Não existe alegria sem luta
Como foste capaz de te enfiar numa situação destas, rapariga tola? Quem te vai querer agora, com um filho no ventre? E como pensas criá-lo? Não contes com a minha ajuda. Já te criei, agora também querias que criasse o teu filho? Não és bem-vinda aqui. Arruma as tuas coisas e desaparece da minha casa!
Aurora ouviu em silêncio, cabeça tombada, as últimas palavras de esperança a esvaírem-se à frente da tia Rosalina. Pensava que podia ficar ali até encontrar emprego, mas esta ilusão fugia-lhe como sombra em fim de tarde.
Se a mãe fosse viva
Aurora nunca conheceu o pai. A mãe, atropelada por um condutor bêbedo há quinze anos enquanto atravessava a passadeira, partiu cedo demais. Quase a entregaram a uma instituição, mas dali a pouco apareceu uma prima afastada da mãe. Tia Rosalina tinha emprego certo e uma casa própria, lá num dos recantos de uma vila alentejana longe do bulício, onde o verão queimava e o inverno escorria em chuvas sem fim. Acabou por levar a menina para junto dela, e a tutela foi um formalismo.
Na vivenda branca da tia Rosalina, Aurora nunca passou fome. Houve sempre roupa lavada, tarefas domésticas e trabalhos de quintal. Faltou ternura, mas quem liga a isso? É outra vida, outros hábitos.
Estudiosa, Aurora terminou a escola e seguiu para o instituto politécnico, pronta para ser professora primária. Os anos de estudante passaram depressa, quase sem dar por eles. Agora, acabados os exames, voltava à terra que a vira crescer mas tudo era mais duro do que esperara.
Depois de despejar o desabafo, tia Rosalina acalmou.
Chega. Sai já, não voltas a pôr aqui os pés.
Tia Rosalina, ao menos
Nada, está dito!
Aurora soergueu a mala de viagem e saiu, ruas desertas e calorão, tristeza a sufocar-lhe a respiração. Jamais pensara que o regresso se parecesse tanto a um sonho triste, sem lógica, como nos sonhos em que se corre e nunca se chega a lado nenhum.
Ao andar, tudo lhe parecia absurdo: as vinhas pendiam cachos de uvas roxas e douradas; as faias e laranjeiras perfumavam o ar com mosto e fruta madura. As velhas cabras brancas ruminavam à sombra das oliveiras, os pardais cruzavam as ruas num vaivém amarelado e quente, e o cheiro a pão fresco e carne assada misturava-se ao de marmelada ao lume.
Com a garganta seca, Aurora parou junto a uma cancela. Pediu água a uma mulher que mexia panelas na cozinha de verão.
Posso beber um copo de água?
A mulher, rija como um sobreiro, olhou-a de lado. Entra, filha, quem vem por bem é sempre bem-vinda.
Polina, como disse chamar-se, ofereceu-lhe água fresca de uma tijela lascada. Aurora bebeu sentada no banco, os ombros cansados.
Precisas de repousar? Está calor
Muito, sim. Acabei agora o curso, queria arranjar trabalho de professora. Só que não tenho onde ficar. Sabe se alguém aluga um quarto?
Polina estudou-lhe o rosto, notando a expressão dorida, o ar de quem carrega demasiado peso no peito.
Olha, podes ficar aqui. Sempre fazes companhia à casa. Não preciso de renda grande, só que sejas arrumada. Vais ver o quarto?
Polina até se animava com a ideia de companhia: o filho vivia longe e a solidão havia tempo que fazia eco nas paredes. Um hóspede seria companhia nas noites frias de inverno.
Aurora mal acreditava na sua sorte inesperada. Seguiu Polina: o quarto era pequeno, mas cheio de luz janela para o quintal, mesa de madeira, cama engelhada com colcha de renda, armário antigo. Aceitaram logo o preço: vinte euros por semana, mais uns favores na casa.
No dia seguinte, largou as malas e foi direito à câmara de educação. E, assim, Aurora entrou num ritmo esquisito de sonho, dias a correr atrás do tempo: escola, casa, escola.
Polina e Aurora fizeram-se amigas. À noite, no alpendre coberto por parras, bebiam chá de lúcia-lima e falavam pouco, como se as palavras pesassem. A barriga ia crescendo. Aurora nem enjoava, nem o rosto mudava: apenas os olhos guardavam uma doçura desconhecida.
Contou a Polina a sua história, tão vulgar e, ao mesmo tempo, absurda: ainda na faculdade, Aurora apaixonara-se por Guilherme, filho de professores abastados na capital. Jovem, bem-falante, lindo e vaidoso, o rapaz parecia preferir a solidão dela aos suspiros das outras. Talvez fosse o sorriso tímido dela, os olhos castanhos, ou talvez sentisse nela algo que os outros não sabiam a coragem de quem conhece o peso dos dias e nunca baixa os braços.
Naquele dia, Aurora percebeu: estava grávida. O corpo recusando os cheiros, fome estranha, atraso incontestável. Comprou um teste, sobressaltou-se ao ver as duas linhas a surgirem no plástico. A cabeça a rodar: exames à porta, e agora isto? Susteve o segredo horas intermináveis, até que finalmente lhe contou a Guilherme.
Foi tudo rápido: Guilherme levou-a a casa dos pais, e eles, sem rodeios, sugeriram aborto, descarte, e que ele seguisse o seu caminho, livre para ter carreira e família digna.
Na manhã seguinte, Guilherme entrou no quarto, deixou-lhe um envelope cheio de notas cem euros à cabeça e saiu sem uma palavra. O assunto estava arrumado.
Aurora nem pensou em interromper a gravidez. O bebé já havia entrado nos seus sonhos confusos. O dinheiro, isso, guardou. Sabia que ia precisar.
Polina ouviu o relato e, com ar doce, sentenciou:
Já vi pior, filha. Fizeste bem. Um filho é sempre uma bênção. Um dia vais ver que isto foi para o teu bem.
Mas Aurora jamais conseguia imaginar-se de novo com Guilherme. Nunca lhe perdoaria a humilhação, o abandono.
Meses passaram. Aurora, já com a barriga redonda, afastou-se do trabalho. De vez em quando, nas caminhadas lentas entre as amendoeiras floridas, pensava se teria menina ou menino. Não importava, só queria saúde.
No final de fevereiro, numa tarde azul e fria, Aurora sentiu as dores começarem. Polina levou-a ao hospital de Évora. O parto, estranhamente fácil, trouxe-lhe nos braços um menino forte.
Ó meu Pedrinho murmurava, embalada entre a vigília e o sono, com a testa encostada ao bebé.
Fez amizade com outras mães. Logo lhe contaram que, dois dias antes, uma jovem mulher dera à luz uma menina e, de repente, partira, deixando apenas uma carta a dizer que não estava pronta, que precisava fugir. O pai era um militar da GNR destacado na raia.
Foste tu que cuidaste dela? perguntou a enfermeira quando trouxe a menina para o berçário.
Sim, pobrezinha.
Aurora tomou-a nos braços. Tão leve, tão loira, tão pequena. Sussurrou-lhe o nome de Carmencita.
Ambas dormiam encostadas ao seu peito. Aurora amamentava as duas o próprio Pedrinho e a pequenina Carmencita. Uma imagem de sonho, a sala cheia de choro e murmúrios aos quadradinhos do soalho, tudo num limbo ensonado.
Dois dias depois, a enfermeira veio dar a notícia: chegara o pai da menina e queria agradecer a quem tratou da filha. Assim conheceu Aurora o sargento Manuel Tomé baixo, cabelos cortados à escovinha e olhos claros como o céu da serra.
Tudo se passou, aliás, como nos contos que se ouvem ao crepúsculo junto à lareira: no dia da alta, as enfermeiras prepararam festa. Na porta do hospital, Manuel esperava de farda, o jipe salpicado de laços cor-de-rosa e azuis. Ajuda Aurora a entrar, entrega-lhe um embrulho azul (Pedrinho) e outro cor-de-rosa (Carmencita). Polina, sentada ao lado, sorri de orgulho.
A viagem pela estrada, o cheiro a flores frescas no velho jipe. Aurora segura os bebés, embalada pela música do rádio. O sargento Manuel, que já ajoelhara diante dela a pedir-lhe a mão, conduz em silêncio, lançando olhares ternos pelo espelho. Carmencita dorme, dedos em espiral no mindinho de Aurora.
E, ao chegarem, foi como acordar de um sonho: não era apenas uma casa. Era lar, cheiro de marmelada, armário antigo, uma chávena cheia de futuro. Vida por inventar, cheia de sentido por entre o absurdo de todos os dias.






