Casamentos Arranjados com Hora Marcada

Diário de Ricardo, 12 de abril

Hoje foi um daqueles dias em que o mundo parece conspirar para testar a minha paciência. O escritório estava mergulhado numa calma silenciosa; apenas alguns murmúrios ecoavam do gabinete ao lado e o tilintar dos dedos nos teclados servia de banda sonora ao final da tarde. O sol, espreitando por entre as persianas, desenhava riscas douradas na secretária repleta de papéis: faturas, contratos, relatórios a papelada de sempre.

Estava eu entretido a organizar tudo em pastas, rabiscando apontamentos no caderno, quando o telemóvel começou a vibrar com insistência. O visor mostrava Mãe. Estranhei: a minha mãe só costuma ligar à noite, já no sofá, depois de jantar. Olhei para o relógio três da tarde. Algo não batia certo.

Atendi de imediato. Ricardo, filho, consegues passar aqui em casa já? disse ela, a voz com um nervosismo contido que me travou a respiração. É mesmo importante!

O meu coração acelerou. Endireitei-me, como se a postura pudesse ajudar nos problemas. Aconteceu alguma coisa? Estás bem?

Estou, estou, não te preocupes. Mas preciso de falar contigo. Urgente.

Hesitei, olhando a pilha de trabalho por fazer. Mas com aquele tom, não havia argumentos. Ok, mãe. Daqui a uma hora estou aí.

Se puderes vir logo a voz dela, subitamente mais baixa, sobressaiu pela inquietação. Há pessoas à espera.

Pessoas? Franzi o sobrolho, intrigado. Que raio se passava? Mas não insisti. Mãe pediu, filho obedece. Acelerei: enfiei os documentos na pasta, peguei no telemóvel e na carteira, vesti o casaco e fui ter com o chefe para justificar a pressa. Expliquei o caso, ele, homem de bom senso, lá acenou e deixou-me sair. Chamei um Bolt, confirmei o endereço dos meus pais em Campo de Ourique, e enquanto esperava ainda liguei de novo só para perguntar se queria que levasse alguma coisa. Nada, Ricardo. Vem depressa.

Na rua, dei por mim quase a correr. A ansiedade e o mistério punham a cabeça a mil. O carro chegou rápido e eu, impaciente, só pensava em acelerar os semáforos da cidade. Lisboa passava pela janela: prédios pombalinos, montras de pastelarias, miúdos a sair da escola, mas só via o filme da preocupação na minha cabeça. O que raio se tinha passado? Alguma coisa no trabalho dela? Um problema de saúde na família? Ou seria a Tia Amália, vizinha e confidente da minha mãe há décadas? Hipóteses dançavam-me na cabeça e nenhuma parecia plausível.

Mal o carro parou na porta do prédio, paguei logo ao motorista vinte euros desta vez e subi os degraus num ápice. Ia tirar a chave quando a porta abriu de rompante.

Finalmente! A minha mãe agarrou-me pelo braço e puxou-me para dentro. Anda, entra.

Do corredor vinha um aroma conhecido de broas-de-mel recém-saídas do forno, receita que ela só fazia para festas ou dias especiais. O cheiro era de conforto, mas não encaixava na pressa do seu convite.

Descalcei-me e segui-a para a sala. Mãe, que se passa? perguntei, entrando.

Fiquei de pedra. Sentados à mesa de linhos brancos estavam a Tia Amália, com aquele sorriso de quem ganhou a lotaria, e ao lado dela… o Pedro filho dela, meu conhecido de infância, que sempre achei mais desajeitado que útil. Tinha um ar atrapalhado, ajeitava a camisa sem saber onde pôr as mãos.

Olá, Ricardo murmurou ele, levantando-se, numa tentativa forçada de parecer à vontade.

Já não te via há anos respondi, mais seco do que queria.

A minha mãe toda efusiva, fazia festinhas na toalha e ajeitava pratos, claramente nervosa. Ricardo, eu e a Amália pensámos Vocês conhecem-se há tanto tempo, são adultos, trabalhadores Talvez pudessem conversar

Olhei para ela de frente. Mãe, interrompi o trabalho, deixei coisas para trás, só para vir a uma conversa de café com o Pedro?

A Amália, sem dar tempo a resposta: O Pedro agora tem bom emprego, casa própria, nunca te contou tudo isto porque é modesto

Nós só queríamos que vocês se conhecessem melhor insistiu a minha mãe, fugindo do meu olhar.

Senti o sangue a ferver. Outra vez aquela mania de juntar-me com bons partidos escolhidos por elas, como se eu não soubesse o que queria da minha vida. Respirei, tentando não ser bruto.

Mãe disse com firmeza agradeço a preocupação. Mas sou eu que decido de quem gosto, e não vou fingir que isto faz sentido para mim.

O Pedro, muito corado, tentou intervir. Ricardo, nem precisas ser assim tão direto. Só queremos conversar, há muitos anos dávamo-nos bem…

Pedro olhei-o sem fugir nunca me sentiste interesse por ti. Nem fingi, nem finjo agora. Ponto final.

Ele baixou os olhos. A minha mãe, atrapalhada, quis remediar. Vá lá, Ricardo, senta-te, vamos falar

Não, mãe. Prefiro dizer tudo já: mais vale sinceridade agora do que fingir. Vim, vi, vou-me embora. Tenho coisas realmente importantes para fazer. Por favor, não tornes a armar estas armadilhas.

Dei-lhe um beijo na testa, agarrei nas coisas e zarpei para a rua. O ar frio da tarde pareceu-me uma bênção depois do sufoco. Caminhei para o Jardim da Estrela, que sempre foi o meu refúgio. As ruas cheias de crianças, velhotas a conversar nos bancos, cães a correr atrás de pombas. O céu limpo, as árvores ainda com restos da chuva da manhã, e eu a calcular o quanto é ridículo tentarem encaixar-me em esquemas de casamenteiras.

O telefone voltou a vibrar. Mãe, claro. Oiço-lhe a voz ressentida: Porque saíste assim? Só quisemos que falassem, sabes como a Amália valoriza a vossa amizade

Mãe, não vou fazer fretes por amizade de mães. Se quiser apresentar alguém, faço-o eu. Prefiro estar só do que metido numa relação por obrigação.

Ao menos conversa! O Pedro é um homem sério, trabalha, não anda à noite, nunca te quis mal.

Eu sei respondi, sentando-me num banco. Mas não é isso que procuro. Não é por parecer bom no papel que serve para mim.

Então quem serve, Ricardo? Vais ficar sozinho? É isso que escolheste?

Prefiro estar sozinho do que mal acompanhado, mãe. O que quero é ser livre para decidir, sem projectos de outros.

O silêncio do lado de lá era sóbrio. Só quero o teu bem, filho. Não quero que fiques velho e sozinho.

Percebo, mãe, mas acredita que sou feliz assim. Amo o que faço, gosto da minha rotina. Confia em mim.

Está bem Desculpa. Prometo não voltar a fazer isto.

Fiquei a ver as nuvens dissiparem-se sobre Lisboa, o sol a retomar força ao fim da tarde e as pessoas nos seus afazeres. Ao ver tantas vidas diferentes, pensei: cada um tem o seu ritmo, o seu caminho, e ninguém devia ser forçado a caber nos moldes de outra geração. Tentei não pensar mais nisto durante os dias seguintes; o trabalho absorvia tudo, os colegas puxavam por mim, o projeto exigia-me milhares de pontos de atenção.

Foi só na sexta-feira, já a semana a cair, quando um colega do meu departamento me enviou mensagem: Ricardo, faço anos no sábado. Junta-te. Vai lá gente fixe, prometo conversa boa e música da melhor. Era tentador; andava em isolamento social faz tempo. Dei por mim a responder que sim.

O jantar foi num café acolhedor em Alcântara, com tijolos visíveis nas paredes, mesas corridas de madeira, cheiro a café torrado e música a meia-luz. O aniversariante, Luís, recebeu-me de braços abertos e apontou para uma mesa junto à janela. Fui ter, de copo de laranja na mão, e sentei-me entre desconhecidos a ouvir piadas e histórias.

De súbito, sentou-se ao meu lado uma rapariga de traços simpáticos cabelo castanho colado atrás, olhos castanhos vivos. Olá, és o Ricardo, não és? Eu sou a Cátia, colega da Joana.

Sou sim. Prazer.

Ela lembrou-se de mim de uma reunião há umas semanas; eu nem sabia que também trabalhava no grupo de análise do Luís. A conversa deslizou sem esforço. Falávamos de projetos, tropeços no escritório, viagens de infância, séries medíocres da RTP Memória, e dei por mim a rir com um à-vontade quente, como já não ria há muito.

A certa altura, propôs irmos apanhar ar para a rua. Estava fresco, Lisboa fazia-se ouvir à distância. Falámos de tudo: da paixão dela pelo Porto (sou suspeita, mas aquela francesinha bate tudo), das caminhadas pela Costa da Caparica, de livros que li recentemente.

Cátia, com um sorriso no canto da boca, partilhou histórias de viagens de mochila, da última a Santiago de Compostela, de como gosta de ver o nascer do sol na praia. Senti que podíamos conversar a noite inteira. Em tom leve, lançou: Qualquer dia combinamos uma escapadela até ao Douro, que dizes?

Apanhado de surpresa, mas de bom humor, alvitrei: Só se for sem programas das mães.

Rimos os dois.

No fim, combinámos café para o dia seguinte. Sem pressas, sem pressões. Enquanto regressei a casa, a minha mãe ligou-me. Então, Ricardo? Está tudo bem?

Com felicidade genuína, respondi: Tudo ótimo. Saí, conheci gente, até acertei café para amanhã. E, sim, mãe, não precisaste escolher ninguém pela tua amiga.

Ela riu-se do outro lado, primeiro meio desconfiada, depois resignada: Está bem, já percebi a lição. Só quero o teu melhor.

E eu o teu, mãe. Mas deixa a vida correr ao seu ritmo. Pode ser?

Olhei Lisboa pela janela. As luzes intermitentes da cidade lembravam-me que cada um de nós tem o seu caminho, que felicidade não se faz por atacado. Só posso ser eu mesmo, seguir o meu passo e confiar que o tempo, como o Tejo, acaba sempre por levar-nos onde precisamos.

Se aprendi alguma coisa hoje, foi isto: o caminho só faz sentido se for traçado por nós. E amar, sim, é mesmo só quando acontecer sem relógios nem roteiros das mães.

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