Sem Rodeios

Sem mais palavras

Ricardo recosta-se na cadeira, sentindo-se um pouco mais leve depois de um jantar largo. Com um ar calmo, lança um olhar a Margarida, que leva devagar um copo de vinho branco aos lábios. A luz suave e amarelada dos candeeiros do restaurante desenha sombras elegantes sobre o rosto dela, realçando-lhe as feições delicadas. O rubor nas bochechas parece natural, os olhos brilham como se devolvessem o brilho ténue da iluminação sobre a mesa.

Então, satisfeita? pergunta ele, esforçando-se para soar casual, como quem solta a questão naturalmente.

Margarida pousa o copo com cuidado, o sorriso a surgir-lhe nos lábios.

Claro. Sabes sempre onde me trazer. Este sítio é mesmo acolhedor diz, percorrendo a sala com o olhar.

Ricardo anui, sem dizer mais. A verdade é que tinha um fraquinho por aquele sítio. Não havia ali luxo espalhafatoso ou aquela elegância excessiva; denotava-se sim uma atmosfera pensada e serena. A música era discreta, o ambiente confortável, os empregados caminhavam com um passo calmo, quase ensaiado com uma compostura de quem sabe o que faz sem precisar de alardes.

Nos últimos meses, já tinha trazido Margarida ali cinco vezes, pelo menos. Cada ocasião era agradável não só pelo sabor dos pratos, mas pela aura tranquila do espaço, que parecia envolver os dois na sua própria bolha. No fim, Ricardo pagava a conta sem nunca pensar muito no valor.

Olha começa Margarida, brincando com o guardanapo, dobrando-o e voltando a estender com gestos leves , estava aqui a pensar Se calhar podíamos fazer uma escapadinha um fim de semana destes? Está-me a apetecer qualquer coisa diferente.

Talvez responde ele, de modo neutro, como a querer esconder a hesitação. Agora com o trabalho ando complicado, sabes como é.

Margarida franze as sobrancelhas por momentos, um leve desapontamento escapando-lhe ao olhar. Mas logo sorri de novo, como a querer afastar qualquer sombra.

Eu entendo. Tu és sempre tão responsável diz, numa nota meio divertida e carinhosa.

Chega o empregado à mesa, de passos calmos, trazendo uma nova carta de sobremesas. Vê-se que já domina aqueles movimentos há anos.

Ricardo, sem esperar, faz sinal de que já estão prontos.

Traga o vosso melhor. E outra garrafa do mesmo vinho, se faz favor.

O empregado anota tudo e vai tratar do pedido, sempre de uma eficiência tranquila.

Entretanto, Margarida passa o dedo à volta do copo num gesto quase automático. O som cristalino corta levemente a música ambiente. Levanta os olhos para Ricardo; está preocupada.

Estás estranho hoje distante desabafa, baixando a voz como quem quer manter as palavras só entre eles.

Ricardo encolhe os ombros, esforçando-se por parecer indiferente.

Só estou cansado diz. O trabalho consome-me.

Era verdade: as últimas semanas tinham sido extenuantes. Reuniões, tarefas urgentes, prazos a apertar, noites mal dormidas. Mas não era só isso que o afastava.

Dois dias antes, por acaso, tinha dado com o perfil de Margarida nas redes sociais, um que desconhecia. Não havia ali nada escandaloso fotos, piadas, comentários triviais. Mas, entre as imagens, dois retratos captaram a sua atenção: Margarida, sorridente, ao lado de um homem bem vestido; as legendas, Com o meu conselheiro de eleição, A melhor companhia. As datas coincidiram com os dias em que ela lhe dissera estar ocupada.

Primeiro, Ricardo quis acreditar que era um colega ou um velho amigo. Depois, começou a ligar os pontos. Investigou mais e encontrou outro homem, agora nos comentários de uma foto ali mesmo naquele restaurante. És sempre linda, mal posso esperar pela próxima vez, assinava um tal de Tiago, com direito a emoji de coração.

Aquelas imagens não lhe saíam da cabeça. Bebe o vinho, a tentar focar-se no sabor, mas a mente volta sempre àquelas datas, aquelas frases, aquelas caras.

Ricardo decide não fazer nenhuma cena, não pedir explicações ou começar uma discussão ali, entre luzes baixas e melodias suaves. Decide que é momento de pôr um ponto final. Mas não quer sair em silêncio, como tantos fazem. Quer que ela se lembre não como um mero desencontro, mas como um fim definitivo.

A noite aproxima-se do fim. O empregado chega com a conta, elevada como seria de esperar. Ricardo pega na carteira especial, abre-a devagar e finge analisar o recibo, mesmo já sabendo o total.

Ergue o olhar, sem sorrir e sem a doçura de antes.

Olha, acho que hoje vou pagar só a minha parte. O teu jantar vais ter de pagar tu afirma com a voz tranquila, quase como se estivesse a informar de um detalhe irrelevante.

Margarida cora de imediato. Os dedos apertam-se sobre a toalha.

Ricardo, estás a brincar? balbucia, tentando manter a compostura.

Não, não estou devolve ele, passando-lhe a conta. Não tens dinheiro contigo? Telefona a alguém. Ao tal Tiago, por exemplo. Achaste que eu não ia perceber? Que eu podia ser usado?

Os olhos dela abrem-se de surpresa e raiva, sem palavras.

Não sei de que falas balbucia, sentindo a fragilidade das palavras.

Pois, paciência diz apenas Ricardo, levantando-se da mesa. Fica para ti resolver.

Tira da carteira algumas notas, deixando rigorosamente o valor do seu jantar em euros. Sai do restaurante, ouvindo Margarida tentar explicar-se ao empregado, cada vez mais aflita, mas não olha para trás. Caminha para a porta, sentindo-se mais livre a cada passo, não por vingança ou orgulho, mas por finalmente se ter permitido dizer aquilo que precisava.

Ricardo sai do restaurante, respira fundo e sente um alívio. Acabou.

Segue pela rua, mãos nos bolsos. Os candeeiros desenham círculos quentes no passeio, vitrinas iluminadas enchem-se de reflexos coloridos. Por todo o lado, pessoas apressam-se para casa, outras vagueiam sem destino, casais riem, trocam confidências, fazem planos. A vida segue e isso sabe-lhe bem.

Pensa como a vida é estranha. Um mês antes, tinha a certeza de que Margarida era a tal, especial à sua maneira. Lembra-se de como escolhia presentes para lhe agradar: horas de pesquisa para encontrar o telemóvel perfeito, conselhos com a funcionária da loja para acertar na cor. Recorda-se da alegria dela ao receber o voucher para o spa, dos risos quando usou, pela primeira vez, aqueles brincos finos de ouro que ele escolhera. Dos momentos em que punha tudo de lado para estar com ela.

Agora sabe: era um jogo o jogo dela, não o seu. E a consciência disso não lhe traz dor nem raiva, só uma tristeza leve, como um café frio esquecido na chávena.

O telemóvel vibra no bolso. Mensagem de Margarida: Foi baixo da tua parte. Se era para acabar, podias ter dito.

Para junto a uma montra de livraria, olha para os lombos coloridos. Depois de pensar uns segundos, escreve: Foi o que acabei de fazer.

Envia, desliga o telefone. Não quer saber de chamadas, explicações, nem mensagens. O que havia a dizer já ficou dito.

Tem pela frente a noite livre e, pela primeira vez em muito tempo, sente que pode fazer o que lhe apetecer ir ao bairro, entrar num café onde o conhecem, pedir uma bebida e ver a rua; ir para casa, pôr uma música que ela detestava e dormir até tarde sem preocupações; ligar ao velho amigo e combinar um fim de tarde despreocupado. O que escolher está ao seu alcance. Isso é bom. Sabe mesmo bem.

*************************

No dia seguinte, Ricardo acorda antes do despertador. O quarto está silencioso, só lá fora se ouvem vagamente sons da cidade a despertar. Espreguiça-se, sente o corpo a ganhar ânimo, e apercebe-se de que já não carrega o peso de antes no peito. Pelo contrário, sente uma leveza improvável, quase como quando o céu limpa depois de uma noite de chuva.

Vai para o banho, deixa-se ficar sob a água quente, relaxando. Fecha os olhos, escuta o som ritmado do duche e, pela primeira vez em meses, permite-se apenas estar sem listas mentais, sem justificação, sem stress.

De volta à cozinha, faz café forte. O aroma fresco preenche o ar e, com a caneca na mão, vai até à varanda.

A manhã está límpida. Lá em baixo, os carros já circulam, ouvem-se crianças a brincar no pátio da escola, percorre-se o cheiro a terra molhada e café acabado de sair de uma pastelaria. Ricardo observa, sente o calor reconfortante do café e deixa-se estar a ver Lisboa acordar.

O telemóvel jaz no tampo da varanda, mas ele não o liga. Quer aproveitar o silêncio sem alertas ou notificações.

Já perto do meio-dia, desbloqueia o ecrã. Mensagens de trabalho, alguns alertas das redes, uma não lida da Margarida. Passa o dedo e apaga sem ver já tinha dito tudo. Nada há de novo para ler.

Procura antes o número do Tomás, o amigo de sempre. Liga-lhe.

Então, pá diz Ricardo, com uma voz calma, sem aquela tensão que o vinha afectando há semanas. Que tal encontrarmo-nos? Há quanto tempo não nos vemos.

Tomás acolhe a ideia com entusiasmo. A voz animada torna qualquer conversa mais leve.

Claro! Quando e onde?

Rapidamente marcam encontro num bar perto do trabalho de Ricardo aquele velho refúgio depois de dias pesados.

Quando entra, já lá está o Tomás junto à janela, com duas imperiais na mesa, como sempre prevendo-lhe o gosto. Sorriso largo.

Conta, diz-lhe, mal te sentas. Pareces diferente. Não sei bem o quê mas pareces mais solto. Que se passou?

O olhar atento de Tomás não escrutina, só acompanha.

Ricardo pega na caneca, bebe um gole, depois diz:

Acabei com a Margarida.

Eish. Então, foi ela que deu o passo?

Fui eu resume Ricardo, relatando em poucas frases o jantar da véspera; sem floreados, só a essência.

Tomás ouve, acena, fixa o olhar no seu copo. Quando Ricardo termina, dá-lhe volta ao vidro entre as mãos antes de sorrir ligeiramente:

Foste duro, mas parece justo. Tens a certeza que havia outro?

Absoluta responde Ricardo, sentindo-se finalmente leve. Nem quis cavar mais; bastou o que vi.

E agora, o que fazes?

Vivo responde Ricardo, sinceramente. Trabalho, amigos, férias se conseguir. A vida continua.

Diz isto com uma verdade simples não é teatro, é mesmo assim. Parou de arranjar desculpas, decidiu avançar. E isso sente-se.

Boa! Tomás ri-se. Olha, a minha prima foi agora para o Porto e falou-me de um festival de jazz brutal lá para breve. Que tal irmos, relaxar uns dias?

Ricardo imagina logo o Porto, as ruas, os sons, os cheiros, a cidade a pulsar com música. Por que não? Tem estado demasiado preso ao que passou. Sente finalmente vontade do novo.

Bora concorda, e esse bora é mais do que o simples aceitar de um convite; é um passo em frente. Só preciso de uns dias para organizar as coisas no trabalho.

Espetáculo! Tomás brinda, rindo-se. Já não era sem tempo. Fazes falta com o teu bom humor!

Ricardo sorri. Sente internamente que algo muda não abruptamente, mas como um jardim a despontar depois do frio. Há rotina e responsabilidade, mas sente nascer de novo o interesse pelo que pode vir.

Na semana seguinte, partem mesmo para o Porto. O festival é tudo o que Tomás prometeu. Passeam pela cidade, vão ouvindo sons de saxofone pelas ruas, perdem-se em cafés minúsculos cheios de riso e cheiro a café com nata. Numa noite, abrigam-se da chuva a ver as pessoas correrem, atrapalhadas, e acabam por rir-se como miúdos.

Num dos últimos serões, sentados num bar com vista sobre o rio Douro, Ricardo olha a cidade a iluminar-se e percebe: já não pensa em Margarida. É algo novo. Não há mágoa, não há vazio. Só uma paz tranquila.

Estás distante nota Tomás, erguendo o copo. Em que pensas?

Só que, finalmente, estou a respirar confessa Ricardo. Parecia que não era capaz há meses.

Lá fora, o Porto vive, os candeeiros dançam na água, o saxofone ecoa ao longe. Ricardo sente-se bem. Nada falta.

Vamos brindar ao que aí vem? propõe Tomás, e Ricardo sorri, brindando a novos caminhos. O bar vibra com a música suave e parece que o futuro é agora.

*************************

De volta a Lisboa, Ricardo decide mudar rotinas: vê mais amigos, vai a cafés após o trabalho, telefona e convida para passeios nos parques.

Um dia, inscreve-se verdadeiramente na natação nunca soubera nadar bem, agora quer aprender. As primeiras aulas custam, mas sente-se, a cada braçada, mais forte e em paz. A água limpa o corpo e pacifica a cabeça.

Começa também a aprender espanhol, não por obrigação, mas pelo puro prazer de desafiar o cérebro. Compra livros, vê vídeos, experimenta filmes legendados, diverte-se com os erros e progressos.

No emprego, surgem projectos interessantes, exigentes, mas gratificantes; a equipa começa a reconhecer-lhe as ideias. Volta a gostar do que faz.

Os amigos convidam-no vezes sem conta para uma churrascada nas aforas de Lisboa. Descobrem trilhos na Serra de Sintra, riem-se e fazem planos. Ricardo entrega-se a esse sentimento de pertença, sem precisar de máscaras.

Os serões de cinema no jardim em campo de Ourique tornam-se rituais de fim-de-semana. Ricardo ajeita o lenço no ombro, leva chá e escolhe um sítio confortável na relva, pronto para esquecer os dias de trabalho sob as estrelas lisboetas. Tudo lhe sabe bem a noite fria, o cheiro da relva, as gargalhadas da multidão, o pulsar da metrópole ao longe.

Vê ali a confirmação: a vida não mora só no que já passou ou no que poderá ser. Está nesses instantes no chá quente, na manta nos ombros, nas vozes, na calma. E isso basta.

Num desses fins de semana, na recta final do outono, após mais uma sessão de cinema no parque, a multidão dispersa e Ricardo recolhe calmamente as coisas. Ouve uma voz doce às costas.

Desculpe diz uma rapariga, sorriso aberto, cabelos claros ondulados escondidos num cachecol azul-escuro. O olhar dela é sincero, quente.

Tenho reparado que costuma vir aqui todos os sábados continua. Também aprecia cinema ao ar livre?

Ricardo hesita apenas um segundo. Depois sorri.

Gosto muito. Aqui tudo tem outro sabor responde. O riso, a emoção, a forma como assistimos todos juntos.

Concordo plenamente admite ela. Lá dentro estamos às escuras, cada um por si. Aqui, parece que estamos todos a viver o filme mesmo.

Alarga-lhe a mão.

Sou Leonor.

O nome ecoa-lhe na memória em tempos conhecera outra Leonor, mas quase nada o liga a esse passado. Aperta-lhe a mão; é firme e calorosa.

Ricardo.

A conversa segue, fácil e desimpedida. Falam de filmes, de Lisboa, de cafés escondidos, das ruas onde é bom perder-se. Leonor conta que se mudou há pouco para o bairro. Ricardo aponta-lhe sítios imperdíveis uma pastelaria com pastéis de nata de perder de vista, uma livraria com edições raras, uma galeria na rua vizinha.

O diálogo instala-se, tão natural que só reparam quando já restam poucos no parque. Finalmente, Leonor consulta o relógio.

Tenho de ir. Amanhã levanto-me cedo.

Ricardo, sem pensar, quebra o silêncio:

Queres tomar um café qualquer dia? Conheço um sítio ótimo com chocolate quente artesanal.

Ela sorri, com brilho suave no olhar.

Adorava.

Trocadas as mensagens, partilham um adeus animado. Ricardo fica a segui-la com o olhar, sentindo uma esperança simples a incendiar-lhe o peito. Não fantasia, não deseja prever nada; limita-se a saborear aquele momento. Caminha até casa de mãos nos bolsos, a respiração fresca enchendo-lhe o peito. Sente-se, finalmente, preparado para os futuros encontros, para o que vier.

*************************

No dia seguinte, Ricardo acorda com um sentimento especial. O céu cinzento, Lisboa molhada pela chuva miúda, o cheiro do café na casa. Senta-se perante a chávena, pega no telemóvel.

Sem pensar muito, escreve à Leonor: Bom dia! Que tal cinema no sábado? Desta vez dentro de portas as nuvens prometem dilúvio. Envia, repousa o telefone. Sente aquela antecipação boa.

Pouco depois, Leonor confirma: Aceito! Mas tem de ser uma comédia. Adoro rir. Ricardo sorri. Gosta daquela leveza dela.

Toma o café, observa a chuva. Sente-se recomeçar algo. Não é um fechar do que passou, mas o desabrochar de algo novo simples, sem certezas, mas promissor.

Por essa altura, Leonor chega a casa, calça os chinelos, senta-se no sofá e olha para o telemóvel: a mensagem de Ricardo brilha no ecrã. Sorri largamente.

Vamos ver no que dá diz para si, sorrindo.

Não sabe o que pode sair daquele encontro. Pode ser um bom serão, pode ser o início de outro caminho. Mas sente já uma excitação serena, um ânimo leve como quem aguarda uma surpresa.

O trabalho corre bem um projecto grande entregue, clientes satisfeitos. Leonor sente-se capaz, pronta para encarar o dia seguinte. Mal lê a mensagem de Ricardo, sorri de novo.

Cinema então pensa, escolhendo mentalmente a roupa: nem demasiado formal, nem casual. O conforto é o que importa.

No sábado, o céu está fresco mas claro. Leonor chega cedo ao cinema, compra pipocas, espera por ele ao pé da entrada. O átrio está animado, famílias e jovens a escolher filmes.

Ricardo entra, reconhece-a de imediato, sorri-lhe. O calor daquele gesto faz-lhe acelerar o coração.

Chegaste cedo.

Não consegui ficar quieta em casa diz ela, ligeiramente corada. Estava ansiosa.

Também eu admite Ricardo. Mas é uma ansiedade boa.

Sorriem, partilham pipocas, conversam até à luz apagar. O filme abre com gargalhadas e a leveza instala-se de imediato.

Ri-se junto de Leonor sem esforço, partilhando pequenas observações e encontrando conforto e cumplicidade. Terminada a sessão, caminham sem destino pela Avenida da Liberdade, deixando o tempo passar.

Falam sobre trabalho, gostos, projectos, livros favoritos. Leonor revela que adora policiais; Ricardo fala do seu fascínio recente por livros sobre o universo.

Vem depois o tema das viagens.

Já andaste por aí? pergunta Leonor.

Só conheço Espanha e Itália admite Ricardo. Mas sonho ir a Marrocos; a cultura, o ambiente das ruas

Estive em Sevilha. É incrível! Leonor anima-se. Adoro o sul, as praças, as comidas, a música no ar.

Agora quero mais ir ri-se ele. E tu?

Sonhava com Japão diz com brilho nos olhos. Os rituais, as cerejeiras, o contraste entre tradição e tecnologia. Um mundo.

Quem sabe um dia vamos juntos? sugere, surpreendendo-se a si próprio.

Ela hesita um instante, depois sorri docemente.

Era um sonho.

Caminham até à beira-Tejo. O céu revela as primeiras estrelas, o rio está calmo e brilham reflexos de Lisboa nas águas. Ao longe ouve-se música, perto reina sossego.

Obrigada por hoje diz Leonor baixinho. Foi muito especial.

Para mim também responde Ricardo. Repetimos?

Claro que sim assente ela, sorriso quente.

Ao despedirem-se, Ricardo segura-lhe a mão por um segundo. Não é necessário mais palavras. Ela aperta-lhe a mão de volta, com suavidade.

Até breve.

Até breve.

Leonor sobe a rua, Ricardo vê-a ir até desaparecer na luz dos candeeiros. Sabe naquele momento que não é um fim. É o início de algo leve, novo, cheio de possibilidades. A esperança cresce por dentro. Caminha, seguro: a vida continua, repleta de oportunidades pequenas, como jantares partilhados, passeios ao fim da tarde e conversas fáceis o que realmente lhe faz sentido.

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No dia seguinte, Ricardo acorda cheio de expectativa para o que está por vir. E sabe, no fundo, que é agora que tudo começa.

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