Contrato de Amor

Contrato de Amor

Constança estava sentada à grande mesa do salão, completamente coberta de revistas de casamento. As páginas passavam rápidas entre os seus dedos, e ela mergulhava nos detalhes de cada fotografia, o olhar a brilhar com as rendas delicadas, os bordados minuciosos, os véus, tão leves que pareciam pairar no ar. Demorava-se nos vestidos brancos, qualquer um deles parecia poder ser aquele, e no peito crescia-lhe um calor ansioso: imaginava-se a caminhar pelo corredor, todos os olhares cravados nela, sentia o nervosismo orgulhoso da família

Que maravilha murmurou, fixa num vestido de saia rodada e alças finas, leve como um segredo de infância. O cetim parecia flutuar sob as luzes do estúdio. Por um momento sonhou acordada, com vontade de fechar os olhos e guardar para si aquele instante.

Mas logo a expressão mudou. Constança suspirou, afastou o catálogo e levantou-se devagar. Frente ao espelho de moldura dourada, fixou o próprio reflexo; virou-se de lado, inclinou levemente o pescoço, a tentar ver-se do ponto de vista de um desconhecido. Não podia esquecer que um sonho de revista raramente encaixava na realidade do corpo.

Não não sou feita para isto. O tom foi decidido, quase de aceitação. Esta figura já não ajuda.

Rodopiou sobre si mesma, medindo o possível efeito de uma saia volumosa. Imaginou-se com um vestido cheio de camadas, justa no busto, depois vacilou. Vai parecer que dobrei de tamanho Não, preciso de outra coisa Não quero um vestido banal! Um casamento não é todos os dias

Passou os dedos nervosamente pelo cabelo, sentindo o pânico miudinho a ganhar-lhe espaço no peito. Tantas ideias, tantos sonhos, nenhum parecia o tal. Voltou o olhar para as revistas espalhadas, como quem espera tirar dali uma epifania salvadora. Nada. Só mais cansaço e confusão.

Preciso mesmo de falar com alguém murmurou, sentando-se à beira da cadeira, mãos crispadas. Antes que perca o juízo com isto tudo.

O silêncio da casa foi interrompido por um estalo seco de porta. Constança sobressaltou-se, o coração bateu-lhe junto à garganta. Quem seria? A esta hora só o pai e o noivo tinham chaves o pai, Américo, deveria estar numa reunião importante; o noivo, Mauro, dissera de manhã que tinha de ir a uma apresentação no escritório.

Travou-se em escuta, a imaginação já lhe servia filmes de assaltos. Normalmente andava no salão de beleza até bem tarde e a casa ficava vazia. Arrepios frios deslizaram-lhe pela nuca.

Moveu-se devagar, pé ante pé. A escada de madeira rangia levemente sob o peso delicado dos seus passos. Espreitou de soslaio para o átrio, escondida atrás da parede, ávida de certezas.

Respirou de alívio. Mauro. Era ele, familiar até ao último gesto, largando os sapatos ao pé do bengaleiro e assobiando baixinho.

Mauro? murmurou Constança, perplexa. Mas não estava numa reunião?

Ficou a observar, sem compreender. Estaria ele a preparar uma surpresa? E agora com quem estava ele a falar?

Calma, Leonor, falta pouco a voz de Mauro soava estranhamente macia, cúmplice, como nunca lhe falara antes. Já cumpri quase tudo do acordo, e em breve vamos poder estar juntos.

O chão fugiu-lhe. Constança apertou os punhos, unhas na carne, forçando-se a silenciar qualquer som. Que acordo? E quem era aquela Leonor?

Quanto tempo ainda vais esperar? Só mais seis meses continuava Mauro, num tom quase impessoal. Agora vem o casamento, mais uns meses de casados, faço o papel, depois recebo o resto, e pronto Uma ponta de desdém rachou-lhe a voz, como se falasse de algo que o enojava.

Constança fechou os olhos, obrigada a engolir aquela verdade como um veneno. Casamento o deles não era amor, era um contrato.

O que vai fazer o senhor Américo depois, pouco importa Mauro soava aliviado, como alguém que deita um fardo fora. Mal caia o dinheiro, junto as minhas coisas e desapareço daqui ao som dos euros a cair na conta.

Aquelas palavras bateram fundo. Constança cambaleou, agarrando-se ao batente da porta. Mentira. Tudo mentira!

Recuou, quase sem respirar, tentando não fazer barulho. Uma só certeza atravessava-lhe a mente: o pai estava envolvido. Um acordo. Uma recompensa. Um plano de meio ano. O quadro pintava-se cada vez mais negro, e apeteceu-lhe gritar mas ficou muda.

Mesmo assim, ficou a escutar precisava de mais respostas.

Mauro sentou-se à vontade, distraído, convencido de estar sozinho. Não escolhia palavras.

Não te afligas tanto, Leonor! dizia com falso carinho. Faço isto por ti! Então, não queres um apartamento no centro de Lisboa, roupas caras, jóias? Pausa. Vês? Nunca poderia pagar isso sendo secretário. Mas agora seis meses e ficamos juntos, prometo.

Enganas-te, vão ficar juntos mais cedo do que imaginas desabafou Constança, descendo a escada devagar, cada degrau uma luta consigo mesma. As pernas tremiam, mas não se rendeu à fraqueza.

Mauro virou-se sobressaltado. O sorriso desapareceu; os olhos, arregalados de pânico. O telemóvel caiu-lhe dos dedos, soando surdo no chão.

Conchinha? arfou, erguendo-se do sofá, atarantado. O que estás a dizer, amor?

Foi para ela, a mão estendida, como se quisesse acalmá-la. Mas Constança recuou, o queixo erguido.

Conchinha repetiu ela, quase sem voz. Mas naquele murmúrio vivia toda a mágoa engolida. Achas que sou surda? Ouves-te aquilo que acabaste de dizer?

Parou diante dele, inteira de pé, embora por dentro fosse só cacos. Fitou-o de frente procurava remorso, só achou desordem e desespero.

Leonor conheço-a? Não era a tua irmã? O tom dela gélido, controlado, como uma lâmina.

Mauro ficou lívido. Apanhou o telemóvel, dedos a tremer. Mentalmente tentava desesperadamente uma saída, um álibi, salvar o dinheiro prometido.

Estás confusa gaguejou, esforçando-se por manter um sorriso. Que Leonor? Não percebo.

Aproximou-se, mas ela estacou.

Sabes muito bem enunciou Constança, e a sua boca formou um sorriso amargo, tão triste que Mauro desviou o olhar. Ouviste-te bem? Estas palavras, ditas à outra Faz-me nojo ouvir.

Tragou em seco, a tentar dominar o tremor na voz. Não iria mostrar o quanto estava destruída. Todos aqueles sonhos, todo o carinho, revelaram-se mentira e ela tinha sido só uma figurante na farsa.

Mauro calou-se. Já não podia fugir fez-se refém do próprio cinismo. Ainda desejou, vãmente, um truque que revertesse aquela situação.

Podes ter a certeza: casamento não haverá disse Constança, com uma certeza glacial que cortou Mauro por dentro. Mas antes de te mandar embora, exijo a verdade. Toda. Sem rodeios.

Não tremeu, embora por dentro ardesse de dor. Cruzou os braços, como quem erige uma defesa final. Nos olhos não lhe nasciam lágrimas, só restava uma determinação dura de quem perdeu a última esperança.

Verdade? O sorriso dele tornou-se algo feio, desnecessário mascarar sentimentos agora. Queres mesmo saber? Pois bem. Se o teu pai não tivesse metido dinheiro nisto, nunca te olhava duas vezes. Faço o papel do noivo apaixonado, ganho uns bons milhares de euros, vida descansada, e ainda te faço um favor

Falou como se descrevesse uma ida ao supermercado monótono, indiferente, mas cada sílaba cravava-se em Constança, a apagar o que restava da ilusão.

Tudo pelo dinheiro? sussurrou ela. O seu universo enregelava à medida que as palavras saíam.

Achas que alguém se apaixonava pela tua cara? Mauro riu-se, um riso frio cruel. Já olhaste bem ao espelho, Constança? Devias tentar ver-te como és.

Foi como se lhe atirassem ácido ao peito. Constança sentiu as lágrimas a queimar-lhe os olhos, mas não as deixou tombar. Apertou as mãos com força, determinada a não ceder enquanto ele estivesse ali.

Durante segundos fitaram-se em silêncio o mundo escureceu à volta dela. Todas as conversas, os passeios, os risos: representações por dinheiro, nada mais.

Vai-te embora! a voz nasceu firme e alta surpreendendo até a ela própria. As tuas coisas mando por estafeta. Sai da minha casa.

Mauro lançou-lhe um último olhar avaliador, quase cruel, querendo gravar-lhe aquela imagem de mulher perdida, olhos vermelhos, boca trémula. Depois virou costas, pegou no casaco devagar, quase teatral, aliás até dava a entender que não se arrependia, nem temia nada. Ouviu-se a fechadura a bater.

Ao sair, Mauro sentiu um frio brutal. Preocupações rodopiavam-lhe na mente como enfrentar Américo agora? Sabia bem que o pai de Constança era duro, implacável, movia céus e terra pela filha, não perdoava traições. Plano estúpido, pensou, descendo as escadas mas a lembrança dos euros na conta acalmava-o.

Ao menos, fiz por onde rosnou, ao chegar à rua. Só espero que não me peçam o dinheiro de volta. Trabalhei para ganhá-lo!

Do lado de dentro, Constança, de mãos a tremer, marcou o número do pai. Errou uma, duas vezes mas acabou por conseguir.

Pai! a voz saiu-lhe em grito, assim que ouviu Américo do outro lado. Como pudeste?! Como foste capaz de me fazer isto?

Não queria ouvir desculpas, nem explicações. As palavras atiravam-se, cruas e dolorosas:

Foste tu que arranjaste tudo! Pagaste-lhe, obrigaste-o a fingir-se meu noivo! Nem perguntaste o que eu queria! Decidiste sozinho!

Disparava acusações, empurrando para fora tudo o que doía há meses: mágoas, raiva, sentimentos de abandono.

Nunca mais. Nunca mais te atrevas a mandar na minha vida. Percebeste?! Nunca mais!

Desligou abruptamente, atirou o telemóvel para o sofá e chorou sem reservas, rosto oculto nas mãos, os ombros a tremer. Naquele momento era de novo uma menina indefesa, ferida, sozinha.

Não chorava só por Mauro. Anos de inseguranças, medos e dúvidas caíram-lhe em cima como uma noite sem fim. Sempre se achou feia aos olhos do mundo: parada diante do espelho, via apenas defeitos. Se tivesse a cintura mais fina Se fosse mais elegante Sonhos de adolescentes, sempre frustrados contra o vidro duro da realidade.

Muitas vezes pensou em cirurgia plástica. Mas desistia ao lembrar-se da mãe.

A mãe ou Isabela, como sempre fez questão de ser chamada, até nas coisas banais. Um nome musical e sofisticado, que guardava como símbolo da beleza perdida. Em jovem, Isabela era deslumbrante, com traços perfeitos, cabelos fartos, uma pose natural que atraía todos os olhares.

Mas tudo mudou no dia em que confiou o rosto a um cirurgião genial, muito elogiado pelas amigas. Queria só alinhar o nariz, um retoque. Mas o médico falhou, e as sequelas foram irreversíveis. Recuperar tornou-se um pesadelo; gastou fortunas e esperança, foi só piorando.

Pouco a pouco, desistiu: deixou de sair, exilou-se sob chapéus largos e óculos escuros. A depressão trancou-a em casa, os dias todos iguais, as noites, só sombras e arrependimentos.

Acabou por desaparecer. Sem explicação, sem despedidas. Só um bilhete ao pai de Constança: Não aguento mais. Perdoa. Nunca mais se ouviu falar dela.

Constança cresceu olhando as fotos da mãe outrora radiante, um sorriso que transbordava vida e afeto. Mas sentia sempre o peso de não se parecer com aquela mulher idealizada A mãe tinha as maçãs do rosto perfeitas, eu só umas bochechas redondas; o cabelo dela era um manto, o meu é sempre rebelde Buscava imperfeições que ninguém mais via. Dizia-se feia, mesmo sendo chamada de querida; sentia-se só uma sombra daquela Isabela lendária.

Essa insegurança contaminou tudo na escola, evitava toda a atenção; na faculdade, fugia de apresentações, não tolerava ser o centro das atenções. Em namoro, era ainda pior: poucos rapazes se acercavam, desinteressavam-se num instante, e ela atribuía tudo à aparência.

Se ao menos fosse bonita repetia sempre, sem notar que era a sua baixa autoestima que mais afastava os outros.

E depois apareceu Mauro. Trouxe-lhe luz, como ninguém antes. Viu-a, de verdade, elogiou-lhe a risada, a forma de ouvir, encheu-a de noites em cafés, flores sem razão, lembranças de pequenas promessas. Sentia-se, ao lado dele, não uma substituta incerta da mãe, mas alguém suficiente, desejada, quase amada. Permitiu-se crer que merecia felicidade. Com ele, os dias ganharam cor e significado. Pensou: É isto. É real.

Agora, tudo ruíra. As verdades de Mauro apagaram-lhe a última esperança nunca a amou. Fingiu. Tudo mentira, por dinheiro e estratégia do pai.

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Constança agora olhava-se ao espelho da loja de vestidos; no peito sentia uma tranquilidade desconhecida. O tecido branco desenhava-lhe o corpo, os acabamentos de renda devolviam à luz uma beleza serena. Não procurava defeitos, não criticava cada curva. Aceitava-se intacta e inteira, como era.

Dentro de pouco tempo, percorria a nave do salão onde os convidados a aguardavam. Caminhava ereta, a cabeça alta, nos olhos uma segurança calma. Não vinha envolta numa névoa romântica, mas no brilho sossegado de quem faz uma escolha consciente. Sentia os olhares pousados, escutava sussurros e elogios e não se incomodava. A sua mente, no entanto, regressava à conversa de há meses com o pai.

Pai, aceitei o pedido do Tomás dissera-lhe, fitando-o sem medo.

Américo quase deixou cair a chávena, surpreso com tanta determinação.

Filha, tens mesmo a certeza? É um compromisso sério.

Tenho, pai. Não vou ficar à espera de um amor impossível. Quero respeito, quero uma família normal. O Tomás pode dar-me isso.

Mas amor?

O amor é bonito, sim. Mas estou cansada de esperar milagres. Quero construir a minha vida com as minhas escolhas.

Agora, a poucos passos do noivo, repetia essas palavras consigo mesma. Tomás aguardava à porta da igreja, ansioso mas confiado. O olhar dele não tinha paixão de novela, mas trazia respeito e carinho algo que ela agora sabia ser valioso.

Quando a conservadora proferiu as palavras do costume, Constança pensou: não se arrepende. Não é conto de fadas é uma aposta no futuro, madura, sensata.

Talvez ele nunca me ame com loucura pensou, encarando Tomás com um sorriso sincero mas vai respeitar-me. Talvez um dia nos nasça um amor diferente, mais profundo.

Essa esperança dava-lhe força. Sorriu-lhe como nunca, sentindo, finalmente, que acertava o passo. O amor assume várias formas. Por vezes, a verdadeira história não começa com paixão incendiária, mas com chão firme, prontas para, juntas, construírem tudo de novo.

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