Eu não te odeio
No fundo, nada mudou mesmo…
Maria balançava nervosamente a ponta da manga do casaco, olhando pela janela do táxi. Lá fora, desfilavam ruas que lhe eram íntimas desde a infância aquelas onde corria com o Tiago, entre risos e sonhos desenhados para o futuro. Sete anos Sete anos completos sem voltar à sua terra.
Chegámos, disse o motorista, interrompendo mansamente o fluxo dos seus pensamentos.
O táxi imobilizou-se devagarinho em frente ao velho prédio de azulejos descascados. Maria verificou automaticamente se tinha o telemóvel consigo, retirou da carteira algumas notas de euros, pagou e saiu do carro. Ficou um instante na beira do passeio, a respirar o ar de Coimbra. Era mesmo diferente não tinha comparação àquele das avenidas largas de Lisboa, onde agora levava a vida. Aqui cada cheiro, cada som familiar despertava memórias no fundo do peito. Cheirava a relva acabada de cortar do pequeno jardim, misturado ao aroma de pão quente do forno da esquina, e ainda mais um cheiro indefinido, algo que só se podia chamar: lar. Uma dor leve, agridoce, apertou o coração de Maria era a alegria do reencontro misturada ao medo do que vinha pela frente.
A desculpa oficial da sua visita eram os papéis da mãe, pendentes há meses. Mas, no íntimo, havia outro motivo, talvez o verdadeiro: ela queria ver Tiago. Sabia que ele morava por perto. Não se informava diretamente, nem espreitava as suas redes. Ouvia o nome dele aqui e ali, entre conversas de amigos, e assim recebia notícias soltas: uma promoção, a compra de casa, o cuidado com a mãe já idosa Cada menção fazia-lhe surgir a imagem dele, a imaginar como estaria, no que pensaria. Tentava expulsar essas ideias, receando abrir demais o coração à saudade.
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No dia seguinte, Maria decidiu andar pelo centro. Não tinha planos a não ser encher-se de luz, absorver as ruas da cidade, sentir o ritmo que em tempos fez parte de si. Passou por montras conhecidas, riu sozinha ao reconhecer recantos esquecidos: a banca dos jornais onde comprava banda desenhada, o banco do jardim onde se sentavam depois da escola, a pastelaria onde tomou o primeiro galão, quase entornando leite quente pela blusa nova.
E quando menos esperava, viu-o.
Tiago caminhava do outro lado da rua, o olhar perdido, ligeiramente curvado. Maria ficou estática. O mundo pareceu parar. Ele estava igual ainda alto, o mesmo andar descontraído, o penteado pouco mudado.
Num ímpeto, atravessou a passadeira. O semáforo começava a piscar amarelo, ouviu-se um buzinão, mas ela nem deu por isso. Só sentiu o coração bater-lhe forte no peito.
Tiago! chamou, alcançando-o junto à mercearia.
A voz saiu-lhe embargada. Ele olhou-a e nada. Nem alegria, nem zanga. Nada.
Maria? soou a resposta, serena, quase indiferente.
Foi essa indiferença que mais lhe doeu. Sete anos de emoções represadas irromperam. Olhos marejados, voz a tremer, incapaz de se conter.
Tiago, eu eu não presto, balbuciou, lutando pelas palavras. Sei que nem devia aproximar-me de ti, mas eu soltou um soluço, as lágrimas correram-lhe livres pelas faces. Amo-te. Ainda amo. Perdoa-me. Por favor, perdoa!
Falava depressa, entrecortadamente, como se o silêncio pudesse calá-la para sempre. Na alma só restaram as palavras essenciais aquelas guardadas durante anos.
Agarrou-o, apertando-se contra ele como se, nesse gesto, pudesse apagar o passado perdido. Por segundos, a cidade, os transeuntes, os ruídos, desapareceram. Apenas o calor do corpo dele e a esperança desesperada da reciprocidade.
Tiago não se afastou logo. Pareceu, por um instante, hesitar os ombros caíram um pouco, os braços quase se levantaram, como se fosse abraçá-la. Foi só um segundo de esperança.
Depois, firme, afastou-a gentilmente. O rosto permaneceu sereno, impassível, o olhar frio. Já não era o rapaz do passado; era um homem que escudara o coração.
Vai-te embora, murmurou junto ao ouvido dela.
Disse-o tão baixo e desapegado que Maria sentiu-se invisível, como um fantasma sem importância.
Odeio-te, acrescentou, agora com desdém no olhar.
Virou costas e partiu, sem olhar para trás. Maria ficou a olhar o vazio, perdida. O mundo movia-se: pessoas apressadas, buzinas ao longe, crianças a rir Alguns deitavam-lhe olhares estranhos, perguntando-se porque estaria aquela rapariga parada, pálida, com um olhar vazio. Ela não via ninguém.
Apenas o som dos passos dele que se afastavam, e a sua própria respiração, entrecortada e aflita. As palavras dele ecoavam-lhe na cabeça: Isto acabou. Para sempre.
Caminhou devagar para casa. As pernas tremiam. O olhar, fixo no chão, vazio de pensamentos. Só o eco das palavras dele lhe preenchia o peito.
Ao chegar ao apartamento da mãe, não explicou nada. Passou em silêncio para o seu quarto, sentou-se e ficou a olhar a janela. A mãe entrou, viu-lhe a cara marcada pela dor, e não fez perguntas. Apenas pôs a chaleira ao lume. O som familiar da água a ferver, o aroma intenso do chá, pareceram absurdamente banais perante a tempestade dentro de Maria. Mas também lhe deram algum chão a normalidade reconfortante puxava-a ligeiramente de volta ao presente.
Ele não me perdoou, murmurou, agarrada à caneca quente. O vapor acariciava-lhe o rosto, mas ela mal dava por isso. Apertava a chávena com força, como se tentasse segurar algo que se lhe escorria por entre os dedos, fixando o olhar nos reflexos dourados do chá.
A mãe sentou-se ao lado, passou-lhe a mão pelo ombro. O gesto, simples, trouxe-lhe memórias da infância, dos joelhos esfolados e das zangas no recreio. Sentiu-se pequenina, como se as decisões da vida adulta desaparecessem.
Tu sabias que ia ser assim, disse a mãe docemente, só com tristeza.
Sabia, assentiu Maria, olhando o chá. A voz soava tranquila, mas arrastava cansaço, como se há muito repetisse essa frase. Mas tinha esperança. Parva, não?
Não é parvoíce, contradisse a mãe, suave. Apenas foste tu quem escolheu o caminho. O Tiago ficou muito mal. Nunca recuperou totalmente do fim. Tornou-se um João das Neves gelado por dentro. Nunca deixou ninguém chegar perto.
Maria suspirou fundo e pousou a chávena. As memórias de há sete anos sugeriram-se:
Então tudo parecia claro e simples. Tinha vinte e dois anos idade de sonhar alto. Tiago estava lá bondoso, fiável. Não era homem de palavras bonitas, mas os gestos diziam tudo: sempre pronto a ajudar, atento às pequenas coisas.
Mas havia um problema ou achava que havia. Tiago trabalhava nas obras, estudava à noite, sonhava com abrir um negócio. Os planos dele eram sérios, mas exigiam tempo. E ela não queria esperar.
Não buscava riquezas. Mas queria estabilidade, certezas, saber que teria emprego, casa, possibilidade de construir uma vida segura. E perto do Tiago via apenas incerteza, trabalhos temporários, planos adiados.
Quando o tio de Lisboa lhe ofereceu um lugar na empresa, ela aceitou. De imediato, sem hesitar. Foi a sua oportunidade tangível, real, era agarrar ou perder.
A outra verdade, que tentava empurrar para as sombras, era o aparecimento de Carlos nesses dias. Ele era empresário, bem mais velho, gestos seguros, voz quente. Conheceram-se numa festa da empresa, ela pouco à vontade com colegas engravatados. Carlos, atento, fez conversa, elogiou o seu trabalho, falou de viagens e perspectivas.
Oferecia flores delicadas, não ramos ostensivos, presentes com laços discretos. Convidava-a para restaurantes chiques onde jamais entrara, levava-a a museus, ao teatro, trazia-lhe lenços de seda, jóias, sapatos de salto fino. Cada oferta era acompanhada por palavras sobre merecimento, sobre saber aceitar o que a vida traz.
Maria resistiu ao princípio, sentia-se embaraçada. Carlos insistia como sinal de encanto sincero, dizia ele. Acabou, enfim, por aceitar. Era uma vida fácil, sedutora: jantares no Chiado, táxis topo de gama, lojas sem olhar a preços. Parecia um sonho dourado, impossível de recusar.
Assim começou a relação. Não por desejo, mas porque o conforto era magnetizante. Não precisava de se preocupar com contas, com salários, com a renda da casa. Ele cuidava de tudo.
E ela esqueceu-se de Tiago. Mais: começou a desprezá-lo, afirmando que ele jamais conseguiria vingar na vida.
Certa vez, voltou a Coimbra. Não para ver Tiago, não para lhe dar explicações. Queria mostrar-lhe a sua nova vida provar que tinha escolhido bem, que agora era alguém. Secretamente, queria vê-lo ressentido, convencida de que escapara de tudo o que a limitava.
Planeou o encontro ao detalhe. Escolheu o café mais elegante no centro: sabia que Tiago lá ia às vezes, após o trabalho. Vestiu um vestido caro, prenda do Carlos, cingido à cintura. Exibiu o anel de safira e a mala de marca novinha.
Quando Tiago entrou, ela estava no seu melhor. Fez-se ouvir no riso, virou-se bem para que ele a visse. O olhar dele foi de surpresa, dor, estranheza toda a confusão que ela própria negava dentro de si. Ela aguentou-lhe o olhar sem vacilar.
Naquele instante sentiu-se vencedora. Tinha provado, a si e a ele, que escolhera bem: a vida era feita de oportunidades, sucesso, futuro certo. Convencera-se de que era feliz, de que não lhe faltava nada.
Mas, quando Tiago saiu, e ficou a sós à mesa, a excitação esvaíu-se. Fitou o anel, a mala, o homem ao seu lado ainda a rir, e um vazio profundo abateu-se. Tudo aquilo presentes, atenções, luxos parecia longe e falso. Sorria por educação; o coração, inquieto, sussurrava: Valeu a pena?
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A suposta vitória revelou-se amarga, devagar, dia após dia. Nos primeiros meses, Carlos manteve a generosidade: flores, bons jantares, elogios. Depois, pouco a pouco, arrefeceu. Primeiro nas pequenas coisas: deixava de ligar; começou a delegar os presentes (vai lá tu comprar algo que gostes). Vieram então os reparos: Devias cuidar-te mais, Esse teu riso é pouco elegante, Por que não travas amizades mais interessantes?
Desaparecia durante dias; Maria passava tardes sozinha no apartamento moderno, ouvindo apenas o relógio. Ao levantar o tema, Carlos reagia com impaciência:
Tens tudo o que querias. Que mais queres?
Ela tentava desculpá-lo. O trabalho é stressante., pensava. Precisa de descanso., convencia-se. Mas sabia: o desinteresse era real. Tornara-se um brinquedo bonito, gasto, sem mais novidade.
Tolera. Pacientemente, fingia que o silêncio não a magoava, esquecendo-se do mais doloroso: errou. O brilho da vida nova era oco. Traíra o único homem que a amara sinceramente. Tiago, com o seu trabalho simples e sonhos autênticos, queria-a por quem ela era, não pelo que podia exibir ao mundo.
Os vestidos caros, que antes a entusiasmavam, jaziam esquecidos no armário. As jóias, sem vida, repousavam na caixa. Os restaurantes e o perfume caro começaram a enjoá-la.
Passava mais tempo a olhar a janela, imaginando caminhos alternativos: E se eu? Mas afastava logo os pensamentos doía enfrentar o que não tinha resposta: E agora?
Nas noites longas e solitárias, no silêncio da casa triste, Maria percebeu o vazio dos seus sonhos de estabilidade. O que importava segurança, planos e conforto sem ter um amor com quem dividir o dia a dia? Um lar, afinal, era feito de calor e partilha tudo o resto era cenário.
E, inevitavelmente, os pensamentos voltavam ao Tiago: as mãos trabalhadoras, um pouco ásperas, mas tão quentes; o sorriso terno, verdadeiro, que se abria só para ela; os projectos de vida ditos em voz baixa, sem promessas vãs, só fé no futuro. Sentia-se segura ao lado dele e só agora o entendia.
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Ao terceiro dia em Coimbra, Maria decidiu passear pelo parque onde tantas vezes tinham conversado. O banco debaixo do plátano recordava-lhe tardes inteiras de conversa e gargalhadas. Recordava como Tiago, uma vez, disse a olhar as folhas: Um dia havemos de ter a nossa casa, com janelas grandes para o sol entrar, cheia de luz e alegria. Ela, na altura, riu, achando aquilo um sonho distante. Agora soava como tudo o que se perdera.
Ali parada, a respirar fundo, ouviu um timbre conhecido:
Maria?
Virou-se. Era o Miguel, amigo dela e do Tiago. Foi grande a surpresa, mas ele sorriu, simpático.
Não esperava ver-te por cá, disse. Tudo bem?
Maria hesitou, tentou parecer tranquila, mas a voz traiu-lhe a tristeza.
Está tudo, respondeu, forçando um sorriso. Vim visitar a minha mãe.
Miguel acenou, discretamente curioso. Apontou um banco próximo:
Sentas-te? Estava a dar um passeio, sem planos.
Aceitou. Em poucos minutos, conversaram sobre novidades do bairro, acontecimentos recentes. O tom dele era natural, amigável. Maria sentiu-se reconfortada. Parecia estranho voltar a encontrar uma peça do seu passado assim, por acaso.
Miguel calou-se um pedaço e perguntou sem pressão:
Já viste o Tiago?
Maria baixou os olhos, fixando as folhas secas aos pés. A memória da véspera, do olhar dele, daquelas palavras cortantes Por fim, murmurou:
Sim. Ontem.
E…? Miguel esperava, cauteloso.
Ele não me quer ver, suspirou Maria, com dificuldade. Odeia-me.
Miguel suspirou, sentou-se ao lado dela, braços apoiados nos joelhos, olhando ao longe. Depois de um silêncio, falou grave:
Ele ficou muito mal, sabes? Tu desapareceste. Sem cartas, sem telefonemas. Foi um choque enorme.
Maria apertou os dedos, sentindo a vergonha e o arrependimento sempre presentes.
Eu sei, sussurrou.
Miguel não a culpou. Continuou, sereno:
Tentou esquecer-te. Conheceu outras raparigas, mas nada resultou. Disse sempre que ninguém chegava a ti. E depois, quando apareceste cheia de ares… pensei que ele nunca se iria recompor.
Maria assentiu muda. Visualizava Tiago a erguer muro a muro de silêncio, sempre a tentar sobreviver à ausência. Piorava o saber que fora ela a causar-lhe a ferida.
Depois, murmurou, mais para si:
Não sabia que ia ser assim. Achei que fazia o certo. Queria firmeza, segurança.
Miguel não contrariou, não ofereceu lições. Apenas ficou ao lado. No parque o vento agitava folhas, crianças riam ao longe. A vida seguia.
Maria cravou as unhas nas palmas, as lágrimas ameaçavam surgir. Não podia voltar atrás. Só restava o peso do erro.
Eu não peço perdão, disse num fio de voz. Só queria que ele soubesse que me arrependo Todos os dias. Recordo tudo e sei que estraguei tudo.
Miguel olhou-a, sem juízos. Depois respondeu firme, mas calmo:
Talvez ele nem precise de saber. Deixa-o em paz, não voltes. O Tiago demorou muito a recompor-se. E o teu regresso mexeu com ele. Ontem ligou-me, bêbado como nunca o vi. Dá-lhe espaço, Maria.
Ela mordeu o lábio, concordando silenciosamente. Percebia que Miguel tinha razão. Quisera redimir-se, mas talvez só tivesse reaberto velhas feridas.
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À noite, Maria manteve-se à janela. As luzes da cidade tremeluziam amarelas, laranjas, brancas a desenharem mosaicos de festa aparente. Mas não tinha cabeça para paisagens bonitas. O filme das recordações não parava de passar.
Imaginava-se ao lado de Tiago, em lutas diárias pela vida: alugar uma casa pequena, vê-lo a construir os alicerces do próprio negócio, planear o futuro juntos, rir das contrariedades, celebrar pequenas vitórias. Pesava-lhe tudo o que perdera: carinhos nunca dados, palavras nunca ditas, alegrias nunca vividas. E sabia agora: o passado é irrecuperável.
No dia seguinte, Maria preparou-se para partir. Dobrou as coisas devagar, adiando o irrevogável. A mãe observava-a, silenciosa, presa a uma tristeza doce.
Cuida de ti, pediu a mãe à porta, com ternura.
Maria acenou, beijou-lhe a face, demorou-se naquele cheiro de casa, e saiu.
Na estação, comprou um bilhete para Lisboa. Queria pensar. Umas horas sozinha no Alfa, entre estranhos, talvez ajudasse a ver mais claro.
O comboio iniciou a marcha, embalando-a suavemente. Maria fixou o olhar na janela, vendo Coimbra a distanciar-se: prédios com jardins floridos, o parque de infância, a banca das padarias. Gente a passar apressada: uma senhora com compras, crianças a correr, jovens ao telemóvel. Tudo parecia igual, mas tão longínquo
Ali deixava o homem que mais amara na vida. Um homem de olhos cheios de esperança, mãos prontas para o trabalho e o carinho. Um homem ao qual nunca deu explicações, a quem não permitiu sequer um adeus digno. E agora, sabia, era demasiado tarde.
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Passaram-se seis meses. Maria voltou à rotina de Lisboa trabalho, cafés ao fimdesemana, respostas habituais a quem perguntava pela sua vida. Parecia tudo igual, mas por dentro tudo mudara. Já não fugia do passado, nem o enterrava sob novos romances, compras inúteis ou horários cheios. Encarava de frente a dor, o erro, o remorso.
Aprendeu a acordar com a ideia de que a vida segue. A dizer-se: Já não posso mudar o que fiz. Foi errado, mas ficou feito. E, nesse aceitar, encontrou espaço para respirar melhor, para olhar o horizonte, se não com alegria, ao menos com serenidade.
Uma noite, enquanto preparava o jantar, o telemóvel vibrou com uma mensagem de número desconhecido. Apenas uma frase: Eu não te odeio. Mas também não posso perdoar-te.
Maria quedou-se imóvel. Os dedos apertaram o telefone, o coração parou por um segundo, depois galopou. Sentou-se no chão da cozinha, o telefone contra o peito, querendo sentir no ecrã o pulsar de quem a escrevera.
Não sabia o significado exato daquelas palavras. Não sabia se eram um adeus ou uma ponta de esperança. Mas, pela primeira vez em muito tempo, sentiu que havia ainda um fio entre eles. Frágil, delicado, prestes a romper, e no entanto real. Alguém, longe dali, pensava nela. Alguém escreveu-lhe, apesar de tudo. Alguém não fechou totalmente a porta.
Maria sorriu, com lágrimas nos olhos. Não foi um sorriso alegre, mas foi verdadeiro. Talvez, um dia, possam falar sem acusações, sem justificações, só com verdade. Talvez encontrem palavras para seguir em frente juntos ou separados, mas finalmente livres.
Por agora bastava-lhe saber que ainda habitava os pensamentos dele. Que, lá longe, havia quem não a visse apenas como o erro do passado, mas como parte da sua história.
E isso ao menos por enquanto já era muito.







