Duas Destinos – Entrelaçados pelo Fado

Atrás do vidro da caixa do supermercado, a vida fervilhava de forma própria, isolada. Para Leonor, aquele pequeno retângulo formado pela registadora, a balança e o leitor de códigos era, ao mesmo tempo, a sua prisão e o seu refúgio. Prisão, porque cada dia era idêntico ao anterior o mesmo bip do scanner, os mesmos sorrisos forçados, os mesmos sacos de compras a serem embalados. Refúgio, porque fora daquelas portas, na sua casa, começava o verdadeiro inferno, com um nome muito concreto: Gonçalo.

Ó menina, demora muito? Não vim para cá passar a noite, resmungou um homem barrigudo, com o carrinho cheio até cima.

Já está, disparou Leonor, sem levantar os olhos do leitor de códigos. A rudeza tornara-se a sua única defesa.

Odiava aquele emprego. Odiava as filas, os olhares impacientes, o cheiro a enchidos baratos misturado com lixívia. Mas era este trabalho que lhe permitia juntar uns trocos, que depois escondia atrás do rodapé da cozinha. Era o seu meio de fuga.

A fila avançava. Leonor funcionava como uma máquina: «Bom dia, vai querer saco? São dois euros e trinta cêntimos. Obrigada, boa tarde». E então o ritmo quebrou. Bastou um olhar.

Ele estava em quarto lugar na fila. Alto, magro, de jeans e casaco azul-escuro. Tinha o cabelo cortado curto, uma barba por fazer e uns olhos diferentes. Não demonstravam irritação nem cansaço, mas sim uma tristeza profunda, calada, como quem já viu o fundo do poço. Leonor reconheceu-o de imediato como se reconhece uma alma gémea numa multidão estranha.

Quando chegou a sua vez, Leonor sentiu a voz fraquejar.

Boa tarde, disse, mais doce do que queria.

Boa noite, respondeu ele, grave, calmo, voz rouca.

Colocou na passadeira apenas o essencial: uma garrafa de água, um pacote de arroz, um litro de leite. O típico cabaz de quem mora sozinho ou de quem já não se importa com o que come. Leonor reparou num anel largo de aço no dedo direito não era aliança. Estranho, pensou ela, mas não mostrou reação.

São quatro euros e oitenta, anunciou.

Ele deu-lhe uma nota e, por um instante, as pontas dos dedos tocaram-se. Da mão dele vinha um calor seco. Leonor afastou a sua rapidamente, como se se queimasse. Sentiu um sobressalto perigoso, proibido.

Fique com o troco, ele disse, sorrindo apenas com o canto da boca.

Como quiser, respondeu ela, sem conseguir evitar olhar para trás quando ele saiu.

A loja pareceu mais escura de repente. Leonor abanou a cabeça, forçando-se a regressar à realidade. Gonçalo. Tinha de pensar em Gonçalo. Em como, logo à noite, teria de esquivar-se de mais uma bofetada, de ouvir as acusações de ingrata, de inútil. Mas aquele estranho não lhe saía do pensamento.

Ele tornou-se presença frequente. Às vezes todos os dias. Outras, só de vez em quando e nesses dias, tudo parecia mais cinzento.

Leonor acabou por ouvir que se chamava Tiago. Uma vizinha, Dona Rosa, acenou-lhe um dia: Tiaguinho, está bom, filho? Tiago nome simples, forte. Estava-lhe bem.

Cada vinda dele era quase um pequeno teatro. Leonor esforçava-se por manter pose profissional, mas sempre ajeitava o cabelo ou esticava o avental. E ele olhava-a não como se olha para uma empregada, mas como se olha para alguém. Um dia, ao pagar, perguntou-lhe baixinho:

O dia tem sido duro?

A pergunta apanhou-a de surpresa. Nenhum cliente, em anos, lhe perguntara como estava realmente.

Não é o costume, respondeu, lutando por não se desfazer ali, mesmo sentindo um nó apertado na garganta. Queria tanto dizer Os meus dias são todos difíceis. À noite, posso voltar a sair daqui com um lábio rebentado. Mas limitou-se a sorrir, falso.

Tiago não insistiu. Apenas acenou e partiu.

Nessa noite, Gonçalo estava especialmente agressivo. Tinha-se embebedado com malta duvidosa, deixado pontas de cigarro e garrafas vazias por toda a casa. Leonor, ao entrar, quase não se atreveu a respirar.

Já chegaste? rosnou ele, mal levantando os olhos. Três turnos por dia e a casa um chiqueiro. Nem pão há para jantar.

Ficou em silêncio era a sua melhor defesa. Quando não respondia, ele por vezes desistia mais depressa.

Então, estás muda, é? Estou a falar contigo! levantou-se, vacilando, bloqueando-lhe o caminho. Não tens respeito nenhum.

Ela tentou escapulir-se, mas ele agarrou-a com força pelo braço. Os dedos deixaram-lhe marcas profundas.

Larga-me, Gonçalo, pediu em voz baixa.

Ou fazes o quê? Forçou-lhe a cara junto à dele, exalando álcool. Sem mim, não és nada. Percebeste? Nada!

Ela arrancou-se à força e trancou-se na casa de banho. Ligou a água ao máximo, tentando abafar os gritos e murros na porta. Sentada na borda da banheira, viu as mãos sem marcas de sangue, mas a alma a alma parecia sempre marcada.

De manhã, via-se uma nódoa negra enorme no cotovelo. Vestiu uma camisola de manga comprida, mesmo sabendo que a loja era abafada.

Durante o turno, enquanto debitava produtos na caixa, viu Tiago. O coração estremeceu de alegria que logo deu lugar ao medo: e se ele reparava nos seus movimentos presos? E se descobria?

Não preciso de saco, disse ele, passando-lhe o cartão. No momento, a manga subiu-se-lhe um pouco e Tiago viu a ponta escura da nódoa.

Os olhos mudaram. A tristeza deu lugar a algo frio, cortante, perigoso. Olhou-a fundo. Não era pena que via ali. Era raiva. Raiva gelada, que soube mascarar num instante.

Obrigado, só disse isso, e saiu.

Leonor sentiu um arrepio. Não teve medo de Gonçalo, mas daquele olhar. Aquilo nela gelou-lhe o sangue.

Nessa noite, depois de fechar a loja, Leonor atravessa o jardim. Tiago está à espera, junto ao portão.

Leonor, preciso falar contigo, pediu, mas nem parecia um pedido; falava com firmeza calma.

O que queres? perguntou ela, desconfiada, nunca o tendo visto fora da loja. Às luzes do jardim, ele parecia ainda mais estranho, ainda menos acessível.

Só te acompanho até casa, explicou, como se fosse o mais natural.

Não é preciso, moro já ali, tentou recusar, mas ele caminhou a seu lado.

Eu sei. Sei onde moras, sei o nome do teu marido. E sei que ele te bate.

Leonor parou, o coração aos pulos descontrolados.

Eu vou ajudar-te.

Não preciso de ajuda! quase gritou, mas a voz falhou-lhe. Não sabes nada! Vai-te embora!

Enganas-te respondeu. Porque eu já fui como tu. Já vivi isso.

Aquelas palavras desarmaram-na. Olhou para ele. Só via verdade. E a mesma dor intensa que lhe tinha lido nos olhos da primeira vez.

O meu padrasto matou a minha mãe, conta Tiago, como se recitasse de cor, sem emoção. Eu tinha doze anos. Fiquei parado no corredor, a ouvi-la gritar. Depois ele saiu, limpou as mãos, e disse: “Faz-me um arroz.” Eu nada fiz. Era miúdo, fraco, assustado. Fiz-lhe o arroz.

Leonor escutava, sem conseguir mexer-se. O ar, à volta, parecia mais pesado.

Desde esse dia, jurei a mim mesmo, continuou, encarando-a. Se alguma vez pudesse impedir, impediria. Nunca deixaria passar. Não tens culpa, Leonor. Mas isto não é só teu. Agora, se quiseres, é nosso.

Ela viu ali não só um homem, mas um miúdo ferido, que sempre viveu com esse pesadelo. O anel de aço no dedo era a lembrança da promessa.

E o anel? perguntou baixinho.

É do meu padrasto, respondeu, duro. Tirei-lho quando o levaram preso. Para nunca esquecer o que são as pessoas. Para saber que o silêncio mata.

Leonor desfez-se numa lágrima. Não sabia se chorava de medo, pena, ou pela súbita certeza de que não estava sozinha.

Vamos, disse Tiago, mão estendida. Só te acompanho até à porta. Não entro se não quiseres. Mas hoje não chegas a casa sozinha.

Foram juntos até ao prédio. Leonor estranha-se, tremendo, mas sente um calor interior inesperado. Junto à porta, olha-o nos olhos.

Obrigada, murmura.

Vou ficar aqui, diz ele. Todas as noites. Se ele te tocar, grita. Só grita por mim. Eu vou ouvir.

Leonor entra. Gonçalo está sóbrio, mais odioso ainda; sentado, a ver bola.

Onde andaste? resmunga, sem olhar.

Estive a trabalhar, responde Leonor. E, pela primeira vez em muito tempo, vai até à cozinha sem pedir licença.

Ele olha espantado, mas não diz nada.

Assim começou a sua guerra e amizade secreta. Tiago esperava-a todas as noites. Falavam pouco, um silêncio eloquente. Às vezes, ele comprava-lhe chá quente no quiosque do jardim e ficavam ali sentados, olhando as luzes fracas da janela dela. Leonor partilhava sonhos pequenos ir-se embora, começar de novo, abrir uma pastelaria minúscula. Tiago ouvia, gravava na memória, concordava.

Vais conseguir, dizia-lhe.

E tu, Tiago? perguntou-lhe uma noite. Tens alguém?

Ele abanou a cabeça.

Já não deixo ninguém aproximar-se. Tenho medo de não conseguir proteger. Mais uma vez.

A tempestade chegou num sábado. Gonçalo, que notava a rebeldia subtil de Leonor, descobriu o esconderijo: vinte mil euros, poupados com esforço. Estava sentado na cozinha, abanando as notas.

Quando Leonor viu aquilo, quase caiu.

Isto? sibilou ele. Estavas a juntar para fugir?

Dá-me isso, pediu ela, sentindo desespero.

Meu? gritou ele. Tu és minha mulher! O que é teu é meu! Anda cá, anda!

Agarrou-a pelos cabelos e arrastou-a. Leonor gritou, mas saiu-lhe um som abafado. Depois recordou: Grita alto. E gritou. Com todas as forças, desesperada:

Socorro! Tiago!

Gonçalo, apanhado de surpresa, parou. Um instante depois, ouviram violentos murros na porta.

Porta frágil, arrombou ao terceiro embate. Tiago entrou, com o anel de aço apertado nos dedos.

Gonçalo largou Leonor e atirou-se a Tiago. Era maior, mas Tiago foi rápido, metódico, letal. Vários golpes, até Gonçalo cair, babando-se de raiva e dor.

Mais uma vez, encostas-lhe um dedo e eu acabo contigo, disse Tiago secamente, debruçado sobre Gonçalo. Juro pela minha mãe, não hesito.

Leonor estava encostada à parede, a tremer. Tiago olhou-a e falou-lhe calmo, embora os olhos lhe ardessem.

Anda, pediu, estendendo-lhe a mão. Leva o essencial. O resto, compramos depois.

Ela foi. De robe, descalça, banhada em lágrimas, mas livre.

Ficaram juntos. O apartamento de Tiago era simples, limpo. Não havia quase nada além de livros de psicologia, um saco de boxe encostado à parede, e a fotografia de uma mulher de meia-idade.

É a minha mãe, explicou Tiago ao ver o olhar dela.

Leonor não perguntou mais nada. Só recomeçou a viver: aprender a dormir sem medo, acordar sem terror. Tiago era terno, mas manteve distância. Dormia no sofá, deixava-lhe o quarto. Cozinhava-lhe o pequeno-almoço, acompanhava-a à loja e ia buscá-la ao fim da tarde.

Certo dia, encontrou numa gaveta uma carta antiga, escrita com letra de criança:

«Mãe, desculpa não te ter protegido. Quando crescer, serei forte. Vou proteger todos os que são fracos. Nunca vou deixar os maus fazerem mal aos bons. O teu filho, Tiago.»

Leonor chorou. Percebeu que vivia agora com alguém cuja alma sangrava em silêncio há anos, mas transformara a dor numa armadura para os outros.

Casaram-se meio ano depois, quando se formalizou o divórcio. Gonçalo nem apareceu ao tribunal. O casamento foi discreto: assinatura, um café com Dona Rosa e duas colegas da loja.

No dia seguinte, foram ao cemitério da mãe de Tiago. Ele tirou o anel de aço e deixou-o junto à lápide.

Cumpri a promessa, mãe, murmurou. Aprendi a proteger. E aprendi a amar.

Leonor ficou ao lado dele, com um ramo de flores silvestres. O sol atravessava as copas dos sobreiros, desenhando manchas douradas na relva.

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