.

Quero ir embora uns dias.

Para onde?

Para a Filipa. Só descansar.

Olhou-me. Engoliu.

E eu?

Tens bifes no frigorífico. Sobra de sopa, rissóis congelados.

E depois?

Depois desenrascas-te.

No domingo à tarde, pus uma mala no comboio. Era pequena.

A Filipa recebeu-me em Lisboa. Olhou para mim, para a mala, nada perguntou. Abraçou-me só.

Chá? disse.

Ficámos na cozinha dela, pequenina, com vasos de manjerico e uma luz quente. Tomámos chá com bolachas. Fomos conversando até depois da meia-noite.

O que faço agora? perguntei baixinho.

Não sei. Mas não tenhas pressa a voltar.

Assenti. Aqueci as mãos de porcelana do chá.

Três dias depois, o Duarte ligou.

Mariana, quando voltas?

Ainda não sei.

Como assim não sabes? A casa está vazia.

Vai ao supermercado.

Silêncio.

Eu não sei cozinhar.

Faz ovos mexidos.

Isso sei.

Então come ovos.

Desliguei e ri-me. Pela primeira vez em muito tempo.

Ao quarto dia, a Filipa trouxe uma novidade:

Olha, conheço uma senhora da Escola de Culinária lá do bairro. Procuram professora de pastelaria e cozinha tradicional, temporário, talvez longo prazo. Queres que te apresente?

Eu não sou professora.

Cozinhas melhor que qualquer professora dali. Conheço-te há vinte anos.

Eles vão pedir diploma.

Primeiro fala. Depois logo se vê.

Dois dias depois, estava sentada com a Dona Irene, quarenta e tal anos, prática e decidida.

Disseram-me que sabe muito de cozinha. Que sabe fazer?

Cozinha tradicional portuguesa enumerei. Pastelaria, pães, carnes, compotas. Sopas, massas, um pouco de tudo.

Massas lêvedas?

Sempre feitas por mim. Nunca comprei massa pronta.

Ela sorriu.

Vamos marcar uma aula experimental. Se a turma gostar, fica connosco.

Aula experimental foi à sexta: pão caseiro de fermentação lenta.

Na véspera, não dormi. Achei uma parvoíce. Nunca tinha ensinado ninguém. O que diria Duarte? E a sogra?

Depois pensei: porque é que interessa o que eles acham?

Na sexta, entrei na sala. Oito mulheres, várias idades, uma rapariga de vinte e cinco ou assim. Esperavam, curiosas.

Cumprimentei. Peguei na tigela. Despejei farinha.

Vamos começar simples. O segredo do pão não está só na receita. Está nas mãos. Sintam a massa. Quando descola das mãos, macia, é o ponto. Nem cronómetro substitui a mão.

Fui falando, amassando, mostrando truques, respondendo dúvidas, as diferenças da água morna, porque não se pode apressar o levedar.

A rapariga mais nova perguntou:

E se não sai bem à primeira?

À terceira sai. O pão não se chateia.

Riram-se. Um riso verdadeiro.

A Dona Irene observou, satisfeita.

No fim:

Sabe explicar.

Não pensei nisso.

Pois, é por isso mesmo que sabe. Quando se pensa demasiado, perde-se naturalidade. E a senhora tem isso. Fica?

Assinei contrato na segunda. Três sessões semanais. À hora, bem pago. Melhor que no escritório.

Liguei à firma, pedi férias.

Depois, ao Duarte:

Duarte, arranjei emprego. Ensino culinária.

O quê? Escola? Quando voltas?

Para já não volto.

Foi a sério?

Foi.

Longo silêncio.

A mãe perguntou se estavas zangada.

Não. Estou cansada. Só isso.

Mas cansada de quê?

Procurei palavras. Simples.

De não ser vista. De existir só as comidas, a roupa lavada, a mesa posta. Mas eu, a Mariana, não.

Silêncio.

Mariana…

Não te culpo. Só te conto. Como é.

Ficou sem resposta novamente.

Ligo mais tarde disse ele.

Está bem.

Mais duas semanas, fiquei em casa da Filipa. Cozinhava. Para nós. E ela agradecia mesmo. Não era de favor.

Um dia, a Filipa disse:

Estás diferente.

Para melhor ou para pior?

Melhor. Mais calma. Sem aquele correr permanente.

Pensei nisso.

Na escola, começaram a pedir para ficar nas minhas aulas. A Dona Irene dizia: Chegam aqui por receita, ficam por si.

Eu punha tudo de mim. E agora, notavam.

O Duarte veio visitar-me ao fim da segunda semana. Avisou antes, a Filipa foi trabalhar mais cedo. Encontrámo-nos na cozinha do costume.

Mariana, volta.

Olhei para ele. Estava mais magro, cansado.

Para quê?

Para casa, para a família. Sinto tua falta.

Duarte, tiveste três semanas só. Eu tive lá vinte e sete anos só.

Baixou os olhos.

Nunca pensei.

Eu sei.

Vais perdoar-me?

Suspirei.

Não tenho de te perdoar. Não estou de mágoa. Só mudei.

Como assim?

Não vou voltar a ser igual. Não porque estou zangada. Mas porque não cabe mais, como roupa apertada.

Ficou calado.

E então? Divórcio?

Não sei. Talvez não. Mas vai ser diferente. Trabalho agora. Não vou ser criada. Nem para ti, nem para ninguém.

A mãe não te quis magoar.

Escuta bem. Não falo de magoar. Falo do que ela disse: O lugar dela é na cozinha. Sempre será. Entendes?

Ouviste…

Ouvi. E não foi só isso. Foram vinte e sete anos disto.

Novamente silêncio.

A mãe não devia ter dito isso. Concordo.

Obrigada.

Eu também. Não ligava.

Pois.

Pela primeira vez, vi o Duarte vulnerável. Meio perdido.

O que faço agora? perguntou-me.

Aprende a fazer sopa.

Quase sorriu.

A sério?

A sério. É fácil. Cebola, cenoura, batata. Posso ensinar. Agora ensino.

Depois de algum tempo:

Vais voltar?

Pensei bem. No apartamento da Avenida da Liberdade, no cheiro de azeite ao domingo, no Duarte dos meus dias, na vida partilhada mesmo não perfeita, é a minha vida.

Tenho cinquenta e dois anos. Nem muito nova, nem velha.

Talvez disse. Mas não já. Preciso de mais tempo.

Quanto?

O que eu precisar.

Ele foi-se. Fiquei à janela, entre o azul de outubro e os vasos de manjerico.

Depois levantei-me. Tirei farinha e ovos. Fiz massa, só para mim.

A massa era quente, viva. As mãos aqueceram.

Um mês depois, a Dona Irene propôs-me vaga definitiva.

A senhora faz mesmo falta aqui. Não é substituta, é professora. Três turnos semanais, mais um workshop mensal. Veja as condições.

O ordenado era justo, bastante bom. Dava liberdade.

Aceito disse.

Assinei. Fiquei junto à porta, a respirar o ar fresco do fim de outubro.

Liguei à Filipa.

Já sou professora a tempo inteiro.

Mariana! quase aos gritos. Orgulho em ti! Vamos festejar?

Eu levo qualquer coisa.

Claro!

Sorri.

O Duarte começou a ligar alguma vezes. Mais calmo. Contava que já fazia ovos. Depois pediu receita de sopa. Ensinei. Lia-me mensagens: quantas cenouras, quanto sal, porque está esquisita?

Porque puseste vinagre a mais, se calhar.

Usei colher como disseste.

De sopa ou de chá?

Silêncio.

São diferentes?

Ri-me, ele riu também.

No final de outubro, voltou outra vez. Trouxe flores. Crisântemos. Sabia que eu gostava. Antes nunca trouxe não era preciso, eu nunca fugia. Agora trouxe.

Gosto destes.

Sei que sim.

Bebericámos chá. Falámos de tudo netos, obras dos vizinhos, o pai que teve um susto mas já está bem.

Depois disse:

A mãe queria falar contigo.

Fiquei a pensar.

Estou a ouvir.

A sério. Mudou desde que tu saíste.

Em quê?

Começou ela a cozinhar. Fez um bolo sozinha. Não saiu bem, mas fez.

Fitei a chávena.

Ainda bem.

Disse-me que errou, naquele dia.

Bom que percebeu.

Falas com ela?

Olhei-o.

Falo. Quando estiver pronta. Não agora.

Percebo.

Não me apressou. Isso foi novo. Antes, queria tudo logo, agora aprende a esperar.

Ao sair, parou no corredor.

Mariana.

Sim.

Tinhas razão. Por muitos anos não vi. Isso foi errado.

Encarei-o.

Eu sei.

Sinto muito.

Assenti. Não disse está tudo bem. Porque não estava. Mas podia vir a estar. Um dia.

Liga amanhã. Conta-me da sopa.

Combinado.

Fechou a porta.

Fiquei no hall. Depois fui à cozinha. Pus o fervedor ao lume. Olhei pela janela para o bairro aceso de amarelo.

Pensava que depois de amanhã ia ensinar massa quebrada. Tem de ser feita com mãos frias, sem derreter manteiga. É um truque; muitos não sabem, apressam-se, depois a massa não liga.

Vou explicar. Agora sei fazer-me ouvir.

A água ferveu. Fiz chá. Sentei-me à janela.

Lá fora, a minha vida misturava-se a velha, a nova, lado a lado. Ainda não sabia para onde ia. Voltar à Avenida? Ficar aqui? Ou talvez outra coisa.

Mas por agora, neste serão, bebo o meu chá na cozinha da Filipa. Trabalho, ganho dinheiro meu. Ensinei alguém a sentir massa nas mãos. E isso é real.

Para já, é o que importa.

No dia seguinte o Duarte ligou ao almoço.

Fiz sopa anunciou.

Como saiu?

Boa. Até tem cor!

Então não ferveste demais.

Não. Segui como disseste.

Bem feito.

Parou.

E tu, como estás?

Estou bem respondi.

E era verdade.

Aprendi assim: só é possível cuidar dos outros quando aprendemos a cuidar de nós.

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